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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

A partir de Julho de 2022 os blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente". Os blogs: Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro) passam a integrar este blog. Obrigado.

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Carta à Berta n.º 591: Anatomia de um Pum

Berta 591.jpg Olá Berta,

Uma descoberta recente levou-me ao tema de hoje, ou seja, minha amiga, vou-te falar de puns, bufas, peidos, gases, traques, flatulências, farpas, alívios, descuidos, pantufas e bombas. Pelo que descobri, depois de uma cuidada investigação, este é um segredo bem guardado pelas mulheres e totalmente ignorado pelos homens.

A partir de hoje torno público, este segredo de género, para bem de toda a humanidade. Sim, porque ainda me estou a interrogar porque é que a minha mãezinha, nunca me confidenciou um facto como este, cuja evidência parece óbvia, mas se mantém oculta, querida Berta, para o género masculino, qual segredo guardado a sete chaves.

A única desculpa que as mulheres têm por não revelarem a verdade, o que te inclui também a ti, cara Berta, é que vocês nem sequer contam o vosso segredo umas às outras. Porquê? Talvez por acharem que este é um segredo só vosso e que a capacidade extraordinária que possuem é algo de pessoal e intransmissível que só acontece convosco.

Mas vamos à ciência do peido. Ora, em condições normais, a maior parte dos gases que formam o pum vem da nossa boca. Apenas 10% surgem na fermentação dos alimentos ao longo do nosso intestino grosso. O resto nada mais é do que ar que engolimos sem querermos quando comemos ou mesmo bolhas de ar presentes na saliva ou nas bebidas gaseificadas que ingerimos, principalmente, refrigerantes e cerveja, ou seja, Berta, começamos a formar a nossa futura bufa na boca e não lá em baixo, nos confins da retaguarda, longe do olhar que não do nariz.

Esse ar percorre todo o intestino até se encontrar com os gases produzidos pela ação das nossas bactérias sobre a comida. Juntos, cara Berta, eles chegam à zona retal, a uma espécie de bolsa ou ampola, a última parte do tubo digestivo, que termina no ânus.

É aí que ficam comprimidos até o ser que os acumulou abrir uma brecha para que possam sair e empestar o ambiente. Ora, isso acontece de 12 a 25 vezes ao dia, até porque toda a gente se peida enquanto dorme, libertando diariamente de 1 litro a 1 litro e meio de gases. E se tu pensas, minha querida, que homens se peidam mais do que as mulheres, estás redondamente enganada.

Peido não escolhe sexo, mas as mulheres, de uma forma geral, têm mais vergonha de aliviar seus gases em público. Assim sendo, ficas a saber, Berta, que cheiro e som tampouco escolhem sexo. O cheiro depende do que se comeu e o barulho é uma junção de variados fatores.  Matematicamente falando trata-se de uma correlação entre a velocidade de liberação, a contração do esfíncter, essa válvula que controla o abre e fecha do ânus, a humidade local e a quantidade de gordura das fezes, que lubrifica o tubo digestivo.

Desta intrincada fórmula matemática, que um dia, minha amiga, ainda acaba por virar algoritmo, resulta o tipo de peido que é produzido por cada individuo. Pode ser um suave pum, uma bufa fedorenta ou uma de pantufas, um traque bem sonoro, uma bomba que obriga ao evacuamento do espaço onde é produzida, uma flatulência delicada que mal se sente ou, em última análise, um alívio descuidado e fatal acompanhado de molho, qual esparguete servido com um molho que fede mais que queijo demasiado fermentado e que se liberta devido ao aumento da pressão. Sendo que o peido molhado é o mais radical e perturbador petardo que pode ser produzido em público.

Quando o peido é aprisionado dentro de nós, cara Berta, não sendo autorizado a chegar à liberdade, bem que podemos cantar a música dos Delfins, que Miguel Ângelo se recusou a vender para uma farmacêutica, “Libertam os prisioneiros, em todo o mundo há prisioneiros. Libertem-nos!”

Desde que somos bebés que tomamos remédios para libertarmos estes prisioneiros que, revoltados com o cárcere, nos provocam terríveis dores na barriga até receberem ordem de soltura. Porém, enquanto adultos, minha querida, somos muitas vezes obrigados a reter em prisão preventiva, qualquer gás que se queira soltar na presença de terceiros. É este ato, conhecido em Cascais como norma de etiqueta, que nos obriga a aprisionar estes libertinos, sem justa causa, porque a etiqueta jamais deveria ser motivo de prisão.

Mas voltando ao início desta carta, minha querida amiga, e ao segredo religiosamente guardado pelas mulheres, eu, embora espantado com a descoberta, acho importante a divulgação pública deste ficheiro secreto sobre a nobre arte de peidar, oculto no reino do feminino até aos nossos dias e que passo a revelar.

Ora, aqui há atrasado, como dizem os meus amigos do Norte, para se referirem ao que se passou há uns tempos atrás, eu andei dois ou três dias a urinar não da forma normal, ou seja, através de um jato bem direcionado para  a sanita, mas em forma de duche de chuveiro, com xixi a atingir a loiça da sanita, o chão e até os pés. Alguma coisa no canal, minha amiga, estava a obstruir a passagem e a obrigar-me a libertar esta forma estranha de regadio urinário.

Nas primeiras duas ou três vezes ainda continuei a urinar de pé, na esperança de que a mangueira se corrigisse a si mesma. Porém, Berta, a partir dai, desisti. Passei a urinar sentado, para não ter o trabalho de andar a lavar e a limpar tudo à minha volta de cada vez que fazia um xixi.

Aconteceu tudo logo na primeira vez que me sentei para libertar o xixi. Juntamente com o fluxo da urina, o meu traseiro libertou aleatoriamente e sem ordem expressa uma boa mão cheia de puns. Achei engraçado, longe de saber que se tratava de uma regra, mas rapidamente descobri que a coisa acontecia sempre que me sentava para o xixi. Aquilo, cara amiga, não só me aliviava a barriga, como me evitava a libertação indevida de gases em contexto público com muito mais facilidade.

Intrigado com o assunto perguntei discretamente a algumas amigas minhas, a sós, se aquilo era sempre assim. E não é que todas, mas todas, Berta, se riram da minha descoberta ao mesmo tempo que me confirmavam ser um facto, ou seja, sentar para fazer xixi causa a libertação de puns, quer se queira, quer não.

Quer isto dizer, que eu, e como eu todos os homens, passámos e passamos uma vida inteira a “mijar de pé” sem sabermos que aliviaríamos a tripa de uma série de peidos inconvenientes se, em vez disso, urinássemos sentados. É uma injustiça, minha cara, vocês manterem uma informação deste nível de importância em segredo.

Entretanto, a areia que obstruía o meu canal deve ter-se libertado e passei a fazer de novo o meu xixi em jato regular, normal e bem direcionado, mas confesso que agora, sempre que estou em casa, urino sentado, para alívio da minha retaguarda que, muito agradecida, se vai sentindo aliviada.

Peço desculpa por abordar este tema contigo, porém, Berta, pelo menos tu já me devias ter dito algo, não achas? Fica um beijo de despedida deste teu eterno amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 590: Algoritmos e as Notícias do Verão

Berta 590.jpg Olá Berta,

Hoje, por estes dias que vimos atravessando, existem quatro tipos de notícias. As primeiras, que nos chateiam porque somos impotentes para lhes pôr um fim, são as que se referem à invasão da Rússia à Ucrânia.

O país não deixou de ser solidário, amiga Berta, nem de estar do lado dos mais fracos, de apoiar os oprimidos e detestar os opressores, nada disso, o país está é farto de notícias miseráveis que exploram a guerra até ao tutano, uma guerra a que apenas podemos assistir de sofá.

Ouvimos dizer que a Europa está unida. O que une estes povos, contudo, minha querida, pouco tem a ver com solidariedade e muito deve à necessidade de manutenção dos níveis de vida de cada um dos países em si mesmos. É cínico? Muito. Mas é verdade. Tudo o resto é espetáculo mediático. No entanto, para as pessoas, a coisa tem elevados padrões solidários e é disso que todos os governos se aproveitam, embora ninguém o assuma publicamente, porque, no mínimo, seria egoísmo.

O segundo tema destes tempos quentes são as alterações climáticas, a seca, os fogos, o calor extremo. A comunicação social pela-se por colocar um bom bosque a arder na sua magnificência. Se aparecerem umas casas a arder e umas velhotas a chorar então, Berta, a cereja é colocada no topo do bolo. Até parece que lhes agrada a desgraça dos outros.

E nós, o povo, genuinamente solidário, engolimos todas as notícias sem sequer nos apercebermos que são exploradas até ao tutano, em prole de audiências ou de maiores tiragens de jornais nos pasquins deste nosso mundo.

O terceiro assunto envolve política. Este é, aliás, um tema, minha querida Berta, que dura todo o ano e que é algo de que todos estamos fartos, mas que afeta o nosso dia-a-dia. Sejam as tomadas de posição dos diferentes partidos políticos, sejam os atos dos dirigentes de outros países ou dos nossos, a comunicação social raramente informa sobre o que de bom acontece no mundo, mas vende facilmente a informação do que correu errado ou foi corrompido ou que possa vir a acabar de forma menos boa.

O quarto grande assunto estival é o desporto, nesta altura com imenso destaque para o futebol, com o mercado das transferências aberto e os clubes a formarem as equipas que apresentarão já em agosto próximo, minha amiga. Mas tudo sempre muito manipulado, cheirando a desgraça alheia, como se o povo a quem a comunicação social se dirige não estivesse já farto de desgraça em todo o lado.

Pois é Berta, a matemática de hoje é usada para estudar o que nos move e comove e nos faz consumir qualquer porcaria que nos queiram impingir. Claro que tem de vir devidamente embrulhada. Nós, infelizmente, aderimos ao processo calculado em computadores caros que acedem ao nosso modo de vida sem pedirem licença.

Um conjunto de coisas, mais ou menos abstratas para o cidadão comum, como matemática, estatísticas, rankings, algoritmos, padrões, comportamentos, psicologia emocional, probabilidades, perfis, e mais uma parafernália de ferramentas são interligadas e trabalhadas por forma a conseguirem, em última análise, influenciar o nosso comportamento, sem que nós mesmos demos conta de que estamos a ser manipulados por um produto ou algoritmo, traduzido em uma qualquer aplicação, publicidade, produto ou apresentação.

Ás vezes penso no que diriam as grandes mentes da história da humanidade, que viveram antes da revolução industrial se pudessem comentar o nosso quotidiano e atualidade. Tenho a certeza que de Platão a Camões e até a outros pensadores bem mais recentes, seriamos apelidados de idiotas ou de algo muito parecido com isso. Por isso, minha querida Berta, o meu conselho, antes de me despedir, é: antes de fazermos algo ou comprarmos algo, pensarmos se realmente isso ou aquilo nos interessam realmente ou se nos estamos apenas a deixar levar… fica com um beijo,

Gil Saraiva

 

 

 

 

Carta à Berta n.º 589: Joseph Blatter -"I'm Back!" - Tribunal iliba Platini e Blatter de Corrupção na UEFA e na FIFA

Berta 589.jpg Olá Berta,

O suíço Joseph Blatter, o ex-presidente da FIFA, disse no passado dia oito de julho algo que poucos terão ouvido:

     - “I’m back!”

Com efeito, querida amiga, isto aconteceu porque Joseph Blatter e Michel Platini foram ambos absolvidos das acusações de corrupção de que eram alvo, enquanto estiveram nos lugares de topo do futebol mundial e europeu respetivamente. Após seis anos de investigação, que se diluíram numa confrangedora falta de provas concretas, e ao fim de duas semanas de julgamento na Suíça, saíram ilibados. Desse dia, à moda dos antigos filmes de terror e suspense de Alfred Hitchcock, ficarão para a eternidade as palavras de Blatter:

     - “Olá amigos, estou de volta, ainda forte. Terminaram sete anos de mentiras. Agora o jogo está de novo na direção correta. Ou como disse Michel Platini: vão voltar a ter notícias nossas…”

Segundo informa a Agência Lusa, cara Berta: «Em 08 de julho, Michel Platini e Joseph Blatter, antigos presidentes da UEFA e da FIFA, respetivamente, foram absolvidos das acusações de corrupção, após seis anos de investigação e duas semanas de julgamento na Suíça. Numa entrevista ao canal televisivo LCI, Platini garantiu que não tem vontade de voltar ao futebol, embora queira encontrar "os culpados" que estiveram ausentes do julgamento por corrupção. Blatter e Platini eram suspeitos de terem combinado o pagamento ilícito de dois milhões de francos suíços (1,8 milhões de euros) por parte da FIFA ao então dirigente máximo da UEFA.

Platini terá recebido a quantia em 2011, alegadamente, pelos serviços prestados como conselheiro de Blatter entre 1998 e 2002. Ambos justificaram o pagamento tão diluído no tempo com o facto de as finanças da FIFA, na altura, não permitirem remunerações tão elevadas como as acordadas entre Blatter e Platini. O caso já foi julgado nas instâncias desportivas, tendo Blatter, que renunciou à presidência da FIFA em 2015, sido suspenso por seis anos de qualquer atividade ligada ao futebol, por "abuso de posição", "conflito de interesses" e "má gestão", e Platini recebido uma punição de quatro anos.»

Quer isto dizer que Blatter e Platini não foram a julgamento pela parafernália de casos de corrupção de que eram suspeitos, mas apenas foram julgados por aquela acusação que parecia ter mais provas e ser mais consistente para formular uma acusação e uma posterior condenação.

Ora, ambos foram inequívoca e absolutamente ilibados no passado dia oito de junho de toda a acusação do processo. E foi, nesse mesmo dia, que começou um outro processo por parte de ambos os ex-arguidos, trata-se do processo indemnizatório para a reputação do bom nome destes dois homens e da limpeza da sua imagem, entretanto caída pelas ruas da amargura, como é evidente.

Isto quer dizer, minha amiga, que estes homens querem agora dinheiro, muito, mas muito, dinheiro de compensação pelo seu nome ter sido arrastado indevidamente para a lama badalhoca da corrupção. Aliás, será mais correto dizer que isso é apenas o que Michel Platini quer, porque Blatter, por seu lado, prepara-se para voltar a concorrer às mais altas instâncias do futebol.

Mal estará o mundo do desporto se Blatter concretizar este seu sonho, à laia de vendeta, e conseguir voltar a ser eleito presidente da FIFA. Porque, afinal, para um cargo destes não basta ser incorrupto, é realmente preciso parece-lo.

Agora, imagina tu, Berta, que algo deste género acontece com José Sócrates, consegues? Nem quero sequer imaginar. As consequências seriam devastadoras para a imagem da nossa justiça. Por hoje fico-me por aqui, despede-se este teu velho amigo, com um beijo de franca amizade,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 588: Assédio e Abusos Sexuais no seio da ONU

Berta 588.jpg Olá Berta,

As notícias começaram a surgir com mais força na imprensa escrita em Portugal, em meados de março passado, algures nas páginas internacionais dos diários e semanários e chegaram, de uma forma muito mais clara, através de um documentário que recentemente passou na SIC num horário depois das 24 horas. Para mim, caíram que nem bombas, e eu fiquei a aguardar pelos resultados.

Os meses passaram e, até hoje, nada aconteceu. Deves estar a tentar adivinhar do que estou eu a falar, certo, amiga Berta? Estou a falar de centenas de denúncias de abusos sexuais no seio da ONU, isso mesmo, a Organização das Nações Unidas e de muitas das suas derivadas como, por exemplo, a FAO, a UNISEF, a Organização Mundial de Saúde e muitas outras, tantas que até assusta.

Pelo que li nos jornais e vi e ouvi no documentário que passou na SIC e na BBC, minha querida, fiquei a saber que os todos os funcionários seniores e os altos quadros destas organizações (e são uns milhares) têm imunidade diplomática total, a nível mundial, de todas as leis nacionais e não podem ser julgados em qualquer que seja o país, pelos seus atos, e isto abrange os Estados Unidos da América e todos os outros países, sejam eles a Síria ou a República Democrática do Congo. Se cometerem um crime ou são acusados no seio da ONU e a pena é apenas o seu despedimento, ou nada acontece. Até hoje, pelo que consegui averiguar, nada aconteceu mesmo.

E não penses, cara Berta, que o assédio e o abuso sexual no seio destas organizações são meia dúzia de casos pontuais. Nada disso, só nos últimos quatro anos são centenas, de forma repetida, sistemática e diária. Há denúncias que falam, inclusivamente, de violações de crianças, em algumas das missões da ONU ou da UNISEF, entre outros, em países africanos e asiáticos.

António Guterres, enquanto Secretário Geral da ONU, veio inclusivamente dizer publicamente que passaria a haver uma política de tolerância zero para estas práticas no interior da ONU ou das organizações que dela são derivadas, como é o caso da UNISSEF, do Alto Secretariado para as Migrações ou a Organização Mundial de Saúde, entre outras.

Mas foram apenas palavras. Nenhum acusado foi julgado, fosse em que país fosse, nem mesmo pelas próprias organizações e, a grande maioria das vítimas que apresentaram queixa, acabou por ser liminarmente despedida.

Estamos a falar de homens que assediaram e violaram sexualmente, colegas de trabalho do sexo feminino, minha amiga, mas também outras mulheres e crianças que deviam estar sob a alçada e proteção da própria ONU ou das organizações que dela derivam.

A impunidade e a corrupção semeiam o pânico dentro da ONU, porém, talvez porque até ao momento, que eu saiba, as denúncias surgem apenas da parte de mulheres e crianças ainda nada foi feito para estancar tamanha ferida.

Segundo uma das vítimas, que denunciou estas práticas, ela chegou mesmo a falar com António Guterres, que lhe respondeu que tinha conhecimento de vários casos, mas que ele, diretamente, nada podia fazer. A coisa tinha que passar pelo organismo competente. Ora, cara Berta, esse organismo prefere calar as vítimas a culpar um (ou mais) funcionário sénior ou um alto cargo. Pior ainda, o organismo em causa não tem qualquer poder judicial, seja ele qual for, não podendo julgar, mesmo que quisesse, os indivíduos acusados de assédio ou abuso sexual.

Uma imunidade criada para que as organizações derivadas da ONU e ela própria pudessem agir sem ingerência dos países virou arma secreta de impunidade de umas centenas de predadores sexuais instalados no interior destas estruturas. É uma pescadinha de rabo-na-boca.

Já eu, minha querida, fico enjoado com tanta podridão. Se quiseres ver mais sobre o assunto procura na internet pelo tema, encontrarás centenas de notícias e relatos de denúncias, até na imprensa portuguesa. Assédio e abuso sexual na ONU, começa por aí que rapidamente chegarás ao restante. Despede-se com um beijo, triste com o nosso mundo atual, este teu amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 587: S.O.S. - Incêndios!

Berta 587.jpg Olá Berta,

Eu sei que a vaga de calor de 2022 é, até ao momento, atípica, relativamente a anos anteriores. Não é apenas o calor que bate recordes, a terra, por seu lado, esta absolutamente ressequida, o país encontra-se, quase na sua totalidade, em seca extrema, falta água em todo o lado e, para tornar tudo verdadeiramente complicado, quase não há humidade no ar, raramente esta ultrapassa os 25% e o vento parece teimar em aparecer quando não faz cá falta nenhuma.

Porém, se os incendiários em Portugal, em vez de serem julgados e depois castigados com penas suspensas, fossem julgados como assassinos, na melhor das hipóteses, por tentativa e negligência (chega Pedrogão Grande para me fazer entender), estando a coberto de uma moldura penal, enquanto potenciais assassinos e levando penas efetivas de prisão superiores a dez anos, a crise seria muito, mas muito menor.

Estes indivíduos dão-nos cabo da paisagem, põem imensas vidas em risco, quando não as ceifam, diminuem gravemente recursos naturais, já por si escassos, e são tratados como delinquentes menores por uma justiça que pouco faz, enquanto que, se o incêndio fosse em sua própria casa, os olharia de outro modo bem diferente.

Para estes juízes picante na língua dos outros é refresco. Todavia, no entretanto, destroem-se propriedades, desfeia-se a paisagem, destroem-se recursos naturais, aniquilam-se poupanças de uma vida de um sem-número de famílias, geram-se pânicos pelo interior do país, colocam-se bombeiros e outros profissionais em risco de vida e os maiores culpados, quando são apanhados, são tratados com paninhos quentes em vez de serem julgados como perigosos criminosos, que é o que eles são.

Sou, querida Berta, totalmente contra este estado de coisas. Ainda por cima porque o SIRESP já “sirespa” e a Proteção Civil já protege. Contudo, há situações em que a lei tem de mudar se queremos sentir que vivemos numa sociedade justa. No presente estado da Justiça Portuguesa, esta premeia este tipo de criminoso, enquanto todo o país sofre com isso. Não é o único caso em que a falta de uma justiça verdadeira se faz sentir, mas se há que começar por algum lado, caramba, que se comece já por aqui. Despeço-me com um beijo de saudades, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 586: SOS - Mais Um Bebé Abandonado

Berta 586.jpg Olá Berta,

Reza a história de ontem à noite, segundo informação da Lusa, que comandante dos Bombeiros Voluntários do Estoril, depois de contactado pela Agência, prestou a seguinte declaração, com vista ao esclarecimento dos factos:

“Recebemos um alerta às 23:50 para a existência de um bebé num caixote do lixo junto ao Hotel Pestana, em Cascais. Quando a equipa se deslocou ao local não encontrou o bebé no caixote de lixo. Após encetadas buscas pelas imediações foi encontrado o recém-nascido nas traseiras do hotel com evidencias de ter nascido há pouco tempo.”

De acordo com uma divulgação noticiosa da SIC, minha querida Berta, o bebé foi encontrado já hoje, enrolado num lençol, nas imediações de um hotel em Cascais. Informa ainda o canal que:

“O bebé, do sexo masculino, «foi estabilizado no local por uma equipa de emergência pré-hospitalar dos bombeiros» e levado para o hospital de Cascais. A PSP já esteve no local onde o bebé foi encontrado e o caso foi entregue à Polícia Judiciária.”

Pois é minha amiga, segundo o jornal diário Público: o “bebé ainda tinha cordão umbilical e foi transportado para o Hospital de Cascais.” Adianta ainda o diário que o infante foi encontrado no meio de uns arbustos no cruzamento da Avenida da República com a Avenida Humberto II de Itália. Em declarações ao Público o Segundo Comandante dos Bombeiros Voluntários do Estoril, Bruno Carvalho, afirmou: “Notava-se que o bebé tinha nascido há muito pouco tempo, ainda tinha cordão umbilical. Mas estava bem: chorava, mantinha uma boa temperatura. Foi depois encaminhado para o Hospital de Cascais.”

Outros órgãos de comunicação social avançam ainda, minha querida, com a existência de restos de placenta no corpo do recém-nascido, descrevem a localização como sendo nuns arbustos, junto a uma ciclovia, tendo o segundo comandante dos bombeiros voluntários do Estoril, declarado que: “Conseguimos entrar em contacto com a pessoa que fez o pedido de socorro, essa pessoa localizou-nos melhor o local onde ouvia o choro da criança, as equipas deslocaram-se para lá, encontraram um recém-nascido com sinais evidentes de que tinha nascido há poucas horas.”

Já numa reportagem da CMTV, transmitida esta manhã (e não te espantes amiga Berta), o repórter afirma que o bebé foi “atirado” para uns arbustos e depois realça que a Polícia Judiciária montou uma operação para tentar determinar quem é a mãe do recém-nascido. Pelo meio da reportagem são apontados os possíveis crimes cometidos pela progenitora. O presumível jornalista ainda afirma, com visível ar de preocupação no rosto, que o estado de saúde do bebé ainda é desconhecido, contrariando todas as informações divulgadas pelos outros órgãos de comunicação social.

Quem apenas escutou a reportagem da CMTV fica com a ideia, minha cara amiga, que uma perversa basquetebolista marginal atirou, enquanto passava, talvez de carro, um fardo, onde se encontrava um recém-nascido, para os arbustos, na plena consciência dos diferentes crimes de que será acusada quando fora encontrada.

Infelizmente, Berta, este é apenas o último e não o primeiro caso de abandono, com risco de terminar em tragédia, de recém-nascidos em Portugal. Ao longo dos últimos anos têm sido várias as situações semelhantes, com uma regularidade tal, num país onde a natalidade é um recurso precioso e escasso, que já fazia sentido que se tivesse montado uma infraestrutura qualquer de solidariedade, para proteger as mães e salvaguardar o nascimento das crianças em segurança, quando estas não têm condições mínimas de suporte pós-parto dos recém-nascidos, deixando de criminalizar as mães.

Todavia, isto sou eu, minha cara amiga, a imaginar um Estado de Direito que se preocupa genuinamente com o povo que governa, pois julgo que todos nós temos o direito a sonhar com uma qualquer utopia, sendo que esta é a minha. Despeço-me com um saudoso beijo, enviado por este teu amigo do coração, sempre ao teu dispor,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 585: Crises! Que Crises?

Berta 585.jpg Olá Berta,

Pelo que me contas a vaga de calor também invadiu o sul do país. Porém, aí pelo Algarve, junto à praia, é um pouco mais fácil de suportar a chegada do inferno. Esta nova aberração climática já colocou três mil bombeiros a combater incêndios, um pouco por todo o país, e fez disparar os óbitos por entre as pessoas de idade mais avançada.

Faz hoje catorze anos que cheguei a Lisboa, tendo passado a residir novamente na minha terra Natal. Como sabes, minha querida amiga, eu sou um homem do campo. Farto-me de repetir isso. Afinal, nasci em Campo Grande e resido em Campo de Ourique. Pode ser que os meus sessenta anos me tenham feito esquecer outras alturas, como esta, de grande calor. Mas, sinceramente, eu não me lembro de uma vaga assim.

Há quem diga, querida Berta, que esta é apenas mais um efeito das alterações climáticas. Pode ser que assim seja, contudo, em ano em que o país já atravessa as consequências de uma seca extrema, tudo se complica. O fogo parece não dar tréguas aos bombeiros e a falta de água torna ainda tudo bem mais complicado.

As crises, essas famigeradas ameaças à estabilidade deste povo que reside num paraíso à beira-mar plantado, não se sucedem umas às outras, agora a coisa pia mais fino, pois que, em vez disso, as crises acumulam-se umas por cima das outras, fazendo aumentar a pressão sobre uma população cada vez mais fragilizada desde 2008.

Primeiro veio a crise provocada com a falência do banco Lehman Brothers que, num efeito dominó, fez colapsar a banca mundial um pouco por todo o lado, atingindo Portugal por entre as vagas da desgraça. A possibilidade da banca rota faz cair, minha amiga, o Governo liderado por Sócrates, devido à anunciada eminência de banca rota nacional, numa altura em que o Primeiro-Ministro tentava minar a liberdade de imprensa em Portugal, não só acabou com o Governo vigente, como, fruto das eleições, fez com que Passos Coelho tomasse as rédeas do país.

A estas quatro ocorrências ou crises, somámos a chegada da Troika e a ajuda económica da União Europeia, passámos, subitamente, da dificuldade para a austeridade, com Passos a esmifrar o povo até ao último cêntimo. No topo desta quinta crise, a cereja veio da forma da Lei Cristas, a nova Lei das Rendas que desalojou milhares de pessoas dos seus lares, onde viviam há anos e em muitos casos há décadas. Esta senhora nunca irá a tribunal responder pela vaga de suicídios, de gente desesperada, que causou em Portugal. É pena, devia mesmo haver uma forma de lhe imputar a responsabilidade pelo acontecido.

A geringonça de António Costa, cara Berta, deu ao país a possibilidade de não se somarem mais crises às seis, que já invadiam a maioria dos lares do país.

Durante uns anos, poucos, como te recordarás, amiga Berta, o país pareceu serenar e iniciar o caminho árduo da recuperação, embora sem terem desaparecido as crises aparentavam estar a perder força. Eis se não quanto, a chegada de 2020, se fez anunciar pela forma de um vírus, que, em dois anos, infetaria mais de 50% da população portuguesa e mataria para lá de 24.300 pessoas no país, na sua grande maioria idosos indefesos e já com outras patologias próprias da idade.

A sétima crise trouxe rapidamente ao país o agravar das outras seis que ainda não tinham sido debeladas. Pior do que isso gerou novas, fez com que o débil Serviço Nacional de Saúde português entrasse, também ele, numa crise anunciada que chegava em força, por fim. Para mal da Lusitânia, a geringonça, também ela, terminava e a queda do Governo obrigou Portugal a viver de duodécimos por mais de seis meses, esta oitava e nona crises trouxeram novos níveis de stress a Portugal.

Porém, quando a coisa parecia querer respirar um pouco, constatámos que a seca extrema invadira o território nacional e que, na pacífica Europa, uma nova guerra eclodia, provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Com onze crises agora a gerarem o caos, outras quatro vieram ajudar à festa, a subida absurda dos combustíveis, a crise alimentar provocada pela falta dos cereais vindos do celeiro da Europa, ou seja a Ucrânia, a subida súbita das taxas de juros pela banca e, Berta, a chegada em força da inflação.

Ora, esta décima quinta crise, Berta, é precisamente aquela que mais danos provoca nas classes mais desfavorecidas, ou seja, na maioria dos portugueses. A fome alastra, a capacidade de pagar as responsabilidades familiares, sociais e pessoais esgota-se e as condições para o desespero ganham proporções bíblicas.

Neste contexto, a chegada a Portugal desta desproporcional vaga de calor, fruto das alterações climáticas, começa a pintar um novo quadro de inspiração dantesca no nosso território, somando mais cinco crises às existentes. Os mais idosos e com menos condições económicas falecem, levados pelo calor, outros desfalecem, pelo efeito da inflação, as mães receiam parir em resultado do fecho das urgências da especialidade, enquanto Portugal definha, fruto da falta de natalidade que se agrava a cada ano que passa no nosso flagelado canto à beira-mar.

É neste contexto de duas dezenas de crises, muitas delas consequências de outras pré-existentes, em que o país se encontra. Se este se tornar, novamente, num ano de grandes fogos, essa vigésima primeira crise, pode ser o princípio de uma nova era porque, minha querida, o povo é sereno, de brandos costumes, aguenta quase tudo, mas ninguém aguenta tudo.

É com a corda esticada ao máximo e já em tenção absoluta que me despeço por hoje, minha doce amiga. Não sei se Costa se consegue transformar num Santo António Costa, mas estamos todos à espera de um milagre e, afinal, temos Fátima para quê?

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 584: Aquasutra - A Última Moda Sexual Deste Verão

Berta 584.jpg Olá Berta,

Provavelmente ainda não ouviste falar em “aquasutra” (há quem escreva “aqua sutra”), mas desde que, este verão, a empresa de brinquedos sexuais Lelo lançou a sua versão do kamasutra, com a designação de “aquasutra”, que a coisa se propagou que nem rastilho aceso em paiol de pólvora e explodiu com estrondo, alastrando avassaladoramente e maioritariamente através da internet e das revistas femininas, mas não só.

Já há, inclusivamente, casos de praticantes apanhados em flagrante, normalmente fora de horas, nas piscinas de hotéis ou praias de resorts familiares. Porém, minha querida, a euforia parece não parar e a palavra tornou-se moda.

A prática, assumida pelo uso do termo, instalou-se no seio das classes média e alta, mas promete atingir o seu esplendor assim que chegar às camadas mais populares, o que não deve tardar muito, cara Berta.

Para se ser praticante de “aquasutra” basta assumir-se aderente, a que acresce a simples utilização da água no contexto da relação sexual. Para que isto aconteça basta o uso da mangueira de jardim, de uma fonte citadina noite dentro ou do duche, da banheira, do jacúzi ou da piscina. Depois, querida Berta, a sofisticação evolui num curso de água doce, num lago, num tanque de rega, numas termas, numa cascata, numa praia ou no mar.

Graças à imaginação humana, minha amiga, as variantes são muitas, havendo algumas, mais sofisticadas, que implicam o uso de equipamento de mergulho, tudo para que esses atos possam ser submersos, demorados e excêntricos.

Como em tudo, numa nova moda ou tendência, a fortuna pessoal dos envolvidos ajuda bastante nalgumas práticas mais radicais, como alugar um aquaparque para praticar a modalidade durante o uso de um escorrega, por exemplo. Conforme eu costumo dizer, querida Berta, o impossível apenas demora mais tempo.

Todavia, a propagação da modalidade é tal que, hoje, a conceituada magazine feminina “Women's Health” dedica uma página inteira ao assunto, sob o título: “Aquasutra: as melhores posições aquáticas que tem de experimentar.” O subtítulo também é sugestivo e diz: “É uma das fantasias sexuais mais comuns: sexo na água. Este verão experimente uma destas posições”.

Em seguida, minha amiga, o corpo do texto começa por explicar: “O verão é sinónimo de praia e / ou piscina. E a diversão ‘aquática’ não se resume a férias relaxantes ou desportos aquáticos. Também se estende à arena sexual. Ter relações íntimas na água é, sem dúvida, uma das fantasias sexuais mais difundidas devido ao elevado nível de excitação gerada, bem como à carga erótica associada a estes momentos. A Lelo (marca de brinquedos sexuais) criou a sua própria versão do Kamasutra – o mítico manual de sexo – numa versão aquática: o Aquasutra – ou o ranking das melhores posições sexuais para fazer debaixo de água.

Quer seja a sua primeira vez debaixo de água, ou se já atingiu o clímax entre as ondas, tem de tomar nota destas posições: o cavalo-marinho, a escada do prazer, o abraço ou o tapete do prazer.”

Depois a revista explica parágrafo a parágrafo cada uma das posições, tentando manter o decoro suficiente para não ver o artigo rejeitado pelas suas leitoras de elite. Aliás, Berta, se fizeres uma pesquisa no Google, encontras facilmente o artigo difundido online pelo magazine, basta seguir o link apresentado em: https://www.womenshealth.pt/aquasutra-as-melhores-posicoes-aquaticas-que-tem-de-experimentar/sexo/409380/.

Nada tenho contra estas novas tendências ou modas, minha querida amiga, ainda por cima sabendo eu que a prática sexual dentro de água é anterior aos tempos da antiguidade clássica e, quiçá, remonta aos primeiros seres humanos. Aqui, de novo, efetivamente, apenas existe o nome, a sua transformação em conceito e a sua consequente transformação em manual ilustrado, o: “Aquasutra”.

Por hoje fico-me por aqui, despeço-me na esperança de que esta carta te tenha dado algumas ideias para este verão, porque afinal, morando tu, amiga Berta, à beira da Ria Formosa, a existência de cavalos marinhos é uma realidade próxima. Beijo,

Gil Saraiva

Carta à Berta n.º 583: O Homem Que Sabe o Que o Povo Quer.

Berta 583.jpg Olá Berta,

Para Carlos Moedas, o Presidente da Câmara de Lisboa, o conceito de Feira Popular pertence ao passado, minha querida amiga. O senhor doutor conclui, do alto do seu pedestal, com a sapiência especializada dos seus anos na Europa, que os seus munícipes já não querem saber de carrinhos de choque, de montanhas russas, do poço da morte, do comboio fantasma, da barraca da Madame Futuro, do carrinho do algodão doce, da barraca das farturas ou dos restaurantes de grelhados num parque de diversões público dentro da cidade.

Para este visionário das aspirações do povo o que devia existir era, não muito afastado da cidade, mas fora do seu perímetro de governação, um parque temático. Já nas suas freguesias, Carlos Moedas, o homem que vai ficar na história por permitir e concordar com a abertura de um poço de ataque à construção da estação do Metro, com pelo menos 16 metros de diâmetro, no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, prefere que existam parques verdes com equipamentos para as pessoas, porque, afirma convicto, cara Berta, ele sabe o que o povo quer.

É por causa destas sólidas convicções que o Presidente deixou cair a instalação da Feira Popular em Carnide, conforme estava previsto desde que esta desapareceu do centro da cidade.

Porém, amiga Berta, para não pensares que eu estou a inventar, transcrevo para aqui algumas das afirmações do intérprete do povo, o senhor doutor Carlos Moedas, à Agência Lusa, sobre o tema:

"Não é uma questão aqui de desistir do projeto, é que mesmo que eu não desistisse, ele desaparecia por si só".

"Hoje em dia não há, de certa forma, nem sequer há procura para este tipo de parques de diversão dentro das cidades, ou seja, nós nem estamos num cenário em que haja procura, com promotores que queiram fazer este tipo de coisas".

"Olhar para uma solução de um parque Feira Popular, que é uma solução que já não é da atualidade. Como se sabe, na maior parte das cidades europeias, estes parques são feitos longe da cidade, são parques temáticos, o caso de Madrid, o caso de Paris, portanto isso terá de ser repensado".

"Porque é que isso aconteceu? Eu penso que uma das razões é porque hoje em dia nas cidades já não faz sentido este tipo de soluções, porque se fizesse sentido alguém tinha na altura concorrido para fazer esse tipo de serviço, para fazer um parque de diversões. Ninguém concorreu, não há, eu pelo menos não tenho nota disso, portanto não vale a pena insistir numa coisa que não faz sentido".

"Não posso ter um plano para fazer um parque de diversões no centro da cidade quando isso hoje nas cidades europeias não acontece, gostasse eu ou não, portanto aqui o ponto, neste momento, é que não há condições para realizar esse projeto".

"um parque verde… é o que as pessoas que ali vivem querem, portanto isso é o que faz sentido".

Estás a ver Berta, quando convém o que as pessoas “querem” faz sentido. Fará sentido concluir que o que as pessoas “não querem” também faz sentido? É que mais de 99% da população de Campo de Ourique não quer uma estação de Metro no Jardim da Parada, só para reforçar o exemplo já dado. Contudo, para algo fazer sentido para Moedas não basta a vontade popular, ela tem de estar alinhada com a sua própria vontade e, ao que parece, com os interesses económicos envolvidos.

Não é uma originalidade ver um dirigente a falar em nome do povo, sem fazer a mínima ideia do que o povo quer. É mais do mesmo, apenas e só. Porém, não deixa de ser triste assistir à “demagogia feita à maneira” como cantava em tempos idos Lena d’Água. Por hoje é tudo minha querida, resta-nos ficar com a notícia triste de que, tão cedo, não voltará a haver Feira Popular em Lisboa. Deixo um beijo sentido, este teu eterno amigo,

Gil Saraiva

 

 

 

Carta à Berta n.º 582: A Cerveja Pode Fazer Bem à Saúde?

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Olá Berta,

Nesta semana uma notícia difundida na comunicação social fez as cervejeiras esfregarem as mãos de contentamento. Na maior parte dos cabeçalhos noticiosos o cabeçalho anunciava algo do género: “Afinal, beber cerveja faz bem aos intestinos e não engorda.”

Em subtítulo, a negrito, minha querida Berta, a maravilhosa descoberta ainda anunciava: “Investigadores concluíram que «beber cerveja faz bem à microbiota intestinal», um fator associado à prevenção de doenças crónicas como a obesidade, diabetes e cardiovasculares.”

O jornal diário Público, minha amiga, foi dos poucos que teve o cuidado de mudar o título difundido pela Agência Lusa para escrever no título, em vez do sugerido: “Beber uma cerveja por dia faz bem aos intestinos e não engorda, concluem investigadores.”

Com efeito, no corpo do texto divulgado pela Lusa, pode ler-se, cara amiga, a seguinte explicação:

«“O Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) no Porto realça que o estudo, publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry e que também envolveu investigadores da NOVA Medical School — Faculdade de Ciências Médicas, concluiu que “beber cerveja faz bem à microbiota intestinal”.

“O consumo de cerveja contribui para a melhoria da composição da microbiota intestinal, fator que tem sido associado à prevenção de doenças crónicas muito comuns, tais como a obesidade, a diabetes e as doenças cardiovasculares.” Sublinha a equipa de investigação.

Para realizar a investigação, a equipa recrutou homens saudáveis, entre os 23 e 58 anos, para participarem num ensaio, ao longo de quatro semanas, que consistia em beber diariamente 330 mililitros de cerveja, com ou sem álcool.

Os resultados provaram que o consumo de cerveja, uma bebida que resulta da fermentação de cereais, “aumenta a diversidade da microbiota intestinal, sem aumentar o peso e a massa gorda”. Através do estudo, os investigadores concluíram que a ingestão de cerveja “não interfere significativamente em biomarcadores cardiometabólicos”, como a glicose, colesterol e triglicéridos.

“Curiosamente, a fosfatase alcalina, um importante biomarcador de danos no fígado, rins e ossos, diminuiu no decurso do ensaio”, salienta o CINTESIS. O centro acrescenta que o benefício da cerveja na saúde intestinal “provou ser independente do teor alcoólico “, ou seja, ocorre quer a cerveja tenha álcool ou não.

Os investigadores acreditam que o efeito benéfico da cerveja pode estar ligado com os polifenóis presentes na bebida, à semelhança do que acontece com o vinho tinto. Citados no comunicado, os investigadores salientam que o estudo “vem demonstrar que este tipo de bebidas ricas em polifenóis, no caso a cerveja, é uma abordagem interessante para aumentar a diversidade da microbiota intestinal.” O estudo, que foi liderado pelas investigadoras Ana Faria e Conceição Calhau, contou ainda com a participação de outros especialistas do CINTESIS.»

Ora, não encontrei, na nossa comunicação social, falada ou escrita, nenhuma interrogação sobre o modo como o estudo foi conduzido e sobre o que realmente se pode concluir dele ou quais as questões que ficam por responder. O que, minha querida Berta, ou é uma falha dos órgãos de comunicação social ou é um encosto ao lóbi cervejeiro.

As conclusões do estudo, no meu entender, são realmente válidas para os jovens adultos saudáveis a partir dos 23 anos de idade e permanecem válidas até aos homens saudáveis de meia idade até aos 58 anos, que bebam, apenas e só, uma cerveja por dia, ou seja, 33 cl. Aquilo a que o estudo não responde por tal não foi analisado, nem sequer mesmo extrapolado, é às seguintes questões:

  1. Qual é o efeito da cerveja nas crianças, nos adolescentes e nos jovens até aos 22 anos de idade, mesmo que apenas ingiram uma cerveja por dia?

  2. Qual é o efeito da cerveja nos mais velhos, a partir dos 59 anos de idade, e quais os efeitos que provoca à medida que essa idade aumenta?

  3. Que tipo doenças são incompatíveis com o consumo de cerveja?

  4. A diferença de género gera ou não diferentes reações à cerveja, e em caso afirmativo, como se comporta a ingestão de cerveja entre homens e mulheres?

  5. A ingestão de uma cerveja, por dia, limita ou não o consumo de outras bebidas alcoólicas, podendo ter ou não consequências negativas?

  6. Como o estudo foi efetuado apenas com homens podem existir reações diferentes às descritas no estudo no consumo, efetuado dentro dos mesmos parâmetros, por mulheres?

  7. Se o estudo em vez de quatro semanas se mantivesse por um ano, ou seja, por mais 48 semanas, as conclusões teriam sido as mesmas?

  8. Se o consumo for o dobro, ou até mais, relativamente àquilo que foi estudado, as conclusões alteram-se e de que maneira é que isso acontece?

  9. Sabendo que em Portugal, segundo o censos de 2021, existem mais meio milhão de mulheres do que homens e que entre os 23 e os 58 anos apenas existem entre 2 a 3 milhões de indivíduos, sendo que os totalmente saudáveis rondarão a casa do milhão, talvez um pouco menos, para que serve um estudo que visa apenas dez porcento da população portuguesa, limitado no período de testes, e sem aferição das consequências da continuação do consumo passadas as 4 semanas?

Ora bem, minha querida Berta, as minhas questões podiam ser muitas mais, o que me aborrece, não no estudo, que me parece um bom passo em frente, mas na forma como o mesmo foi divulgado é que o nosso jornalismo atravessa um período sombrio.  Mas isto sou eu a achar, minha amiga, fica com um beijo de despedida muito saudoso, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

 

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