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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

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Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato II - Costa e BB - O Telefonema"

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Olá Berta,

Eu já sabia que a minha querida amiga ia dizer que eu punha os nossos governantes a falar de um modo muito vulgar nas reuniões. Não te esqueças que eu já fiz parte de uma direção distrital do Partido Socialista, ainda por cima enquanto elemento da Comissão Executiva de uma Federação Regional. Também sei que já passaram um pouco mais de 2 décadas, mas o vocabulário não mudou. Não foi o facto de eu ter saído dessas lides que alterou fosse o que fosse na linguagem utilizada pela maioria dos dirigentes entre portas.

Para facilitar as coisas vou apresentar a chamada para o Reino Unido no nosso português coloquial em vez do inglês brejeiro em que a mesma decorreu. A tradução facilita o entendimento de quem lê. Mas vamos ao que mais interessa, ou seja a nossa peça:

“Segundo Ato: Costa e BB – O Telefonema (leia-se Bi Bi de Boris Brexit)

Enquanto Augusto Santos Silva rabiscava num papel o novo número pessoal de Boris Johnson, acabadinho de ser arranjado por intermédio do embaixador britânico em Portugal, António, alinhava numa folha A4 as ideias base para a conversa. A meia hora seguinte serviu para todos darem sugestões sobre quais deveriam ser os assuntos discutidos e sobre a ordem em que os mesmos poderiam ir sendo apresentados. Era necessário pressionar seriamente o Primeiro-Ministro britânico, sem o chatear.

Por fim Costa passou a limpo os tópicos e sentiu-se preparado para avançar para a chamada.

       - Olá Boris, daqui é Costa… António Costa… Primeiro-Ministro de Portugal. Sim, sim, esse mesmo, o velho aliado a quem vocês fodem sempre que podem... — explicava Costa no decorrer da troca de piadas iniciais entre governantes.

       - Não é bem assim amigo Costa. Digamos que o Reino nem sempre pode fazer tudo aquilo a que se compromete. Às vezes, dá merda, fruto das circunstâncias. Mas a que devo esta chamada? O meu embaixador em Portugal já me tinha informado que transmitira o meu número ao teu homem dos negócios estrangeiros. Precisas de algum conselho sobre como podes sair da União Europeia? — ripostava Johnson com ar brincalhão.

       - Não pá. Preciso é que mantenhas a porra do corredor aéreo com Portugal e te deixes de moralismos hipócritas, caralho. Arriscas-te a afundar-me o PIB e isso pode gerar uma puta de uma bola de neve que nem com o dinheiro de Bruxelas me safo. Preciso mesmo que eleves a fasquia da velha aliança. — afirmou Costa tentando manter um ar sério e preocupado.

       - Puta que pariu. Isso está assim tão grave? Afinal serão apenas 15 dias. Não me digas que vais ao fundo por meia dúzia de ingleses não irem de férias? Não posso querer! — argumentou Boris.

       - Talvez se deixasses de oxigenar o cabelo e arranjasses um pente te fosse mais fácil entender que não estamos a falar de meia dúzia. Mas enfim, caralho, o que eu preciso é que não anuncies o fecho do corredor na quinta-feira. Posso contar contigo? — Costa parecia preocupado.

       - É pá, foda-se. Que culpa tenho eu que vocês tenham passado a média das 20 infeções por 100.000 habitantes? Tu sabes que esse é o nosso critério para manter os corredores aéreos... — justificava Boris com ar de quem nada poderia fazer.

       - Também sei que tinhas ficado de negociar a maioria dos termos do Brexit com a chanceler alemã e que ainda nem sequer tens nada que se veja. Estás em cima da linha de água para fazeres uma saída airosa no que ao acordo com a União diz respeito. E, até agora, nada de nada, caralho. — Costa preparava-se para lançar a escada. — Talvez não te lembres, mas eu recordo-te que a Presidência do Conselho Europeu é de Portugal durante o primeiro semestre de 2021.

       - Hum… isso quer dizer o quê meu velho e bom amigo? Estás a propor uma troca de favores, é? Acho que sabes que não consegues fazer nada se os outros estiverem do contra. Ainda não estou bem a ver onde queres chegar... — avançava Boris cautelosamente. Aquela poderia vir a ser uma aliança muito interessante para si. Se pudesse manipular um pouco a agenda negocial…

       - É pá, tu mudas o critério dos corredores aéreos para a percentagem de infetados por cada 100 mil testados. Nesse parâmetro estamos no topo dos melhores classificados da União. Já eu, pelo meu lado, articulo contigo a forma de trabalharmos a agenda do Brexit como te for mais conveniente, entre janeiro e junho. Podes até dar liberdade de escolha sobre o corte dos corredores ao País de Gales e à Escócia. Tens é de manter para eles o corredor aberto para Açores e Madeira e o Inglês para todo o território português. No continente o peso deles no turismo é residual. Não ultrapassa os 5%. Que te parece? — indagava António Costa esperançado no seu novo isco.

       - Hum… e o teu voto? Posso contar com o teu voto público quando a altura chegar? Desde que chateaste a Holanda publicamente que tens uma forte influência solidária nos países do Sul e do Leste. Votas comigo? Quer dizer, não precisas concordar com tudo, há coisas que vou exigir para depois as deixar cair durante as negociações. Posso avisar-te do que não faço questão de ter apoio. Então? — Boris parecia agora muito mais empenhado numa negociação. Até se esquecera de praguejar.

       - Podes contar comigo. Porém, os dossiers das pescas e do trabalho dos emigrantes ficam de fora. Sabes que em ambas as situações quem se podia foder era eu… — um silêncio fez-se ouvir do outro lado, Costa esperou.

       - Bem, bem… foda-se… nas pescas dava-me jeito o teu apoio, mas seria mau para ti, eu entendo. Ok, temos acordo. Vamos fazer assim, vou pôr vários elementos do Governo a dizerem que os corredores podem vir a ser fechados, mas que está tudo em análise. Na quinta-feira fazemos saber que os corredores não fecham e na sexta-feira sai o comunicado oficial do Governo Britânico. Parece-te bem? Já com essa ideia da mudança de critérios ou a junção desses com o atual, para parecer mais verosímil. Que tal? — questionou Boris.

       - Caralho! Estava a ver que não. Estamos combinados. Nós vamos manter as nossas infeções elevadas até sábado, dia 12. Depois vamos baixando para que possas manter a avaliação. Se não conseguirmos já será culpa nossa. Entendido? Estamos combinados? — Costa esperou pela confirmação de cortesia pelo lado de Boris.

       - Claro que sim. Mas baixa-me os infetados entre dia 13 e 18 de setembro. Deixa os 300 e os 400 para depois disso, senão pouco poderei fazer. Não há nada como um bom acordo para o Sol nos sorrir. Gostei da conversa António. Fica bem e está atento às notícias de quinta-feira. Puta que pariu. Já tinha visto que tu eras habilidoso, mas agora comprovei. Boa negociação. «Bye, bye». — Boris desligou a chamada francamente satisfeito com a conversa.

Os quatro ministros de Costa presentes na sala aplaudiam satisfeitos. Correra tudo de feição. Seria difícil arranjar uma outra situação em que tudo se tivesse passado exatamente conforme o que desejavam.”

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Por hoje é tudo, minha querida amiga Berta. Fica com uma despedida cheia de saudades deste teu velho amigo, recebe os mil beijinhos da praxe e espero voltar ao contacto contigo já amanhã

Gil Saraiva

 

 

 

 

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