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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: A DGS - de Opaca à Lei da Rolha - III/III

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Olá Berta,

Ontem, a meio da minha divagação sobre o estado de saúde mental da nossa Direção Geral de Saúde e do respetivo Ministério onde está integrada, acabei por não dizer tudo o que me vai na cabeça sobre a construção civil ou a distribuição. No final dessa carta, minha amiga, ficou uma pergunta por colocar e mais uns considerandos por pôr em pratos limpos. Assim:

A DIREÇÃO GERAL DE SAÚDE

DE OPACA À LEI DA ROLHA – III/III

Diz-me lá, minha querida amiga, se te lembras de ver a construção civil parar um único dia que fosse desde que a crise começou, lembras-te? Nem tu, nem eu, nem ninguém. O mesmo se passou com a distribuição que, inclusivamente, nem as fronteiras fechadas serviram para os fazer parar de laborar e transitar.

Não me parece mal que o Estado tome esse tipo de decisões políticas. Só não consigo é engolir que, tendo atuado assim, propositadamente, desconhecessem os riscos assumidos. É que a bota não bate com a perdigota. Claro que sabiam e claro que estavam à espera que a realidade fosse a que se veio a revelar. Contudo, a opção dessa verificação foi deixada para depois.

Quanto ao motivo, ele até é simples de compreender. Primeiro havia que ter outras situações já perfeitamente controladas, antes de se avançar para estas que poderiam, em caso de já terem sido inspecionadas, colocar em risco esses e outros setores. Foi, entre outras explicações, uma forma de manter a chata da curva chata. Apenas e somente isso, sem nada mais a acrescentar.

E, mesmo que tenha sido porque o poderoso lóbi da construção civil esteve à altura da sua verdadeira influência no Estado, ou para o caso, com a mesma validade, os lobistas das distribuidoras e o setor do grande retalho alimentar ou, então, porque o Governo não quis piorar a crise económica e social com a inclusão desses setores na paragem do país. Qualquer das respostas é válida e coerente. Mas não me digam a mim, ou aos portugueses, que não conheciam os riscos. Claro que conheciam.

Aliás, foi precisamente por motivos ocultos (na altura a alarmante falta de meios de testagem e dos respetivos reagentes) que os lares de idosos e de terceira idade, entre outros locais de institucionalização de seniores, não foram logo testados. Simplesmente, não existiam os recursos necessários para a triagem. O mesmo se repetiu com os locais de concentração de migrantes ou ainda com os bairros muito populosos e de condições de pobreza mais evidentes. Todos estes 3 casos, por questões de segurança e das fragilidades do sistema, tiveram de ser feitos à vez.

Tudo isto são factos que se entendem sem grande dificuldade. No lugar do Governo, do Ministério da Saúde e em última análise da DGS, também nós teríamos, se fossemos os responsáveis, tido que tomar essas ou outras atitudes semelhantes. Não é isso que me provoca irritação ou nervoso na escrita.

Todavia, o caldo entorna quando o Governo, querendo esconder que, ao ir arrastando deliberadamente certos setores de serem testados ou verificados, isso implicaria que, evidentemente, os casos positivos nessas áreas ou setores corriam o risco de ter muito mais sintomáticos e apresentarem-se com problemáticas bem mais graves do que se tivessem sido travados no início, como tantos outros foram.

Não me venham é dizer que foram os comportamentos desviantes de alguns portugueses (que sempre os houve desde o início) que provocaram estas quase 4 semanas de não abrandamento no número de situações e casos no país. Qual é o problema de o Estado dar a cara e dizer que já sabia que iriam aparecer um grande número destas ao testar os setores que foram sendo adiados, para não entupirem o sistema de saúde ou porque tinham lóbis mais fortes ou seja lá porque motivo for.

A DGS escusa de cinismos, de se fazer opaca e de optar pela lei da rolha. Assumam a estratégia que escolheram. Os portugueses agradecem e dormem bem mais descansados.

Fico-me por aqui, querida Berta, recebe os beijos e as despedidas deste teu amigo, cansado de o fazerem passar por tanso,

Gil Saraiva

 

 

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