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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: As Aventuras de um Vagabundo no Hospital Egas Moniz em Tempos de Covid - Parte I / VII - Introito

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Olá Berta,

Não sei se terás paciência para leres As Aventuras de um Vagabundo no Hospital Egas Moniz. É uma história que dividi em 7 cartas para não ser uma coisa chata e que conta alguns dos aspetos mais interessantes desta minha última passagem por um local que respeito bastante, embora deteste hospitais.

Quer isto dizer que se tivesse de escolher algum hospital no universo do meu conhecimento para ter de passar os 12 dias que passei internado escolheria sempre este. No geral gosto do pessoal que lá trabalha, desde os médicos até às senhoras da limpeza. Porém, antes de partir para o Egas Moniz, no dia 4 de abril, passei a minha primeira noite, numa maca, nas Urgências do Hospital São Francisco Xavier.

Para quem odeia ambientes hospitalares, como eu, não sei se desde o tempo em que, enquanto criança, o meu pai era o diretor do Hospital de Olhão, no Algarve, há muitos anos transformado em Centro de Saúde e extinto enquanto unidade hospitalar, ou se do tempo em que acordei de um coma, após a tropa, no ex-anexo militar de Campolide, que, na altura, fazia parte integrante do Hospital Militar da Estrela, onde passei mais 6 meses internado na Clínica de Neuropsiquiatria, no terceiro piso da instituição, confinado, num espaço gradeado, e sujeito à companhia dos casos mais críticos da guerra colonial… pois o tempo dilui as perceções.

Não sei, dizia eu, de qual destas situações vem o meu ódio hospitalar, mas sei, que as urgências do São Francisco Xavier são as mais aceitáveis, que conheço, até à presente data, principalmente se comparadas ao Hospital Amadora-Sintra, um local de causar arrepios e fazer crescer a barba a meninas de 7 anos.

Quis o destino que a minha maca ficasse estacionada bem perto das secretárias das enfermeiras, logo na entrada da sala das macas. A minha chegada fora registada pelos Bombeiros do Beato que, no caminho, tinham gentilmente, feito a minha ficha detalhadamente. Recebera a coleira amarela, quero dizer pulseira (a confusão prende-se com a ideia do cão que ferozmente me abocanhava a zona da barriga, onde se situa a vesícula). A localização era excelente. Do meu leito dominava toda a sala das macas, com vista privilegiada.

O espaço estava à cunha e, no entanto, ainda lá conseguiram enfiar, naquele dia, mais 3 camas móveis. Fiquei a saber que estava num Hospital, na altura considerado Covid positivo, por ter uma ala de casos confirmados com o Coronavírus. Embora cheio de dores (não entendo como é que uma vesícula pode doer tanto) constatei que foram muito eficazes comigo. Por ordem temporal: soro, médico, diagnóstico primário, análises, ecografia, diagnóstico final, teste ao Coronavírus. Dia seguinte: médico, resultado negativo de teste, ordem de transferência para o Hospital Egas Moniz, transferência atribulada (já te conto, minha amiga), entrada no segundo hospital, nova coleira, piso 5, Cirurgia Geral, cama 527, quarto de 4 pacientes, continuação de dieta zero, cama de canto.

Pelas 10 da manhã chegaram os bombeiros para me transferirem de hospital, infelizmente, acabei por não ir, depois de já estar dentro da ambulância. Perguntarás porquê, amiga Berta, bem… porque me queriam levar sentado pois tinham 4 pessoas para levar de um hospital para o outro e avaliaram, a olho, que eu aguentava a viagem. Eu, que só estabilizava a dor, na altura, em posição fetal, recusei fazer o percurso. Quando fui descoberto no corredor de saída das ambulâncias pelo meu médico, todo enrolado e cheio de dores, foram mandados embora e não voltaram mais para me vir buscar.

Às 4 da tarde o meu médico voltou-me a descobrir numa sala de espera qualquer, enrolado, mais uma vez, e cheio de dores. Fez um pé de vento. Finalmente, às 5 e meia da tarde dei entrada no Egas Moniz. Assim termino este primeiro de 7 capítulos da minha estadia hospitalar em tempo de Covid. Recebe, deste teu amigo um beijo virtual,

Gil Saraiva

 

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