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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

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Carta à Berta: As Aventuras de um Vagabundo no Hospital Egas Moniz em Tempos de Covid - Parte IV / VII - Os 3 Mosqueteiros - Quim

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Olá Berta,

A saga sobre As Aventuras de um Vagabundo no Hospital Egas Moniz, continua hoje com esta quarta parte e com o segundo dos mosqueteiros. Conforme já te informei os meus dias de internamento foram passados na companhia destes 3 estranhos. Todos eles, sem exceção com experiências de vida em nada comparáveis com a minha. Graças à pandemia, e às contingências que ela gerou, quis o destino que a última enfermaria da Cirurgia Geral do Hospital Egas Moniz fosse ocupada pelos elementos que me encontro a descrever. Em circunstâncias normais, e sem Covid-19, provavelmente, nunca nos teríamos conhecido. Porém, a vida tem esta maneira engraçada de ser moldada por uma mão invisível, contra a qual nada podemos fazer. Há quem lhe chame destino, todavia, eu prefiro apelidá-la de livre arbítrio ou, simplesmente, de acaso.

Ora, quis o acaso que este segundo mosqueteiro se cruzasse comigo, algures pelo caminho, na autoestrada do livre arbítrio. Mais uma vez, o que não deixa de ser uma coincidência estranha, não no Egas Moniz onde eu o vi pela primeira vez. Na verdade, foi sentado na ambulância, ao meu lado, antes de me recusar a ser transportado, sentado e cheio de dores, entre o Hospital São Francisco Xavier e o Hospital Egas Moniz que nos encontrámos pela primeira vez, mas não a última vez. Na altura estava bem longe de adivinhar que seriamos parceiros de quarto. Assim:

2) Quim:

A) Quando o conheci, o Quim era um homem franzino, que já ultrapassara a primeira metade dos seus 40 anos, mas que, devido aos seus vários problemas, mais parecia estar por meados dos cinquenta anos, talvez 55. Aliás o número 5 tinha tudo a ver com ele. Era o paciente 525, pesava 55 quilogramas, aparentava os tais 55, mas deveria ter cerca de 45. O cabelo era curto, denso, sem cinzentos, com tons negros entre o carvão e a antracite.  O rosto marcado por uma quantidade de rugas precoces tornavam-no mais sénior e um tom pálido na pele refletia os efeitos dos seus variados e muito destintos padecimentos.

B) Entre as suas maleitas estava o atual uso de um saco externo a fazer o papel dos intestinos. Nunca lhe perguntei o que lhe acontecera, não por qualquer receio de ouvir fosse que resposta fosse, mas porque ele me parecia adaptado à sua nova realidade e em paz com o assunto. Antes de ser hospitalizado o meu amigo estava a tratar dos dentes, os quais se tinham deteriorado ao ponto de começarem a partir e a apodrecer, tudo em pouco mais de um ano, principalmente os dentes da frente, no maxilar superior. Também, para além disso, este personagem único, tinha graves problemas de coração.

C) Este cavalheiro, relativamente baixo, entre um metro e 68 centímetros e um metro e 70, agora exageradamente magro, depois de ter perdido perto dos 10 quilogramas nos últimos meses, e um pouco mais nos que se antecederam a esses, era um verdadeiro homem de charme. Nem as rugas, a falta de peso, os dentes em mau estado, para além de uma certa fraqueza gerada pelo seu processo clínico, o faziam perder esse elã tão característico.  

D) As encarregadas da limpeza, as auxiliares de enfermagem, as enfermeiras e até as 3 médicas estagiárias pareciam rondar-lhe o leito com uma frequência que não se via com mais nenhum paciente do quinto piso. Provavelmente mais de metade dos casos seriam felizes coincidências, mas que ele parecia atrair o sexo oposto, como o pólen faz com as abelhas, disso não havia qualquer dúvida. Em resposta às observações do facto, por nós os 3, ele limitava-se a rir para dentro, apenas sorrindo, e dizendo que era só impressão nossa.

E) O Quim tinha outra caraterística única. Se algum dia alguém, em Portugal, puder vir a ser o protótipo ou o exemplo supremo do “desenrascado” e do “biscateiro” então, este homem, é certamente o candidato luso com maiores possibilidades de ganhar ambos os títulos. Um verdadeiro “self-made man”, um artista na arte da resolução de todos e quaisquer problemas do dia-a-dia e, no que diz respeito à profissão, pintor da construção civil.

F) Ele resolve problemas de eletricidade, arranja eletrodomésticos e motores de carros, trata de canalizações, de burocracia, até de situações fiscais ou legais, enfim, seja do que for, sem problema algum. Atenção, pode não ser ele a resolvê-los todos, mas tem sempre um bom amigo, que nem é caro, que pode tratar daqueles imbróglios em que ele não se sente à vontade.

G) Este mosqueteiro foi o segundo a sair, tal como acontecera com o Jacinto, a alta era apenas hospitalar, teria de continuar os tratamentos em casa, mantendo a baixa médica com que fora hospitalizado. Quando saiu levava consigo medicamentos para mais de um mês, um pijama novinho em folha do hospital, uma considerável coleção de máscaras cirúrgicas, e mais um cem número de itens que todas as simpáticas funcionárias hospitalares lhe foram entregando ao longo da sua estadia.

H) Já assim era com a comida, para os que podiam comer, se os outros tinham um sumo, ele tinha 2, se era um pão por paciente, para o lanche ou pequeno almoço, no tabuleiro dele apareciam 2, e a lista podia continuar assim, sem fim e sem qualquer razão aparente que não fosse o seu magnetismo tão estranho quanto único. Contudo, não era egoísta e se um de nós precisava de algo ele lá o fazia aparecer, fosse o que fosse, nunca falhou com nenhum de nós.

I) Depois da sua saída, mantivemos o contacto, tinha-se gerado uma amizade, numa altura muito especial, num tempo em que estranhos nunca se deveriam ter conhecido. Foi com surpresa que soube, cerca de uma semana depois do seu regresso a casa que, com efeito, segundo as suas palavras, iria de ter de viver com o saco que lhe servia de intestinos pelo menos até final de 2020, altura em que os médicos esperavam que o seu verdadeiro intestino já conseguisse voltar a fazer o seu papel novamente. Para meu espanto a ideia não lhe tirara o bom humor, nem aquela sua maneira exclusiva de ver o mundo. Se era para aguentar, ele aguentaria. Quando desliguei, a sorrir, porque ele me informou ter de terminar a conversa, pois estava a pintar uma casa de um vizinho, um pequeno biscate que acabara de arranjar, enquanto se mantinha de baixa, tive que limpar a lágrima que se formava no canto do meu olho direito. Coitado do rapaz, mais quase 9 meses de saco ao lado da barriga. Que injustiça.

Minha querida amiga, por hoje é tudo. Amanhã falaremos do terceiro mosqueteiro, o Libânio, recebe um beijo fofo e carinhoso deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

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