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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 60

A Felina - 60.jpgFalando para todos os presentes, Luís Navas, com um ar sério, informou que acabara de falar ao telemóvel com o Primeiro-Ministro. Este ficara de ter uma palavra com o Senhor Presidente da República e logo de seguida com o Chefe de Estado Maior das Forças Armadas e com a Ministra da Defesa. Tudo contactos breves para já, apenas de maneira a informar a PJ que tipos de apoios teriam na operação.

Assim que ele ligasse, Navas, falaria do cerco proposto pela Felina e dos meios envolvidos. A ideia dos aramites serem armados com metralhadoras de grande calibre e bazucas também lhe parecera excelente. A pantera pensava em tudo, teria ela andado no exército?

Nas contas da Felina impressionava o número de bandidos mafiosos que se deviam encontrar nas instalações. Ela falava em mais de quinhentos e reforçava que o cerco, para ser eficaz devia contar com pelo menos três turnos de dois mil e quinhentos homens e que, uma coisa assim, desta dimensão, só seria possível com a ajuda das Forças Armadas.

Íris, reparou que um dos adjuntos tirava e punha no casaco, nervosamente, um charuto. Abriu um fundo falso de uma mesinha de apoio, retirou de lá um grande cinzeiro e fazendo sinal ao homem, depois de abrir as duas portas de acesso à varanda poisou o cinzeiro numa mesa redonda tipo café, mesmo ao lado de uma cadeira de esplanada e ofereceu-lhe o lugar. O homem batia no coração agradecendo a deferência. Ainda bem que ela reparara nele. Cinco minutos depois, já eram dois sentados no exterior de charuto na boca. Ambos pareciam aliviados e agradecidos.

Carlos Farelo e Luís Navas, enquanto aguardavam o telefonema do Governo, analisavam agora o plano da Felina, passado em grande para a tela montada na sala. Pelos comentários que ouvia, Íris, sempre atenta, parecia contente com as reações. Cerca de uma hora depois de Navas ter feito a chamada foi a vez do seu telemóvel tocar. Era o Primeiro-Ministro. Uma coisa daquela gravidade tivera total luz verde de todos os intervenientes. Já havia algum plano? Luís Navas disse-lhe que a Felina, que ao que parecia já estudara bem o local e calculara os números de mafiosos, enviara uma estratégia que ele achava genial e que evitaria muito mortos. Acabara de enviar uma cópia.

O Primeiro-Ministro acusou a receção e pediu-lhe para ele e Carlos Farelo se juntarem a uma reunião que convocara de urgência para as duas da tarde. Nela estariam todos os chefes das forças que poderiam ser convocados, mais os ministros que tinham a ver com a situação e contavam ainda com a presença do Senhor Presidente da República. Luís Navas, um pouco receoso perguntou se haveria possibilidade de levar a sua assessora, a Doutora Íris Vasconcelos, que fora quem tivera, a pedido da PJ, o encontro com a Felina e quem estava, de momento, mais habilitada para expor toda a situação o mais claramente possível.

O aval do Primeiro-Ministro foi total. Era evidente que sim. Até tinha pena que a Felina não fosse também. Todavia, a situação era o que era e tinham de contar era com quem podia estar presente. Quando a chamada terminou e depois de avisar Carlos Farelo e Íris da reunião, Luís Navas preparava-se para sair, quando Íris, que ainda não tinha dito o que achava de ser convocada, se tentou escapar a ter de estar presente.

      ― Meu caro Diretor, eu não sou precisa nessa reunião com os políticos, os generais e outros que tais. Veja bem, os senhores já sabem tanto quanto eu e, portanto, eu sou tão necessária como uma esfregona dentro de uma piscina. ― Íris, atrapalhada, tentava escapar-se de andar metida com a alta roda do poder. Ela preferia a sombra aos holofotes, ainda mais holofotes direcionados para a sua pessoa. E continuava: ― O Senhor Diretor e aqui o seu Adjunto têm em conjunto mais conhecimento do que eu sobre tudo isto. Afinal que raio iria eu lá fazer? Consegue-me dizer?

      ― Pois, pois, mas não se escapa. Primeiro, adorei a forma como apresentou o SD Card. Agora só terá de fazer o mesmo acrescentando o plano da Felina. Segundo, a Doutora Íris Vasconcelos é a única pessoa que estará na reunião com um pensamento fora da caixa e, igualmente, a única que ouviu a gata de viva voz. Depois, é mais fácil os Generais, os Ministros e os que tais escutarem-na a si, do que a um de nós que estamos sob a alçada deles. Consigo falta-lhes à vontade, na mesma proporção em que existe respeito pelo papel imensamente relevante que tem tido nesta história toda. ― disse Navas.

      ― É isso mesmo. Além de que eu acho que… ― Carlos Farelo acrescentava, aproveitando a pausa de Luís Navas. ― Não tendo eu perfil para piscina, nem nenhum dos que estarão presentes, uma esfregona pode mesmo vir a fazer muita falta.

      ― Além disso… ― reforçava Navas. ― Não vai para longe. O Palacete de São Bento é aqui perto. Até pode ir a pé. Vá lá Doutora Vasconcelos, não seja assim, a senhora nem é uma pessoa tímida, nem nada. Temos feito um brilharete à sua custa e da Felina, não custa nada vir receber um pouco dos louros. Com sorte, ainda vira Cavaleira da Ordem dos Templários por proposta do Senhor Presidente da Républica. Até pode ser que ele queira uma “selfie” consigo.

      ― Cavaleira? Se não for cavalgadura já me sinto feliz. Quanto à “selfie” se não fosse a grande admiração que eu tenho pelo Senhor Diretor eu dizia-lhe onde podia meter essa “selfie”, juro que dizia. Está bem, seja. Lá estarei, se não há remédio, remediado está... ― confirmava, ainda relutante, Íris.

A reunião começou tensa. Era a primeira vez desde o vinte e cinco de abril que o Estado se via ameaçado por forças externas e que nada tinham a ver com o normal e democrático debate político. Também era a primeira vez que um Governo estava sob ameaça credível, bem como, em paralelo, toda a estabilidade do sistema de segurança nacional. Sim, porque, assassinando as cúpulas, iria levar algum tempo a repor a harmonia dos serviços e a sua eficácia. Quando Íris acabou a exposição do CD Card da Felina, com a apresentação dos esquemas de ataque à quinta de Sintra, tornou-se rapidamente consensual que o cerco era a melhor maneira de evitar mortos entre as forças do Estado e de capturar toda a estrutura da Kalinka.

A Direção Nacional da PSP estava em choque com a participação do seu Superintendente nesta trama macabra. Ainda mais incomodados ficaram quando se tornou óbvio que iriam ter de conviver com o sujeito, como se nada fosse, até ao dia da reunião da Kalinka. A reunião terminou com a aprovação unanime do plano da Felina. Como os aramites ainda não tinham sido enviados para a Ucrânia, o Governo disponibilizava trezentos e cinquenta para a operação e o Exército incluía três mil soldados.

Da parte da PSP e da GNR tratando-se de uma operação de curta duração não havia qualquer problema com a disponibilização dos efetivos necessários, quanto à força aérea disponibilizava vinte helicópteros equipados com as câmaras de deteção térmica e com seis paraquedistas em cada um, contudo, mais de vinte é que seria difícil de conseguir ter operacionais para um tão curto prazo.

A Marinha sugeriu o uso dos fuzileiros, mesmo sendo uma operação em terra, aconselhando que os mesmos se juntassem aos comandos vindos de Santa Margarida e aos rangers de Lamego. Decisão que foi aceite com agrado. Quanto às forças de segurança teriam na liderança, por parte da PSP o GOE, ou seja, o Grupo de Operações Especiais, sendo que os Gamas teriam de ficar de fora, face ao envolvimento do seu líder, o Superintendente Vítor Melo. Já a GNR seria liderada pelo GIOE, o Grupo de Intervenção de Operações Especiais.

Tudo teria de ser feito no máximo sigilo até ao momento do início do cerco. Apenas as chefias saberiam, até ao dia, onde decorreriam as operações e qual era o alvo. Conseguir manter a operação secreta era, sem dúvida, meio caminho andado para o sucesso. Nesse campo foi recordado à PSP que o GOE em primeiro plano e a Polícia de Intervenção em segundo, não podiam permitir qualquer fuga de informação para os Gamas.

Tendo em conta que os Gamas em Lisboa e no Porto tinham sido criados por Vítor Fernandes de Melo, ficou decidido pela Direção Nacional, que ambos os grupos seriam desmantelados e dispersos pelos diferentes serviços da PSP em Lisboa e no Porto, logo depois da operação chegar ao fim. Depois os intervenientes entraram nos pormenores técnicos e táticos. As lideranças tentavam ocupar os seus lugares naquela estrutura gigante, contudo, foi surpreendente o cuidado de todos para não se atropelarem uns aos outros.

Todavia, a disposição estabelecida no plano da Felina, que até parecia que conhecia bem as rivalidades entre as diferentes forças, facilitou imenso essa tarefa. O Governo ficou de organizar com os Serviços Prisionais a distribuição dos detidos até à deportação dos envolvidos e das respetivas famílias, que teria de ser rápida, pois não havia qualquer chance de os deixar em Portugal.

A prisão de toda a Kalinka no dia onze iria impedir os atentados agendados para catorze de novembro. Era prioritário que os líderes, os tais Cedros, fossem todos capturados, incluindo o famigerado sniper e depois, em seguida, os Zimbros, até ao último homem. Tinham que agir rapidamente, pois só faltavam cinco dias para o dia D, ou seja toda a logística tinha apenas quatro dias para ser operacionalizada.

Depois de estipulados os timings para todas as forças intervenientes a reunião foi encerra com os votos de sucesso deixados pelo Excelentíssimo Senhor Presidente da República. O Primeiro-Ministro e o Ministro da Administração Interna seriam os interlocutores diretos do governo com a força de ataque. Do lado das forças de ataque, Luís Navas, ficou como sendo o elo de ligação com os políticos e o líder da missão “Quinta Limpa”.

Ninguém que não soubesse daquela missão deu pelas movimentações das forças que se preparavam para o confronto. O momento do início do cerco estava agendado para as duas horas da tarde, uma vez que o almoço da Kalinka, à uma da tarde era, igualmente, a hora do discurso principal de Alex Budvi. Quem viesse depois já não passaria no cerco e seria apanhado logo à entrada. Não podendo fugir por onde chegara, nem tentando continuar para a frente. Todos os caminhos estariam tapados.

Desde a madrugada do dia onze de novembro, até pouco antes do meio-dia e meia o movimento em direção à quinta foi elevado e constante, porém, a partir dessa hora ninguém mais entrou, até porque os elementos de guarda ao portão encerraram o mesmo. Era evidente que tinha sido marcado um prazo de entrada. Luís Navas decidiu antecipar o cerco em vinte minutos. Passou a ordem aos outros líderes e dez minutos depois o cerco estava totalmente fechado. Até a estrada de acesso à quinta foi cortada cem metros antes, para cada lado.

De qualquer modo quem chegava a essas barreiras era totalmente revistado e devidamente identificado. Ninguém se atrasara, tal era o respeitinho imposto pelos chefes da máfia. Repentinamente o telemóvel de Navas tocou, era uma chamada que transmitia uma gravação vídeo, em tempo real, do que se passava dentro da quinta. A Felina contra-atacava. Aquela mulher era o fim.

 

(continua no próximo e último capítulo) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 59

A Felina - 59.jpg  ― Não é nada disso. Eu nem ligo a essas coisas, a Íris, que é provocadora, está é a ver se me afeta a compostura. Espere lá, a menina disse o quê? A Felina já esteve consigo? Como assim? Já falou com ela? Aquela sujeita é o diabo. Levou a semana inteira a gozar connosco e aproveita o único momento em que não tínhamos reposto a vigilância para ir falar consigo. O Navas não vai gostar… ― resmungava o enervado Carlos Farelo.

      ― Falei sim, e muito. Depois ainda me deixou um presente para vocês. Ela gosta de vos ver bem e de saúde e, neste momento, vocês têm todos a cabeça a prémio. Lembra-se nos filmes de cowboys dos cartazes dos bandidos colados na parede do saloon a dizer “Procura-se – Vivo ou Morto” é mais ou menos isso, mas com as chefias policiais como alvo, ah! Mais o Ministro da Administração Interna. Ao que parece a Secretária de Estado foi apenas um pequeno ensaio. ― Íris, sentia um silêncio imenso do outro lado. ― Vá lá, não se assuste que a Felina gosta muito de vocês. Até deixou a maneira de todos poderem salvar o pescoço. Está-me a ouvir Carlos? Alô? Tem alguém desse lado da linha? Carlinhos… cu, cu… sou eu… fugiu?

      ― A Íris tem estado a brincar comigo. Isso que diz é um absurdo. Quem se atreveria a vir atrás das chefias da polícia e do ministro? Fale lá a sério. Deixemos as pantominices de lado. Já falou ou não com a Felina? ― Carlos Farelo, insistia, sem saber o que pensar. A rapariga devia estar a brincar, mas não era de bom tom aquela brincadeira. Ela devia entender isso, não?

      ― Primeiro insistem para que eu tente falar com a gata. Depois tentam impedi-la de vir falar comigo sem arriscar ser presa, mesmo a sim a pantera arranja uma oportunidade e cumpre o prometido, faz mais do que isso, trás provas de um autentico assalto às cabeças do poder policial, do ministro, ao SIS, passando pela PJ, GNR, SEF, SIED, até à PSP e o Carlos, um dos cinco Diretores Adjuntos da Polícia Judiciária, acha que eu acordei tolinha, talvez com uma qualquer comichão estranha que não na cabeça, e que decidi que esta era uma excelente manhã para me divertir à custa da PJ. Francamente homem, acorde que eu tenho estado a trabalhar... ― retorquiu Íris.

      ― Uau! Mas tu estás a falar a sério, porra! Não saias de casa, vou ligar a Navas e vamos já para aí. Mas que caralho! ― A chamada foi desligada sem que Íris pudesse sequer comentar o último linguajar do Diretor Adjunto da PJ.

Luís Navas chegou ao número quatrocentos e quarenta e quatro da Rua de São Bento. Atrás dele vinham os cinco Diretores Adjuntos da Polícia Judiciária e mais uns sete ou oito inspetores que foram arrumar os carros e que depois ficaram na rua a controlar o espaço. Íris, com um sorriso, abriu a porta do seu primeiro andar e deu bons-dias aos seus seis convidados-surpresa.

Meteu-os todos à volta da mesa da sala de jantar. Fechou as cortinas para a rua, abriu uma tela portátil de dois por três metros, ligou o seu portátil ao projetor, meteu o SD Card no seu computador e antes de pôr as gravações em funcionamento, fez um ponto de situação.

Afinal, era importante refrescar a memória de todos os presentes naquela sala sobre os mais recentes factos:

      ― Não quero repetir tudo o que os senhores já sabem, mas apenas realço que a presente situação se deveu ao facto da Secretária de Estado da Administração Interna e do seu motorista terem sido assassinados. Também sabem que tentaram imputar as culpas na Felina, embora não imaginem porquê. No entanto a PJ, e muito bem, já provou que a acusação era falsa e conseguiu convencer, após alguns mal-entendidos, a Felina a colaborar com a autoridade. Por ideia vossa eu servi de intermediária e ela esteve nesta sala hoje de manhã (e não, nunca tirou a máscara). Trouxe-me um SD Card com filmagens que não só provam a sua inocência em todo este caso, como denunciam os verdadeiros culpados e ainda revelam os planos futuros daqueles que levaram a cabo estes assassinatos.

A jovem parou o seu monólogo para beber um copo de água. Achou admirável ver os outros cinco homens e uma mulher a olhar atentamente para uma tela em branco como se estivessem a assistir aos “Encontros Imediatos de Terceiro Grau”. Finalmente, continuou:

      ― Quero realçar que depois de ter visto e revisto o que me preparo para vos mostrar, cheguei à conclusão que tudo isto só foi possível graças ao profundo ódio que o vosso ex-coordenador superior Vítor Fernandes de Melo, nutre pela Felina, pelo senhor Diretor Nacional da PJ, Luís Navas e pelo Diretor Adjunto, Carlos Farelo. Pronto. Agora, sem mais demoras passo às imagens. ― afirmou Íris.

Depois deixou todos a assistir à conversa entre os elementos da Kalinka e o Superintendente. Primeiro a admissão da realização dos assassinatos, que ilibava automaticamente a Felina, depois o comprovar absoluto do envolvimento do Superintendente e finalmente os planos da organização para se espalhar pelo país, depois de abater a sangue frio, toda a cúpula da estrutura policial do Estado português. Segundo o que constava nas imagens já com prazos e datas marcadas, para o corrente mês, naquilo que sugeria ser uma operação relâmpago.

      ― Eu mato aquele filho de uma grande puta do Vítor... ― gritava Carlos Farelo, já levantado da cadeira, rubro de fúria, apontando para a tela agora em branco. ― Um mal-agradecido que cospe em quem lhe deu a mão. É isso que esse cabrão é. Filho de uma grande cabra.

      ― Eu, peço desculpa, Senhor Diretor Adjunto… ― adiantava, Íris, com algum divertimento. ― Contudo, não me parece correto vir agora discutir para aqui, as relações zoófilas do pai de Vítor. Muito menos a sua natureza, ao que parece, mais ou menos chifruda. A situação mostra-se mais grave do que isso. Se ouviu bem eles têm uma reunião na quinta de Sintra com toda a Kalinka Isto, dias antes de partirem para um alargamento nacional por duas fases, primeiro somando as bases do Algarve e Coimbra e depois o resto do território. Para além disso faço notar que os próximos assassinatos estão igualmente agendados para depois dessa reunião magna. No meu entender o melhor a fazer seria apanhar as galinhas todas, incluindo as do Porto, dentro da mesma capoeira. Aí, uma vez resolvida esta situação penso que será possível o Senhor Diretor Adjunto, resolver a questão da maternidade caprina de Vítor. O que lhe parece? Acha viável? Quer considerar a minha proposta?

      ― Essa é muito boa Doutora Íris. ― Luís Navas aproveitava para intervir não fosse o seu adjunto recomeçar a disparatar. ― “Resolver a questão da maternidade caprina de Vítor”. Realmente um tema profundo e de um interesse absoluto para zoofilia, que não para a PJ.

      ― Sempre pronta a ajudar Senhor Diretor Nacional. ― Íris, respondia ao mesmo tempo que se levantava para indagar: ― Alguém quer um café? Fazer para um ou para sete é igual.

      ― Boa ideia, Doutora Íris Vasconcelos. Entretanto, eu tenho que fazer uma chamada. Aproveitamos para fazer uma pausa. ― Navas, retorquia, enquanto se afastava até perto da janela da sala.

Os cinco adjuntos da Polícia Judiciária ficaram em torno da mesa a tentar absorver toda aquela informação. Íris, por seu turno, desapareceu para a cozinha. Voltou com quatro cafés num tabuleiro, ainda a fumegarem, para quem tinha levantado o braço.

Junto trazia o seu telemóvel. Recebera uma mensagem da Felina com um plano de ataque. Nele a gata propunha a utilização do exército e do maior número de chaimites ou de pandur II possíveis, bem como dos aramites apreendidos a Muttley, se ainda não tivessem sido enviados para a Ucrânia. Afinal, aqueles aranhiços blindados à moda de chaimites eram ultraleves, rápidos e ótimos para ajudarem a cercar a quinta, ali, naquela zona de serra.

A outra ideia, uma vez que a Base Aérea de Sintra estava por perto, era terem os helicópteros prontos para dar caça aos fugitivos desde que tivessem câmaras térmicas instaladas. A PSP e a GNR podiam fazer um segundo e um terceiro cerco em volta da quinta e os militares e a PJ seriam responsáveis pelo primeiro. O plano continuava e no final vinham anexos quatro esquemas explicativos da colocação e ação de todos.

Passou o telemóvel a Luís Navas que lhe pediu para ela reenviar para ele toda a informação. Aquilo parecia-lhe muito bem. Evitariam confronto direto e mortes e uma vez cercados, e com todo o perímetro devidamente guardado iam-nos apanhando através de um simples cerco. Com alguma sorte podiam apanhar o bando sem causar baixas do lado deles. Aquela gata era realmente uma pena estar do lado errado da barricada. Era um ativo muito útil.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 58

A Felina - 58.jpgQuanto à segunda-feira, dia catorze, tratariam de eliminar o Ministro da Administração Interna, Joaquim Raiz Cordeiro, mais uma vez através de sniper. Com as polícias sem grande liderança política, seria mais fácil, em seguida, eliminar os principais chefes das organizações policiais. Depois, com novos tipos nos lugares e até que estes se ambientassem, já a Kalinka se teria ramificado por todo o território nacional sem grande resistência.

Esta conversa decorria uma vez mais do salão do solar de Sintra. Estavam agora presentes o chefe e mais seis Cedros, sendo um deles o sniper. Pelo que a jovem conseguia entender a estratégia e as datas desta vez vinham da cabeça de Budvi. Aparentemente, o Superintendente preferia mais alguns dias de permeio, mas o outro estava com pressa. Eram onze e trinta da manhã do dia cinco de novembro, sábado, quando Íris juntou mais esta conversa ao SD Card onde já tinha as outras gravações. Guardou igualmente, no seu gabinete secreto, uma outra cópia para si.

O descontentamento do Superintendente não era apenas devido à falta de novidades sobre o assassinato, nem muito menos devido à antecipação um pouco precipitada de Alex Budvi, indo agir mais cedo do que tinham planeado, nada disso, o que o andava a enervar era nada saber da Felina. Era inverosímil que em tantos dias ainda ninguém soubesse coisa alguma.

Teria a Felina saído do pais? E sem primeiro tentar provar a sua inocência? Não! Isso era impossível. O orgulho da gata fora posto em causa. Ela estava em campo e, certamente, a agir. O busílis era a fazer o quê e onde… onde? O Superintendente tentava pôr-se no lugar da pantera, mas realmente não lhe apareciam grandes alternativas.

Já para Alex Budvi, a pantera virara gatinha, devia estar a curtir uma diarreia de medo, algures num buraco qualquer. Ele tinha que se lembrar que a tipa não sabia sequer quem a tentara acusar e de onde vinha o perigo. Por mais esperta que a mulher pudesse ser, não só não deixava de ser mulher e, portanto, cobarde, como nem podia contra-atacar um inimigo fantasma que desconhecia. O seu amigo Superintendente devia estar mais relaxado, a fulana escondera-se, a tremer de medo, numa cova escusa. Apostava Budvi. As mulheres eram todas umas medrosas.

O telefone de Érica Chandler Vidal tocou, eram os responsáveis da criação da sua Fundação nos Estados Unidos da América. Sim, porque ela, depois de ter pensado muito em várias soluções, fizera algumas alterações ao que inicialmente tinha decidido. Acabou por escolher uma empresa de recrutamento de talentos para lhe escolher a equipa certa para criar e gerir a fundação, tratar das transições  de ativos para a fundação, mas sem fundos de investimento ou quaisquer outros, como de pensões, por exemplo, sem produtos financeiros de capital de risco ou de produtos de que ela entendesse pouco e, para além de capital líquido, apenas ficaria com ações ou aquisições de ações de empresas que ela achava serem sérias e não dedicadas a especulação.

Quanto ao ramo imobiliário decidira manter as propriedades que tinha, entre elas a manutenção de um imóvel, pronto a habitar, em cada Estado americano, bem como diversas residências espalhadas pelo estrangeiro. Contudo, neste setor, tudo ficava em nome da fundação, com seu uso exclusivo ou de quem ela designasse. A manutenção e conservação dos imóveis mantinha-se sob a alçada da fundação. Onde fosse necessário existirem carros, barcos, jatos, helicópteros, motos ou outros meios, ela escolheu as marcas e os modelos dos carros e das motos e deixou ao cuidado da fundação a escolha dos outros meios, incluindo marcas e modelos dos mesmos. Também deixava a cargo da fundação a manutenção desta frota.

Depois haviam normas e detalhes para tudo o que considerava interessante investir, fazer ou criar de raiz e agendara para Lisboa uma reunião trimestral com a direção da fundação. Todos os outros pormenores constituíam mais de quinhentas páginas que se encontravam em duplicado na sede da fundação em Nova Iorque e consigo, quer em formato digital, quer em papel.

A empresa de recrutamento da equipa para a direção da fundação apresentara-lhe dez homens e outras tantas mulheres. Ela fizera via Zoom as entrevistas. Tivera que as dividir por quatro dias seguidos porque perdera mais de uma hora com cada um deles.

No fim escolhera seis mulheres e quatro homens. Com duas das mulheres à frente da equipa. Ficou satisfeita, escolhera bem o grupo, ninguém contestara.

Do que tinha pensado fazer anteriormente, manteve a ideia dos bairros dos emigrantes trabalhadores e prestadores de serviços nas principais cidades americanas. Fazia também questão que os representantes da Érica Chandler Foundation For The Future, em cada local ou cidade, fossem quadros novos com pelo menos mestrado, a iniciarem o primeiro emprego. Precisava de gente que tivesse margem de crescimento e sem trazer vícios de trabalho vindos de outros locais.

Agradecera também via Zoom ao Secretário de Estado do Tesouro americano, pela sua amável disponibilidade e à Embaixadora americana em Portugal, na supervisão da transição do seu património e do facto de a terem mantido informada. Devido à sua saída a Vanguard deixara de ser a segunda do ranking mundial, descera quatro lugares no ranking das firmas gestoras de fortunas, mas já se encontravam em franca ascensão.

Graças à ajuda inestimável do Secretário de Estado do Tesouro americano, fora fácil enviar para uma conta em seu nome, para o Millennium BCP, cinquenta porcento dos dez por cento que guardara para si pessoalmente. No entender do sujeito a percentagem de verba que ela decidira transferir para Portugal era bem inferior à que eles tinham julgado lógica e possível. Deixavam até a porta aberta para outras futuras tranches que Érica pudesse achar necessárias, mesmo ela a dizer que se tivesse sabido que era todo aquele capital nem três porcento disso teria transferido.

Íris, tinha perfeita noção que agira como ela mesma e não como Érica. Mas agira de modo a nunca ter de tocar num cêntimo daquele dinheiro para ela. Assim, desta forma, mesmo o dinheiro que ficara em nome pessoal de Érica ainda podia servir para ajudar terceiros, porque dali não tensionava usar um centavo em seu proveito próprio. Aquilo não era dela, nunca fora, nem nunca iria ser. Se ela fosse pobre, talvez pensasse diferente, mas não era e isso serenava-lhe a alma.

A chamada com Alicia Kinght, e Pati O’Brian, a Chairwoman e CEO, da fundação no seu lugar, servia para estas lhe dizerem que estava tudo pronto e preparado para se assinarem os últimos papeis e a fundação começar a laborar. Elas queriam saber se os dez elementos podiam vir a Portugal.

Podiam e deviam. Ambas informaram que, de acordo com as diretrizes de Érica para quando tudo estivesse pronto, tinham reservado quartos no Ritz em Lisboa, conforme esta determinara, para o sábado, dia doze de novembro. Ainda conforme determinado, seria esse o ponto de encontro para depois irem jantar e assinar a última papelada. Exatamente, confirmara Érica, à exceção da data que na altura ainda não conheciam, elas tinham feito tudo a seu contento. Estava combinado. Despediram-se e Érica desligou.

Pronto, aquele assunto ficara arrumado, ela não gostava nada de ser a ricaça da Érica. Aquilo nem ao menos era dinheiro roubado. Fazia-lhe algum transtorno. Nem imaginava como é que a Vanguard gerira e aumentara daquela maneira o património da mãe de Érica, e achava até melhor nem saber. Assim, para o futuro, sempre serviria para ser útil a muita gente.

A manhã de domingo, seis de novembro, chegou com bom tempo. Íris, que acordara com uma ideia fixa, levantou-se, tratou de si e por fim, depois de estar com o pequeno-almoço tomado, vestida e arranjada, achou que era tempo de ligar para o seu amigo Farelo. Notou que ainda só eram nove da manhã, quase madrugada para ela. Marcou o número do Adjunto do Diretor da Judiciária e aguardou:

        ― Bom-dia, Carlos, já está bem acordado ou ligo mais tarde? ― disse Íris, satisfeita pelo Diretor Adjunto já estar a pé.

      ― Levantei-me às oito, menina Íris. Só ainda estou em casa porque tenho estado ao computador a despachar serviço que trouxe comigo. Não tarda vou estar com Luís Navas. Temos de arranjar uma maneira que resulte para a proteger aquando do seu encontro com a Felina. Pode a menina não concordar, mas ficamos todos bem mais descansados ― esclarecia Carlos Farelo.

      ― Hum… muito bem. Só é pena que já venha tarde. Ela esteve aqui e acabou de sair. Ou julga que eu estou a pé a esta hora só porque me deu vontade de falar consigo? Cá para mim, o Carlos acha-se charmoso e julga que tudo o que tem saias anda atrás de si, não? Hum… ― indagou Íris divertida com a situação.

Do outro lado ouviu que alguém rosnava uns ruídos do interior da garganta.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 57

A Felina - 57.jpgXIV

A Felina Contra-Ataca

XIV

Na reunião da Direção Nacional da Polícia Judiciária discutia-se precisamente a verdadeira natureza dos assassinatos. A presença do Diretor-Geral e do Diretor-Geral Adjunto do SIS, bem como do Diretor do SIED, o Serviço de Informações Estratégicas de Defesa e do SEF, atestava a importância da reunião. A presença do Diretor Nacional da PSP e o líder máximo da GNR naquela sala também eram indicativos do grau de alerta que estava instalado. As ausências da ASAE, da Polícia Marítima, da Polícia Florestal e de um representante das Polícias Municipais fora ponderada nesta primeira fase e considerada, para já, como não sendo prioritária.

Segundo informações recolhidas pelo SIS, os Serviços de Informações e Segurança, o assassinato da Secretária de Estado, parecia estar ligado à recente instalação do braço mafioso do Grupo Wagner, a Kalinka, em Portugal. Porém, nada parecia antever um ataque desta natureza.

Alguma coisa, que ainda lhes era desconhecida, interferira no comportamento normal desta máfia russa. Sabiam onde ela atuava na zona do Grande Porto e, numa primeira fase, tinham sido entregues ao Comando Metropolitano do Porto da PSP as primeiras ações, tendo a recente criação dos Gamas gerado uma mais valia que resultara em mais de quarenta elementos presos. Também tinham conhecimento que a Kalinka se instalara já na Grande Lisboa, absorvendo rapidamente as antigas atividades criminosas do desfeito bando de Jô Muttley. Contudo, enquanto no Porto já sabiam que a máfia tinha a sede algures na zona de Matosinhos e julgassem estar por dias a sua localização exata, já em Lisboa tal investigação ainda agora tinha começado.

Por seu lado, o SEF falava numa enorme quantidade de mafiosos russos clandestinos no país, principalmente nos últimos cinco meses, que tinham optado por entrar em Portugal por via das fronteiras terrestres com Espanha, a partir da zona Norte. Tinham imensas queixas de cidadãos estrangeiros de Leste, residentes no Grande Porto, que diziam estar a ser alvo de extorsão por parte da Kalinka.

A PSP adiantava que já distribuíra por todas as forças de segurança os últimos relatórios dos Gamas, elaborados no Porto. Porém, em Lisboa, só este mês é que terminara a formação e constituição dos Gamas sob a alçada do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP. Por outro lado, a GNR, dava conta de cada vez mais criminalidade, desenvolvida pela máfia russa, na periferia da zona metropolitana do Porto e bem visível nos arredores de Lisboa, em zonas como o interior de Cascais, Sintra, Mafra, Oeiras e Amadora.

Quer o SIED, quer o SIS, falavam que o assassinato da Secretária de Estado, era, ao que tinham apurado, o primeiro realizado na Europa, pela Kalinka, mas que, a falta de provas, ainda não possibilitavam que se acusasse formalmente a organização. O fenómeno da existência da Felina, em Portugal, também não tinha ajudado muito nessa clarificação, sendo ela, ainda que a coisa fosse rebuscada, uma possível suspeita.

Luís Navas, aproveitava para intervir. Podia quase garantir que a Felina, estava fora da equação. Na sequência da afirmação passou aos presentes o relatório da noite anterior, elaborado por Carlos Farelo que gerira a operação.

Para o SIED algo de muito perturbador estava a alterar o comportamento da máfia russa. De uma infiltração silenciosa e cheia de secretismo tinham, repentinamente alterado radicalmente o seu perfil. A velocidade como se tinham espalhado na Grande Lisboa era exemplo disso e a possível autoria do assassinato era a prova flagrante. A Europol e a Interpol estavam em alerta, preocupados com o alargamento destes métodos ao resto da Europa, com consequências alarmantes. Também a CIA estava a acompanhar de perto o fenómeno que se podia facilmente alastrar aos Estados Unidos, com perigosas associações a organizações e milícias radicais de extrema direita já instaladas no território.

A reunião ocupou toda a manhã e foram criados protocolos de ação conjunta, bem como elaborado um relatório elucidativo da situação, de forma a informar cabalmente, quer o Ministério dos Negócios Estrangeiros, quer o da Defesa Nacional, o da Administração Interna, bem como o gabinete do Primeiro-Ministro. Um outro relatório, mais técnico e também bem mais detalhado, foi elaborado para a Polícia Marítima, ASAE, Polícias Municipais e Polícia Florestal, atualmente designada com a sigla EPF/SEPNA, com funções de polícia criminal, o que significava Equipas de Proteção Florestal e Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente, e que se encontravam atualmente como  que subordinadas à GNR, mas com intervenção direta do Diretor-Geral dos Recursos Florestais da DGRF.

Da parte da tarde, a preocupação de Carlos Farelo era o que estaria a acontecer com a sua assessora. Íris, continuava sem dar notícias e, com o passar do tempo, a inquietação do Diretor Adjunto da Polícia Judiciária aumentava a cada minuto.

Farelo, ficara também deveras surpreendido com a quantidade de conhecimentos que quer o SIS, quer o SIED, quer até a PSP, já tinham sobre a Kalinka. Ele sabia que havia na Judiciária um outro Diretor Adjunto com o dossier dessa organização mafiosa entre mãos, contudo, estava longe de imaginar que já existisse no país tanta informação sobre aquela máfia.

A suspeita da autoria deste assassinato, possivelmente a cargo destes mafiosos, revelara que as forças da ordem não estavam assim tão desatentas.

Ao contrário do que habitualmente acontecia, nada do que era tratado pelas forças de segurança transpirara ainda para a comunicação social. Os jornais e as televisões bem que faziam o cerco às instituições, todavia, a confidencialidade era total. Para além das suspeitas lançadas sobre a Felina, nada mais se sabia sobre o decorrer das investigações. Nem mesmo rumores transpareciam das forças da ordem.

Aliás, todas as informações cruciais estavam ainda concentradas no estrito domínio das cúpulas das diversas forças pertencentes à esfera do Estado. A imprensa bem que estrebuchava com esta atitude inédita, num país habituado a saber demais antes do devido tempo e a fazer julgamentos antecipados em praça pública. Todavia, desta vez, inacreditavelmente, o silêncio era de tal forma intenso que parecia fúnebre, o que realmente até era factual.

Íris, detetou perfeitamente os agentes da Polícia Judiciária, eram quatro em duas viaturas estacionadas, mais três numa carrinha com publicidade a uma loja de peixe congelado e, ainda, um último armado em transeunte. Ao fim do dia, com um ar bastante preocupado Carlos Farelo ligou-lhe. Então a Felina, já dera novidades?

A rapariga, soltou uma gargalhada, se ela sem procurar muito conseguia detetar oito elementos da Polícia Judiciária, quantos é que ele achava que conseguira a gata descobrir? Doze? Catorze? Quantos? Na sua opinião eles estavam a agir mal, mas podiam, por ela, fizer o que muito bem entendiam. Nem era ela que estava com pressa. No segundo dia só detetou quatro. Mais uma vez quando Carlos ligou ela voltou-se a rir. Muito bem, hoje só descobrira quatro, estavam a melhorar. O que lhe fazia confusão, e ela nem era uma especialista na matéria, era se não haveria algures na PJ agentes mais discretos. Caramba, devia haver?

No sábado de manhã, dia cinco de novembro, Luís Navas recebeu no seu telemóvel uma mensagem de voz de um número anónimo. A mensagem apenas tinha números, a cada número correspondia obviamente o número de agentes que guardavam o apartamento de Íris. Aquilo não podia continuar. Não só a pantera tinha o seu número privado, como acertava exatamente no número de agentes presentes em cada dia a vigiar o apartamento de Íris.

Luís Navas ligou para o seu adjunto Farelo. Relatou a situação e ambos resolveram que era melhor pararem com a vigilância ao prédio. Em vez disso decidiram instalar seis câmaras ocultas durante a noite. Meia hora depois, na carrinha de vigilância, arrumada no parque de estacionamento, que ficava situado quase em frente ao prédio de Íris, ouviu-se um barulho estranho em cima do tejadilho. Os homens da JP acabados de chegar ao interior da mesma, mal tiveram tempo de se sentar. De um salto saíram da viatura. Era um saco de plástico normal com qualquer coisa dentro. Alguém atirara aquilo para ali. Dentro do plástico estavam seis câmaras, as mesmas seis que eles tinham acabado de colocar.

Carlos Farelo começava a ficar irritado com aquilo. Ligou para Luís Navas, o chefe bufou igualmente. Bem, teriam de dormir sobre o assunto e no dia seguinte pensariam numa nova solução. Fosse como fosse não podiam permitir que a sua assessora ficasse sem proteção. Teria de haver uma maneira qualquer de fintar a gata.

O Superintendente andava muito chateado. Os jornais só traziam opiniões de comentadores e conjeturas de analistas e políticos e nada de notícias concretas. Com a televisão passava-se o mesmo. As novidades que pedira a alguns amigos, que ainda mantinha na Polícia Judiciária, também não tinham dado em nada. Só lhe diziam que os chefões se tinham fechado em copas. Do lado do Comandante do Comando da Polícia Metropolitana de Lisboa, as informações eram igualmente zero.

Na opinião do homem o Governo devia andar metido ao barulho. Só nessas circunstâncias é que eles ficavam tanto tempo em silêncio. Não via que houvesse outra possibilidade que não essa. O Superintendente agradeceu e avisou que tinha os Gamas em alerta máximo, assim que o Comandante desse a ordem eles sairiam para o terreno.

Vítor Fernandes de Melo ainda tentou mais alguns contactos, infelizmente sem que adiantasse fosse o que fosse. Decidiu aceitar o plano traçado por Alex Budvi. No dia onze, sexta-feira, fariam a reunião nacional da Kalinda em Sintra, onde seria distribuída a nova estratégia com a criação das delegações de Coimbra e do Algarve e eleição dos Cedros responsáveis.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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