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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 64

A Felina - 64.jpgA última noite de Lua Cheia de novembro foi inesquecível. Íris, achou surreal dar consigo, meio sem saber como, depois do jantar na Portugália, a fazer amor dentro de uma 4L, estacionada no passeio, mesmo em cima e em frente à porta da Casa-Museu Amália Rodrigues. A festa foi interrompida, felizmente, entre quecas, por dois polícias de giro, que não acharam nada giro presenciar o balançar da viatura, qual traineira fadada a outros fados, em frente da casa da lenda do fado.

A multa escapou apenas porque um dos polícias reconheceu Íris. Mas ela não deixou de ter de ouvir o velho polícia a recomendar mais decoro a uma doutora tão conhecida em Lisboa. Com um pedido de desculpas e depois de inverterem a marcha e voltarem ao parque de estacionamento, ela foi tomada novamente pelos braços de Dia e colhida com as costas apoiadas na 4L. Ora, quem conhece a viatura sabe perfeitamente quão desconfortável é a frente de uma 4L, todavia, o frenesim era tal que Íris nem deu pelo incómodo.

A jovem acordou em cima da mesa da sala de jantar, seminua, com o cheiro de ovos mexidos, bacon, sumo de laranja natural e torradas. Dia estava a terminar de preparar o pequeno-almoço e de o colocar na mesa na parte que ela não ocupava. Poisou as torradas, contornou-a, deu-lhe uma lambidela entre pernas e perante o ar admirado dela indagou:

     ― O que foi? Não posso lamber? É só para me abrir o apetite para o pequeno-almoço.

     ― Nesse caso também quero experimentar. Anda cá, vá… passa-me aí o salame… ― ordenou a jovem esticando e encolhendo o dedo indicador da mão esquerda. ― Hum… tens razão, abre o apetite.

     ― Sim, sim. É uma invenção muito antiga, já os romanos falavam do uso comum do pau multiusos. A menina deve saber disso nos seus estudos da arte e literatura romana, não? ― indagou Diamantino.

     ― Não me recordo de alguma vez ter lido a coisa descrita dessa forma “pau multiusos”, mas quem sou eu para duvidar de um brilhante arqueólogo na plenitude do seu conhecimento do terreno. ― Íris ironizava agora. ― Todavia, as práticas romanas são inspiradoras.

     ― Verdade! Com os romanos era pau para toda a obra. ― Dia, ria.

Depois de Diamantino ter saído para as escavações, já com um revigorante banho tomado e pronto para o regresso ao trabalho, Íris, ficou a imaginar que desta vez, a entrada nos Ciclos da Sombra, não iam impedir que a sua líbido continuasse a funcionar. Ela adorava aquele sujeito. Estaria a apaixonar-se? Pensou um pouco no assunto. Por fim, sem chegar bem a uma conclusão, achou que logo se veria. De momento estava feliz, consolada e desejosa que ele voltasse no fim da tarde.

Foi ver o correio. Tinha uma carta da CUF com o relatório escrito que tinha solicitado relativo a uma bateria de exames e análises que fizera no final da semana anterior. Achara estranho, talvez pela primeira vez, o facto de não ter tido medo algum, quando soubera que Vítor, o seu ex-Superintendente, escapara às malhas da justiça.

Precisava de saber se ela, tal como Vítor sofria da doença de “Urbach-Wieth”. Era uma doença raríssima, apenas eram conhecidos umas centenas de pacientes no mundo com essa maleita. Seria estranho que ela sofresse do mesmo mal que o seu, agora, arqui-inimigo. Aliás, ela só ouvira falar nisso, precisamente na noite em que ambos se tinham envolvido um com o outro.

Na altura julgara que o homem estava a inventar para parecer um individuo raro e diferente. Porém, descobrira que a doença existia mesmo e comprovara que ele a tinha registada no seu ficheiro pessoal, que ela invadira na base de dados da PJ. Ora, a doença afetava a estrutura do cérebro e, mais concretamente atacava a amígdala, destruindo-a. Com a ruína desta zona do cérebro responsável pela sensação de medo, a pessoa não tem medo de coisa nenhuma. Tem, logicamente, conhecimento do conceito de medo, sabe, porque aprendeu o que é o medo e quais os sintomas, mas, efetivamente, nunca o sentiu.

“Era um pouco como se alguém fosse a esta nossa região do cérebro e literalmente a escavasse”, explicava o Professor Doutor António Damásio, num artigo já com algum tempo, que ela entretanto descobrira. Ora, António Damásio era um famoso médico neurologista, um neurocientista português, que trabalhava no estudo do cérebro e das emoções humanas, sendo também Professor de neurociência na Universidade do Sul da Califórnia.

O cientista, com mais de uma dúzia de prémios e honrarias atribuídas pelo mundo fora, era também autor de vários livros sobre o cérebro, que, porém, tinham o condão de cativar o mais profundo leigo na matéria. Fora precisamente por ter descoberto que parte do estudo sobre a doença de “Urbach-Wieth”, lhe era devida, que ela se interessara mais ainda sobre o assunto, sobre o qual, efetivamente, desconhecia quase tudo.

A jovem abriu o envelope A5. Era algo volumoso. Dentro vinham os resultados dos exames e das análises. Ela nem lhes ligou. Foi direita ao relatório e procurou pelo resultado. Perto do fim ali estava, preto no branco, o resultado final. Tinha-lhe sido diagnosticada a doença de “Urbach-Wieth”. Por isso ela nunca temia fosse que situação fosse. O seu problema não era de feitio, era físico.

Aquilo era algo preocupante e muito perigoso. Ia ter que ter muito mais atenção à sua vida do que lhe dispensara até ali. Uma pessoa que, por exemplo, não tem medo do fogo, pode mais facilmente deixar-se queimar inadvertidamente. Mas quem diz fogo, diz alturas, venenos, cobras, aranhas, desafios arriscados e por aí em diante, até aos confins das infinitas situações em que se possa colocar com perigo. Íris, iria ter de tomar muita atenção, cem vezes mais do que tivera até ali, sempre que estivesse numa situação de risco. Até agora tivera sorte, muita sorte. Porém, sendo aquela a sua realidade, não iria poder apenas contar com isso. Tinha que estar alerta, sempre alerta e agir com consciência e não precipitadamente.

Fora isso que ela sentira no Vítor. De alguma maneira o seu olfato apurado descobrira, sem no entanto a conseguir identificar, a falta de medo do Vítor e identificara-a consigo própria. Ela sabia que a maioria das reações humanas produziam odores diferentes. Fossem elas medo, ansiedade, volúpia, prazer, depressão, paixão e por aí fora. No entanto, o seu desconhecimento da doença não lhe permitira detetar o que ao certo a atraíra no Vítor. Era isso mesmo, a ausência de medo, emitia um odor diferente nele que ela identificara consigo mesma. Fora isso que a atraíra.

Satisfeita com a descoberta, a jovem guardou a carta nos seus documentos na sala secreta. Já sabia o que a atraíra em Vítor, já o podia combater.

Outro mal seu era a hipertimesia associada à sua imensa memória. Durante o resto do mês de novembro e até ao fim do ano, a rapariga terminou os seus estudos universitários. Antes das férias escolares de Natal apresentara para o seu novo doutoramento o projeto que criara para o Museu Nacional de Arte Antiga e que acabara, uns dias antes de vir aprovado de Bruxelas. Graças a isso poupara um ano de trabalho. Podia iniciar em janeiro de 2023 os seus ansiados doutoramentos em arqueologia e arte. Iria frequentar o PhD da Universidade de Edinburgh em Arqueologia e o Doutoramento em História da Arte, com especializações em História da Arte da Antiguidade e Museologia e Património Artístico da Universidade Nova de Lisboa.

Íris, como sempre, queria encurtar o tempo de estudo necessário, isso de passar quatro anos a preparar uma tese não era para ela. Por isso mesmo, pagou previamente todas as propinas inerentes à frequência de ambos os doutoramentos e depois conjuntamente com o seu currículo enviou uma proposta de apresentação das teses para o final de 2023. A base de trabalho estava relacionada com as escavações de Lisboa e devido ao interesse nacional e internacional da descoberta, bem como graças ao seu vasto portefólio, a sua proposta fora aceite em ambas as universidades.

Agora restava-lhe juntar os manuais e os livros, falar com os orientadores, arranjar uma estratégia de trabalhar as teses em campo e, na posse de tudo isso, preparar a apresentação das duas teses para o princípio de dezembro de 2023. Já sabia, de antemão, que teria de ir algumas vezes a Edinburgh, mas isso não tinha qualquer importância.

Na noite da passagem de ano, estando Íris e Dia ou Diamantino ainda juntos e a celebrar a entrada em 2023 com o grupo que liderava as escavações, o telemóvel da jovem tocou. O número era anónimo e ela esteve para nem sequer o atender, contudo, fruto de um pressentimento, resolveu permitir a ligação da chamada. Do outro lado alguém dizia:

      ― Feliz Ano Novo minha querida Íris. Sinceramente e do coração. Faço votos para que tenhas um ano muito feliz. Ainda sinto que fui incorreto no modo como te tratei. Sabes quem fala?

      ― Claro que sei, Vítor. Um bom ano para ti também. ― respondeu ela.

      ― Olha, não sei se tens visto a Felina, devido à tua atividade com a Polícia Judiciária, contudo, se estiveres em contacto com a gata gostaria que lhe desses um recado da minha parte, pode ser? ― indagava o homem com alguma sobranceria.

      ― Pode sim, Vítor. Todavia, se for para falares de vingança ou algo do género, não achas melhor ires tentando sobreviver longe da cadeia. A vida na penitenciária não me parece adequada ao teu estilo. Devias tentar esquecê-la. Afinal, se vires bem as coisas, ela deixou-te fugir. Não foi atrás de ti e podia ter ido… ― contrapôs Íris, tentando aplacar a raiva que sentia existir do outro lado.

      ― Ela não me deixou fugir, eu fugi sem que ninguém desse conta disso. Quanto a não vir atrás de mim… ― referiu, Vítor. ― Não veio porque sabia que jamais me conseguiria encontrar. Eu sou bem melhor que essa gata vadia. Mas isso agora nem interessa. O recado que eu te agradeço que lhe dês, se alguma vez entrares em contacto com ela é para que ela aproveite bem todos os dias de 2023 que conseguir, porque a Felina jamais verá o fim do ano. Vai ser este ano que ela morre sob o meu jugo.

      ― E tu queres que eu a previna de que a vens matar? Não achas melhor eu ficar calada e tu apareceres de surpresa? Parece-me mais inteligente… ― questionou Íris.

     ― És mesmo uma querida. Preocupada comigo. Logo tu que representas a única pessoa com quem não fui correto… ―avançava Vítor, aparentando algum remorso. ― Porém, não te preocupes eu quero mesmo que ela não durma descansada. Vai tremer todos os dias a olhar para todo o lado a pensar quando e de onde eu posso aparecer para o seu julgamento final.

     ― Fica tranquilo que se eu tiver oportunidade passarei a mensagem. Não concordo, mas respeito a tua vontade. Ao fim ao cabo, tu é que sabes de ti… ― como que advertiu a rapariga, preocupada com a sede de vingança de Vítor. ― Preferia que fosses fazendo a tua vida ou, melhor dizendo, refazendo a tua vida em paz.

      ― Eu terei paz com a morte dela, minha querida. Adeus! ― Vítor desligou a chamada.

 

FIM

 

Final do romance policial "A Felina - Noites de Lua Cheia" de Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 63

A Felina - 63.jpgAs restantes Noites de Lua Cheia daquele mês de novembro tornaram-se por isso mesmo eternas, sensuais, carnais, viciantes e viciadas, quase como se não houvesse amanhã. Se Diamantino tivesse uns bigodes retorcidos nas pontas e virados para cima, que efetivamente não tinha, estaria encontrado o domador de leões, tigres e panteras típico de um circo máximo.

Com efeito, não lhe faltava o chicote enrolado à cintura, nem o sorriso esmaltado a branco no rosto moreno. Era ele quem passara a dar a cara nas entrevistas com a comunicação social. As câmaras adoravam-no chegando a fazer inveja à Felina que, embora confiante, parecia não estar nada interessada em repartir o jovem com ninguém.

Os Ciclos da Luz, nomeadamente a Lua Cheia, só terminaram a quinze de novembro e aquelas noites e dias foram praticamente uma Lua de Mel entre aquele incansável casal. Num final de tarde, chegaram inclusivamente a fazerem amor sobre uma velha mesa de madeira empoeirada, algures nas instalações da biblioteca romana, perante a assistência incrédula de livros, papiros e estátuas estupefactas com quase dezoito séculos de história. Um busto sereno de Júlio César, parecia até concordar com aquela efervescência amorosa através de um sorriso esculpido delicadamente no mármore alvo e imaculado, quem sabe se de Carrara.

 O número de Alfredo Neto, o dono da oficina onde a Felina confiava as suas viaturas, piscava no telemóvel de Íris. Ao atender a jovem ficou a saber que aquilo que pedira ao seu mecânico chefe estava pronto. Íris, relatou, detalhadamente onde queria a encomenda, não apenas o dia e a hora, mas também local e a ordenação em que a mesma deveria estar disposta. Até lhe enviou um esboço para não haver enganos.

No início da noite de terça-feira, dia quinze de novembro, a carrinha da polícia saiu da esquadra de Sintra. No seu interior iam quarenta milhões de euros aprendidos à Kalinka, mais uns bons milhões em ouro e joias. Uma outra carrinha levaria no dia seguinte, à mesma hora, a droga apreendida para os cofres da Polícia Judiciária. A carrinha escolhida para os valores era uma das viaturas blindadas do corpo de intervenção e levava três homens bem armados no seu interior. O condutor, um comissário e um chefe principal.

Íris, não tivera dificuldade em descobrir qual o itinerário da carrinha da polícia. Para evitarem o tráfego da IC19 eles vinham para Lisboa pela A16 e depois entravam na capital pelo IC37. Eram mais nove quilómetros, mas, àquela hora, vinham sempre a andar. Foi perto do nó de Agualva que tudo aconteceu. Na beira da estrada uma 4L estava deitada de lado, com fumo a sair da zona do motor.

A noite caíra já há um bom bocado e não era fácil entender o que acontecera, via-se o chão molhado em volta da viatura, o que levava a pensar que o depósito estava a verter gasolina para o pavimento. O banco do condutor parecia vazio, porém, um braço aparecia e desaparecia, a espaços, visível pelo vidro frontal. Alguém parecia estar muito mal dentro da 4L. O tempo para agir parecia escasso.

A carrinha da polícia parou. Rapidamente, os polícias correram para o acidente tentando chegar à 4L antes que o fumo do motor se transformasse em fogo, engolindo para sempre aquele braço que parecia perder força. A viatura aparentava ter sofrido um acidente aparatoso pois não havia chapa que não estivesse amolgada ou arrancada e perdida por ali, pelo asfalto. Não parecia haver um vidro intacto.

Subitamente os três polícias ouviram o som da sua carrinha a arrancar, deixaram de estar iluminados pela luz que dela vinha e que permitia ver o acidente. A viatura do corpo de intervenção desaparecia a toda a velocidade em direção a Agualva. A chave ficara na ignição e as portas tinham ficado abertas. Um erro tremendo. O agente que tinha vindo a conduzir deitava as mãos aos bolsos e confirmava que não guardara a chave.

O comissário resolvera tratar primeiro do ferido da 4L, mas foi surpreendido pelos acontecimentos. Dentro da viatura um braço de um manequim, preso a uma engenhoca, subia e descia lentamente. Não havia vivalma no carro acidentado. O chefe principal acabava de perceber, ao levar a mão ao solo molhado, que se tratava de água e não de gasolina. Daí a descobrirem que o fumo do motor provinha de uma lata larga com borracha queimada a derreter foi um saltinho. Os polícias tinham sido enganados e infantilmente roubados. Quando chegou o auxílio já a carrinha desaparecera há vinte minutos.

A carrinha do corpo de intervenção foi encontrada quase à entrada de Agualva. Os sacos do dinheiro estavam vazios e as três malas enormes de alumínio tinham os cadeados arrombados e estavam vazias. Bem, quase vazias. Dentro da última descansava uma moeda da Felina, assinando o roubo. Em meia hora tinham desaparecido as joias, o ouro e vários milhões de euros, como que por magia.

Na Rua da Fábrica, em Campo de Ourique, a Felina acabara de chegar à sua sala secreta, guardando no cofre o resto das joias que trouxera escada acima até ao seu apartamento. Tinha subido e descido aquelas escadas treze vezes, mas finalmente tinha o ouro todo e as peças de ourivesaria guardadas no cofre. No seu Dácia ficara o dinheiro. Esse seria guardado no primeiro andar, na sua sala especial, no número quatrocentos e quarenta e quatro da Rua de São Bento. Depois de tudo tratado ali, foi para lá que seguiu.

Íris ligou ao seu mecânico chefe. Agradeceu a 4L e a montagem da armadilha. Este, vaidosamente esclareceu que usara uma viatura acidentada retirada de um ferro velho em Pero Pinheiro, juntamente com uns salvados de que precisava para a sua oficina e que na compra não fora registada a 4L individualmente, apenas o peso de um lote de salvados diversos. A matrícula que colocara na viatura tinha outra origem e também não seria possível descobrirem de onde viera. O mais difícil fora arranjar o braço mecânico do manequim e montar o engenho no banco do condutor.

Alfredo Neto, estava muito feliz por ter sido útil. Para a próxima vez que a Felina precisasse dele não tinha que lhe pagar o trabalho tão generosamente, nem de forma antecipada, teimava novamente. Ela só tinha que pedir. Depois, insistentemente, voltava a repetia que nem precisava de ser pago. Sem ela ele jamais se teria conseguido voltar a erguer, a ter um negócio e a viver com alguma prosperidade como agora vivia. Ela sabia disso.

Sim, ela sabia. Todavia, quem trabalha tem de ser pago e, ainda por cima, aquele fora um trabalho de risco. Ele refilava mesmo assim. O que ela lhe pagara dava para comprar um carro novo de gama média e ele só usara uma viatura a desfazer-se. Além disso, dava-lhe imenso gozo realizar estes trabalhos para ela. Sempre que os fazia sentia-se trinta anos mais novo.

O assalto tinha sido muito bom. Quase cem milhões, sacados de forma simples, sem muito risco e com imenso gozo. A cereja no topo do bolo era a fortuna vir da Kalinka. As joias, ela ainda ia ter que as desmontar e vender, o ouro teria se ser entregue aos seus fornecedores para transformar em barras de cem gramas, mas o dinheiro continuaria a ajudar o seu serviço de acudir os mais necessitados. Tinha sido um trabalho limpinho.

Tocaram à sua porta, estava ela a fechar a sua sala secreta. Foi ver quem era. O sorriso desalinhado de Diamantino apareceu na pequena câmara da campainha. Ela sorriu e indagou pelo intercomunicador:

      ― Sim… o que deseja? ― Íris, parecia formal. ― Se me vem vender bíblias ou passar a Palavra do Senhor, informo que já tenho o livro e quanto à palavra de uma Testemunha de Jeová, ainda há três dias tive cá duas outras testemunhas que nunca mais se calavam. Estou cheia de palavras. Entendeu?

      ― Não, não! Eu venho é mesmo jantar e depois passar-lhe a pila deste senhor. ― Diamantino, rindo, respondia com a boa disposição de sempre. ― Ou a senhorita já teve pila que chegue?

      ― Jamais me verá queixar de pila a mais. Por quem o senhor me toma? Mas não suba, eu desço. Hoje apetece-me jantar fora. ― Íris, divertida, respondia, por entre um riso contagioso.

O arqueólogo esperava por ela no passeio junto à porta do prédio. Hoje iam no carro dele, podia ser? Indagou contente, ainda com a cabeça cheia de pó, com ar de quem acabara de chegar das ruínas romanas onde ambos trabalhavam. Atravessaram a rua e chegaram ao parque de estacionamento. Ele aproximou-se de uma Renault 4L vermelha, que quase parecia a do acidente forjado do início da noite. Íris desatou a rir. Aquilo era um déjà vu, ela nem queria acreditar.

O poiso preferido de Dia, como ela chamava a Diamantino, era a Cervejaria Portugália na Avenida Almirante Reis. O ar clássico do restaurante abria-lhe o apetite, explicava ele, mais uma vez, ao entrarem. O homem era desconcertante. Nunca conhecera ninguém que estivesse sempre feliz até o conhecer. Contudo, era verdade, nada desanimava aquele Indiana Jones.

 

(continua no último fascículo do livro) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 62

A Felina - 62.jpgTambém devia à mãe ter-se formado em direito, ter entrado para a Polícia Judiciária, e até ter aprendido a usar os seus conhecimentos legais para extorquir dinheiro aos agiotas e aldrabões deste mundo, sem nunca ter sido acusado uma única vez. A senhora sua mãe era uma artista perfeita sabendo sempre que papel representar para tirar vantagem de uma qualquer situação. Só a matara porque o raio da velha, a dada altura, entendeu que ele não podia ter outras mulheres e tinha que ser só dela.

Mas fora mais uma morte santa. Ele sabia que o pai, quando era vivo, tinha feito um seguro chorudo da casa deles, uma casa que já estava na família há mais de duzentos anos. Era um velho palacete da baixa de Lisboa, que ele sempre conhecera a precisar de obras. Um dia, há quinze anos atrás, a mãe acordara, fora fazer o pequeno almoço para ela e para ele (sem saber que ele já saíra de casa há mais de uma hora) e catrapus, uma fuga de gás levara-a para os anjinhos.

As verbas do seguro, somado ao dinheiro da venda do terreno do palacete destruído, para um hotel, tinham feito dele, um jovem com uma elevada conta bancária, lindo, atlético e bem de vida. Mesmo que para isso tivesse que ter chorado imensas lágrimas de crocodilo para afastar de si quaisquer suspeitas. Exatamente como fizera quando se vira livre do pai. Ele tinha um jeito tremendo para se livrar de trabalhos e a Polícia Judiciária ensinara-o a tirar partido do sistema.

Ele já possuía uma identidade falsa há mais de cinco anos, sempre pintara o cabelo de louro, desde muito novo, porque a sua mãe o achava parecido com um ator qualquer, lá do tempo dela, que também era louro. Já se lembrava, Robert Redford. Agora bastava-lhe pintar uma vez o cabelo de castanho escuro, cortá-lo muito curto, entregar a sua casa ao senhorio, e retirar o dinheiro da sua conta e colocá-lo na conta da nova identidade. Um advogado, com uma barba de três dias e ar de playboy.

Com o desastre da quinta de Sintra ele passara a ser Daniel Trindade Villa-Lobos, a nova identidade que aprendera a forjar na PJ, advogado, com ascendência espanhola, nascido em Lisboa há quarenta anos atrás. Recentemente regressado de uma estadia de seis anos no Brasil.

Mesmo tendo perdido a oportunidade de crescer na Kalinka, Vítor, achava que tivera sorte. Escondera-se durante o ataque à quinta e só saíra do seu esconderijo, com a sua farda da PSP, quando esta força policial começara a revistar o solar. Com cuidado, para evitar conhecidos, saíra pelo seu próprio pé do casarão. Ajudara a carregar a carrinha que levara o dinheiro, as joias e o ouro para Sintra e seguira com a carrinha até lá.

Uma vez em Sintra tirara a farda, deitara-a num contentor do lixo, satisfeito por já não ter que andar de chapéu e cabeça para baixa para não ser identificado em qualquer câmara, e seguira de táxi para Lisboa, à civil, como um passageiro qualquer. Fora uma fuga limpinha e sem espinhas. Agora restava-lhe passar uns meses a cultivar a sua identidade de advogado playboy, sem levantar muitas ondas, para depois reaparecer em algum lado, novamente brilhante e triunfante.

A Felina ligou para o seu mecânico de eleição, na manhã de dia doze já perto do meio-dia. Precisava de um favorzinho. Não era uma tarefa fácil, mas também não era impossível. Descreveu o que planeara com todo o detalhe e depois enviou-lhe um esquema do que queria, desenhado ao pormenor. Seria possível fazer aquilo? Ele, respondera que sim, desde que não apanhasse polícia à hora em que teria de agir. Não apanharia, isso ela podia garantir. Combinou tudo, ficou de lhe deixar um envelope com o pagamento na caixa do correio deste e despediu-se do amigo.

Na comunicação social o fim-de-semana e os três primeiros dias da semana seguinte foram dedicados a dois temas, o primeiro fora anunciado pela primeira vez na quinta-feira, dia dez, um dia antes do assalto à quinta de Sintra, que foi o segundo tema desses dias. As obras, do metro na linha vermelha e na verde, do metropolitano de Lisboa tinham encontrado algo.

Com efeito, a descoberta gerara já um pedido a Bruxelas para suspender, por uns meses, a continuação destas linhas até o achado arqueológico ser devidamente explorado. Tratava-se de uma grande extensão de ruínas romanas, que gerara um enorme alvoroço entre arqueólogos, historiadores e especialistas em antiguidade clássica. Uma das grandes descobertas era uma enorme biblioteca romana, praticamente intacta.

O achado era de tal ordem relevante que estava a ser considerado de importância histórica mundial. A biblioteca continha milhares de documentos e outras obras em perfeito estado de conservação. O Museu Nacional de Arte Antiga, conseguira-se colocar de imediato como um dos organismos principais responsáveis pelas investigações e a Doutora Íris Vasconcelos fora convidada, ainda no sábado, dia doze, a ser a investigadora-chefe nomeada pelo museu, em articulação com a Direção-Geral do Património Cultural, a entidade encarregada de gerir o projeto.

As Universidades de Lisboa, Porto, Coimbra e Algarve, através das suas Faculdades de Letras e dos Cursos de Arqueologia, em colaboração direta com o Museu Nacional de Arqueologia, atualmente encerrado para uma reconversão ao abrigo do PRR, o Plano de Recuperação e Resiliência Europeu, formavam os restantes parceiros principais.

Estes eram, assim, encarregados da investigação arqueológica, tendo sido selecionados dois arqueólogos de cada instituição para integrarem a equipa que fora constituída para liderar o projeto, sob a coordenação e gestão da Direção-Geral do Património Cultural, conforme indicação do Governo.

As excelentes relações, ultimamente reforçadas, entre o Governo e a Doutora Íris Vasconcelos valeram-lhe a escolha como a investigadora líder da equipa escolhida pela DGPC, mesmo não sendo uma arqueóloga e sim uma investigadora de literatura, história e arte antiga, principalmente a cultura greco-romana da antiguidade. A SIC conseguira um exclusivo a DGPC e com o Museu Nacional de Arte Antiga para documentar as investigações e garantira a assessoria da Doutora Íris Vasconcelos.

Paralelamente a TVI, por seu turno, prometia já uma nova série de treze episódios, sobre o assalto, com a assessoria de Íris para a nova série. Sim, porque ter o exclusivo nacional das imagens da Felina era como ter um maná caído do céu que convinha explorar. Desta vez teria alguma concorrência do canal americano de cabo, o “Crime”, mas isso não a importunava em termos de audiências nacionais. Melhor ainda, Cristiana Bandeira, conseguira do “Crime” os direitos televisivos para transmissão dos documentários destes para o canal generalista.

Por um lado, a descoberta arqueológica em Lisboa ia atrasar as linhas verde e vermelha da capital em dois anos, para descontentamento do Metropolitano que agora passava a ter tempo para fazer, por exemplo, o estudo alternativo à estação do metro no Jardim da Parada, uma vez que a falta de tempo para a sua realização já não se punha, cumprindo o determinado pela Assembleia da República, que tinha discutido a petição do movimento “Salvar o Jardim da Parada” e votado favoravelmente a um estudo de pormenor da alternativa na Rua Saraiva de Carvalho, conjuntamente com o Largo da Igreja.

Por outro lado, o Governo aprovara a criação do Museu Romano, sob a alçada do Museu Nacional de Arte Antiga de forma a expor o vasto espólio encontrado nas escavações. Mas a pérola daquele achado era, sem margem para dúvida, a Biblioteca Romana. Todos os documentos encontrados estavam a ser fotografados ou digitalizados, conforme a técnica menos corrosiva em cada caso, passando o museu depois, na secção criada para o efeito, a lançar livros na versão original e em português com uma equipa de vinte e cinco especialistas sob o comando de Íris Vasconcelos.

Diamantino Rodrigues Infante, embora sendo um dos arqueólogos mais novos do grupo selecionado para liderar as escavações, fora eleito, entre os oito especialistas, o líder desse grupo, passando a servir de interlocutor com Íris, com o Museu Nacional de Arte Antiga e com a Direção Geral do Património Cultural. O jovem, na casa dos trinta e cinco anos, viera de Coimbra para a capital com um entusiasmo incomparável. Lembrava muito um Indiana Jones à portuguesa, mas ele fazia por isso, pois era um admirador confesso do personagem de Steven Spielberg.

Na verdade, as calças de ganga gastas, a camisa preta, o colete de cabedal castanho e o chapéu à cowboy, a tapar um cabelo castanho, revolto e com raios se Sol aqui e ali, compunham na perfeição a personagem. Mas o olhar vivo, inteligente e irreverente é que tornavam todo o papel verosímil.

Foi ele que cativou e encantou a Felina e não o inverso, desde a sua chegada logo na primeira noite. Foi quase mágica a forma como ambos se envolveram, ele atraído pelo lado selvagem da gata que achava transparente, ela por adorar o puro charme daquele homem feito à medida para si.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 61

A Felina - 61.jpgXV

Noites de Lua Cheia

XV

Com a Lua Cheia a começar a oito de novembro, Íris já perdera quatro dias das suas noites especiais do segundo Ciclo da Luz. Restava-lhe a noite de dia onze e os dias doze, treze, catorze e quinze. Mesmo assim, não se podia queixar muito. O cerco à quinta de Sintra correra melhor até do que ela esperara. Renderam-se, antes do final do dia, os quinhentos e trinta e sete membros da Kalinka.

Todavia, não foi uma tarefa fácil. Foram efetuadas onze perseguições de helicóptero e mais de cem fugas travadas pelos aranhites que se mostraram essenciais para virar o jogo a favor das polícias. Mesmo assim ainda foram abatidos os seis Cedros principais, que não se renderam e saíram pelo portão numa viatura, com metralhadoras automáticas a disparar para todo o lado.

Também morreram, fruto da troca de tiros, outros vinte e sete Cedros e quatro Zimbros. Numa iniciativa de última hora o Governo vendeu ao canal americano “Crime” os direitos de filmagem dos preparativos, do confronto e o contrato só terminará com a extradição da restante máfia e respetivas famílias. Será produzida uma série de vinte e quatro episódios. Foi aprendido um verdadeiro arsenal de armas e munições, algumas toneladas de droga, mais de trinta, sendo vinte e quatro de cocaína e heroína e mais de seis de drogas leves e anfetaminas.

Em consequência da operação foram retiradas da atividade cerca de duzentas e sessenta e três prostitutas e desativadas dezenas de casas de prostituição clandestina, bem como se desmantelaram duas redes internacionais de tráfico, uma de armas e outra de pessoas. Da operação resultou ainda a apreensão de mais de quarenta milhões de euros em notas e cerca de sete milhões em ouro e joias. Na noite de onze para doze as armas e os valores ficaram a cargo da polícia de Sintra.

Do lado das forças que efetuaram o cerco, foi ferido numa perna, sem gravidade, o Diretor Adjunto Carlos Farelo, sete oficiais e onze elementos do exército. Dos oficiais dois eram dos paraquedistas, três dos fuzileiros, um dos comandos e outro dos rangers. No entanto, as mazelas e ferimentos não apresentavam perigo, sendo apenas coisas relativamente ligeiras. Nos contingentes da PSP e da GNR, que se encontravam numa segunda e terceira linha de intervenção apenas existiu um tornozelo torcido, durante uma perseguição.

Contudo, não foi possível encontrar em lado nenhum o Superintendente da PSP, Vítor Fernandes de Melo. O solar foi virado de alto a baixo e toda a quinta batida palmo a palmo, mas sem grandes resultados. Os cães deram com rastos dele em diferentes locais, demasiados até, e foi impossível determinar como fugira.

O homem era agora o sujeito mais procurado de Portugal e foram emitidos mandatos internacionais através da Interpol e da Europol. A Judiciária estava convencida que a sua detenção seria, provavelmente, uma questão de dias. Ninguém, sem experiência, desaparece para sempre sem deixar rasto.

O cerco começara à uma da tarde e só fora dado por terminado perto das duas da manhã. Nas primeiras declarações à imprensa o Primeiro-Ministro confessou que todos os operacionais agiram com uma eficácia e profissionalismo exemplares, mas que, foi graças às imagens, que foram sendo transmitidas por uma série de câmaras instaladas, antecipadamente, dentro do solar e em toda a quinta, pela Felina, que as baixas das forças da ordem tinham sido tão reduzidas.

As imagens transmitidas pela gata, quer as primeiras do SD Card, que dera origem à operação, quer as do direto, seriam entregues ao canal “Crime” que pagaria os direitos a uma lista de pessoas necessitadas cujos nomes já se encontravam na posse do Governo, que seria a entidade que zelaria pelo pagamento desses direitos e a entrega dos respetivos valores aos devidos destinatários constantes no rol apresentado pela Felina.

O Estado esclareceu que, nas declarações que possuíam da pantera negra, esta se lembrou de instalar as câmaras quando descobriu que a quinta de Sintra, onde estivera o bando de Jô Muttley anteriormente, fora vendida a uma empresa estrangeira proveniente do Leste da Europa. Também conseguira ligar o comprador, como se veio a provar, ao Grupo Wagner, que usa a Kalinka, espalhada em toda a o velho continente, como o braço mafioso do dito grupo para se infiltrar no espaço europeu.

Ficara também provada a mais valia dos aramites na operação, pelo que o Governo considerava que a sua utilização massiva, na Ucrânia, poderia vir a ajudar a virar a página da guerra. Ao fim, ao cabo, era como transformar um batalhão de infantaria num de cavalaria ligeira sem custos elevados.

Os americanos do Canal “Crime”, puderam filmar ao vivo, as atuações em campo dos aramites, o que se tornava muito útil para provar a eficácia desta hibrida viatura ligeira de combate, fácil de conduzir, com uma enorme versatilidade de armas de pequeno e quase médio alcance, cujo conhecimento para as utilizar era tão simples como conduzir um carro ligeiro. A distribuição do peso estava tão bem organizada por toda a viatura que esta, mesmo em caso de capotamento, acabava sempre por ficar com as rodas assentes no chão, tipo sempre-em-pé.

Antonino Mosca também agradecera, através de uma conferência de imprensa, esta já no dia doze, o elevado contributo representado pela consultora da Polícia Judiciária, a Doutora Íris Vasconcelos que aceitara o pedido do Diretor Nacional da PJ, Luís Navas, para fazer o papel de intermediária nas negociações entre a gata mais famosa de Portugal e a PJ, com risco da sua própria vida e sem nunca sequer uma hesitação que fosse. Revelava ainda que era do seu conhecimento que depois da importância da Doutora nas duas últimas grandes ações anticrime esta seria condecorada.

A condecoração com o Grau de atribuição do Grande-Colar da Ordem de Cristo seria entregue numa sessão solene presidida pelo excelentíssimo Senhor Presidente da República. Felisbelo Rabelo de Lousa. No final da conferência de impressa, Antonino Mosca, revelou ainda que se a Kalinka não tem sido travada no dia anterior, tinham provas que depois do dia catorze já seria tudo muito mais difícil, pois nessa altura ela expandiria o seu raio de ação para a região de Coimbra e para o Algarve e de seguida, antes do final de novembro, para o restante país e ilhas.

Carlos Farelo, que levara o tiro na perna, quando fazendo uso da sua pistola automática de estimação, uma Taurus PT 58 HC PLUS, se entrepusera, logo à saída do portão da quinta, em frente da carrinha que transportava os líderes da Kalinka, armados de metralhadoras automáticas, e conseguira eliminar o condutor com dois tiros certeiros, também ia a ser agraciado  com o Grau de Comendador da Ordem de Cristo, na mesma cerimónia em que Íris Vasconcelos seria agraciada.

Todos os discursos, da PSP, da GNR, dos chefes dos três ramos das Forças Armadas, do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, do SIED, do SIS, do SEF e de Luís Navas, enquanto Diretor Nacional da Polícia Judiciária, para além das intervenções dos Ministros da Defesa e da Administração Interna, secundavam, validando as escolhas e as palavras proferidas pelo Primeiro Ministro, Antonino Mosca.

Um artigo do New York Times, dessa semana, realçava como é que um país antigo na sua história, mas de dimensão reduzida se comparado às grandes potências, conseguia ser tão eficaz e inventivo numa guerra do século XXI.

Vítor Fernandes de Melo estava furioso. Passara de Coordenador Principal da Polícia Judiciária para Superintendente da Polícia de Segurança Pública e número dois da filial portuguesa no maior grupo mafioso da Europa e, mais uma vez, sem ele se dar conta, o sucesso fora-lhe arrancado das mãos por uma gata vadia. Ao contrário de Íris, de quem ele tirara partido de forma pouco católica, e que, por isso mesmo, achava justo que esta lhe fizesse alguma frente, mesmo que fosse mais correto ser a fulana a agradecer-lhe.

Para além disso, não era para se armar aos cucos, mas Íris podia bem agradecer aos deuses ele tê-la deixado provar uma iguaria como ele. Sabia que se aproveitara da fraqueza dela no momento e que se fizera apaixonado, mas caramba, mesmo não tendo sido muito honesto dera-lhe o direito raro de disfrutar dele. Todavia, tinha que reconhecer que Íris fora uma das melhores coisinhas que já provara, se não a melhor, e sobre isso não havia como mentir, nem tal seria justo.

Por outro lado, e bem ao contrário, a Felina sempre fizera dele gato-sapato. Mas a expressão correta deveria ser que ela fora para com ele como uma "gata-à-sapatada". Agora tinha que se esconder para não ser apanhado pela bófia. Não era certo. Tudo porque uma gaja armada em boa o tomara de ponta. Mas como lhe dizia o pai, quando, por vezes, do nada, lhe dava uma tareia, a vingança era um prato que se servia frio.

Ele vingara-se de o pai fazer dele um saco de pancada, fosse por causa do homem beber demais e depois decidir bater-lhe até ficar sóbrio, fosse porque se tinha chateado no trabalho, ou fosse, como tantas vezes acontecia, só porque lhe apetecia. A vingança fora o primeiro grande roubo da sua vida. Ele roubara-lhe a mulher. Conseguira convencer a velha a ensinar-lhe as artes do sexo e, entre os doze anos e os vinte e quatro anos, a sua mãe fora a sua melhor amante.

Fora ela que o ensinara a dar ás mulheres o que elas queriam e a fazê-las felizes. A ela devia o facto de ser o amante e o galã que hoje era. Não estava nada arrependido de, numas férias em família na Serra da Estrela, ter atirado o pai por uma ribanceira abaixo. Afinal, alguém que merecia morrer torturado acabara por ter uma morte santa.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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