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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

A partir de Julho de 2022 os blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente". Os blogs: Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro) passam a integrar este blog. Obrigado.

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Carta à Berta: Reino Unido Decide Vacinar Imigrantes Ilegais

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Olá Berta,

Sem querer sequer ser controverso eu sempre tive a noção que os britânicos, principalmente os ingleses, são tradicionalmente dos povos mais racistas que eu conheço. Porém, eu que adoro, como sabes, andar de chapéu hoje tiro-o ao Primeiro-Ministro Boris Johnson. Faço-o porque, segundo notícia do Jornal de Notícias quer os imigrantes ilegais quer os indocumentados no Reino Unido vão ter o direito de ser vacinados gratuitamente contra a pandemia, sem serem obrigados a provarem que têm direito de residência ou visto para se encontrarem no Reino de Sua Majestade, segundo o que anunciou, ontem o Governo britânico à comunicação social.

A divulgação foi acompanhada do seguinte discurso, traduzido pelo JN: "As vacinas contra o coronavírus serão oferecidas gratuitamente a todos os que vivem no Reino Unido, independentemente de seu estatuto de imigração. Os que estão registados com um médico de família serão contactados o mais rápido possível e estamos a trabalhar em estreita colaboração com parceiros e organizações externas para contactar aqueles que não estão registados e garantir que tenham acesso à vacina”.

Aliás, embora o Ministério do Interior tenha acesso a certos dados sobre os pacientes registados em centros de saúde do sistema nacional, o Governo fez questão de avisar os seus funcionários que a vacinação e igualmente a testagem (e ainda o tratamento contra a Covid-19) não estariam sob a alçada da necessidade de controle de vistos.

Porém, porque o seguro morreu e velho, a organização representante dos médicos, a British Medical Association, pediu a devida suspensão da transmissão de informações sobre estes imigrantes durante a pandemia, bem como uma comunicação "clara e ampla" da medida. O diretor britânico da comissão de ética da ordem dos médicos, afirmou inclusivamente que: "Para que a campanha de vacinação seja um sucesso, é fundamental que o maior número possível de pessoas seja vacinado". Acrescentando que a sua preocupação vai para o impacto da Covid-19 no seio das minorias étnicas existentes no Reino Unido.

Ora, sendo verdade que o país já leva mais de 112 mil mortes desde que a pandemia teve início, sendo aquele que maior número de óbitos tem na Europa e estando em quinto lugar no mundo em termos absolutos, o que importa no momento é que a vacinação seja um sucesso.

Para isso, a atual campanha de vacinação de larga escala, envolvendo meios que vão desde o exército, passando pelos profissionais de saúde, até aos milhares de voluntários que ajudam neste complexo processo, procurou trabalhar com a finalidade de se conseguir uma ampla vitória neste que é um projeto de gigantes.

Este raciocínio já permitiu administrar uma primeira dose a mais de 12 milhões de pessoas, mas as autoridades temiam que pudessem existir categorias da população que não fossem vacinadas por desconfiança, especialmente entre as minorias, o que levou às declarações prestadas ontem pelo Primeiro-Ministro, Boris Johnson.

Se todo este processo for sério e honesto, eu, minha querida Berta, não apenas tiro o chapéu a Boris, como quase me proponho a comê-lo a seco, embora o chapéu custe a digerir, tal é o meu grau de espanto. Nada mais há a dizer, a não ser que a história me provará se devia ter ou não mastigado o ornamento craniano. Despede-se com um beijinho o teu amigo, repleto de saudades,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Ensino à Distância - Regresso Escolar

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Olá Berta,

Oficialmente as aulas não presenciais começam hoje desde o primeiro ao décimo segundo ano. Aulas através da televisão e da internet. Todo este ensino oficial é, no meu entender, uma grande tempestade de areia, literalmente direcionada para a comunidade como um todo. Na realidade apenas, e com sorte, 10 ou 20% dos alunos vão tirar partido desta vaga de fumo que, não oficialmente, não passa disso mesmo e nada mais do que isso.

Mas o que quero eu dizer com isto? Nada que não seja óbvio: os bons alunos que, simultaneamente, têm um genuíno interesse em aprender e que, ao mesmo tempo, têm acesso aos meios tecnológicos, vão sair-se muito bem. Porém, para todos os restantes cada semana de ensino irá resumir-se a uma, duas, talvez três horas, de real aprendizagem.

Em resumo, tudo o resto será perdido. Com efeitos menos devastadores, o ensino vai passar uma fase semelhante (para muito pior) ao que aconteceu no ano da revolução de abril de 1974 e que teve consequências graves durante os anos seguintes.

Uma geração inteira de miúdos perdeu, nessa altura, por completo o equilíbrio da aprendizagem e só mesmo os mais resilientes se safaram. Ora, ser resiliente é sinal de teimosia, mas nem sempre significa inteligência ou conhecimento, assim, será preciso a sua conjugação com a do acesso aos meios, ou seja, computador e televisão.

Se atualmente a situação se repetir, se apenas os resilientes voltaram a triunfar, desta vez com a agravante de que precisam ter acesso à televisão e á internet, pois a resiliência e a inteligência não serão os únicos fatores de sucesso, a situação promete ser ainda mais complicada do que a ocorreu entre 1974 e 1980.

Não penses, amiga Berta, que o poder não tem conhecimento disto. Claro que tem. Todos os jovens que não tenham pais que estejam atentos aos seus estudos, todos a quem faltar a força e a vontade de lutar, aprender e estudar, e ainda, todos aqueles a quem faltarem os meios, vão ficar pelo caminho, independentemente das boas intenções do Estado, da democracia e do Governo em si. Se não aprendermos com os erros do passado, tudo será igual.

Agora, se o Ministério da Educação transformar os anos de 2020 e 2021 em anos zero e conseguir retomar o que vinha a fazer em 2019 (e estou a falar do ano letivo 18/19), apenas dando a possibilidade aos resilientes, aqueles que reuniram todas as condições necessárias para seguirem em frente, fazendo os outros todos repetir a aprendizagem podem salvar-se estas gerações abrangidas, deste coxear letivo que não sendo assim os perseguirá para o resto das suas vidas, apenas com o registo de dois anos perdidos, mas nem por isso totalmente inutilizados.

Mas isto é apenas a opinião (a minha) de quem já passou por isso entre 1974 e 1980. Posso ter visto mal. É tudo, minha querida Berta, despede-se este teu amigo de todas as ocasiões, saudosamente, com um beijo de até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Covid em Dia dos Namorados

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Olá Berta,

Faltam oito dias para o dia de São Valentim, o Dia dos Namorados. São tempos estranhos estes que vivemos. Tão estranhos que não me lembro de os ver relatados sequer na ficção. Em Portugal, pela primeira vez desde que tenho memória, não se recomenda a troca de beijos nem mesmo o famoso abraço apertado entre pessoas que se amam.

É claro que, para quem já vive no mesmo domicílio em comunhão de leito com o amor da sua vida, estas recomendações não se aplicam e apenas são recomendados alguns conselhos especiais, sobre as atividades antecedentes aos mimos, por parte de cada um dos elementos do casal. Por exemplo, são desaconselhadas partilhas de intimidade com elementos estranhos ao casal. Entre outras recomendações mais ou menos bizarras.

Contudo, para aqueles que ainda se encontram na fase de namoro (propriamente dita), ainda sem partilha de um teto ou uma cama de forma permanente e continuada, é que as coisas se tornaram quase absurdas. Se em janeiro de 2020 alguém dissesse que se iria pedir a um casal de namorados para não se abraçarem ou beijarem, já para não falar de partilhas mais íntimas, seria chamado de lunático, idiota ou pior ainda, seria insultado com aquela forma, tão em voga nas redes, impregnada de essências viperinas e carregada de insultos e impropérios dos mais variados.

Porém, é isso mesmo que está a acontecer este ano. Aos namorados é recomendado que façam uso do distanciamento social e que se evitem mutuamente, quer não partilhando beijos, mãos dadas ou abraços de modo a ajudarem, com a sua atitude a prevenir a propagação da famigerada pandemia.

Só falta mesmo alguém ter a ideia brilhante de criminalizar o abraço, o beijo e a mão na mão, para que se atinja o cúmulo da paranoia “covidiana”.  Mas já há quem defenda que, estes namorados (os que ainda não coabitam juntos) só troquem mimos, seja de que ordem for, se ambos estiverem testados e dados como negativos no que concerne ao coronavírus.

Agora experimentem imprimir alguma lógica a isto quando se dirigem a um casal na casa dos 13 aos 17 anos, por exemplo, seja este constituído ou não por heterossexuais, mas ambos com as hormonas aos saltos e em ponto de ebulição, sem serem, devido a essa mensagem, tratados com o devido escárnio por parte dos visados.

É que, principalmente para os jovens e com maior enfase nos adolescentes, é inconcebível que lhes seja solicitado que evitem os impulsos e as interações amorosas próprias destas idades tão especiais. É o tempo deles. Aquele tempo que recordarão para toda a vida com a famosa expressão “no meu tempo”.

Enfim, minha querida Berta, tudo isto para dizer que ainda não vi esta matéria devidamente tratada, pelos especialistas, com o cuidado e a atenção que deveria efetivamente merecer por parte de quem decide.

Educar é um processo complicado e é preciso fazê-lo tendo em conta as especificidades de cada ato educativo e do grupo alvo que se pretende formar. Faltam oito dias para o Dia dos Namorados… despede-se este teu amigo, com um beijo virtualíssimo, sempre ao dispor, saudosamente,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: As Vacinas em Portugal

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Olá Berta,

Embora tu, minha querida amiga, já me tenhas pedido para falar do plano de vacinação em Portugal, por queres saber a minha opinião sobre o assunto, eu, muito sinceramente tenho evitado trazê-lo para as nossas cartas. Porém, como algum dia terá de acontecer, pode até ser já hoje. Apenas sublinho que vou dizer o que penso sobre o assunto sem mais delongas.

Quanto ao plano em si, e as prioridades definidas para a toma de vacinas eu acho que irá sempre haver quem o conteste e quem se sinta injustamente deixado para uma segunda ou terceira linha, seja qual for o critério de prioridades. Quanto às que atualmente estão em vigor estou de acordo que existam e que se façam cumprir da melhor maneira possível e com a celeridade projetada.

Penso, no entanto, que o grupo responsável pelos critérios irá fazendo pequenos ajustes às prioridades, consoante assim se achar melhor, durante o processo, e não vejo mal algum em que o façam. Um plano rígido era por si só muito mais absurdo. Cheguem atempadamente as vacinas da Europa e o serviço tratará de as distribuir atempadamente e julgo mesmo que sem problemas de maior.

Não sou arauto da desgraça, nem sequer sou uma Clara Ferreira Alves que, ainda ontem, ouvi dizendo que tudo estava e seria um caos. Pois bem, no meu entender isso não corresponde à verdade dos factos. A vacinação está a correr muito bem e acho que assim continuará. Também discordo com a jornalista comentadora do Eixo do Mal, quando ela vê e prevê um fim à vista para António Costa, todavia isso são contas de outro rosário e não vale a pena falar nisso presentemente.

No que respeita às vacinas que têm sido dadas indevidamente, a pessoas que não constavam nas prioridades, existem dois grandes tipos de situações. As que foram dadas a qualquer pessoa, para não desperdiçar doses que sobraram e que já estavam descongeladas, numa altura em que ainda não existiam alternativas definidas para o efeito, e as que foram alvo de abusos seja de que ordem for. Enquanto que o primeiro caso não foi grave, foi residual e serviu para serem criadas listas de suplentes para as sobras, a segunda é mais séria e merece ter as devidas consequências consoante a gravidade de cada caso.

Apenas acho que no caso nacional, onde essa divergência, sobre o que estava planeado, é inferior a 0,1% das vacinas já efetuadas e que entre primeiras e segundas doses já atingiram o meio milhão praticamente, é deveras irrelevante. Dito isto todos os casos devem ser analisados e punidos quando for realmente o caso.

Por hoje fico-me por aqui minha querida Berta. Despede-se este teu velho amigo, sempre ao dispor onde e quando me achares necessário, com um beijinho,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Estava-se Mesmo a Ver... parte II. Eis o "LOCKDOWN!"

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Olá Berta,

Estava-se mesmo a ver… parte II. Eis o LOCKDOWN!!!

Este seria um excelente título para a sequela da carta que te enviei no passado dia 18 de janeiro deste ano. Como qualquer sequela e, pior ainda, apresentada, logo de rajada, passados que são apenas três dias do primeiro “Estava-se mesmo a ver…” chegou a Portugal o “Lockdown!” à séria, porque não há mais desculpas.

O Governo faz regressar as medidas de março, mas desta vez vestidas a rigor. Seja isso para os rigores do inverno, seja porque quer ser levado a sério por toda a população quando fala de confinamento, seja para recuperar o respeito político que estava a perder não apenas por parte da população, mas também pelos outros partidos com assento parlamentar e para lamentar.

A diferença entre o grande confinamento de março e o atual estará, logo à partida, na atuação fiscalizadora das forças da ordem, como no peso oneroso das coimas, bem mais robusto, para quem não cumprir o confinamento agora reforçado uma vez mais.

Numa semana passámos de um confinamento, que a crítica apelidava de “light”, para um verdadeiro “Lockdown”, porque há terceira costuma ser de vez, ou mesmo, porque não existem, na realidade, mais alternativas.

Estava-se mesmo a ver… parte II. Eis o LOCKDOWN!!!

Se pensarmos retrospetivamente, em março, o primeiro confinamento não foi um verdadeiro “lockdown”, muito devido à forma fofinha, solidária, ordeira e de receio pelo desconhecido em que foi instalado. Não tivemos a fiscalização a multar ou a deter os prevaricadores, mas apenas a aconselhar os cidadãos a ficarem em casa, esclarecendo dúvidas e explicando de modo quase ternurento o que o confinamento significava e porque era importante estarmos todos alinhados.

Estava-se mesmo a ver… eis o “LOCKDOWN!” Prazos dos tribunais suspensos, lojas de cidadão encerradas e escolas integralmente fechadas. Tudo a somar às medidas da passada sexta-feira, a que se somam as de dia 18 e agora, finalmente, estas de hoje, que deverão entrar em vigor já amanhã, tudo com um acréscimo de medidas de vigilância e atuação por parte das forças da ordem.

Minha querida Berta, os 221 óbitos de hoje, com mais 13.544 casos ativos e os internados Covid em cuidados intensivos a subir acima dos 700 (702 para ser preciso), acabaram por ditar este novo confinamento geral, independentemente de António Costa usar a estirpe britânica como desculpa ou argumento para o mesmo. Mais uma vez, não leves a mal ter aproveitado a tua carta para fazer este resumo de situação. Despeço-me com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Novos Infetados - 14.647 - Mortos - 219 - Às Costas de Costa

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Olá Berta,

14.647 novos infetados e 219 mortos por Covid-19, são os novos dados de hoje em terras lusas. Um número absolutamente impensável ainda no mês passado, antes do ano ter terminado. É por causa de coisas como esta que eu digo muitas vezes, e neste caso infelizmente, que a realidade é sempre capaz de nos surpreender mais, muito mais do que qualquer possível ficção.

Embora até aqui eu tenha, na grande maioria dos casos, defendido a atuação do Governo, começa a ser-me difícil compreender porque é que este não adota uma política de transparência imediatamente. Eu sei, cai bem dizer que se está preocupado com a formação das crianças e dos jovens e com o seu futuro. É um facto bonito, constitucional e cheio de valores.

Porém, não é por esse motivo que António Costa não fecha as escolas. Costa não quer o confinamento geral porque o Estado Português anda no limite do seu endividamento e já não tem dinheiro para pagar (e mal) um confinamento total, ou, mesmo que tenha, irá ter que o ir retirar a outro lado onde depois não o conseguirá repor nunca mais.

Minha querida Berta, se é preciso confinar que se confine e já, escolas e tudo. Que se passe a revelar os números da pandemia por freguesia, com honestidade e transparência. É tempo de o Estado agir com integridade e esquecer o poleiro.

Se depois faltar dinheiro ou se tivermos de ir para eleições antecipadas, porque o Governo se torna impopular, iremos. Não é possível é continuar a agir com meias-tintas que pouco ou nada conseguem resolver. O António tem de ser frontal e o que vier veio, ele até já tem umas costas largas, pode bem com mais este fardo.

Por hoje, deixo-me ficar com este desabafo. Eu sei que tu me compreendes, cara Berta, e que entendes a minha frustração com a falta de frontalidade do poder que nos governa. Despede-se este teu amigo, com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: As Quatro Cores da Pandemia

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Olá Berta,

Entrámos hoje num novo Estado de Emergência. Agora temos o país dividido, face à pandemia, em 4 cores. Quanto mais carregada é a cor, mais grave é a situação do concelho assinalado. Os graus de gravidade são igualmente quatro: moderado, elevado, muito elevado e extremamente elevado. Até aqui a coisa parece clara.

Contudo, se não há diferença entre as consequências entre muito elevado e extremamente elevado, a criação dos escalões perde algum sentido. Qual é a motivação que um concelho tem para descer do nível máximo para o imediatamente anterior? Ah! A responsabilidade de combater a pandemia. Certo. Mas isso chega em termos de incentivo? Tenho as minhas dúvidas, sabendo eu como funciona o poder local, sem prémio não há motivação.

Se os níveis agora anunciados, para classificar o risco pandémico, servissem para esclarecer os efeitos na performance masculina sobre o efeito do viagra e similares, a situação seria bem mais divertida e muito menos perigosa, quiçá mesmo competitiva. Um concelho com uma performance extremamente elevada, principalmente nos idosos seria, nesta hipótese demonstrativa, um concelho feliz. Contrariamente à pandemia nenhuma região iria querer fazer parte do escalão dos moderados. Aliás, conhecendo o povo português, rapidamente seriam alcunhados.

Já estou a imaginar o Correio da Manhã a fazer manchete, em gigantescas parangonas, com as autarquias dos pilas-moles ou o Expresso a apresentar um Estudo ou uma douta Opinião Especializada e aborrecida, sobre as consequências, do efeito extremamente elevado, nos séniores portadores de doenças cardiovasculares, entre outras.

De uma forma ou de outra, a imprensa e a comunicação social em geral, haveriam de arranjar maneira de tirar todo o divertimento aos efeitos na performance masculina sobre o efeito do viagra e similares no escalão sénior da sociedade. Porém, tenho dúvidas se com isso afetariam a competição saudável que esta luta pela busca dos prazeres básicos iria certamente suscitar.

Estava a imaginar, aqui com os meus botões, como seria este novo mapa nacional a quatro cores. Que concelhos estariam em ambos os extremos do mapa? À partida, eu que de sexologia, enquanto ciência, sei muito pouco, sou levado a pensar que o Norte continuaria a ser o grande detentor do tom carregado próprio da classificação de extremamente elevado.

Nunca saberemos. Como sempre parece haver pouco interesse em medir e aferir a verdadeira felicidade do povo, pois é mais dramático e vende mais massacrá-lo com os níveis da desgraça nacional. Todavia, não me admiraria se a sombra de um chaparro não contribuísse positivamente para uma atividade mais dinâmica, mas isto sou só eu a pensar. Fico-me por aqui, querida amiga, recebe um beijo de até amanhã deste que não te esquece,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: "António Costa - O Grande Golpe - Peça em Três Atos" - "Ato I - Meeting na Aldeia de Campo de Ourique"

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Olá Berta,

«António Costa – O Grande Golpe – Peça em Três Atos» seria o nome que escolheria para me referir áquilo que eu penso que alegadamente se terá passado no teatro da política e da diplomacia internacional. Aliás, se as coisas se passaram como eu penso que realmente se passaram o nosso Primeiro-Ministro merece o Grammy, o Óscar e o Nobel, tudo em simultâneo, pela mestria da sua magnífica, secreta e espetacular atuação.

Não só conseguiu um feito considerado impossível de concretizar, como o fez nas barbas dos Media nacionais e internacionais sem que ninguém desse por este genial «Golpe do Século». O mais interessante é que a operação, montada nos corredores da arte de bem negociar, ainda dura e irá durar até ao final de junho de 2021 e decorre naquele que para mim é o mais impressionante cenário político e diplomático montado no decorrer do presente século.

Enquanto operação secreta da diplomacia portuguesa, este feito devia ter direito, inclusivamente, a nome de código, como as antigas operações especiais entre americanos e russos no tempo da guerra fria, no caso eu chamar-lhe-ia «Operação Bifes à Portuguesa» ou «A Conjura da Raposa», uma vez que qualquer das escolhas é ótima para ilustrar a mestria política e diplomática daquele que é atualmente um dos mais hábeis políticos da cena mundial do século XXI.

No entanto, querida amiga Berta, isto sou eu a divagar, alegadamente imaginando uma genialidade tão simples e eficaz que se calhar nem está realmente a decorrer e tudo não passará de um fruto imaginário da criatividade deste teu amigo jornalista, armado em romântico escritor de enredos diplomáticos. Contudo, a ter acontecido (e ainda estar a decorrer), é realmente brilhante e deveria ter direito a destaque, com a obrigatoriedade a ser convertido em superprodução de Hollywood, pela argúcia e sentido de estratégia apresentada na elaboração de tão magistral arte política. Daqui para a frente vamos imaginar que as coisas se passaram como eu descrevo, mesmo que tudo possa ser apenas uma fantasia criativa deste teu amigo:

“Primeiro Ato: Reunião Urgente do Gabinete de Crise.

A primeira cena decorre no centro da capital portuguesa, Lisboa, mais propriamente na pequena Aldeia de Campo de Ourique, no edifício da Presidência do Conselho de Ministros, sem o conhecimento prévio da imprensa. Um pequeno grupo de pessoas, secretamente conhecido como os irredutíveis lusitanos, reúne-se de urgência, ao final da tarde, daquela segunda-feira. Presentes na reunião, convocada à última hora, com parangonas de secretismo, estão António Costa, Primeiro-Ministro, João Leão, Ministro das Finanças, Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mariana Vieira da Silva, Ministra de Estado e da Presidência e Pedro Siza Vieira, Ministro de Estado e da Economia.

Estamos no dia 31 de agosto de 2020 e para António Costa aquele que é o núcleo duro do seu Governo constitui também, igual e secretamente, o seu Gabinete de Crise. Em cima da mesa está o turístico corredor aéreo com o Reino Unido.

Costa é o primeiro a tomar a palavra:

       - Se os ingleses nos fecham o corredor aéreo com o Algarve e a Madeira, conforme a imprensa britânica prevê, estamos desgraçados. Isto pode muito bem desencadear uma bola de neve de fecho de empresas e falências, que se iniciará no setor do turismo e se alastrará rapidamente a todos os setores do tecido económico nacional. Temos de arranjar, a todo o custo, uma forma de impedir que Boris Jonhson feche o corredor. Temos de evitar a todo o custo que isto se torne na gota de água que faz transbordar o copo da crise económica nacional.

       - Estamos fodidos! — adianta Santos Silva. — Desculpa a linguagem Mariana, mas o embaixador britânico já me informou que na próxima quinta-feira devem fechar o corredor com Portugal. Ligou-me no sábado, pela hora de almoço. Querem evitar que sejamos apanhados de surpresa como na última vez. O tipo irrita-me, com aquele ar altivo e superior de «bife do lombo» tira-me do sério.”

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Para não me esticar demasiadamente numa só carta, amanhã continuarei “O Grande Golpe”. Recebe um amigável beijo de despedida deste teu fiel amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Covid-19 >>> Portugal - União Europeia - Europa - Mundo

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Olá Berta,

Como bem sabes não sou um fã da desgraça e muito menos desta pandemia que assolou o mundo. Não gosto de coitadinhos e não aprecio gente que se faz de vítima para conseguir a atenção e a solidariedade de terceiros. Porém, reconheço que muita coisa vai mal e pior ainda agora, principalmente, desde que fomos invadidos por esta coisa chamada de Covid-19. A pandemia pôs a nu fragilidades e, em muitos casos e situações, revelou mais nitidamente muitas das assimetrias existentes por este mundo a fora.

Não sou, nem nunca fui um nacionalista ferranho, todavia, adoro ser português e tenho muito orgulho em sê-lo. Considero que vivemos num país especial. Não é apenas o facto de estarmos estrategicamente situados no centro do mundo Ocidental. É o sermos o melhor destino turístico do mundo já há três anos consecutivos, é mantermo-nos como o terceiro país mais pacifico e seguro do globo, apenas ultrapassados pela Islândia (que conta com menos de meio milhão de habitantes) e pela Nova Zelândia (que tem uma população que é em número menos metade da portuguesa), ou seja, estou convencido que vivo num país realmente especial, moderado em usos e costumes, moderado no clima e cujo passado de mais de oito séculos muito me orgulha, independentemente das asneiras que alguns dos nossos líderes foram fazendo ao longo da História.

Ultimamente, por causa do novo aumento de infeções, andam por aí umas vozes a dizer que o país perdeu o rumo, que não soubemos sair do confinamento, que agora é que está tudo a caminhar para o caos.

Desculpa que o diga de uma forma mais grosseira, amiga Berta, mas é tudo uma grande treta. Continuamos a ser um país moderado até quanto à pandemia. Nos indicadores que importam estamos proporcionalmente colocados se levarmos em consideração a população de Portugal face aos outros países e territórios. A tabela do «worldometer» que divulga, entre outros dados, os números da pandemia em termos mundiais e europeus, é disso a melhor das provas, não deixando dúvidas sobre o tema.

Mas analisemos mais de perto os dados europeus. O site que referi identifica 48 países e territórios na Europa (podes consultar, minha amiga, a tabela que te enviei a ilustrar esta carta com os primeiros 14 países em termos de população). Ora, dos 48 referidos existem 13 que não chegam ao milhão de habitantes, e que vão desde o Vaticano ao Luxemburgo. Depois há mais 10 que não conseguem ultrapassar a barreira dos 5 milhões, situados em números entre a Estónia e a Irlanda. Em seguida vêm mais outros 10 que se ficam abaixo dos 10 milhões e acima dos 5, enquadrados em crescendo entre a Noruega e a Hungria. Em resumo existem 33 países e territórios na Europa cuja população não alcança os 10 milhões de habitantes.

Quando imaginamos que somos um país pequenino no Velho Continente, convém sabermos que há 34 países e territórios na Europa com uma população menor que a nossa, pois a Suécia, embora ultrapasse os 10 milhões de habitantes, tem menos umas largas dezenas de milhares de pessoas do que nós. Aliás apenas, 13 países nos ultrapassam em população, desde a Grécia com mais 222 mil indivíduos que Portugal até à Rússia com quase 146 milhões de habitantes… e sim, estou a contar com a Rússia, que abrange 2 continentes, estendendo-se bem Ásia adentro.

Pelo que atrás vai dito ficamos com a perfeita noção que somos o décimo quarto país mais populoso da Europa. Ora, não é, portanto, estranho que ocupemos igualmente esse mesmo lugar no que respeita aos países mais infetados do continente. A proporção é a mesma. Também somos o 14.º no que aos novos casos diários de infeções diz respeito e isso também acontece já há mais de uma semana. Pode parecer estranho, contudo, é também essa a posição que ocupamos quanto ao total de mortos e ao número de casos críticos em cada país ou território europeu.

Mas as coisas ainda são melhores se pensarmos nos casos recuperados da pandemia onde estamos em sexto lugar em números absolutos. Já quanto ao número de mortos diários e no número total de infetados por milhão e de óbitos por milhão de habitantes ocupamos orgulhosamente o 18.º nos primeiros dois e o 19.º no último destes parâmetros.

De referir que somos o décimo país (de 27) com mais população no seio da União europeia e igualmente o décimo com mais casos registados até ao momento. Todavia, no número absoluto de testes realizados por cada país europeu estamos orgulhosamente acima da média, no 10.º lugar entre os 48. Mas se olharmos para os testes por milhão de habitantes passamos rapidamente para o terceiro lugar do ranking, só sendo ultrapassados pela Rússia, logo seguida do Reino Unido. O destaque ainda é mais espantoso porque podemos dizer que somos o país da União Europeia que mais tetes realiza por milhão de pessoas. Ao todo já testámos mais de 20% da população nacional. Um facto absolutamente revelador da nossa firme determinação em combater a pandemia, com mais testes por milhão de habitantes que Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda, Polónia, Roménia, Grécia ou Bélgica, só para falar dos casos mais flagrantes.

Podia continuar com o mesmo tipo de comparação em relação ao mundo onde somos o 89.º país ou território do mundo com mais população, havendo 125 países ou territórios com um número de habitantes inferior ao nosso. Posso afirmar que relativamente ao globo, contando os países com população igual ou superior à nossa, ainda estamos mais bem colocados do que a nível exclusivamente europeu. Todavia acho que já seriam números a mais para uma só carta, pelo que me fico por aqui. Julgo que até me agradeces por não me alargar em demasia.

Porém, só para dar uma ideia, acima dos 10 milhões de habitantes somos o quinto país que mais testes faz, por milhão de habitantes, no mundo inteiro, apenas sendo ultrapassados por colossos como a Rússia, o Reino Unido, os Estados Unidos e Austrália.

Como podes comprovar, minha querida Berta, temo-nos portado muito bem nesta coisa do Covid. Recebe deste teu amigo um beijo de despedida e carinho, saudosamente,

Gil Saraiva

 

PS: Apenas um aparte, querida amiga, a saga do fogo em coberturas continua, agora alargada ao país. Desta vez foi a cobertura, no sótão, localizado no terceiro piso de um restaurante, em Felgueiras. Com este, em 4 dias úteis (desde a passada sexta-feira), já são 11 as coberturas, sótãos ou águas-furtadas que ardem pelo país. Espero que isto tenha um fim, pois não consigo compreender tanta coincidência.

 

 

 

Carta à Berta: Transparência

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Olá Berta,

Não queria falar da pandemia tão depressa, ando cansado de tanta notícia em redor de um assunto deprimente e grave que parece não ter fim à vista. Estou farto de olhar para os quadros mundiais e oficiais da pandemia e de ter a certeza absoluta que não correspondem à verdade.

Por este ou aquele motivo os governos, em todo o globo, mentem descaradamente no número de infetados e nos óbitos. Hoje li um artigo numa revista científica que sigo há muitos anos que o mundo apenas conhece 10% da verdade. O sujeito, um cientista de carreira sólida e respeitável dava vários exemplos dos 4 cantos da terra, ou seja, a ser verdade, e eu concordo com a opinião dele, existem 200 milhões de infetados no planeta e cerca de 8 milhões de mortos provocados pela pandemia. Contadas as mortes indiretas os números sobem para os 15 milhões.

Parece irreal, afinal, nos óbitos, os números do estudo são 20 vezes superiores aos oficiais. Contudo, tem toda a lógica. Os dados divulgados apenas têm por fundamento manter os povos em alerta, sendo o suficiente para que as pessoas se preocupem e tomem alguns cuidados no combate ao vírus. Contudo, dar informações mais reais e fidedignas seria bem capaz de gerar o caos. Ora esse descontrolo provocaria um acelerar ainda mais drástico e sério do coronavírus. Rapidamente os números voltariam a decuplicar.

Ora, ninguém quer algo assim. O ser humano quando se sente verdadeiramente ameaçado, e a uma escala global, facilmente se torna básico e regressa ao uso sistemático dos instintos mais primitivos. A devastação provocada por esta reação seria mais mortífera e penalizadora do que 5 pandemias juntas. Em termos civilizacionais o retrocesso seria de séculos. Podendo levar o planeta a níveis pré-industriais. Um verdadeiro horror.

Por isso me irrita quando vejo os nossos líderes a falar de transparência. Qual transparência? Se fossem transparentes a informar, toda a gente sabia o verdadeiro número de casos, testes e óbitos, e estes seriam publicados freguesia por freguesia, diariamente, para que dúvidas não existissem. Isso sim, era transparência. Tudo o resto é areia junto a uma ventoinha.

Temos, aqui ao lado, o exemplo espanhol. Durante 4 dias não divulgaram nem o número de infetados, nem mesmo o número dos óbitos. Depois, quando retomaram os dados com os totais nacionais, “esqueceram-se” de incluir os da Catalunha, que ficaram à parte e são quase tantos como o resto de Espanha. A realidade é que os nossos vizinhos estão quase de regresso às 6 mil infeções por dia. Uma estratégia absurda para não perder turistas, que, mais dia menos dia, ainda os fará ter consequências bem piores do que as que querem evitar servindo-se de mentiras e falsos problemas informáticos.

Na Venezuela, na Bielorrússia ou na Hungria, os números são trabalhados de forma a parecer que os regimes têm tudo minimamente controlado e que os sistemas de saúde funcionam. Uma imensa mentira. No Brasil, 30% dos óbitos são declarados, com o conluio das autoridades, como pneumonias, para os cidadãos da classe média ou superiores possam receber os devidos seguros de saúde, que não abrangem as mortes por Covid. Na Rússia e no Reino Unido os números viram armas políticas destinadas a proteger a política externa desses países.

Enfim, por todo o lado, mas mesmo por todo o lado, a pandemia serve os regimes, os governos, o poder e só depois se tenta proteger o povo. Basta ver que a Índia apenas faz 20% dos testes por milhão de pessoas, dos que se realizam, por exemplo, em Portugal. Eles não querem, com medo do caos, sequer saber a verdadeira dimensão da tragédia no seu imenso país. É triste, mas é assim que tudo tem vindo a funcionar.

No nosso caso, a situação agravou a depressão das pessoas e o Victan, medicamento contra os sintomas ansiosos ou a própria ansiedade desapareceu do mercado e, o Infarmed já veio anunciar que o seu regresso não está previsto, senão para outubro ou novembro. Algo muito grave quando se sabe que quase 2,5 milhões de portugueses consomem o fármaco com regularidade. Numa altura destas, até o acesso à calma está condicionado pelo mercado, o que é vergonhoso.

É com um beijo triste que me despeço, querida amiga Berta. Espero não voltar proximamente a estes temas, mas é triste de ver o que se passa à nossa volta. Este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

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