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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte IX

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Olá Berta,

Hoje é dia de abandonar a minha teoria do Universo e da Humanidade para falar um pouco mais de mim. Afinal, mesmo que faças uma ideia, não me parece mal explicar-te quem sou e porque sou como sou. Não só é honesto, como acho que a franqueza é uma qualidade e não um defeito. Voltamos, pois, a estas Confissões em Português, sem mais delongas:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte IX

“Depois deste intervalo, de mais página menos página, está na altura de regressarmos aos temas em aberto. Ora, uma vez que se trata de deixar registadas algumas confissões, e que é sobre elas que se desenrola agora a ação, importa repor a conversa nos carris que lhe são devidos.

Concentro-me imediatamente na educação. Eu sou o último filho de pais que, quando me tiveram, já  tinham mais idade para avós do que para progenitores diretos. Não é que com isso me tenham educado mal. Nada disso. Mas a atenção que eu deveria ter exigido, em circunstâncias normais, acabou por não ser a que efetivamente recebi, face aos condicionalismos da sua idade mais avançada, dos compromissos já assumidos na educação dos quatro filhos anteriores, das agendas sobrelotadas, pelo esforço de não deixarem que nada faltasse em casa, dos meus progenitores. Enfim, eles fizeram o que puderam, e como se costuma dizer, a mais não são obrigados.

 Mas foi preciso chegar à idade adulta, e mesmo assim só depois de eu próprio ter atingido os quarenta anos de idade, para entender plenamente que não tinha sido um filho menos querido ou menos amado, apenas existira uma imensa falta de tempo, para que a atenção que me fora dispensada tivesse sido igual à que tinha existido com os outros. Mimalhices de filho mais novo dirás tu. Poderia ser, se não me tivesse afetado tanto em termos de feitio, mas pronto, finalmente perdoei o que pensei ser lógico perdoar e relevei o que não tinha qualquer hipótese de ser de outra maneira face às circunstâncias.

De qualquer forma fiquei muito bem comigo mesmo, por saber que, apesar de não ter sido um filho planeado, mas sim fruto de uma celebração, nunca existiu um gostar menos, fosse porque motivo fosse, apenas e só, para meu azar, menos disponibilidade por força dos contextos da própria vida. Foi um dia muito feliz para mim esse em que enxerguei a minha realidade. E fiquei a ganhar no final. Sou o único dos cinco que sabe o dia em que foi concebido. No meu caso dia 31 de janeiro, dia de anos de namoro de meus pais. Posso não ter sido planeado, mas fui de certeza fruto de muito amor. Isso ninguém me tira.”

Com esta Confissão em Português me despeço, querida amiga, desejando-te um dia feliz, pelo menos do que falta dele. Deixo um beijo de saudade, com o carinho e amizade do costume, deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte VIII

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Olá Berta,

Espero que a minha conversa com o leitor das Memórias de Haragano, enviada ontem, não tenha sido chata em demasia para ti. Afinal, a busca de confiança mútua é sempre algo que se deve louvar seja lá em que tipo de enquadramento nos encontremos numa dada altura. Aquilo de que eu tenho a certeza é que para desabafar com o leitor, da mesma forma como o faço contigo, ou algo aproximado a isso, é necessária uma relação de mútuo acreditar. Apenas isso, algo bem simples se devidamente executado e aceite por ambas as partes. Agora, está na hora de regressarmos às Confissões, assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte VIII

“Sobre os <<afinismos>>, de que falei anteriormente, as explicações virão sem a maçada de uma teoria quântica, pois trata-se somente de uma filosofia de minha autoria, que não justifica apenas uma maneira de pensar, mas também todo o comportamento sociológico, político e ético da humanidade. Aliás, até julgo que ela, a minha querida filosofia, pode ajudar a explicar o complexo funcionamento do universo.

Não é, porém, nenhuma teoria da relatividade, nem mesmo sei se, o que digo e afirmo de forma convicta, poderá, algum dia, ser matematicamente comprovável, mas se queres saber também pouco me importa. Acho mais fácil acreditar nas minhas teorias do que na existência da proclamada e não devidamente comprovada, energia negra que, segundo matemáticos e físicos, compõe noventa e tal por cento da imensidão universal, se combinada com a igualmente misteriosa matéria negra,  apenas porque é necessário para eles que as contas que fazem batam certo, por mais absurdas que as suas explicações possam parecer. Não o digo para minimizar a classe, mas, para mim, os astrónomos, os astrofísicos e os outros estudiosos do nosso cosmos estão para o momento atual como os astrólogos estavam para a antiguidade.

O <<Afinismo>> resume-se num princípio simples. Tudo no universo interage entre si, sendo que a proximidade torna essa interação mais evidente, ou seja, uma qualquer partícula não pode fazer uso das suas qualidades próprias se não tiver, à sua volta, outras partículas com quem interagir. Por outras palavras o Universo é interativo, participativo e existe por agir em conjunto, pela conjugação intricada de todos os seus componentes mais elementares. Caso contrário estaria condenado à extinção e ao caos.

Ora, quando se transporta este princípio para o campo da existência e da relação humana, é fácil concluir que, enquanto ser social que somos, precisamos de interagir com os outros. Com base nas afinidades mútuas constituímos o nosso ciclo de relações e proximidades e defendemo-lo com unhas e dentes se preciso for. Sejam as relações familiares, sejam as de amizade ou as de amor, todas elas existem pelos pontos em comum que partilhamos com quem nos é mais próximo ou chegado. Do lado inverso, reagimos negativamente perante aqueles que não partilham das nossas afinidades. Trata-se de um sistema perfeito, que funciona qual relógio suíço e que, quando é necessário, faz os ajustes devidos para que tudo assim continue.

É nesta dicotomia que vivemos toda a nossa existência. Mesmo quando alguém que estava no nosso grupo de relacionamento, ligações próximas e relações, descobre que se enganou nas escolhas, nas preferências, em suma, nas afinidades ou quando isso mesmo acontece connosco. Esses momentos, que acontecem com alguma periodicidade a todos nós, são afinal e apenas o acertar do tal relógio suíço que para continuar certo precisa dos devidos ajustes, de manutenção e de revisão atenta.

No campo das relações humanas é fácil de encontrar uma multiplicidade de <<afinismos>>. Podemos vê-los no amor, nas amizades, na partilha da preferência clubística, nas opções de caráter político e social, nos gostos, nos programas e nos filmes de que gostamos, no bairro onde vivemos, na coletividade ou associação a que pertencemos, até nas coisas mais simples que fazemos ou naquilo que comemos. O <<Afinismo>> governa totalmente o nosso campo sensitivo e emocional, bem como o nosso relacionamento social e toda a nossa existência racional. Todas as escolhas da nossa vida, todas as vivências, raciocínios, pensamentos e proximidades têm por base essa coisa fácil de entender a que eu chamo de <<Afinismo>>.”

Minha querida amiga Berta, fico com a esperança que tenhas gostado da minha teoria universal. Por hoje despeço-me satisfeito com o facto de te a ter transmitido. Recebe um beijo deste teu grande amigo, sempre ao dispor,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte VII

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Olá Berta,

Espero que esta carta tenha a sorte de te encontrar fina e de bem contigo própria. Sabes, fazem-me falta as nossas caminhadas pelas ruas, em que a nossa amizade e cumplicidade se sentia perfeitamente no calor das conversas, É isso que tenho estado a tentar fazer com o leitor das Confissões. Preciso de cumplicidade para me sentir à vontade para poder dialogar ou, neste caso, monologar. Não tem sido, por certo, um <<Sermão de Santo António aos Peixes>>, mas que tem de haver companheirismo solidário parece-me algo bem evidente. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte VII

“Estou a tentar criar laços entre nós. Afinidades que nos tornem mais próximos e te levem mais facilmente a simpatizar comigo. A ideia pode parecer complicada, numa análise superficial, mas entende-se perfeitamente depois de devidamente explicada.

Porque é que procuro uma melhor relação de proximidade contigo, caro leitor? É simples, muito do que te direi nos próximos capítulos começa a tornar-se mais do que algo de sério, talvez alguma coisa parecida com partilha de pensamentos e sentimentos. Ora, nada é mais íntimo do que aquilo que cada um de nós pensa e sente e isso, para ser partilhado exige, pelo menos, uma certa atmosfera de cumplicidade entre nós os 2. Leitor e escritor.

Em resumo estou a tentar pôr-te à vontade e ao mesmo tempo a tornar-te simpatizante e cúmplice das minhas causas. É, aliás, esse grau de intimidade, que espero sinceramente que se esteja a desenvolver entre nós, pois que me permitirá, mais à frente, revelar algumas coisas possivelmente chocantes ou outras apenas fora da caixa que te levarão a entender porque é que a minha vida tem esta desagradável componente de cinismo experiente ou ironia latente ou ainda, simplesmente, esse algo que te faz pensar que eu sou doido varrido e que não passo de um Haragano, um vagabundo ermita, meio selvagem e indomável neste mundo que se quer politicamente correto.

Assim sendo, peço o devido desconto pela forma simplista, descoordenada, aparentemente sem propósito, como se estão a desenvolver estes dois primeiros capítulos. Mas preciso que fiques com a noção que eu sou gente de bem, um daqueles para quem <<todas as pessoas são basicamente boas à partida e até prova em contrário>>. Ora isto, pese embora algum <<brejeirismo>> nestes preâmbulos, faz de mim uma pessoa alegre, feliz e realizada.

Aliás, sou tão feliz que, fazendo um parêntesis ainda mais dilatado, posso mesmo afirmar que sou a pessoa mais feliz que conheço. Porém, acredita que estou convicto que o humano é, na sua essência de ente solidário, amigo do seu amigo, enquanto membro participativo e atuante da nossa evoluída sociedade.

Contudo, e porque sou genuinamente assim, não abandonarei o humor nos próximos desenvolvimentos, nem irei deixar cair este tom menos sério com que até aqui tenho encarado toda esta preleção. Posso é adiantar, para não te deixar demasiadamente em suspense, que falarei de <<afinismos>> e de capacidades ou talentos não muito visíveis no nosso dia a dia. Mas pronto, lá chegarei. Contudo, e porque já me conheces um pouco melhor, pode ser que, em vez disso, mude de ideias, aguçando a ironia e a sátira ou até, em momentos que se justifiquem, lhe junte mesmo alguma boa dose de sarcasmo.”

Pronto, querida Berta, agora que já disse ao leitor aquilo que lhe queria explicar, ou seja, que pode esperar tudo de mim e o seu contrário, já me posso despedir de ti, com o beijo sorridente e maroto do costume. Despede-se este eterno amigo,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte VI

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Olá Berta,

Fico satisfeito por teres achado graça à adivinha de ontem. Afinal, mesmo no teu caso que já conhecias as quadras, a explicação do tipo de ambiente em que devem ser declamadas fez-te sorrir de novo. Todavia, escusas de agradecer porque, a haver alguém que tenha de agradecer, sou por certo eu.

Quanto às minhas Confissões, que te têm agradado, aqui segue mais um pouquinho, mais curto do que o costume para não interromper pensamentos ou explicações a meio, pois acho que fica horrível. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte VI

“Alguns riem-se logo outros ficam sem saber muito bem o que dizer. E é nesse momento que se repete devagar a adivinha deixando que os ouvintes, que já sabem a resposta, visualizem cada verso. Desta vez no verso final já não se faz pausa. Pronto, está criado um momento agradável, deu-se nas vistas, não se ofendeu ninguém e por uns instantes fomos o verdadeiro foco de atenção. Agora só têm que se manter ativamente participantes na conversa para continuarem a ter audiência. Simples, não?

Este tipo de desbloqueador de conversa, como se dizia antigamente no programa <<Pão com Manteiga>>, costuma surtir excelentes efeitos. Tenho outro do género que termina com uma jogada de golfe e que fala de pau e bolas, mas é quiçá um pouco mais grosseiro. Vou ficar só pelo primeiro.

Por esta altura tu, que me lês, deves estar a pensar que este livro é muito brejeiro (peço desculpa do uso e do tratamento mais íntimo, por tu, mas é mais afável e fácil de criarmos uma relação de proximidade). De que estavas à espera? Por acaso julgavas que isto era uma coisa mais séria? E agora que já começaste, meu simpático leitor, achas que um livro deste género não teria qualquer hipótese num concurso literário sério. Só que o facto de tu me estares a ler não faz do livro candidato a qualquer concurso, quanto mais literário. Mas eu tenho uma explicação que julgo justificar estes primeiros capítulos, se tiveres a paciência de a leres.”

Não me vou adiantar mais no capítulo, por hoje, pois quero que leias a próxima parte seguida e numa só carta, pelo menos a parte que se segue. Não ficas zangada, minha querida amiga? Espero que não.

As minhas Confissões em Português não são muito longas, até porque não sou pessoa de escrever capítulos intermináveis. Está série que agora te escrevo não ultrapassa sequer a dezena e meia de cartas.

Despeço-me com o usual, que de banal nada tem, beijo diário, com votos de um restante dia bem brilhante para ti, fica-te com as saudades deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte V

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Olá Berta,

Ontem terminei a minha carta com uma referência ao produto intestinal do ser humano, fiquei a pensar em como a asneira, minha amiga, pode muitas vezes ser um método eficaz para desanuviar o ambiente. Por isso as memórias de hoje continuam pela mesma temática. Embora já tenhas visto um videoclipe meu apresentando o que vou descrever em seguida, desta vez apresento-te os motivos e a explicação da sua criação. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte V

“Vou agora falar nas atrevidas incursões dos intestinos no nosso quotidiano ou, como dizem os brasileiros, cotidiano, palavra que até me agrada mais por poupar letras. Aproveito a ocasião para relatar como é que eu sempre faço, naquelas alturas em que, na minha vida, tive uma companheira, para abordar a temática do peido, da bufa, do pum, do traque, do flato ou flatulência, do vento ou da ventosidade, do petardo, ou até da bomba atómica, que acabamos, mais cedo ou mais tarde, por largar na frente daquela com quem partilhamos o dia-a-dia.

A malandrice também tem um excelente papel para entabular uma conversação que parece ter dificuldade em arrancar. Deixo uma dica para os que me leem conseguirem desbloquear o ambiente e fazer rir alguns convivas numa festa onde, com uma certa descrição, lhes interesse ser mais visível. Começam por anunciar que têm uma adivinha para o grupo tentar encontrar a solução. Sempre a falar com um ar sério e compenetrado. Depois informam que se trata de uma adivinha em verso, como eram algumas das tradicionais adivinhas de salão.

E principiam (com um ar sereno, mas com um quê de sorridente):

 

<<QUEM É ELA...?>>

 

Senhora do seu nariz...

Rainha do mundo inteiro...

Dos governos a raiz,

Pelos povos paradeiro...

 

Cor de castanha dourada,

Macia, suave ao tato,

No formato variada,

Moldável, foto, retrato,

 

Imagem da criação!...

Serena, fruto fecundo,

Espalhada pelo mundo,

Em qualquer parte, no chão

 

Ou num parque, pela rua,

Tão completamente nua

Sem tabus ou sem receio

Descansando no passeio!

 

Amiga de toda a gente...

Ecologia em pessoa...

Ela é tão simplesmente?

 

(Chegando à questão fazem a pausa interrogativa de espera, como que a aguardar que alguém apresente a solução… após as tentativas falhadas dos convivas, que tentam a todo o custo encontrar uma resposta que rime com pessoa, concluem com um sorriso agora mais aberto):

 

<<- Merda pura e da boa!>>”

 

Não há, cara Berta, melhor forma do que esta para dar por finda uma carta. Despeço-me saudoso, com a amizade bem destacada e um até amanhã rico em saudades, com um beijo bem repimpado,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte IV

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Olá Berta,

Para não perderes o fio à meada, continuo, de imediato, a minha exposição de ontem, assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte IV

“Pegando no exemplo apresentado é evidente que a obra passou a ser bem ilustrativa do seu título “Instalação II – O Fracasso do Canguru Perneta”. Senão vejamos:

1) Ao chamar-lhe Instalação II, o autor retirou-lhe, à partida, importância, destaque e notoriedade. Nem sequer a palavra <<Instalação>> é conclusiva, parece algo que apenas constitui a parte de um todo, para que o mesmo funcione e não algo de verdadeiro relevo. Depois o “II” ainda minimiza mais a obra. O “II” é sempre o primeiro dos últimos. Ninguém se lembra do segundo lugar, seja no que for.

2) Depois vem <<O Fracasso>>. Ora, um fracasso não é uma mera falha ou defeito, pelo contrário, é algo no qual, por um qualquer motivo, mais ou menos visível, se deteve a esperança antecipada de um êxito, que, seja por que motivo for, nunca se alcançou. Em resumo, <<O Fracasso>>, é a derrota humilhante de quem devia ser campeão. Porque não se fala de um qualquer fracasso. Afinal o artigo <<O>> define aquele <<Fracasso>> como sendo o especial, o inesperado, o inimaginável derrotado.

3) <<Canguru>>, também não é uma escolha inocente. Uma vez que a mostra se realizou em Lisboa e não no continente australiano. Ao escolher um animal estranho aos europeus, quem vê a obra fica perante um possível animal exótico, existente nos antípodas, uma bizarria que de todo não conhece e até se estranha quando somos confrontados com a sua presença. Trata-se de algo que não pertence ao meio e, por isso mesmo, apresenta-se como uma excentricidade.

4) Por fim, o uso de <<Perneta>> para adjetivar o animal é a machadada final, a demonstração inequívoca da derrota antecipada e total. A caraterística mais evidente para qualquer europeu de um canguru é a sua faculdade de usar os membros inferiores para se locomover, aos saltos, pelas inóspitas e longínquas paisagens australianas. Ao ler <<Canguru Perneta>> o normal observador esquece imediatamente a bolsa marsupial tão caraterística deste bípede. Apenas vê o deficiente e desgraçado bicho, condenado a uma morte certa e de curto prazo.

5) Em resumo, <<Instalação II – O Fracasso do Canguru Perneta>> é o título de uma obra que se torna brilhante e conquistada porque o artista conseguiu traduzir numa única legenda, com um rótulo marcante, o significado da derrota total. Algo simplesmente genial. Porém, para manter viva e acesa a chama da glória de que a sua criação se revestiu, jamais o rótulo poderá ser separado da criação.

Isso faz-me lembrar outra obra, de um artista apelidado de experimental, que vi, há um tempo atrás, numa qualquer mostra internacional. Estava lá a fazer a cobertura do evento, para um magazine de arte conceituada (à época) que, entretanto, já faliu.

Ora, o dito cujo criador, tinha conseguido fazer um molde de um cagalhão, um daqueles bem alto e enrolado, como os que se vendem às criancinhas idiotas, nas lojas do chinês no Carnaval, e passara a poia para o bronze, colocando-a por cima de uma caixa de meio metro quadrado, representando, na parte do topo, um chão empedrado de calçada portuguesa. O título da obra prima era <<Organicidades>>.

A palavra nem consta no dicionário, mas isso não impediu o experimentalista de a usar. A mim só me apeteceu, quando o empinado artista me foi apresentado, dizer-lhe onde é que ele podia pôr aquela merda. Porém, fui simpático e perguntei-lhe se não tinha uma outra, mas feita em dia de diarreia. O criador, espanhol e com algum calo nas lides das artes e das críticas, olhou para mim, sorriu, e, por fim, respondeu-me, com um significativo encolher de ombros: <<-No entiendo…>>.”

Pois é, minha amiga do coração, saberás tu, eu e muita gente certamente, que o espanhol compreendeu perfeitamente a questão, contudo, na habilidade de quem já virou muitos frangos, optou singelamente por se esquivar a uma resposta que lhe poderia valer uma critica negativa no magazine em representação do qual eu me encontrava. Assim, pelo contrário, teve a sua obra fotografada e relatada na revista, apresentada e comentada de forma divertida, com a maneira graciosa como o criador se esquivara do incomodo da questão final.

Fico-me por aqui. Afinal, amanhã o tema seguirá o seu curso e eu tenho de ter matéria para o poder continuar. Recebe as minhas despedidas com o usual beijo deste amigo que sempre te recorda com amizade e muito, mas muito, carinho e saudade,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte III

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Olá Berta,

Continuo hoje a nossa nova saga. As confissões entram na sua terceira parte e espero que sejam do teu agrado. Sem mais demoras, cá vai disto:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte III

"Quem sempre luta pelo pódio na disputa do segundo ou terceiro lugar é o Castelhano. Correndo o risco de me repetir, tudo depende dos estudos e das fontes usadas, a língua alterna com o Inglês um dos 2 últimos dos 3 lugares do pódio. Esta é uma guerra antiga entre os estudiosos germânicos e os latinos, ambos a reivindicarem o fabuloso segundo lugar.

Uma guerra sem importância relevante para o Português que, desde 2019, se viu, finalmente, consagrado pela ONU, através da UNESCO, com o lançamento simbólico do Dia Mundial da Língua Portuguesa, existente desde o ano 2000 no seio da CPLP, mas agora reconhecidamente universalizado. Não é demais voltar a dizê-lo, porque sempre existiram muitos interesses instalados, mas é diferente saber que a UNESCO nos reconhece como a quarta maior língua do globo, com mais de 300 milhões de falantes do Português, como primeira língua, do que sermos nós a dizê-lo. É como comparar água com vinho, no que à relevância diz respeito.

Com efeito, a data de 5 de maio, escolhida pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no ano 2000, em Cabo Verde, para celebrar a difusão e importância das culturas e do idioma no mundo, acabou por ser reconhecida pela UNESCO que a transformou em Dia Mundial a 25 de Novembro de 2019, reconhecendo (e finalmente atualizando os dados) que existem entre 300 e 310 milhões de pessoas no mundo que usam o Português como primeira língua. Este reconhecimento terminou abruptamente com todas as disputas e lóbis nos corredores da linguística. Já há muito que uma metodologia séria tardava em vingar, tendo, por consequência, posto um ponto final às questões sobre qual é a quarta língua mais falada no globo.

Contudo, nos campos da pureza, beleza e complexidade do Português, os estudiosos destas matérias parecem todos concordar, que não temos outra que se lhe compare, em termos evolutivos e de sofisticação de elaboração sintática, gramatical e semântica, no universo latino. Para além disso, não é só o facto de sermos escutados nos 5 cantos do mundo é, também, a riqueza do idioma e a sua capacidade de expansão que nos torna relevantes. Todavia, nunca é demais dizê-lo, do quarto lugar mundial saltamos para a liderança  e para o topo da tabela quando nos referimos apenas às línguas faladas no Hemisfério Sul. Aqui reinamos destacados e nem o Castelhano, o Inglês ou o Mandarim, nos chegam aos calcanhares.

Não posso deixar de referir algo que me irrita profundamente. Parece que o nosso país dá uma especial importância e relevância às coisas e às críticas que vêm de lá de fora, do estrangeiro. Mas, contudo, deveria ser o inverso. Importaria sim escutar, com redobrada atenção, quem connosco partilha o país e a existência, bem como a nossa difusão linguística, ou até, generalizando, os países que, no seu todo, geraram o orgulho generalizado que todos possuímos pelo nosso idioma. Não temos que nos mostrar ofendidos porque na América há muita gente a pensar que Portugal é uma província de Espanha. Não é, já foi. Mas a ignorância e a tacanhez é deles e não nossa e só a eles mesmos assenta mal.

Voltando agora ao título do presente capítulo, Confissões em Português”, a parte que se refere às Confissões é que deveria chamar a atenção em primeiro lugar. Já o facto de ter usado o nome da língua apenas pretende dar aquele ar muito intelectual ao texto.

Dou um exemplo claro: é como o artista plástico que cria uma obra que lhe corre mal, mas que, depois do imenso trabalho que teve na sua elaboração, tem alguma pena de a destruir, assim, devido a essa mesma trabalheira e ao tempo que a dita lhe consumiu em todo o processo criativo, resolve incluir a falhada criação numa mostra internacional relevante, sabendo, conscientemente, que a sua obra vai estar patente ao público, sujeita a críticas, possíveis achincalhamentos, podendo conduzir mesmo ao escarnecer da sua qualidade indiscutível enquanto artista plástico.

Não querendo reconhecer o seu fracasso criativo, depois de muito matutar no assunto, lança a obra, com lugar de destaque na exposição, apelidando-a com o maravilhoso nome de:

Instalação II - O Fracasso do Canguru Perneta.

Para sua surpresa, vence o primeiro prémio daquela Bienal de Arte, pelo modo magnífico como conseguiu, de forma genialmente única, representar tão crua e friamente o significado de fracasso.”

Como podes verificar, querida Berta, muitas vezes as coisas não valem apenas pelo que são em si mesmas. O contexto em que são inseridas é um dos mais determinantes fatores para a sua relevância ou valorização. Com esta observação te digo adeus por hoje, embora amanha me vá dar ao trabalho de deixar mais claro este título fabuloso para a obra em causa. Recebe o beijo habitual deste teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte II

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Olá Berta,

Não sei o que tu pensas sobre a temática da língua, mas eu considero o assunto fascinante. Ora pensa comigo, minha querida amiga, dois povos, que há oitocentos e alguns anos atrás existiam neste canto periférico da Europa, como é moda dizer nos dias de hoje, o Condado Portugalense e o Reino de Castela (entre mais uma variedade de reinos que existiam na Península Ibérica), cuja população conjunta se situava na casa dos milhares de pessoas, sem jamais ambicionar chegar ao milhão, têm, na atualidade, entre os 800 e os 900 milhões de indivíduos que usam o castelhano ou o português como primeira língua.

Repetindo a ideia, nunca é demais dizer que se tratam de 7.000 línguas diferentes em todo o nosso globo. No meio de tal diversidade saber que o Castelhano é a segunda ou terceira língua mais falada do mundo e o português a quarta, dá que pensar. Mas regressemos às memórias. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte II

“Outra das línguas que costuma surgir perto da liderança é o Árabe, muitas vezes acima do Português. Ora o Árabe, embora exista como Língua, inclui, nesta generalização absurda, idiomas que não se entendem entre si. A língua árabe, assim apresentada (que, no seu conjunto, quase atinge os 250 milhões de falantes), é composta por todas as línguas semíticas. Se entre elas o entendimento fosse uma realidade, então poderíamos falar de uma língua Árabe inclusiva, contudo, a verdade não podia ser mais diferente, sendo a raiz das línguas a mesma, para além do Árabe, vulgarmente chamado de Árabe Clássico, existem o Maltês, o Hebraico, o Amárico e o Tigrínia, com o devido relevo e destaque, sendo, ao todo, mais de 35 as línguas de origem  árabe, bem diferentes entre si, faladas no mundo. O verdadeiro resultado, depois desta análise, transporta a língua alguns furos mais abaixo na tabela classificativa das mais faladas, todavia, na grande maioria das tabelas, incluída no grupo das primeiras 10.

No topo, com a medalha de ouro e o recorde absoluto e efetivamente bem destacado, a língua mais falada do mundo é o Mandarim, vulgo Chinês (que na realidade não existe enquanto língua). Com mais de um bilião de falantes, o Mandarim, tem imensos dialetos. A situação é de tal forma complicada que, uma mesma palavra, pode ser pronunciada de 4 formas diferentes, consoante contextos na frase e, até, conforme a região chinesa de onde é proveniente. Todavia, não deixa de ser um facto que todos eles se entendem entre si, o que, efetivamente, é o que mais importa.

Por fim, o Inglês ocupa, em todas as tabelas o segundo ou o terceiro lugar no ranking das mais faladas. Podem não ser os mais de 500 milhões, que os estudos germânicos sobre o assunto, sempre apontam como se, por exemplo, nos Estados Unidos da América todos falassem inglês como primeiro idioma, quando os factos mostram, que mais de um terço da população americana apenas fala Castelhano, (vulgo Espanhol), ou que, somente, usam o inglês como segunda língua, para se fazem entender, por quem de castelhano não pesca nada.”

Conforme podes verificar, querida Berta, entre os linguistas românicos e os germânicos existe uma guerra forte. Cada um deles afirmando que as contabilizações do outro estão erradas, e que são eles, independentemente de quem eles são, que se encontra em segundo lugar.

Porém a nós, não nos interessam as guerras de Arlequim e Manjerona, que o nosso quarto lugar é firme, robusto e não aparenta tremer. Aliás, dos idiomas nos primeiros lugares deste colossal ranking, somos a língua que maior expansão apresentou nos últimos 50 anos. Só em Angola e Moçambique passamos, de uma população conjunta que não atingia os 20 milhões, para um universo de quase 65 milhões.

Por hoje é tudo, minha querida Berta, fica bem, mantém essa alegria que te ilumina a alma e recebe a despedida deste teu eterno amigo com um beijo sorridente,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: Memórias de Haragano - Confissões em Português - Parte I

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Olá Berta,

Ao contrário do que fiz com o capítulo anterior das Memórias de Haragano, <<A Revolução Começa na Cama>>, em que deixei as atualizações de dados e de contextos de fora do texto original, usando a abertura da carta e a despedida para efetuar os devidos acertos ou reparos, decidi neste capítulo, inverter o processo. Embora vá manter alguns apartes fora do conteúdo, tudo o que possa constituir uma atualização do texto passou a integrar o mesmo. É como se este capítulo tivesse um <<upgrade>> para Confissões em Português, versão 2020. Mas vamos, portanto, às confissões. Assim:

Memórias de Haragano: Confissões em Português – Parte I

“Não fiquem surpreendidos pelo título. Português parece óbvio demais para servir de classificativo às confissões, mas tem mais que se lhe diga. Realmente o óbvio é apenas e unicamente o facto de ser esta a nossa língua. A que usamos para nos entender e comunicar. Absolutamente verdade. Porém, também é certo que, sendo à partida uma língua latina, ela é, das que derivam do Latim, a mais complexa e bem elaborada de todas elas.

Somos a quarta língua mais falada do mundo, embora tarde a ser-nos dada, internacionalmente, a relevância que efetivamente possuímos. Mas, por incrível que possa parecer, nunca aparecemos listados como tal, é-nos atribuído no ranking mundial, dependendo de onde parte o estudo, o sexto ou sétimo lugar e, às vezes, até o oitavo lugar, sempre com cerca de 228 milhões de falantes, mais coisa, menos coisa.

À nossa frente aparece muitas vezes o Hindi, porque só a Índia tem bem mais de um bilião de habitantes, mas, o que os estudos do país mostram é que, o Hindi é apenas uma das 22 línguas oficiais reconhecidas pelo próprio governo indiano, sendo que falantes de Hindi estão apenas contabilizadas cerca de 182 milhões de pessoas, menos até que os que usam o Bengali que alcança os 189 milhões.”

Como se costuma dizer há muita maneira de cozinhar o bacalhau, minha querida Berta, contudo, não vale tudo para nos pormos em bicos dos pés, numa tentativa de reconhecimento de importância. A língua Hindi e a Bengali, estão confortavelmente instaladas no top 10, entre as diferentes 7 mil línguas oficialmente reconhecidas enquanto tal, pela UNESCO. Isso é que deveria ser o dado mais relevante para os indianos.

Por hoje é tudo, espero que este novo capítulo, que nada tem a ver objetivamente com o anterior, seja do teu interesse, pelo menos com a divertida intensidade do outro. Aí pelo Algarve o Covid tem estado bem mais calmo do que aqui em Lisboa. Faz 5 dias, mais coisa menos coisa, que quase todos os casos são da zona de Lisboa. É certo que não são propriamente de Campo de Ourique, que se saiba, mas, sendo eu um cidadão de risco ainda vou continuar mais um tempo a ver o meu Bairro pela janela. Cara Berta, deixo-te um beijo de amigo, deste que está e estará sempre ao teu dispor,

Gil Saraiva

 

 

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