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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Carta à Berta: Ensino à Distância - Regresso Escolar

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Olá Berta,

Oficialmente as aulas não presenciais começam hoje desde o primeiro ao décimo segundo ano. Aulas através da televisão e da internet. Todo este ensino oficial é, no meu entender, uma grande tempestade de areia, literalmente direcionada para a comunidade como um todo. Na realidade apenas, e com sorte, 10 ou 20% dos alunos vão tirar partido desta vaga de fumo que, não oficialmente, não passa disso mesmo e nada mais do que isso.

Mas o que quero eu dizer com isto? Nada que não seja óbvio: os bons alunos que, simultaneamente, têm um genuíno interesse em aprender e que, ao mesmo tempo, têm acesso aos meios tecnológicos, vão sair-se muito bem. Porém, para todos os restantes cada semana de ensino irá resumir-se a uma, duas, talvez três horas, de real aprendizagem.

Em resumo, tudo o resto será perdido. Com efeitos menos devastadores, o ensino vai passar uma fase semelhante (para muito pior) ao que aconteceu no ano da revolução de abril de 1974 e que teve consequências graves durante os anos seguintes.

Uma geração inteira de miúdos perdeu, nessa altura, por completo o equilíbrio da aprendizagem e só mesmo os mais resilientes se safaram. Ora, ser resiliente é sinal de teimosia, mas nem sempre significa inteligência ou conhecimento, assim, será preciso a sua conjugação com a do acesso aos meios, ou seja, computador e televisão.

Se atualmente a situação se repetir, se apenas os resilientes voltaram a triunfar, desta vez com a agravante de que precisam ter acesso à televisão e á internet, pois a resiliência e a inteligência não serão os únicos fatores de sucesso, a situação promete ser ainda mais complicada do que a ocorreu entre 1974 e 1980.

Não penses, amiga Berta, que o poder não tem conhecimento disto. Claro que tem. Todos os jovens que não tenham pais que estejam atentos aos seus estudos, todos a quem faltar a força e a vontade de lutar, aprender e estudar, e ainda, todos aqueles a quem faltarem os meios, vão ficar pelo caminho, independentemente das boas intenções do Estado, da democracia e do Governo em si. Se não aprendermos com os erros do passado, tudo será igual.

Agora, se o Ministério da Educação transformar os anos de 2020 e 2021 em anos zero e conseguir retomar o que vinha a fazer em 2019 (e estou a falar do ano letivo 18/19), apenas dando a possibilidade aos resilientes, aqueles que reuniram todas as condições necessárias para seguirem em frente, fazendo os outros todos repetir a aprendizagem podem salvar-se estas gerações abrangidas, deste coxear letivo que não sendo assim os perseguirá para o resto das suas vidas, apenas com o registo de dois anos perdidos, mas nem por isso totalmente inutilizados.

Mas isto é apenas a opinião (a minha) de quem já passou por isso entre 1974 e 1980. Posso ter visto mal. É tudo, minha querida Berta, despede-se este teu amigo de todas as ocasiões, saudosamente, com um beijo de até amanhã,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Neva em Nova Iorque

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Olá Berta,

Nova Iorque não via neve há cinco anos, quem o afirma é o New York Post, que garante que o fenómeno já não acontecia desde 2016. Aquela que foi durante muito tempo, em 2020, a capital da Covid-19 nos Estados Unidos da América, Nova Iorque, teve como brinde a neve oferecida pela Orlena, a tempestade de neve que chegou ao país neste domingo, segundo informação detalhada do instituto de meteorologia norte-americano.

A neve promete, entre ontem e hoje, uma descarga de flocos, que pode chegar aos sessenta centímetros de altura máxima, uma densidade bastante apreciável para o que normalmente acontece naquelas paragens. Para os garotos é tempo de divertimento, de bonecos de neve, de escorregas improvisados, de tombos e quedas misturados com risos e gargalhadas. Enfim, trata-se de aproveitar da melhor maneira possível um momento que, por força da ação do clima, se torna lúdico e alegre.

Basta percorrer as páginas online sobre Manhattan para descobrir fotografias e vídeos de diversão e folia na neve citadina. Por dois dias as pessoas esquecerão a pandemia, embora se note claramente a manutenção das distâncias sociais e um uso praticamente generalizado de máscaras contra o coronavírus. “Times Square”, não tem muita gente a passear a pé, estando os passeios higiénicos a acontecer em pequenos grupos familiares, quase todos com crianças, no Central Park.  Aí é possível construir com rapidez um boneco na neve e fotografá-lo para a posteridade.

Minha querida Berta, adorei trazer-te este relato bem-disposto numa época onde é rara a existência de momentos de alegria e de convívio. Despede-se, com um beijinho, este teu amigo, sempre pronto a ajudar no que precisares, com votos de que continues bem e feliz,

Gil Saraiva

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Carta à Berta: Flagrante Delírio e Pega Aí o Desconfinado

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Olá Berta,

Há dois novos jogos de sociedade que já se espalharam pelo mundo inteiro. O Primeiro precisa de um dirigente de qualquer ou de um político para ser jogado e dá pelo nome, em Portugal, de “Flagrante Delírio”, o segundo tem um nome com sotaque vindo do Brasil e chama-se “Pega aí o Desconfinado”.

O “Flagrante Delírio” tem vários protagonistas e foi lançado por Graça Freitas, nos idos de março do ano passado, quando afirmou publicamente que as máscaras cirúrgicas davam uma falsa sensação de segurança, depois a comunicação social divulga e quem, da população, se rir mais, ganha pontos. O jogo rapidamente se propagou por todo o mundo, tendo, no Brasil, Jair Bolsonaro como principal representante da marca na América do Sul.

A sua última contribuição para o jogo foi quando, indagado pela imprensa sobre as elevadas despesas de alimentação do Estado, principalmente em leite condensado, respondeu “Leite Condensado? É para enfiar no Rabo de Vocês (…) seus filhos da puta.” Em Portugal é Eduardo Cabrita, o Ministro da Administração Interna, quem leva a dianteira, no jogo, seguido de perto por André Ventura. O primeiro, considerado o ideólogo do jogo por cá, já em julho de 2019 dizia aos jornalistas que o entrevistavam que: “Vocês abrem a boca e deixam sair as maiores asneiras que vos vão na mente”.

A última do Campeão Nacional foi na sexta-feira na Assembleia da República, onde o político vociferou, contra o próprio umbigo, no púlpito, a propósito do novo Estado de Emergência. Depois temos os casos delirantes de dirigentes que vacinam pastelarias ou de presidentes de câmara que se vacinam por ocuparem cargos por inerência em lares. Enfim, toda a gente faz um esforço para participar no “Flagrante Delírio”.

Se o primeiro jogo se joga com a colaboração das elites o segundo é realizado entre as forças da ordem e a população em geral, com a colaboração de alguns comerciantes, donos de restaurantes ou bares e prestadores de serviços. Este jogo, o “Pega aí o Desconfinado”, permite cenas hilariantes únicas em televisão.

No “Pega aí o Desconfinado” temos cenas verdadeiramente hilariantes desde o desconfinado que, à falta de cão, passeava uma trela no passeio marítimo de Cascais, aos que apanhados num bar se esconderam no sótão ou que tentaram fugir pelo esgoto das águas ou ainda os que se esconderam na casa de banho, com a desculpa de que se sentiram mais apertados. Mas, na vizinha Grã-Bretanha, temos as pacatas donas de casa a fugir, rua fora, ainda com o shampoo do cabeleiro na cabeça.

Tudo serve para participar neste hilariante jogo. Na Polónia uma idosa infetada com Covid-19, foi apanhada num jardim, tendo-se escondido atrás de uma moita, na altura informou a polícia quando foi apanhada que: “estou a tentar cagar mais rijo, ao frio, pois a Covid-19 dá-me diarreia, juro que não estou a tentar abortar”. Enfim, há de tudo e para todos os gostos, basta estar atento ao que vai sendo divulgado pela comunicação social.

Por hoje é tudo, querida Berta, espero que tenhas sorrido alguma coisa com estes dois novos jogos sociais. Despede-se, com um beijo virtual, este teu amigo, sempre à disposição para o que der e vir,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Morto Que Não Era Óbito

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Olá Berta,

Uma família, como muitas outras, que têm os seus idosos nos hospitais do país, recebeu, no passado dia 10 de janeiro, a notícia que ninguém deseja, ou seja, o falecimento, vítima de Covid, do seu nonagenário familiar. A comunicação do óbito foi efetuada pelo Hospital de Oliveira de Azeméis, uma das três unidades do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga (CHEDV), com problemas respiratórios.

O idoso estava internado no referido hospital e provinha de Milheirós de Poiares em Santa Maria da Feira. Segundo a Agência Lusa, o filho do homem, o senhor Aureliano Vieira, recebeu a triste e fatídica informação da morte do pai ao décimo dia de janeiro, por motivos associados à pandemia de Covid-19.

Deixo-te aqui, minha amiga Berta, as declarações do próprio: "Como era por causa do covid-19, não permitiram que se fizesse o reconhecimento do corpo. Limitamo-nos a fazer o funeral, já no dia 12. Mais tarde, mandamos mesmo celebrar a missa do sétimo dia. Já hoje de manhã, vieram dizer-nos do hospital que o nosso pai estava vivo e pediram desculpas pelo erro".

Seguidamente o senhor Vieira ainda acrescentou: "E, felizmente, está vivo. Já confirmei”. Contudo, diz desconhecer ainda de quem é o corpo que o hospital presumia ser do seu pai. Aliviado, o filho do nonagenário, ainda não sabe o que vai fazer relativamente ao acontecido, diz-se aliviado, mas confirma que: "Ainda estou atónito. Tenho de falar com outros familiares".

Foi através do contacto da agência Lusa que, por fonte autorizada do CHEDV, ficou confirmada a troca de identidades efetuada numa das enfermarias do hospital de Oliveira de Azeméis. A mesma unidade hospitalar lamentou "profundamente" o sucedido.

O senhor anunciado como falecido pode não ser de facto uma reencarnação, todavia, será dos poucos portugueses a ter direito a um segundo funeral, quando a vida, algures no futuro, o resolver por fim deixar descansar. Espero, minha querida Berta, que esse dia ainda demore, até porque, para quem acabou de falecer não me parece bem que morra de novo em breve. Paz, regresso a casa, em segurança e com saúde é o que eu lhe desejo.

Com mais esta pequena história, que só tem alguma graça por ter acabado em bem, embora a Lusa não refira quem foi afinal a pessoa que faleceu, me despeço, por hoje com um curto, mas sentido, beijinho saudoso. Sempre ao dispor,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Cara Linda

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Olá Berta,

Estamos de novo em véspera de fim-de-semana.  Estava aqui a pensar sobre que tema te haveria de escrever e ao passar os olhos pela imprensa de hoje, infetada de pandemia desde as reticências até ao ponto final, descobri algo que achei espantoso. O coronavírus, somado ao confinamento e ao isolamento das pessoas em suas casas fez disparar a vaidade na aparência pessoal das pessoas (não de todas, como é evidente, mas daquelas que se podem dar a esses luxos).

Com efeito, as operações plásticas no rosto e no corpo, de caráter puramente estético estão em alta. Em contra corrente à restante economia os indivíduos, cavalheiros e damas, das classes mais abonadas fizeram disparar os negócios da cirurgia estética. O aumento regista níveis entre os 15 e os 25%.

Uma das alterações de detalhe mais procuradas prende-se com os olhos. Tiram-se papos, anulam-se rugas de expressão ou de envelhecimento, retoca-se o olhar para lhe dar expressão ou profundidade, na tentativa de melhorar o que é visível no rosto a cima da máscara que virou moda e obrigação. Mas todas as operações estéticas subiram igualmente, seja ao nariz, à boca, ao queixo ou ao moldar do corpo, do rabo ou das pernas. Até as cirurgias às mamas tiveram um acréscimo significativo.

Em resumo, homens e principalmente mulheres, decidiram aproveitar a pandemia para se cuidarem em termos de aparência. Podes dizer que tal facto denota um certo egoísmo, dessas classes sociais, face à restante população, que luta contra questões ligadas ao desemprego ou à sobrevivência. Todavia o que me parece é que as pessoas (as que podem) estão a aproveitar este tempo de águas paradas para cuidarem mais de si.

Pessoalmente, prefiro olhar para o copo meio cheio em vez de meio vazio. Faz mais sentido. Afinal, nada nos diz que quem se submete a estas operações estéticas possa ser menos solidário com o momento que todos atravessamos devido à pandemia. A toda essa gente que quer (e pode) ficar mais bonita eu desejo o maior dos sucessos. Não fico mais feliz sentindo a infelicidade dos outros e, por isso, não vejo que seja criticável esta procura por uma mais cuidada preocupação estética.

Por hoje é tudo, minha querida Berta, espero que esteja tudo bem contigo. Despede-se este teu amigo, sempre à tua disposição, com um beijo cheio de ternura,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Covid-19 – A Chegada da Contra Vaga

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Olá Berta,

Covid-19 – A Chegada da Contra Vaga, este seria o título que eu escolheria para relatar o que está atualmente a acontecer com a pandemia. Foi ontem à noite, no programa “Circulatura do Quadrado”, da TVI24, que o Primeiro-Ministro, António Costa, aventou, a medo, que um dos especialistas que servem de consultores ao Governo, lhe terá falado na possibilidade de estar a ocorrer não propriamente uma terceira vaga, mas uma vaga de sentido inverso a que eu chamei de contra vaga.

Intrigado por aquela afirmação, que passou totalmente despercebida quer no programa quer depois nas diferentes análises dos comentadores, em todos os canais televisivos, resolvi verificar eu, na parafernália de gráficos e dados que tenho em casa, se essa coisa da contra vaga, como lhe chamei, seria realmente possível e poderia estar mesmo já a acontecer, o que, a ser verdade, irá apanhar a Europa, África, Ásia e Oceânia totalmente de surpresa.

Segundo a teoria avançada quase como nota de rodapé, esta nova terceira vaga que temos em Portugal e no Reino Unido, não se está a movimentar como as outras duas anteriores de Oriente para Ocidente, mas precisamente no sentido inverso. Começou nas Américas e expandiu-se para a Europa atingindo primeiro os países mais periféricos, nomeadamente Portugal e Reino Unido. Pior, ganhou nova volumetria com a soma das estirpes inglesa, brasileira e da África do Sul.

Ora, a ser assim, coisa que me pareceu muito evidente nos meus gráficos, Portugal e Inglaterra não estariam a ser os piores casos da Europa, mas sim, os primeiros países europeus da contra vaga, que se irá em breve estender para o leste em direção à Ásia, África e Oceânia, no sentido inverso ao que até esta altura tem ocorrido.

O mais grave, querida Berta, é que se este for o caso, vão todos ser apanhados de surpresa por este movimento inverso. No caso europeu, será notório esta nova maré já a partir de meados de fevereiro, quando Portugal e o Reino Unido já estiverem a descer no número de óbitos, infetados e internados em UCI.

Se a nova teoria se confirmar vamos assistir a um novo agravamento em todo o espaço europeu já em meado do próximo mês. Por hoje fica-se por aqui este teu amigo do peito, que se despede com o usual beijinho,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: O Oraculo

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Olá Berta,

Conforme sabes eu tenho dedicado especial atenção à evolução da pandemia no país e no mundo. Faço-o desde a primeira hora, desde a altura em que ainda não existia nenhum caso registado em Portugal. Mês após mês tenho feito, como se fosse um entendido na matéria as minhas previsões e, para meu próprio espanto, não tenho andado muito longe do que tem acontecido.

A significar alguma coisa, seja lá o que for, tal não faz de mim um analista especializado, nem me transforma de um oráculo da pandemia, apenas quer dizer que tenho tido a sorte de fazer uma boa leitura da informação que vou colhendo. Isso não quer dizer que, mais cedo ou mais tarde eu não me engane redondamente numa previsão e até admito que o engano seja monumental.

No entanto, a minha próxima previsão arrepia-me ao ponto de esperar que seja desta vez que eu me engano redondamente. Normalmente tento antever os números de infeções e de óbitos com três tipos de prazos. Primeiro o curto prazo, para o qual projeto um espaço de 12 dias, depois o médio que é de 36 e o longo de 108.

Faço este exercício quer para o país quer para o globo em geral. Ora, hoje, enquanto esperava pela chegada da noite eleitoral, decidi fazer mais uma dessas previsões. O resultado do curto prazo para a nossa terra lusitana foi tal que já nem fiz mais nada. Segundo os meus cálculos algures até sexta-feira, cinco de fevereiro, nós atingiríamos os mais de 20.000 infetados diários e para cima de 500 óbitos em vinte e quatro horas. Um absurdo tão gigantesco e de tal forma dantesco que só me posso ter enganado.

É o que dá quando nos pomos a tentar adivinhar o futuro sem termos os elementos de cálculo dos especialistas. É claro que devo ter feito algo de errado, só me irrita não ter descoberto onde me enganei. Se te falo no assunto é para que saibas, que mesmo quando dou a minha alegada opinião sobre algo, não me considero com isso o senhor da razão e da verdade. Dou, quanto muito a minha opinião, o que já não é mau de todo.

Por hoje é tudo, minha querida Berta, despede-se, com um beijo de saudades, este teu amigo sempre ao dispor daqueles a quem quer bem,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Porque É Tão Difícil Confinar Agora?

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Olá Berta,

2.103.000 era, há 15 minutos atrás, o número de óbitos, por Covid, registados oficialmente no mundo. Dois milhões cento e três mil, este é o número de mortos oficiais por Covid, o que é muita gente e isto num universo em que, talvez já no próximo domingo, o globo atingirá os cem milhões de infetados. Então, perguntarás tu, minha querida Berta, porque é que não andamos todos em pânico?

Porque nos adaptamos, esta é a verdadeira resposta. O nosso cérebro tem a maravilhosa capacidade de se adaptar a todas as circunstâncias para conseguir sobreviver. Quando a notícia que aparece repentinamente, tem mostras de tragédia e é chocante, nós reagimos de imediato. Temos medo, pavor, pânico e insegurança nos instantes seguintes, todavia, a repetição continuada no tempo, de forma cíclica, de um mesmo tipo de desastre faz disparar os nossos mecanismos de defesa. Passamos a assimilar essas notícias como parte da rotina e o susto inicial é substituído por uma espécie de enfado triste até que um dia, sem sabermos porquê, passamos a achar normal tudo o que anteriormente nos horrorizou.

Não admira, portanto, embora a pandemia esteja bem mais grave agora do que no início, que a coisa nos pareça mais normal, menos preocupante, o que justifica que não entremos em pânico com a facilidade anterior.

Não passámos a ser mais insensíveis, nada disso, nós entrámos, isso sim, em modo de defesa cognitiva. Como consequência disso temos todos a tendência de sermos impelidos a voltar às velhas rotinas da pré pandemia, como se esta fosse algo que, embora existindo e sendo uma realidade, não nos diz diretamente respeito.

Aqui ou ali, um detalhe, um acontecimento sobre o tema, ou uma qualquer relação de proximidade, pode fazer regressar o medo, o pavor ou o pânico, contudo, tem de ser por um motivo específico, porque a generalidade do assunto se tornou corriqueira e banal.

Essa é a razão que explica porque fomos tão ordeiros e obedientes no primeiro confinamento de março do ano passado e porque procuramos, com a mesma naturalidade, as exceções ao isolamento desta vez.

Apesar disso ser naturalmente assim, há coisas que não aceitamos. Por exemplo, porque não perdemos a capacidade de pensar, é-nos difícil aceitar que as eleições de domingo para a Presidência da República não tenham sido atempadamente adiadas. Aliás, foi com sentimento de revolta que já reagimos à votação antecipada, marcada por filas e esperas sem sentido, do passado domingo.

Psicólogos, psiquiatras, analistas especializados, cientistas do comportamento, médicos, terapeutas e mais uma gigantesca parafernália de entendidos sabem bem o que nos acontece e porque agimos da forma como agimos e porque acabamos por nos comportar como nos comportamos.

Se os grandes senhores das gigantes tecnológicas usam os estudos do comportamento humano para nos fazerem consumir quase que por instinto, porque raio não há de o Estado usar os mesmos mecanismos para nos explicar o que estamos a fazer intuitivamente de errado?

A pergunta fica no ar, minha querida Berta, por hoje despede-se saudoso este teu amigo do coração, recebe um beijo de despedida deste que não te esquece,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Novos Infetados - 14.647 - Mortos - 219 - Às Costas de Costa

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Olá Berta,

14.647 novos infetados e 219 mortos por Covid-19, são os novos dados de hoje em terras lusas. Um número absolutamente impensável ainda no mês passado, antes do ano ter terminado. É por causa de coisas como esta que eu digo muitas vezes, e neste caso infelizmente, que a realidade é sempre capaz de nos surpreender mais, muito mais do que qualquer possível ficção.

Embora até aqui eu tenha, na grande maioria dos casos, defendido a atuação do Governo, começa a ser-me difícil compreender porque é que este não adota uma política de transparência imediatamente. Eu sei, cai bem dizer que se está preocupado com a formação das crianças e dos jovens e com o seu futuro. É um facto bonito, constitucional e cheio de valores.

Porém, não é por esse motivo que António Costa não fecha as escolas. Costa não quer o confinamento geral porque o Estado Português anda no limite do seu endividamento e já não tem dinheiro para pagar (e mal) um confinamento total, ou, mesmo que tenha, irá ter que o ir retirar a outro lado onde depois não o conseguirá repor nunca mais.

Minha querida Berta, se é preciso confinar que se confine e já, escolas e tudo. Que se passe a revelar os números da pandemia por freguesia, com honestidade e transparência. É tempo de o Estado agir com integridade e esquecer o poleiro.

Se depois faltar dinheiro ou se tivermos de ir para eleições antecipadas, porque o Governo se torna impopular, iremos. Não é possível é continuar a agir com meias-tintas que pouco ou nada conseguem resolver. O António tem de ser frontal e o que vier veio, ele até já tem umas costas largas, pode bem com mais este fardo.

Por hoje, deixo-me ficar com este desabafo. Eu sei que tu me compreendes, cara Berta, e que entendes a minha frustração com a falta de frontalidade do poder que nos governa. Despede-se este teu amigo, com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Estava-se Mesmo a Ver...

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Olá Berta,

Estava-se mesmo a ver… que o Governo ia tomar novas medidas face ao relaxe total da população no que diz respeito às Medidas de Confinamento do passado dia 15 de janeiro deste ano. Eu, como tu sabes, passei os primeiros três meses de 2020 em casa por causa da infeção das pedras na minha vesícula e, mesmo quando achava que estava melhor, acabei por ser hospitalizado por 14 dias quando a infeção se agravou, no Hospital Egas Moniz.

Ao regressar a casa continuei confinado, até porque, como tinha tido aqueles nove AVCs em 2019, era, no entender do meu neurologista, uma pessoa de risco se viesse a contrair Covid-19 e deveria, na medida do possível, manter todo o isolamento que me fosse possível.

Quero eu com isto dizer que estou confinado há já mais de 12 meses. Todas as saídas que fiz de casa ou foram por necessidades ligadas à minha saúde, como consultas, farmácia, análises, exames e internamento hospitalar ou por questões inadiáveis relacionadas com trabalho ou aquisição de alimentos (uma vez por mês) e com entrega em casa por parte do supermercado.

Além disso encontro-me em lista de espera  para ser operado à vesícula (que já ia, em novembro deste ano, num ano, faz agora 4 meses) e neste momento nem sei quando será com mais todas estas paragens ocorridas nestes últimos tempos.

O máximo que posso lembrar a quem sai de casa a toda a hora, sempre com uma nova desculpa, é que se lembrem dos outros e que sejam solidários. As saídas sem motivo urgente, de quem não liga ao confinamento, põe em risco a minha saúde (e a de muita gente como eu ou pior), mesmo mantendo-me isolado em casa, pelo simples facto de fazer adiar continuamente a minha possível operação.

Para além disso, moro num trecho de rua com três supermercados, sete esplanadas, e mais um monte de atividades, onde de confinamento, pela janela do meu terceiro andar, vejo muito pouco. Por favor sejam conscientes e fiquem em casa sempre que puderem. Agradeço do fundo do coração a vossa compreensão e estimo a vossa solidariedade. Obrigado.

Minha querida Berta, desculpa ter aproveitado a tua carta para fazer este apelo. Despeço-me com um beijo,

Gil Saraiva

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Reforço das medidas de confinamento

O Conselho de Ministros reuniu extraordinariamente esta segunda-feira, 18 de janeiro, para reforçar as medidas de combate à pandemia. Assim, além das medidas já em vigor, o Governo decidiu:

  1. Proibir circulação entre concelhos aos fins-de-semana;
  2. Exigir emissão e apresentação de declaração da entidade empregadora para quem circula na via pública por motivos de trabalho;
  3. As empresas de serviços com mais de 250 trabalhadores devem comunicar à ACT nas próximas 48 horas a lista nominal de todos os trabalhadores cujo trabalho presencial considerem indispensável;
  4. Limitar horários de funcionamento das lojas até às 20h00 em dias úteis e até às 13h00 aos fins-de-semana. Os estabelecimentos de retalho alimentar só podem funcionar até às 17h00 nos fins-de-semana;
  5. Proibir vendas de bens ao postigo. No caso de cafés e restaurantes, a venda ao postigo só é permitida para produtos embalados e sem bebida;
  6. Proibir o funcionamento de restaurantes em centros comerciais, mesmo em regime de take-away.
  7. Proibir ajuntamentos e consumo de bens alimentares nas imediações de restaurantes e cafés;
  8. Encerrar todos os equipamentos desportivos, incluindo courts de ténis e de padel ao ar livre;
  9. Encerrar centros de dia, universidades sénior e espaços de convívio;
  10. Proibir a permanência de pessoas em jardins e espaços públicos de lazer;
  11. Proibir campanhas promocionais que promovam a deslocação de pessoas;
  12. Funcionamento dos centros de ATL para crianças até aos 12 anos.

 

A par destas medidas, o Governo determinou ainda:

 

  1. Aumentar a fiscalização por parte das forças de segurança, sobretudo nas imediações dos espaços escolares, bem como por parte da ACT;
  2. Acelerar a vacinação em estruturas residenciais para idosos de modo a concluir a primeira toma até ao final do mês do janeiro.

 

 

 

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