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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência: 1) Zygmunt Bauman (fim)

(continuação – III – 4)

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Zygmunt Bauman

Olá Berta,

Começo esta carta satisfeito por te saber bem e a gozar umas merecidas férias na praia. Continuo zangado com o Governo por esconder a verdade sobre a saúde pública dos portugueses. Enquanto não começarem a ser revelados os dados sobre o coronavírus a nível das freguesias é muito mais fácil ao Estado manipular a informação e distorcer a realidade em seu proveito próprio.

Quanto à apresentação, no Diário Secreto do Senhor da Bruma, daqueles que me influenciaram o raciocínio e o meu próprio pensamento, Zygmunt Bauman foi sem dúvida aquele que me ajudou a escolher a esquerda como o lado onde a minha consciência tem mais facilidade de selecionar modelos e se adaptar ao universo político.

Não fez de mim, logo à partida, um socialista humanizado, é certo, porém, tornou mais fácil o entendimento do que mais me desagradava na política, ou seja, o lucro pelo lucro e um capitalismo sem regras, que não são, de certeza, as minhas zonas de conforto.

Eu preciso de uma ética com valores e princípios humanos e universais, onde a pessoa ocupe lugar de destaque, pois somos e sempre seremos um ser social, que evolui coletivamente, mas respeitando a individualidade de cada individuo e a privacidade do seu ego único e próprio, enquanto unidade integrada de um meio coletivo, solidário, fraterno, livre, social e ao mesmo tempo sensitivo e sensível perante o quotidiano envolvente. Mas regressando a Zygmunt Bauman:

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III

Conversas com a Consciência

(continuação – III – 4)

Abril, dia 5:

De acordo com Bauman, nos tempos atuais, as relações entre os indivíduos nas sociedades tendem a ser menos frequentes e menos duradouras. Uma de suas frases poderia ser traduzida, na língua portuguesa, por "as relações escorrem pelo vão dos dedos". Segundo o seu conceito de "relações líquidas", formulado, por exemplo, em Amor Líquido, as relações amorosas deixam de ter aspeto de união e passam a ser um mero acumular de experiências, que se sucedem num encadeamento dinâmico, que pouco guarda dos antigos laços para a vida anteriormente tão em voga e vulgarmente considerado o verdadeiro caminho.

Abril, dia 6:

Devido a isso, a insegurança passaria a ser uma parte estrutural da constituição do sujeito pós-moderno, conforme Zygmunt escreve em Medo Líquido. Bauman é frequentemente descrito como um pessimista, na sua crítica à pós-modernidade. De facto, enquanto os cientistas, poetas e artistas se desdobram e empenham na exaltação das virtudes do capitalismo, ele mantém-se na contracorrente, procurando expor a face desumana do capital.

Abril, dia 7:

Zygmunt Bauman, é, assim, o desencantado que encanta. É ele que afirma que: “na nossa sociedade, expor o privado é uma virtude e um dever público”. Aliás, o sociólogo polaco, ficaria mundialmente conhecido por criar o conceito de “modernidade líquida”, que usa para definir os dias de hoje e os que vêm pela frente. A ideia acabaria por pegar e quase se tornar uma moda, trazendo à tona, por diferentes ocasiões, ao longo dos anos, os seus livros, aparecendo estes entre os mais vendidos dentro dos escritores do pensamento. Trata-se de um feito e tanto para um pensador que não é dos mais fáceis de ler, nem dos mais simples de entender.

Abril, dia 8:

Em síntese: é essa desumanização do capital que é acompanhada, de mão dada, pelo crescente tentáculo da globalização, no seu conceito de modernidade líquida, que não tem grandes barreiras ou limites bem definidos, que tornam Zygmunt, na minha perspetiva, um dos 9 eleitos entre os últimos grandes pensadores universais. Aliás, se tivesse que espremer, numa só palavra, o que impressiona em Bauman eu usaria, inequivocamente, a sua introdução fundamental no campo filosófico e cognitivo do conceito de: desumanização. Todavia, sendo esta a minha perspetiva, isto é apenas aquilo que eu retiro de Zygmunt Bauman e não o que o mundo pensa dele.

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Sei que não relatei no Diário a essência deste pensador, mas apenas referi porque é que ele se tornou num dos meus pilares da formação da minha consciência. Foi essa a abordagem que resolvi escolher na relevação do meu Olimpo do Pensamento Contemporâneo e penso, sinceramente, que isso é que é realmente importante.

É claro que Bauman disse muito mais e escreveu o suficiente para não poder ser resumido a uma única ideia. Certo. Não argumento contra isso. Mas foi a sua explicação deste caminho para uma sociedade desumanizada aquilo que mais me cativou, neste filósofo do mundo contemporâneo, e que foi tão importante para que as escolhas do meu próprio sentir se tornassem mais simples.

Assim farei na narrativa, amiga Berta, ao abordar todos os outros pensadores que, por este ou aquele motivo, me ajudaram a criar esta minha consciência afinista e solidária, mas também individual, criativa e livre.

Amanhã começarei a carta com a apresentação do segundo dos pensadores. Inacreditavelmente, trata-se de alguém nascido no meu ano de nascimento, em 1961. Mas deixemos o assunto para o seu devido tempo e lugar. Afinal, vou falar dele por algumas, talvez bastantes, linhas.

Por hoje, despeço-me com um beijo natural, daqueles que se dá por carinho e amizade. Porque os amigos são parte integrante de quem somos enquanto seres sociais, sabes que podes sempre contar com este velho parceiro dos tempos da irreverência, que sente, e muito, a falta da tua presença física, mas que jamais te esquece,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência: 1) Zygmunt Bauman

(continuação - III - 3)

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Olá Berta,

Sei que não sou pessoa que normalmente se ponha, nem muito nem pouco, a filosofar. Apesar desse pequeno grande detalhe adoro filosofia e teorias sobre o pensamento. Porém, é mais um hobby meu do que uma coisa para partilhar com terceiros. Foi aliás o meu gosto pelo pensamento humano que me levou a passar 3 anos e meio no curso de Filosofia.

Esses, pois tenho também de incluir o de Estudos Portugueses, foram os 2 únicos cursos que tive pena de não ter chegado ao fim. Não na altura, em que me apoiei perfeitamente nas minhas decisões, mas mais tarde, alguns bons anos depois.

Psicologia Clínica e História foram formações relevantes, todavia, nem hoje as terminaria se pudesse. Quanto a direito nunca fiz estágio nem, consequentemente, me inscrevi na ordem. Simplesmente detestei o curso, salvou-se, apesar de tudo, esse tempo vivido em Coimbra, graças à convivência universitária e ao meu crescimento pessoal enquanto individuo e ser humano com ideias próprias.

Já o jornalismo foi a minha profissão de eleição. Comecei aos 18 e  15 anos depois lá consegui a carteira profissional de jornalista através da pressão exercida pelo meu editor de então, embora com uns meses largos de atraso, graças ao tolo do meu diretor dessa altura, nos idos de 1996. Tolo porque achava que se me pedisse a carteira me teria de pagar mais do que até então pagava.

Portanto, já lá vão 40 anos de atividade e 25 enquanto detentor de uma carteira profissional. Nem a atividade paralela de funcionário aduaneiro durante 12 anos, nem mesmo os 16 anos de gestor de empresas, se comparam no tempo e na preferência ao meu amor pela profissão de jornalista.

Uma verdadeira paixão, principalmente, no que concerne aqueles fabulosos anos em que me dediquei de corpo e alma à investigação, mesmo com as ameaças de morte que os jornais onde trabalhei receberam, em meu nome, por força da publicação de certas verdades. Se bem me lembro foram 22. Um número bonito que ainda hoje me faz sorrir.

Contudo, a formação privada que tive, com 2 grandes mestres, em artes plásticas e, por outro lado, a escrita e a poesia, com o imenso apoio da minha mãe, formada em Românicas, foram os pilares fundamentais da constituição da minha consciência emocional e sensitiva. Disso não tenho a menor dúvida.

Desculpa se me alonguei em divagações, porém queria que entendesses o meu interesse pelo universo das ideias e do pensamento e porque tenho, como referências um certo número de pensadores contemporâneos. Mas vamos ao Diário:

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III

Conversas com a Consciência

(continuação – III – 3)

Março, dia 30:

Apontamentos sobre quem pensa. Os Últimos 9 Grandes Pensadores da Humanidade (segundo eu):

Não me parece relevante, no âmbito destas minhas notas, estar aqui a explanar todo o pensamento, atividade, teorias e suas aplicações, no que a cada um dos pensadores diz respeito, nem mesmo apresentar qualquer defesa relativamente às ideias de cada um. Isso poderá ser um trabalho para quem quiser ir mais longe no conhecimento da obra e nos contributos desta minha seleção de sábios para a humanidade e para o pensamento, dos últimos 120 anos. Basta-me referir porque os considero fundamentais, importantes e influenciadores do meu existir.

Março, dia 31:

Para os intelectuais as minhas escolhas podem vir a parecer estranhas ou inaceitáveis. Aliás, quem lidera as instituições ligadas ao conhecimento, à matemática, à ciência, à tecnologia e, consequentemente, à filosofia e ao pensamento, paradoxalmente, é muito conservador no que se refere à aceitação de novos paradigmas ou valores que possam pôr em causa o status quo pré-estabelecido. A história é farta em demonstrar a imensa dimensão deste fenómeno com o decorrer das eras e dos séculos.

Abril, dia 1:

1) Zygmunt Bauman (19/11/1925 a 09/01/2017) –Sociólogo, pensador:

Bauman, foi inicialmente um marxista ortodoxo, com ideias estalinistas, de origem judaica, não praticante, ateu, educado na Polónia, sob forte influência da URSS. Teve uma curta carreira militar. Integrou os quadros da inteligência polaca aos 19 anos e atingiu o posto de major oito anos mais tarde, no entretanto, lecionou como professor universitário em Varsóvia.

Abril, dia 2:

Em 1968, Bauman, foi expulso do seu país, por críticas ao governo comunista polaco. Por esse facto viajou para Israel, onde agarrou o ensino universitário e passou a lecionar na universidade de Telavive (ou Tel Aviv), onde se manteve até 1971. Foi nesse ano formalmente convidado pelos britânicos para se instalar em Leeds. Zygmunt não terá hesitado muito na decisão e mudou de vez, definitiva e convictamente, para terras de Sua Majestade.

Abril, dia 3:

 Uma vez instalado no Reino Unido, iniciou o leccionamento na universidade de Leeds. Cedo se tornou cidadão britânico. Foi por essa altura que começou, metodicamente, a adaptar as suas ideias à realidade. Rapidamente se tornou um defensor de um conceito em tudo inovador: o socialismo de cariz humanista, que o guiaria pelo resto da vida, até à sua morte, com 91 anos, em 2017. Bauman publicou cerca de 35 livros até 1999 e mais do que isso entre 2000 e 2017. Há quem o considere um fenómeno, um autêntico génio, no que à capacidade de racionalizar o meio diz respeito.

Abril, dia 4:

Contudo, independentemente de já ter muita obra publicada entre os 27 anos e os 46 anos, a sua visibilidade e fama têm as fundações com a mudança para terras britânicas. Na realidade, a sua notoriedade fortalece-se, com espetacular evidência, a partir de 1989, já com a bonita idade de 64 anos, quando começa a debruçar-se sobre a problemática da modernidade, do pós-modernismo e dos possíveis rumos a tomar daí em diante.

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Devido à minha longa introdução, não consegui terminar, sem me alongar demasiadamente, a apresentação de Zygmunt Bauman. Terá de ficar para amanhã. Despeço-me com um beijo e uma piscadela de olho, feliz por ter sabido que estás muito morena pela praia que tens feito, querida Berta, sempre ao teu serviço,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência

(continuação - III - 2)

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(Faculdade de Letras da Universidade do Porto)   

Olá Berta,

Cá estou eu, sempre cumpridor, na medida do possível, com mais uma cartinha para a minha amiga. Posso garantir que esta minha promessa de durante o teu primeiro ano de ausência te enviar regularmente, a cada dia, uma carta, nem sempre é fácil de cumprir. Apesar de tudo, e mesmo contra alguns imprevistos, tenho conseguido manter a palavra. Mesmo quando te enviei mais do que uma carta no mesmo dia para repor outras em falha de dias anteriores. Juro que tenho feito tudo o que me é possível. Agrada-me imenso todo o apoio que me tens dado. Fica aqui o registo porque, muitas vezes, me esqueço de agradecer devidamente a atenção a mim dedicada, mas sinto-a.

Ah! Com que então achas que interrompi, ontem, propositadamente o Diário Secreto do Senhor da Bruma. Garanto que foi pura coincidência. Era incapaz de magicar propositadamente uma maldade dessas. Tu não mereces esse tipo de atitudes, nem que seja a brincar. Todavia, ter continuado iria alongar bastante a carta e tornava-se maçador. Contudo, se isso te deixou em suspense é porque te agradou e isso é muito bom, me ajudando a prosseguir motivado por te saber atenta e agradada com o que vais lendo. Assim, sem mais demoras, continuando:

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III

Conversas com a Consciência

(continuação - III - 2)

Março, dia 26:

O crápula do lente a que me refiro, adorava mostrar que acreditava na supremacia ariana, ora, embora isso me desagradasse, eram apenas as ideias parvas do fulano e eu nem ligava. O problema surgiu quando resolveu humilhar, em plena aula, um aluno negro, de origem cabo-verdiana, que conseguira acesso universitário com os 17 anos acabados de fazer, ou seja, quase 2 anos adiantado à média de idades dos outros, já na casa dos 19, tudo devido à mente brilhante que possuía. O jovem não aguentou a humilhação e começou a chorar.

Março, dia 27:

Ora, eu, que na altura teria uns 26 anos, acabado de chegar ao Porto para trabalhar, depois de 6 anos de Faculdade de Direito, em Coimbra, levantei-me em defesa do rapaz, falando alto, afirmando que aquela atitude era inadmissível. O anormal do catedrático, de olhar esbugalhado, fez o gesto de levantar a mão, como quem me ia agredir, e foi esse o erro. Quando dei conta já lhe desferira 2 sopapos, de punho fechado, no respetivo trombil, enquanto, em simultâneo, o ameaçava de, com a turma inteira a reboque. apresentar queixa dele na reitoria, caso o sujeito me quisesse expulsar. Nunca fez nada, mas eu perdi o gosto pelo curso e saí. Porém, somente depois do Fabiano, assim se chamava o rapaz, concluir, com aproveitamento, a cadeira em causa e se ver livre da idiota verborreia do docente.

Março, dia 28:

No ano seguinte acabei por mudar dentro da Universidade de Letras do curso de Filosofia para o de História, onde estive mais uns 3 anos e meio, enquanto o curso me foi útil e aliciante. Contudo, a atividade de jornalista, iniciada aos 18 anos, na imprensa algarvia e a carreira profissional na Alfândega, mais o nascimento da primeira descendente, acabariam por determinar as opções que me fizeram sair, por mais de um ano da universidade. Haveria de regressar, primeiro para o Curso de Estudos Portugueses na Universidade do Algarve e, logo depois, no polo universitário de Loulé, para o curso de Psicologia Clínica. Ao todo, passei uns bons 18 anos em diferentes Universidades e Faculdades, entre Coimbra, Porto e Algarve. Foi nesse tempo que elegi os 9 filósofos que mais me influenciaram.

Março, dia 29:

Estou a referir-me, apenas e só, àqueles que são, para mim, os 9 pensadores mais importantes dos últimos 120 anos. A importância dos anteriores a eles, não deixa de ser crucial, mas apenas serviu de base, de alicerce, á minha escolha final, mais centrada no contemporâneo das ideias, no que ao pensamento humano moderno diz respeito. Tivesse eu nascido noutras eras e, certamente, as opções seriam totalmente diferentes. O evoluir da filosofia acompanha o avanço das ideias, da tecnologia, do progresso e consequentemente as respetivas mudanças sociais e humanas em que, em cada fase, nos vamos sentindo mais enquadrados.

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Por hoje é tudo, amiga Berta, espero que o meu Diário Secreto seja mesmo do teu agrado. Gosto de te ver interessada e adoro saber que existe alguém que me lê sem ser por qualquer favor. Desabafos. Porém, tu sabes que eu sou mesmo assim, melindro-me com as pequenas coisas se não as sinto sinceras.

Posso não ter o melhor dos feitios, mas também não me tenho em má consideração em termos gerais. Lá está, preciso de agir de acordo com a minha consciência e a malandra acaba por ser determinante em todos os meus comportamentos e atitudes.

Por hoje é tudo, espero ter-te proporcionado mais um bom momento de leitura. Pelo menos já sabes algo mais sobre mim. Despeço-me com um beijo de alegria e desejo de bons banhos de mar, este teu amigo com quem sempre podes contar,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - III - Conversas com a Consciência

(início - III - 1)

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Olá Berta,

Vou entrar hoje no campo da minha consciência. É verdade, é mais um capítulo do Diário Secreto do Senhor da Bruma. O terceiro em que me dedico a 2 temas que me são queridos: a minha consciência e os pensadores que a ajudaram a moldar. Ao fim e ao cabo, é apenas um só tema, tem é essas 2 partes distintas.

Todavia, como é evidente, o meio onde cresci influenciou a minha forma de pensar, sentir, agir e reagir. Dentro desse ambiente o principal fator de influência foi, sem dúvida alguma, a família, com destaque evidente para os meus pais. Tudo ajuda a formar a nossa consciência, genes, meio e ensino e foi a formação e a minha absurda imaginação que contribuíram para uma educação mais diversificada e abrangente do que seria expetável. Contudo, importa é realmente entrar nesse capítulo e acompanhar aquilo a que eu pomposamente chamo de minha consciência. É aqui que entra o terceiro capítulo do diário:

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III

Conversas com a Consciência

(início - III - 1)

Março, dia 21:

As Conversas com a Consciência são parte integrante de mim. A importância e absoluta relevância na minha vida, da consciência, deve-se principalmente ao facto de eu não ter aquilo que, normalmente, se considera uma fé ou, mais especificamente, uma religião. Tecnicamente serei um ateu, que acredita em coisas, que a ciência ainda não explicou devidamente ou para as quais ainda nem sequer tem qualquer tipo de abordagem séria. Por outras palavras eu tenho uma faceta mística, mas não procuro catalogá-la ou dar-lhe um nome de modo a que possa ser considerada transcendente ou divina.

Março, dia 22:

Porém, embora lhe reconheça importância na formação do ser humano, a falta dessa vertente de espiritualidade religiosa é, no meu caso concreto, substituída pela minha consciência, com a qual eu preciso de estar permanentemente em paz. É nela que encontro a distinção entre bem e mal, certo e errado, limites e fronteiras de procedimentos e comportamentos. No seu seio balizo os valores e os princípios que considero relevantes, bem como foi em torno dela que construi a minha personalidade.

Março, dia 23:

Esta noção clara da consciência permite-me ter uma orientação segura em toda a minha existência. Se alguma coisa foge à alçada dela então é algo que não me interessa e que eu evitarei a todo custo praticar. Muitas vezes o que é lei no meu país, ou noutros se for o caso de me encontrar deslocado, em pouco corresponde ao que eu considero certo, correto e aceitável. O mesmo se passa nos campos das principais religiões, de algumas filosofias e da moral ou dos chamados bons costumes. Em resumo, embora tente viver de acordo com as normas da sociedade onde estou integrado o que, em última análise, rege a minha vida é aquilo que faço dentro do que é aceite e considerado correto pela minha consciência.

Março, dia 24:

Para além da consciência existe um conceito filosófico que eu criei para explicar toda a história e comportamento da humanidade. Chamei-lhe de “Afinismo”. As pessoas crescem, evoluem e atuam de acordo com os laços e preferências que cada uma delas desenvolve no seio da sociedade onde vive. As escolhas políticas, religiosas, sociais e muitas outras como as clubísticas ou cultuais, definem com quem convivemos, por onde vamos, o que queremos, fazemos ou desejamos. No meu caso este “Afinismo Cognitivo e Mítico” é o molde perfeito da minha consciência.

Março, dia 25:

Sou tão influenciável como qualquer outro cidadão. Tento, muitas vezes, filtrar algumas influências, mas nem sempre escapo aos “afinismos” evidentes do meu quotidiano, afinal, mesmo pensando como penso, não deixo de ser um ser social. Durante mais de 3 anos frequentei a Faculdade de Letras, curso de Filosofia, da Universidade do Porto. Não acabei esse curso porque estava ali por prazer e não para aturar um ou outro professor mentecapto que julgava que ser professor universitário lhe dá o direito de rebaixar os seus pupilos. O caso que me levou a sair nem foi comigo, todavia, os sopapos no docente fui eu que os distribui. Coisas da minha consciência, fazer o quê? Na altura, sendo o aluno mais velho do curso, aprendia, enquanto trabalhava na sede da Alfândega do Porto como funcionário aduaneiro, a importância da filosofia para a humanidade, como “hobby”.

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Esta história tem continuidade amanhã e tu, minha querida amiga Berta, terás de esperar um dia para saberes como termina. Não penses que estou a fazer de propósito ou a deixar deliberadamente o suspense no ar. Nada disso. O problema é que já vou adiantado por hoje, e em demasia, nesta nossa carta diária.

Não posso abusar da narrativa ou arrisco a perder-te enquanto leitora, coisa que tentarei evitar a todo o custo. As nossas conversas funcionam como um escape maravilhoso para a minha estabilidade e bem-estar geral. Sem ti, e isso é fundamental para mim, estaria a falar com o espelho, com o problema deste ser silencioso em demasia.

Espero que aproveites o calor para poderes fazer uma excelente praia. Hoje e amanhã o verão promete não desiludir ninguém que dele goste. Despeço-me com um beijo repleto de saudade, este teu amigo, sempre ao dispor para o que der e vier,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - II - Abordagens Sobre a Burrice (fim - II - 8)

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Olá Berta,

Termino hoje o segundo capítulo e as abordagens sobre a burrice do Diário Secreto do Senhor da Bruma. Para que o entendimento do tema seja global, juntei todos os provérbios que encontrei sobre o tema, aos quais, perdoem-me os puristas dos ditos populares, anexei mais 15 de minha autoria que, julgo eu, não envergonham os originais prenúncios da sabedoria popular. Contudo, não serei eu a julgar em causa própria, um dia, quem sabe alguém opinará de forma certamente mais esclarecida.

Todavia, mesmo antes de entrar no novo capítulo, aviso já que provavelmente não será um tema muito do teu agrado. Penso que pouca gente gosta de filosofia e o terceiro capítulo será integralmente preenchido com os meus 9 filósofos de eleição, desde o início do século XX aos nossos dias. Mas para já regressemos à burrice:

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II

Abordagens sobre a Burrice (fim - II - 8)

Março, dia 16:

Nos provérbios sobre asnos e burrice, muitos há que não carecem de qualquer explicação. Exemplificando: Às vezes não se respeita o burro, mas a argola a que ele está amarrado. / Quem não pode, aluga um burro. / Jumento e padre com manha, são poços de artimanha ou, noutra versão, Jumento e filho de padre são poços de manha. / Mulo ou mula, asno ou burra, rocim nunca. / Burro e carroceiro nunca estão de acordo. / Amarre o burro à moda do dono. / Jumento não topa duas vezes na mesma. / Burro (ou burro velho) não amansa, acostuma. / Burro mau, indo para casa, corre sem pau. / O burro adiante para que não se espante. / Burro que geme, carga não teme. / Burro velho não toma andadura e se toma pouco dura. / Burro velho, albarda nova. / A burra velha, cilha nova / Criado que faz o seu dever, orelhas de burro deve ter.

Março, dia 17:

Os ditos populares são igualmente ótimos justificativos de atitudes e procedimentos. Escolhi alguns exemplos disso: Em janeiro todo o burro é sendeiro. / O burro gosta de ouvir seus zurros. / O burro sempre vai na frente. / É batendo na cangalha que o burro entende. / Quem gaba o noivo é o burro do sogro. / Quem o asno gaba, tal filho lhe nasça. / A burra de vilão, mula é no verão. / O burro se amarra é no rabo do dono. / Asno tonto arrieiro louco. / Com palha e milho se leva o burro ao trilho. / Burro de carga é que aguenta tranco. / Burro que muito zurra, pede cabresto. / Não é mel para a boca do asno. / Olhar como um burro para um palácio. / Em maio deixa a mosca o boi e toma o asno. / Cada asno com seu igual. / Quando o burro é jeitoso, qualquer albarda lhe fica bem. / Quem não aguenta trote não monta burro.

Março, dia 18:

Por outro lado, existem outros provérbios sobre a burrice que usam comparações com outros animais, principalmente com o cavalo, ou que se servem de uma mesma temática para enfatizar a burrice. São exemplos disso: A gente, queira ou não queira, tem de ir de burro à feira. / Queira ou não queira, o burro há de ir à feira. / Não é por grandes orelhas que o burro vai à feira. / Burro em cada feira vale menos. / O boi conhece o dono e o jumento a manjedoura. / A gente não deve ficar adiante do boi, nem atrás do burro, nem perto da mulher: nunca dá certo. / Cavalo grande, besta de pau. / Burro grande, cavalo de pau. / Antes bom burro que ruim cavalo. / Filho de burro não pode ser cavalo. / Andar de cavalo para burro. / Aonde vai o burro vai a cangalha. / Quem come carne na véspera de Natal, ou é burro ou animal. Asno de muitos, lobos o comem. / Com a morte do asno não perde o lobo. / Todo o burro come palha, é preciso é saber dar-lha.

Março, dia 19:

Não se pode deixar para trás os ditados que se apresentam como detentores de uma lógica evidente e bem popular. Encontrei vários exemplos desse género: A paixão torna o homem cego, surdo e burro. / Todo o malandro é um burro de sorte. / O burro come da carga que leva. / Asno contente vive eternamente. / Coice não é privilégio do burro. / Burro bravo dá coice até no vento. / Palavra de burro é coice. / O burro acredita em tudo o que lhe dizem. / Burro velho não acerta com a encruzilhada. / Amor de asno é coice e dentada. / Um olho no burro, outro no cigano. / Dar com os burros na água. / Burro com fome, cardos come. / Burro onde encosta, mija. / Cor de burro quando foge. / Temos a burra nas couves. / Quem tem burro e anda a pé, ainda mais burro é. / Vozes (ou zurros) de burro não chegam aos céus. / Se o burro soubesse a força que tem não puxava arado. / Besta é quem serve de escada para os outros subirem. / Se ferradura desse sorte, burro não puxava carroça. / Para trás mija a burra.

Março, dia 20:

Os provérbios sobre a burrice, pelo Senhor da Bruma:

Depois de tantos provérbios, acabando por me sentir inspirado, achei por bem tentar criar uns ditos que bem poderiam ser tão populares como alguns dos que tenho vindo a referir. Assim, dando largas à inovação, apresento as minhas modestas propostas para novas expressões: “Maçonaria e fanatismo dão força aos burros e chamam-lhe populismo.” / “Sua grande besta não é insulto é perdão.” / “Burro é o político que festeja na sondagem.” / “Amarrar o burro com corda de palha não é asneira é burrice.” / “Burro de cigano não compra cigarros.” / “Ao roubar o seu banco burro é o banqueiro se não souber esconder o dinheiro” / “Não é burro quem quer, tem de merecê-lo primeiro.” / “Burro que gira na nora detesta sogra.” / “O cúmulo da burrice é uma besta quadrada a andar em círculos julgando que chega a lugar algum.” / “Burro, não sendo boi, no espelho não vê cornos.” / “Burra infiel come mais do que um farnel” / “Masoquista é um burro que se acha inteligente.” / “Burro confinado não trota, ganha entorses.” / “Vírus de burro não zurra.” / “Toda a pandemia é louca se as bestas andam à solta.”.

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Achei divertidíssimo criar os 15 ditados anteriores. Deparei-me com as mesmas dificuldades com que os criadores de ditos se confrontam, ou seja, exprimir numa única frase todo o conteúdo de uma ideia. Ora, se já é difícil gerar uma quadra, estilo Aleixo, pelo poder de síntese a que obriga, reduzir isso a uma única expressão é totalmente de doidos. Todavia, bem ou mal, lá fiz as minhas versões.

Por hoje é tudo, amiga, recebe um beijo de despedida do eterno amigalhaço,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - IV - Eu e o Os Outros - IV-1

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Olá Berta,

Aqui vai a minha carta do dia, uma parte integrante do Diário Secreto do Senhor da Bruma. No final da mesma explico alguns dos porquês de seguir hoje.

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IV

Eu e os Outros (início - IV – 1)

 Aqui estou eu, com um sorriso nos lábios, no sábado de 11 de julho de 2020, um dia de Sol, pese embora eu ainda esteja obrigado a esta coisa a que atualmente chamamos, eufemisticamente, de confinamento.

Contudo, podia ser pior, bem pior. Podia estar infetado, poderia ter nascido no Brasil e estar a ser governado por um narciso mentecapto que não protege o povo que o elegeu, podia ter vindo ao mundo na Florida, e ter de tentar sobreviver num país “Hiper Infetado”, governado por uma cenoura para quem a palavra é sinónimo de autoelogio e a igualdade de género é um conceito abstrato.

 Podia ter sido holandês, norueguês, finlandês, dinamarquês e manter o instinto de viking, pirata, avarento e sem conhecimento do significado das palavras fraternidade e solidariedade.

 Poderia ser natural do Bangladesh e, por esta altura, já se teria certamente realizado o meu serviço fúnebre devido à escassez de recursos de saúde para a generalidade da população, o que teria antecipado em muito a minha partida deste mundo.

Ah! Nada tenho contra estes países. Não sou xenófobo, racista nem homofóbico. Apenas gosto de ser o que sou.

Poderia, e agradeço aos céus isso não ter acontecido, ter sido dado à luz na Coreia do Norte e estar a viver um século XXI como se estivesse no tempo da Inquisição ou pior até.

Por isso o sorriso. Faz Sol, sou português, vivo num país lindo, cheio de emoções, com gente maravilhosa e solidária em meu redor, num bairro que adoro e na cidade que me viu nascer.

Aqui e ali aparecem uns malandros, uns corruptos, uns incompetentes, uns oportunistas, uns vigaristas e alguns seres malformados. É verdade, mas aparecem aqui, como em toda a parte onde existam seres humanos. Por melhor que uma sociedade possa ser, haverá sempre um resíduo sujo e obscuro que resiste, tipo vírus, à normalidade da restante população.

Ao contrário de muitos não me envergonho da nossa era das descobertas e navegação marítima com que, em conjunto com os nossos “hermanos”, demos novos mundos ao mundo. Não me envergonho da colonização, da expansão marítima portuguesa, nem sequer do tratamento que demos aos povos de todos os locais por onde fomos passando nesses tempos.

Todavia, não me envergonho por saber contextualizar a época conjuntamente com os acontecimentos, pois importa realmente conhecer como eram as mentalidades no mundo ocidental, quando as coisas tiveram o seu lugar, na história da humanidade.

Aliás, pelo contrário, tenho orgulho de Portugal enquanto povo, enquanto nação, enquanto gente. Fizemos asneiras?

Claro que sim, várias! Muitas e repetidas vezes em quase 900 anos de história. Só a título de exemplo preferia que tivéssemos realizado uma descolonização mais atempada, mais bem planeada e principalmente melhor entregue aos povos de cada região ou futuro país. Como adoraria que nunca tivéssemos assinado a aliança com a Grã-Bretanha que só serviu e serve, desde o seu início, os intentos dos anglo-saxónicos e não os nossos. Mas isso faz tão parte de nós como tudo aquilo que construímos de bem.

O português e o castelhano juntos são, depois do mandarim, as línguas mais faladas do mundo, ultrapassando o conjunto dos que falam inglês e francês. Isso traduz, melhor que qualquer outra coisa, a diferença que fizemos na história dos povos, fosse para o mal, talvez, em alguns casos, mas principalmente para o bem. Por nossa influência direta vivemos num mundo bem melhor daquele que poderia ser este século XXI sem a existência da Península Ibérica e disso eu não tenho a menor dúvida.

Por isso o meu sorriso nos lábios. Sou, por natureza, um otimista. Tivesse nascido noutro lugar ou noutra época e já poderia ter conhecido o dia da minha morte por 4 vezes.

Porém, ainda cá ando, de sorriso franco, rindo para a vida que a vida me dá. Podia estar melhor? Claro que podia. Aliás, encontro mil e uma maneiras de descrever como isso eventualmente aconteceria e que fatores contribuiriam para essa melhoria.

Para além do tradicional Euromilhões, a maneira mais simples de dar o salto em termos de nível de vida, a mim bastavam algumas coisas bem mais simples. Por exemplo, ser pago por escrever e ter uma editora que acreditasse em mim e editasse aquilo que escrevo. Ser pago por uma atividade que desenvolvo bem, e acima dos padrões médios da generalidade das pessoas, é algo que parece uma ambição normalíssima de alguém como eu. Existe ainda o fator saúde que se fosse melhor do que é, neste momento, também contribuiria sobremaneira para o meu bem-estar geral. Tudo isso seriam coisas boas.

Contudo, apesar de nem sempre se ter tudo aquilo que se almeja, continuo a considerar que tenho bons motivos para sorrir e estar feliz. Superei as asneiras, as drogas e os vícios no final de uma adolescência rebelde, ultrapassei os traumas de um petardo militar que me colocou 6 meses de coma, superei, por 2 vezes, 2 situações de cancro, resisti à falência e ao roubo dos negócios onde estive envolvido no passado por parte de sócios e terceiros, evitei por 2 vezes morrer de septicemia e fui tratado atempadamente, coisa que efetivamente poderia ter conhecido outro final.

Sobrevivi a vários assaltos que poderiam ter ditado a minha despedida deste mundo, resisti, até hoje a situações problemáticas de saúde e a outras de desemprego de longa duração. Podem até alguns dizer: “- Ena pá, tanta desgraça!”, mas estão enganados, houve, há e haverá gente com muito menos sorte do que eu.

Tudo o que refiro se resume nos azares de um homem de sorte. Sorte por estar vivo, sorte por ser feliz, sorte por ser um otimista, sorte por ser um romântico sentimental e por saber descrever aquilo que sinto em palavras de prosa ou poesia. Sorte que me leva a sorrir, sempre e todos os dias quando acordo e dou por mim a pensar que ainda aqui estou. Contente, alegre, satisfeito e feliz. Apenas eu, só eu e nada mais do que eu.

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Com isto me despeço de ti, amiga Berta, e não leves a mal o desabafo, porque ele me lava a alma, me higieniza o estro e me clarifica a essência e o existir. Recebe um beijo deste teu amigo, sempre à tua disposição,

Gil Saraiva

Nota: Este desabafo faz parte do início do Capítulo IV do Diário Secreto do Senhor da Bruma. Omiti os dias a que o texto corresponde por estar desfasado no tempo, face ao que te estou a enviar atualmente. Contudo, atempadamente, colocarei os dias, e retirarei esta nota do registo em blog onde guardo as cartas que te escrevo.

 

 

 

Carta à Berta: DGS - Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - II - Abordagens Sobre a Burrice (continuação - II - 7)

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Olá Berta,

Hoje apetece-me desabafar. Tu sabes que eu sou jornalista há várias dezenas de anos. Isto para te dizer, minha querida amiga, que é difícil convencerem-me a aceitar tapar o Sol com a peneira, como se tudo estivesse bem e fosse normal. Efetivamente assim não é.

Este meu desabafo vai ocupar um pouco mais esta carta e, por isso mesmo, peço desculpa por deixar menos espaço do que o costume ao Diário Secreto do Senhor da Bruma. Com efeito assim será nos próximos dias. Depois de deitar cá para fora o que me vai na alma, fica descansada que retomarei a normal publicação do diário.

Deves estar-te a perguntar sobre que tema é que eu sinto necessidade de dizer algo. Pois bem, Berta, estou a falar da transparência. A famosa regra de verdade do Ministério da Saúde e da Direção Geral de Saúde é uma total fraude, quer o Presidente da República ou o Primeiro-Ministro digam o inverso, quer não.

O que se passa é que a DGS anda, desde o primeiro momento, a esconder os factos à população geral. Tratando-se de uma pandemia, a importância da presença dos médicos e dos organismos de saúde pública deveria ser primordial. Contudo, quando observamos os apoios reforçados pelo orçamento retificativo ao setor da saúde pública a realidade não chega sequer ao milhão de euros.

Contrariamente outros setores foram reforçados na ordem das dezenas de milhões. Mas o que é que isto significa na prática? Significa que continuará a ser deficiente em larga escala o reforço do pessoal encarregado de fazer o mapeamento das cadeias de rastreamento dos contaminados, quanto a novos focos e às suas possíveis ramificações na sociedade.

Mas há mais. Porque é que o povo, toda a população, não tem acesso aos dados por freguesia se os mesmos estão acessíveis na DGS? Eu sou tentado a apostar que a razão tem a ver com a manipulação da informação. Repara que só hoje, depois dos protestos de várias autarquias, foi feito um novo acerto global ao número de mortos e dos contaminados em Portugal. Pedimos prudência aos cidadãos, mas não os informamos com clareza como vão os casos na sua própria freguesia de residência, como defendem os especialistas de saúde pública.

Marta Temido, Graça Morais, Jamila Madeira são apenas 3 dos rostos da dissimulação na DGS e no Ministério da Saúde. Atualmente deixaram de se revelar o número de testes feitos ao dia. Revelam-nos uma ou duas vezes por semana, continuamos sem saber como a pandemia se desenvolve na nossa porta, não nos explicam, nem assumem, o fracasso total das medidas de desconfinamento, nem sequer nos dizem porque falhou o rastreamento dos novos focos. Globalmente a transparência só existe nas palavras.

Esperemos que este setor endireite rapidamente as políticas que tem vindo a seguir e que corrija, a tempo, os erros do passado de uma vez por todas. O que se passou até aqui já não importa mais. Como se diz no diário que tenho vindo a revelar-te, minha amiga, para trás mija a burra. Importa é que realmente se chegue a uma política de verdade. Desabafo feito, regressemos à análise da burrice:

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II

Abordagens sobre a Burrice (continuação - II - 7)

Março, dia 13:

Mas há outras explicações dentro do largo espetro da aprendizagem, inteligência e sabedoria dos asnos. Analisemos mais uns quantos destes provérbios de 4 patas, relativos ao tema. Mais vale burro vivo do que sábio (ou letrado) morto, ou seja, o animal prefere não saber, ou fazer de conta que não sabe, e, com isso, sobreviver, inversamente a correr riscos por mostrar que até sabe umas coisas, o mesmo explica o dito: antes burro vivo que doutor morto. Pondo a conversa no domínio dos humanos é o mesmo que dizer: mulher sem emprego, do marido não conhece amantes, ou seja, bem-aventurados sejam os que passam por pobres de espírito, que é a velha máxima da igreja levada a um outro nível.

Março, dia 14:

Já o ditado: burro velho, mais vale matá-lo que ensiná-lo, parece significar que não vale a pena ensinar um animal depois de este já ter os hábitos formados. Enquanto, este outro: o burro do meu vizinho só sabe o que lhe ensino, o que diz bem da manha do jumento em seu proveito próprio. Porém, burro carregado de livros é um doutor, explica como se pode tentar viver de aparências para subir de estrato social. Contudo, há quem refira que este provérbio é dedicado a Miguel Relvas e à sua formação académica, certamente um boato infundado que nada tem a ver com o dito cujo ou com qualquer outro lambe-botas da política, tipo aquele fulano que tornou o queijo limiano conhecido de todos os portugueses.

Março, dia 15:

 Burro calado, sabido é (ou por sábio é contado), é algo bem mais profundo, trata-se da velha máxima do segredo ser a alma do negócio, umas vezes, ou, em outras, o silêncio ser de ouro, enquanto a palavra é de prata apenas. O caso de Tancos e o que Ministro da Defesa, à época, sabia ou não sabia sobre a manhosa devolução das armas é disso bom exemplo. Todavia a expressão burro velho não aprende (ou não aprende línguas), aponta outros caminhos. Veja-se o caso humano passado com Cavaco Silva, o homem viveu os seus 20 anos de poder rodeado de corruptos, malandros, ladrões e vigaristas, contudo, apesar disso, já não estava em idade de aprender os ofícios, pelo menos a crer na sua própria palavra. Já a citação: burro que a Roma vá, burro volta de lá é o mesmo que dizer que ver o papa não torna ninguém santo, muito menos se estivermos a falar de Pinto da Costa, pois que, apesar de tudo o burro não é tão burro como se pensa.

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Por hoje, minha querida amiga, fico-me por aqui. Espero que estejas bem agora que entraste em férias e estás no local ideal para as aproveitar bem. O Algarve é um excelente local para se estar no verão. Despeço-me com um beijo amigo, este que está aqui para o que der e vier,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - II - Abordagens Sobre a Burrice (continuação - II - 6)

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Olá Berta,

Este capítulo sobre a burrice do Diário Secreto do Senhor da Bruma era, pensava eu, para ser algo mais curto do que o capítulo anterior, contudo, perante a realidade, começa é a ser difícil descrever tanta burrice que, entretanto, encontro por todo o lado. Só frases, expressões, ditados e outras verborreias sobre burros e burrices são às paletes. De longe, sem qualquer dúvida, muito mais do que aquilo que eu imaginava. Finalmente, quando penso que estou a terminar, lá aparece mais uma, depois outra e mais outra, enfim…

Todavia, não pretendo esgotar o tema, nem acho que mesmo que quisesse o conseguiria fazer. Porém, já que comecei, pelo menos as expressões mais usadas no nosso falar quotidiano pretendo deixar aqui registadas. Pode ser que tu, minha amiga te lembres de mais, não tem mal, por esta amostra já fica uma ideia. Mas vamos ao assunto, que se faz tarde:

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II

Abordagens sobre a Burrice (continuação - II - 6)

Março, dia 8:

Mais uma vez este burro figurativo, que aqui representa quem trabalha, vem em defesa dos direitos dos trabalhadores dedicados, erradamente apelidados pelo patronato de burros. O próprio provérbio é disso prova. O povo pode estar calado, mas tem a perfeita noção da sonegação dos seus legítimos direitos. A necessidade de ter de trabalhar, consoante os conhecimentos e as profissões que se conseguem, não confere a quem o faz o estatuto de burro. Pelo menos não o deveria conferir. Classificá-lo como tal é não apenas um ato de puro xenofobismo laboral, como um comportamento fascista perante o trabalho de um patronato sem valores.

Março, dia 9:

Os trabalhadores podem ser apelidados de jumentos, mas a verdadeira “jumentude” encontra-se nas classes superiores sempre preocupadas em esmifrar os animais, quer isto lhes agrade quer não. Por exemplo o tal de Ventura que já aqui referi, diz que pretende uma polícia forte para proteger e dar segurança ao povo, mas, se alguém tiver o azar de olhar para debaixo do tapete são os dólares e os euros dos mandantes quem realmente esfrega as mãos de satisfação. Todavia, às vezes, tramam-se porque o povo junta umas ortigas ao capital.

Março, dia 10:

Aprendizagem, inteligência e sabedoria nos provérbios sobre o equídeo:

No ditado “quando um burro fala (ou zurra, dependendo da versão), os outros abaixam as orelhas” embora o entendimento seja imediato quanto ao sentido, depois, ao olharmos cuidadosamente para as palavras, a coisa fica mais confusa. Não é burrice os burros que escutam baixarem as orelhas? Não as deviam empinar para escutarem o homónimo? Será que eu sempre entendi o dito inversamente ao seu sentido? Afinal, o que um burro diz não deve ser escutado?

Março, dia 11:

Fica a reflexão, pois não me parece que exista uma solução fácil para tão profundo paradoxo. Alguns comentadores entendem que provavelmente o cavalicoque (outro sinónimo de asno que, entretanto, descobri) profere apenas asneiras o que obriga as outras pilecas (mais um sinónimo desencantado) a baixar as orelhas para evitar escutarem. É do conhecimento corrente que o último asno que tentou tapar as orelhas com os cascos posteriores acabou por terra com o monumental tombo que, por via do exercício, quase lhe foi fatal.

Março, dia 12:

No entanto, provavelmente, se quando um burro fala os outros baixam as orelhas, também pode ser por incredulidade dos outros jericos, afinal o burro costuma apenas pensar e não é muito dado a falatório, basta lembrar o provérbio “a pensar morreu um burro” (ou “a julgar”, segundo algumas fontes). O que pode não indicar que asno que é asno não pensa e se pensa demora tanto tempo a fazê-lo que, entretanto, morre. Ainda existe a possibilidade do quadrupede ficar a pensar sobre o que há de pensar, sem que nenhum pensamento lhe ocorra, enquanto pensa nisso, nunca se sabe…

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Hoje, quando vi nas notícias que o Tribunal da Relação confirmou a condenação de João Rendeiro, o ex-presidente bancário do ex-BPP, com 5 anos e 8 meses de prisão efetiva, dei comigo a pensar que posso muito bem ser mais burro do que julgava.

João Rendeiro, um ano antes de ter sido acusado, foi capa das principais revistas e jornais nacionais, nelas aparecia como sendo o homem do ano, um dos melhores banqueiros de sempre na banca portuguesa. Ora eu, como tantos outros papalvos deste país, engoli as excelências e respetivas competências do homem como sendo verdadeiras. As publicações ligadas às finanças, aos negócios e ao capital não podiam estar todas enganadas. Contudo, afinal, estavam mesmo. Redondamente enganadas.

É claro que Rendeiro deve recorrer mais uma vez para o Supremo Tribunal. Ao fim ao cabo, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas… e o burro que o confirme. Entretanto, se alguma vez a condenação chegar, naquela altura em que não há mais para onde recorrer, pode ser que o referido acusado já se tenha posto ao fresco, para um qualquer sonhado paraíso onde continuará a rir dos asnos que logrou vezes sem conta. É que o acusado não está sujeito a nenhuma medida coerciva que o impeça de se pôr a milhas se, quando a coisa estiver para acontecer, achar que vai mesmo ser condenado.

Enfim, querida Berta, burros somos nós que vivemos na pacatez da nossa vida de remediados. Despeço-me de ti com um beijo virtualmente saudoso, até amanhã e, já sabes, se precisares o teu amigo está sempre ao dispor.

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - II - Abordagens Sobre a Burrice (continuação - II - 5)

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Olá Berta,

São muitos os ditos sobre a burrice e os burros nas expressões utilizadas na língua de Camões. Cada um deles, contudo, parece querer ajudar os asnos humanoides a seguirem novos caminhos e a abandonarem a carneirada acéfala que segue modas e campanhas publicitárias, líderes populistas e outros chupistas.

Não se trata de defender nenhuma moral oculta, mas sim, de combater a burrice generalizada que se espalha mais rapidamente que vírus em dia de festa clandestina. Um alastramento ventoso por entre as multidões de seres que julgam que o pensamento e o livre arbítrio, são termos bonitos para constarem na Wikipédia ou em livros, nunca lidos, que lhes enfeitam as prateleiras das salas em suas casas bonitas e ocas, porém na moda. Mas é tempo de dar continuidade ao Diário Secreto do Senhor da Bruma, ainda sob a alçada do segundo capítulo:

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II

Abordagens sobre a Burrice (continuação - II - 5)

Março, dia 4:

Analisemos agora o provérbio “a ferramenta é que ajuda, não é o pisco em cima da burra”. Com efeito, sejam os alforges colocados no animal, para que ele transporte o que necessitamos, os arreios e demais preparos, para que puxe uma carroça ou, talvez, um arado para que lavre a terra, sejam outros exemplos do mesmo género, são tudo coisas, instrumentos ou ferramentas que possibilitam que o burro cumpra o seu propósito. Já o pássaro em cima do lombo ou perto das orelhas do animal, que dedicadamente vai devorando carraças e carrapatos, apenas o alivia a ele e pouco proveito direto representa para o dono do bicho.

Março, dia 5:

Aliás, na perspetiva do burro, o pisco, embora sendo um pássaro de tamanho diminuto, é muito mais importante do que todas as ferramentas que o seu proprietário possa arranjar para que ele cumpra uma tarefa. Mais uma vez o burro, ao representar a classe trabalhadora, serve para ilustrar a consideração que proprietários, chefes e empresários costumavam ter sobre quem para eles trabalhava, ou seja, nenhuma ou, praticamente, nenhuma. Se o pisco representa o cuidador personalizado importa mantê-lo e premiá-lo.

Ao fim e ao cabo, a ferramenta não ajuda o burro, inversamente prejudica-o, obriga-o mesmo a trabalhar sem o querer fazer e ao melhorar-lhe a produtividade também aumenta a sua exploração por parte do proprietário, patrão ou superior hierárquico. Eu cá sou pela liberdade dos burros e por um sistema de saúde digno. Vivam os piscos.

Março, dia 6:

Há que dar, contudo, valor ao povo que num simples provérbio punha a nu a injustiça do tratamento que recebia, ficando sempre remetido à categoria de burro, mesmo nunca o tendo sido. É por estas e por outras que depois, a dada altura, o copo deixa de encher, para, na mais pequena gota extravasar. É assim que surgem os dias das revoluções. Muitas vezes, o burro não é tão burro como a conta que dele faz o seu dono. Coisas da vida. Viva o 25 de abril. Viva a revolução. Vivam os asnos.

Março, dia 7:

Já o ditado “há falta de um grito, morre um burro no atoleiro” tem outro intuito. Com efeito, o zurrar destes animais não atinge os decibéis necessários para servir de alarme. O provérbio assiste na explicação que grandes tragédias acontecem pela falta de precaução ou medidas simples de segurança. Ora, fala-se na morte do jerico, e não de outro animal, para dizer que apenas um idiota não se previne e protege devidamente. Se a pessoa é burra e não são os seus pedidos de socorro que a podem ajudar numa situação de perigo, então, o local, o transporte, a casa ou o posto de trabalho têm de estar apetrechados com os meios preventivos necessários para que uma situação de perigo seja evitada.

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Conforme podes observar, pela foto que hoje ilustra a tua carta, o asno encontra-se pequenino, em segundo plano numa prateleira, quase abandonado à sua sorte, enquanto eu apareço armado em Moisés, saído de um banho de vitamina D da varanda das traseiras, onde o Sol se mantém firme e quente entre as 2 e as 7 da tarde, porque isto de viver confinado não me pode impedir de tratar devidamente da saúde.

Como sabes, depois dos meus AVC de 2019, regressou o ataque da vesícula em 2020, após 3 anos de pausa, penalizada por não me ser possível uma operação, relegada para uma suspensão quase permanente, enquanto o coronavírus se passeia alegremente pelo nosso Portugal e brinca às escondidas com a ilustre Direção Geral de Saúde e o respetivo Ministério da Saúde.

Um Ministério cheio de estrelas e de gente que gosta de se ver na televisão, seja Marta Temido, Graça Freitas ou aquela alegada baronesa das olheiras permanentes, vinda de Alte, do Algarve, uma tal de Secretária de Estado Adjunta e da Saúde, Jamila Madeira, filha do grande barão algarvio do PS, Dom Luís Filipe Madeira, que, embora tenha formação em gestão e mestrado em finanças, fala de saúde com a pompa e circunstância com que os burros olham para os palácios, ao fim do dia, quando a noite chega, para que a ignorância não salte à vista.

Mas chega de choramingar o meu estado de saúde. É o que é e, se tudo correr sem muitos mais incidentes, no final, espero que essa saga termine positivamente. Por hoje, este teu grande amigo, despede-se de ti, querida Berta, enviando um fino e requintado beijo postal, pois que através destas cartas nos comunicamos. Conforme sabes, estou sempre ao dispor para o que necessário for,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Livro - O diário Secreto do Senhor da Bruma - II - Abordagens Sobre a Burrice (continuação - II - 4)

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Olá Berta,

Se bem que eu aborde, ao longo deste capítulo do “Diário Secreto do Senhor da Bruma” a ideia de que nem sempre o burro é tão burro como parece ou a sua oculta sagacidade em se fazer mais burro do que realmente é, a verdade é que a humanidade continua a ter burros e bestas quadradas em demasia face aos restantes mortais. Um tio meu chamava essa gente de antas, sem qualquer relacionamento clubístico evidentemente, referindo-se unicamente à pobre da anta propriamente dita.

O meu falecido sogro, por via do meu primeiro casamento, um pintor famoso de nome Isolino Vaz, apelidado como sendo o pai do neorrealismo português na pintura, tinha uma outra expressão para apelidar as pessoas de visão curta. Chamava-lhes os acéfalos, sempre que tinha de evitar a linguagem vernácula, muito usada para os lados da invicta cidade do Porto. O que importa mesmo é que a burrice é um tema que vem há muito preocupando o pensamento nacional e os teóricos da análise do conhecimento dos povos. Voltemos, entretanto, à nossa narrativa sobre a burrice:

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II

Abordagens sobre a Burrice (continuação - II - 4)

Fevereiro, dia 28:

Avaliação de Provérbios sobre o equidno:

A expressão “Burra de sorte é felizarda sem saber porquê” alegadamente não foi criada para desculpar o gosto de Maria Vieira pelo CHEGA. Claro que há quem pense que a senhora é burra e que por isso tem a sorte de não saber a porcaria em que se meteu. Com efeito, é contraditório que alguém possa ser felizardo e não saber o porquê neste contexto. No meu entender a sociedade confunde o pequeno porte da Maria Vieira com a proporcional dimensão do seu intelecto. Dito isto, acho mais lógico pensar que a atriz não é burra apenas proporcionalmente curta de ideias.

Fevereiro, dia 29:

A propósito do ditado “A burro morto cevada ao rabo”, digam lá o que disserem sobre este dito, ele não foi certamente inventado por membros do movimento LGBT Limitada. Estes, levam muito a sério as suas opções e não usam o traseiro para armazenar um cereal. Ainda por cima num animal que virou carcaça. A frase parece um ato de sodomia irracional e seria mais compreensível se tivesse sido inventada por um qualquer praticante de uma seita mórbida ou de algum culto satânico. Eu, só para me citar a mim, nunca me lembraria de traduzir o provérbio “casa roubada, trancas à porta” por algo sequer aproximado ao rabo do dito jumento. Mas há gostos assim…

Março, dia 1:

“A burro que muito anda, nunca falta quem no tanja”: - ou quem lhe toque, descobri eu depois de muito investigar. Na verdade, quando mais expostos estamos, mais riscos corremos. No entanto, podemos reparar que, na composição deste ditado, o povo esforçou-se por arranjar uma rima de forma quase contrafeita e, mesmo assim, a que descobriu parece forçada. Com efeito, até no português arcaico é difícil encontrar o verbo tanger, conjugado na primeira ou terceira pessoa a obrigar à utilização da palavra “tanja”. Talvez o aparecimento da palavra na escrita tenha origens nas tangerinas do Algarve ou onde é mais fácil arranjar à tanja outros familiares na rima. Disso é exemplo a laranja, a marmanja, e a toranja. Enfim, é o que se arranja.

Março, dia 2:

Ao compararmos os provérbios “a burro velho, capim novo” com “a burro velho, pouco verde” fica fácil detetar o antagonismo dos significados. Mas julgo que isto terá mais a ver com as medidas económicas em voga por altura do nascimento de cada um dos ditos. Assim, numa altura em que é preciso tirar proveito de todos os recursos disponíveis, o conselho implícito é dar força e energia ao burro envelhecido, através de alimento fresco e saudável, para que ele possa continuar a dar um bom rendimento ao seu dono. Já numa ocasião de poupança e aforro o conselho inverte-se, recomendando que se deixe o burro ir para o abate ou para a reforma, por força a conseguir maximizar os recursos canalizando a alimentação para os jovens e possantes burros.

Março, dia 3:

O uso de ambos os casos, a não ser se usado por elementos do partido PAN, ao comparar trabalhadores com animais de carga de inteligência limitada, reflete bem a ideia que o nosso tecido empresarial tem sobre a classe operária às suas ordens. Perante estas observações considero pertinente pensar se a introdução de certos provérbios, na conversação popular, não seria uma forma oculta, e revolucionária, de protestar contra a negação de direitos dos trabalhadores durante o regime de Salazar.

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O outro dia ouvi, no Jornal das 8, na TVI, uma fanática, frenética deputada do PAN, que, sem travão na língua, defendia o fim dos apoios do Estado a todo e qualquer evento relacionado com a lide do toiro, a tauromaquia e os toureiros. Porquê? Por serem práticas que obrigam ao sofrimento do animal. Do outro lado, estava o jornalista Miguel Sousa Tavares, a contrapor, defendendo os apoios. Embora eu não seja um apreciador tauromáquico, gosto das pegas e da audácia dos forcados, de mãos na anca, armados em fanfarrões tolos e irreverentes, de barrete na cabeça, em frente ao animal. Resolvi escutar os argumentos dos 2 lados por forma a tentar escolher por quem tomar partido no fim das defesas e ataques de ambas as posições, apresentadas pelas argumentações e explicações de cada um.

No final, não tendo sido tendencioso, somente a argumentação do Miguel fazia sentido. Se queremos acabar com a tauromaquia em Portugal, porque o touro sofre, temos de o fazer num contexto mais global e terminar com todas as práticas que façam sofrer os animais. Mas todas, em simultâneo, e sem cinismos.

Não se acaba com a tourada e se deixa o peru a fugir, já sem cabeça, depois de embebedado, pelo pátio da quinta, por altura do Natal. Não se permite a matança do porco, que é feita bem devagarinho e com requintes de malvadez, não se autoriza a criação de animais em aviários onde os bichos sofrem desde que nascem até que morrem, tiram-se os animais, usados como cobaias, dos laboratórios, sejam eles salamandras, ratos ou políticos.

Também não se admite a continuação de jardins zoológicos e mais um cem número de práticas que continuam, todos os dias, a todas as horas, a causar sofrimento aos animais. Não esquecendo o burro, que, sem querer levantar qualquer suspeita de xenofobia ou racismo, passava bem melhor sem o cigano.

Mais uma vez alonguei-me nos argumentos. Fico-me por aqui, querida amiga Berta, com uma despedida acompanhada de beijinho deste teu amigo de ontem, hoje e amanhã, sempre ao dispor,

Gil Saraiva

 

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