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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: A Minha Rua no Bairro de Campo de Ourique: Mini Preço

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Olá Berta,

Cá estou eu de novo para trocar umas palavrinhas contigo. Hoje, que esteve um dia meio estranho, um misto entre princípio de outono e aflorar de primavera, regresso à rúbrica:

” A Minha Rua no Bairro de Campo de Ourique”.

Conforme já te informei, refiro-me à Rua Francisco Metrass, que pelos dias que correm tem tido uma frequência ímpar em termos de gente pelos passeios, afinal, o controlo de clientes dentro dos supermercados, e por aqui são 3, e as farmácias, apenas uma, assim obriga. Se olhares para a foto que te envio verificas que a temática de hoje é dedicada ao Mini Preço.

Se te deres ao trabalho de contar as pessoas verificas que são um total de 18. Sendo que o senhor que, no momento da foto, está na passadeira se encontrava junto aos outros, a sair do supermercado segundos antes. Na mesma altura em que se viam 3 seguranças à porta, que entretanto entraram para dentro da loja, sendo que estes 3 tinham vindo cá fora fumar um cigarro, 2 homens e uma rapariga, todos sem máscara e todos ao molho, bem junto ao grupo de 9 pessoas que ocupa pouco mais de 3 metros quadrados do passeio. Enfim, um péssimo retrato daquilo que deveria estar a ser feito e com os seguranças a dar o exemplo (pena terem escapado à foto pois demorei a apanhar a câmara).

A esta hora num troço de 80 metros, existiam dos 2 lados da rua, 78 pessoas, das quais apenas 9 cumpriam os 2 metros de distanciamento social recomendado. Eu, pessoalmente, deixei de reclamar as cargas e descargas dos camiões de abastecimento, principalmente os do mini preço, a partir das 5 horas e 45 minutos da madrugada. Pelo menos, a esta hora, não se cruzam com as filas da rua. Lá chegará o tempo em que as violações das leis nacionais do ruído voltarão a ter importância.

Entre 15 de Fevereiro e o dia de hoje fui 6 vezes à rua. Principalmente para comprar pão e colocar o Euromilhões no quiosque em frente ao Trigo da Aldeia, onde também me forneço de tabaco. Quanto a mim foram vezes demais. Afinal, um problema de furunculose e os 9 AVCs do ano passado, colocam-me no quadro das pessoas de risco. Estou a pensar seriamente em solicitar o meu pão à Junta de Freguesia e passar a jogar eletronicamente o Euromilhões. Contudo, não tenho que sair mais vezes porque, pelo facto de morar num terceiro andar sem elevador, me vi obrigado a estar sempre abastecido, não vá um AVC impedir-me de ir às compras. Para minha sorte, quando a epidemia apareceu na China eu já tinha comida para 3 meses em casa.

Não deve haver muita gente em que, circunstâncias alheias ao coronavírus, lhes proporcionaram este tipo de abastecimento preventivo. Por isso, para as pessoas de risco, eu recomendo que recorram ao serviço de entregas da Junta.

Como sabes, minha amiga, tenho andado a meter o nariz, onde não sou chamado. Manias de jornalista. Descobri que até ao dia de hoje se realizaram cerca de 55 mil testes ao Covid-19 em Portugal. Tal facto quer dizer que, dos testes efetuados, um em cada 5 tem dado positivo. Isto porque há muita gente a efetuar um segundo e até um terceiro teste. Há medida que chegam mais testes, e se arranjam alternativas para a escassez de reagentes, o número de pessoas testadas aumenta substancialmente. Por exemplo, há oito dias atrás apenas tínhamos pouco mais de 20 mil testes efetuados.

Ultimamente, são realizados diariamente entre 5 mil e 7 mil testes. Um número bem mais confortável do que o que foi praticado até 23 de março. Aliás, este aumento de testes e o elevado número de positivos leva-me a pensar que talvez Graça Freitas tivesse razão quando falou que um cenário de 1 milhão de infetados em Portugal não era um absurdo. Nunca o saberemos porque, provavelmente, nunca chegaremos ao ponto de testar metade da população do país. Mas algo me diz que o número tem pouco a ver com a ficção. Isto é, a situação é mais grave do que imaginamos. Muito mais grave.

Na minha análise, tendo em conta os recursos que temos tido à nossa disposição, obtivemos um excelente rácio de atuação a todos os níveis. Claramente que não possuímos um conjunto de medidas ideais.

Porém, para a riqueza nacional, temos conseguido maximizar o que dispomos e isso dá-me alguma esperança no futuro. Contudo, o espírito de unidade terá de se manter por mais um par de meses, no mínimo, o que não é fácil, nada fácil. Aliás, este prolongar das situações no tempo vai pôr à prova a nossa fibra enquanto povo. As situações económicas de muita gente, a degradarem-se rapidamente, trarão à equação um grave problema de subsistência e são de se esperar alguns focos de revolta.

A pesar de tudo, a minha fé, minha amiga, é que sejam apenas alguns focos e que a situação não se generalize. A acontecer, rapidamente chegaríamos a um caos incontrolável. Daí o meu apelo para que toda a gente mantenha a cabeça fria, mesmo perante o agravar de algumas situações. É imperativo resistirmos enquanto povo uno e solidário.

Com isto me despeço, minha querida, amanhã voltaremos a vermo-nos nestas linhas que te dedico, um beijo deste teu amigo de todos os dias,

Gil Saraiva

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