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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 56

A Felina - 56.jpg       ― É isso mesmo! ― reforçou Íris.

       ― Ficaram de me dizer se conseguem fazer isso já ou só amanhã. Aparentemente precisam de um aparelho qualquer… ― adiantou, ansioso, Carlos.

      ― É verdade, precisam de um Espectrômetro de Massas, que é um equipamento capaz de detetar, identificar e quantificar moléculas de interesse, por meio da medição de sua massa e caracterização de sua estrutura química. Depois disso, consultando uma tabela, é fácil saber a origem e tudo o resto. ― Íris, estava contente. ― Eu sei que a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa tem, acho até que mais do que um.

      ― Hum… vou ver se me conseguem pôr alguém de lá a pé… vou pedir que liguem para o Governo, alguém deve conseguir colocar um especialista a fazer isso ainda hoje. ― Carlos, entusiasmado ligou para o seu Diretor Nacional, quando desligou sorria de contentamento. ― Nem é preciso o Governo, o Luís Navas, tem um amigo que trabalha lá com esses aparelhos. Se o outro o atender dentro de meia hora já la estão todos. Mas Navas ainda me deve dizer qualquer coisa.

Não tiveram de aguardar nem cinco minutos. Luís Navas, telefonou a avisar que dentro de uma hora já deviam ter os testes concluídos. Posteriormente o seu amigo, se fosse preciso, poderia fazer, pela manhã, uma investigação mais profunda, mas provavelmente, para o que ele lhe pedira nem seria preciso.

Carlos Farelo, informou ainda que Navas, satisfeitíssimo, pedira-lhe igualmente para que ele desse os parabéns a Íris. Até mandara um aviso que não a autorizava a que se despedisse novamente. Tinham passado eles o dia inteiro aos papeis, que nem baratas tontas e chegara ela e, em cinco minutos, a investigação avançava a todo o vapor.

Ele próprio dizia o homem, estava realmente contente de ela ter voltado. Só tinha pena que ela não conhecesse a Felina. Caso contrário seria ela a falar com a gata.

Íris, ria-se. Ela sabia que a tinham em boa conta, mas isso era um exagero.

Nada disso, retorquia o homem. Se houvesse uma maneira de as colocarem em contacto, dizia, ele tinha a certeza que a outra se encontraria com ela. Mas havia, respondeu-lhe Íris, era falarem com o livreiro, o líder da Irmandade da Pantera Salvadora. Como é que era o nome do sujeito? Ah, sim, O senhor Januário do Ó. Se ele avisasse a comunidade, era possível que a notícia de um pedido de encontro chegasse à Felina.

Brilhante, dizia Carlos Farelo, sempre brilhante. Mas e Íris? Ela aceitava o encontro? Claro que sim, respondera, até porque estava convencida de que a pantera negra estava inocente. Ela nem armas de fogo usava e agora era uma assassina e, ainda por cima, armada em sniper. Isso não fazia sentido. Cheirava, isso sim, a uma armadilha diabólica.

Carlos, novamente ao telemóvel, falava com agora com o seu novo assistente, um tal de Nuno Peres. Queria que ele lhe arranjasse o contacto de Januário do Ó, o tipo da Irmandade da Felina. Infelizmente dizia o sujeito não tinham o número do homem. Nunca ninguém se lembrara dele. Carlos barafustava deste lado. Não tinham? Como não tinham? Tinham que ter! Acabou por desligar a chamada a deitar fumo pelas orelhas.

Íris, agarrou o seu telemóvel e fez uma chamada. Do outro lado a Dona Hermenegilda atendeu. O Januário? Para ajudar a Felina? Ela que não se preocupasse que ele já lhe ligaria. Nem demorou dois minutos a chamada a chegar. Depois de tudo explicado e do texto ditado pela Íris ao homem, ele fez seguir a mensagem para todos os inscritos, que já passavam os três mil. O homem, enquanto a mensagem seguia, queria dizer à Doutora Íris Vasconcelos que toda a comunidade da Irmandade lhe estava eternamente agradecida, por esta também não acreditar que a pantera negra fosse uma assassina e por estar a tentar ajudar um anjo em forma de gata. Uma deusa do Egito reencarnada.

Quando a jovem desligou a mensagem já seguira para toda a gente. O seu telemóvel também acusou a receção da mesma. Íris, mostrou a confirmação a Carlos Farelo. Agora restava-lhes esperar. Pediu Licença para ir à casa de banho e saiu da sala. Quando voltou, trazia uma mensagem que ela enviara do telemóvel que usava para a Érica. Apenas dizia:

“― Encontro-me consigo amanhã. Obrigada, Felina.”

A mensagem que enviara era um resumo de situação e dizia, inclusivamente, que ela era assessora da PJ e que estava a solicitar a reunião por pedido da própria Direção da Judiciária. Carlos Farelo, pensativo, questionou se ela queria que colocassem a casa sob vigilância. Nem pensar, respondeu-lhe a rapariga, se a outra desse conta lá se perderia toda a confiança. Também não achava bem ter de estar armadilhada com dispositivos de gravação da conversa, pelo mesmo motivo. Já era muito bom ela ter aceite o encontro. Nem fazia ideia da hora, nem do local, mas isso era normal.

Ainda estavam a discutir estes detalhes quando o telefone de Carlos tocou. Do outro lado da linha, Luís Navas, com uma voz de quem acabou de festejar um aniversário, dizia que a Íris acertara no centro do alvo. Todas as moedas da Felina, que estavam guardadas na polícia, eram feitas de cobre originário do Chile, sem qualquer margem para dúvidas, já o da medalha sobre o cadáver era proveniente da Mongólia. Quanto aos vernizes também eram totalmente diferentes. As composições químicas não tinham nada umas a ver com a outra.

Luís Navas, ainda com a mesma disposição, revelava outro fator de enorme importância. Todas as medalhas da Felina tinham pelo menos uns dez anos de idade, segundo fora determinado pela patine do verniz, embora estivessem muito bem envernizadas. Já na medalha do cadáver o verniz ainda não devia ter dez dias desde que fora aplicado. O relatório da Universidade de Ciências de Lisboa, seria oficialmente entregue dia cinco, com mais uns detalhes que pareciam revelar outras coisas como, por exemplo, que a nova moeda fora moldada de uma outra qualquer com molde de gesso.

O diretor Nacional da Judiciária disse outra coisa qualquer que fez o outro rir-se. Carlos Farelo, ria em abundância. Depois ao olhar, de repente, para Íris ficou sério e muito corado. A rapariga esperou que a chamada acabasse sem dizer nada. Quando o Diretor Adjunto desligou finalmente o telemóvel, ela perguntou qual fora o motivo daquele ataque de riso. Não fora nada, apenas uma brincadeira de Navas. Nada de importante. Podia não ser importante, mas ela queria saber qual fora a brincadeirinha.

O outro não se abria. Foi preciso a jovem dizer que se estava a sentir adoentada e que talvez amanhã não se pudesse encontrar com a Felina, para este perceber que não tinha como escapar ao relato.

      ― Ele disse-me para a segurar na Polícia Judiciária fosse de que maneira fosse… e como a menina gostava de dar o traseiro, se fosse preciso eu teria de me sacrificar, se é que era um sacrifício para mim, e investir na sua retaguarda, se isso a ajudasse a manter na PJ. ― respondeu vermelho que nem tomate maduro, Carlos Farelo.

      ― Mas ó meu amigo Carlos, não faço questão de passar a vida a ter, como você disse, que levar na retaguarda, mas se isso lhe agrada tanto, podemos começar já… ― retorquiu Íris, com um ar malandro, olhando diretamente para os olhos do Diretor Adjunto.

Para que cor é que se vai quando já estamos com um tom de tomate maduro? Pensava a rapariga. Descobriu de seguida: para o roxo escuro. O homem, a quem ela acabara de oferecer um copo de água, não só chegou ao roxo como a água lhe saiu de rompante por todos os buracos possíveis.

Íris, com destreza, mudou de assunto e perguntou ao enrascado Diretor Adjunto se era a ele que deveria ligar depois de contactada pela gata. O homem pegou rapidamente na deixa e clarificou que era isso mesmo. Aliás, podia contactá-lo fosse a que horas fosse. Ele estaria sempre junto ao telemóvel. No entanto, preferia que ela aceitasse alguma vigia e segurança. Nem pensar, teimava a jovem, isso podia deitar tudo a perder. Ela sabia perfeitamente os riscos que corria, mas preferia assim.

Finalmente, o Adjunto disse que era altura de ambos irem descansar. Íris, ainda brincou e perguntou se ele queria mesmo ir embora, mas o sujeito fez-se desentendido, enquanto se dirigia para a porta. Ainda lhe agradeceu o facto de ela não se ter ofendido com a piada de Luís Navas. Esta respondeu que todos ali eram adultos. Aborrecer-se como piadas machistas nunca fora o seu feitio. Era o pão nosso de cada dia. A de Navas até tinha sido engraçada, comparada com algumas que às vezes ouvia. O mais importante era o respeito existir, para lá de uma graçola sem má intenção. Trocaram beijinhos ao pé da porta e o homem desapareceu pela porta do elevador.

No meio de toda aquela enorme armadilha do Superintendente, Íris, ainda assim, tivera sorte. A Kalinka e Vítor, tinham feito as coisas com alguma leviandade. Não era muito credível que não soubessem que cobres de regiões diferentes tivessem assinaturas químicas diferentes ou que não se lembrassem que tudo o que são vernizes têm, consoante as marcas e as origens, uma assinatura química igualmente diferente. Simplesmente acharam que ninguém se ia dar ao trabalho de usar um espectrómetro de massas ou de se lembrar de o utilizar.

Para além disso, assassinar uma Secretária de Estado que, um mês antes, dera uma conferência de imprensa a prometer um combate sem quartel a tudo o que fosse crime organizado, parecia uma decisão absurda. O SIS e as outras forças da ordem, como os próprios Ministério da Administração Interna, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, deviam saber da chegada e implantação da Kalinka ao Porto e do seu alargamento a Lisboa.

Tanto assim era que a PSP de Porto e Lisboa já tinham núcleos próprios para abordar o problema, numa primeira instância, mas, possivelmente, também o SIS e a PJ já deveriam ter equipas ao mais alto nível a preparar formas de atuação e atá talvez pudessem estar a organizar, com o Governo, uma maneira de agirem militarmente.

Pelo menos, achava Íris, que Vítor tinha obrigação de saber tudo isso. O Estado português, não era certamente dos mais rápidos a reagir, e a Kalinka ainda só tinha meses de introdução no país, mas não estava a dormir. Como os primeiros confrontos tinham sido no Porto e com a PSP, era bem possível que estivessem a estudar o impacto desses conflitos iniciais e a delinear estratégias de ação, mas era um erro ridículo pensar que estavam todos a dormir na forma, como se nada fosse.

A arrogância da Kalinka, ainda era possível de se aceitar, mas a atitude negligente de Vítor só provava que o ódio que desenvolvera pela Felina lhe tinha toldado o espírito. Desde o tempo da Guerra Colonial que Portugal lidava com táticas terroristas, com máfias estrangeiras e com guerrilhas armadas. Ora isso é uma experiência de anos que não desaparece por milagre. Negligenciar a ação e atenção destas forças era, no mínimo, idiota.

 

(continua no Capítulo XIV) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 55

A Felina - 55.jpgPara a Felina era uma situação muito complicada. Agir precipitadamente de momento poderia deitar tudo a perder.  Estava na altura de a gata tirar umas férias e deixar Íris começar a arrumar, um pouco a casa. Aquele era o momento ideal para reatar a assessoria com a Polícia Judiciária. Pegou no seu telemóvel e ligou para Carlos Farelo. O Diretor Adjunto não atendeu. Nem cinco minutos depois o telemóvel tocou, era o seu adjunto.

      ― Olá Íris, ainda é cedo para me convidar para o São Martinho. Ainda hoje é dia um, corrijo dia dois de novembro, pois já passa da meia-noite… ― proferiu o homem da PJ. ― Já podemos comer castanhas, mas para o dia ainda faltam mais nove. A que devo a honra?

      ― Gostava de saber se a Judiciária mantem o convite para a assessoria ou se este já caducou. Pode-me informar? ― questionou Íris, sem adiantar muito mais.

      ― Claro que se mantém. Tenho aqui o contrato preparado comigo. É só pôr a data do dia de hoje e dar aí um salto a sua casa para a minha querida assinar. Isto hoje está mau, ninguém dorme, aqui na PJ anda tudo à procura de pistas. ― esclareceu Farelo. ― Quer que passe aí? Ou deixamos para amanhã?

      ― Preferia vê-lo hoje. Se isso não fosse inconveniente. Acabei de ver as notícias do dia, pela primeira vez, sabe… tenho estado emersa nos meus estudos e só agora tomei conhecimento dos assassinatos. ― esclareceu a jovem. ― Preferia resolver isso já esta noite. Mas veja lá, não quero estar a empatar.

      ― Desde quando é que, a minha querida, empata? Até lhe digo mais, para me estar a ligar quer-me parecer que viu as notícias e já tem uma ideia bem fora da caixa, sobre os crimes. Enganei-me? ― quis saber Carlos Farelo.

      ― Não e sim. ― disse a rir, Íris, e continuou. ― Não se trata bem dos crimes em si. Para já é apenas um detalhe. Nem sei se ajudará, contudo, poderá trazer mais alguma luz ao problema. Depende do que o Senhor Diretor achar…

      ― Vou gostar. Vou já para aí. Está na Rua de São Bento? ― indagou.

Íris estava contente com aquele diálogo. Ainda a tinham em consideração.

      ― Estou sim. Desde Jô Muttley tenho ido muito pouco à casa de família. ― esclareceu a rapariga.

      ― Isso é compreensível. Mas tudo passa com o tempo. Para me estar a ligar hoje, é porque também já pôs para trás das costas o nosso ex-coordenador superior e atual Intendente da PSP. Às vezes há coisas que custam a digerir, mas a digestão acaba por se fazer… ― vaticinava o Diretor Adjunto.

      ― Superintendente, meu caro Diretor. O Vítor já é: um Superintendente. ― informou a jovem.

      ― Ah, sim? Não me diga. Essa eu não sabia. Aquele rapaz sempre foi estranho. Vai buscar forças às adversidades. É capaz de tudo e mais umas botas para sair por cima. Muito me conta. Olhe, vou sair, levo o contrato, que só falta pôr a data e assinar e vou já para aí. Este agora tem um aumento de vinte e cinco porcento, não quero perdê-la novamente. Até já. ― disse despedindo-se Carlos Farelo. Ele sabia que a jovem tinha alguma ideia nova.

Nem vinte minutos depois, quando Íris lhe abriu a porta, o homem sorria de orelha a orelha, abanando na mão direita o novo contrato. Parecia bastante satisfeito mesmo, por a rever. Sentaram-se, logo depois da troca de um beijinho informal, e Íris assinou o novo contrato depois de terminar a sua leitura. Até as condições tinham melhorado e não só o pagamento. O documento vinha assinado por Luís Navas e estava datado com o início a começar a um de novembro de 2022. Ficou com a sua cópia e devolveu a outra ao Diretor Adjunto.

      ― Diga-me, Senhor Diretor Adjunto, os seus… ― ela não conseguiu terminar. O homem interrompeu-a de imediato dizendo:

      ― Não, não. Deixe lá o Diretor Adjunto para situações em público, oficiais ou na presença de desconhecidos. Para si basta Carlos e espero que para mim chegue Íris. Chega?

      ― Claro que sim. Gosto disso, tenho uma grande admiração pelo Carlos. É uma honra esse novo tratamento menos formal. ― disse a rapariga contente com a novidade.

      ― Ora então, o que me ia perguntar, Íris? ― quis saber Carlos.

      ― Queria saber se os laboratórios da Polícia Judiciária ainda estão abertos, hoje, a esta hora? ― indagou a jovem.

      ― Estão sim, excecionalmente, é claro, mas é um facto, por causa das peritagens decorrentes dos assassinatos. Mas para que quer a menina saber isso? ― questionou o Diretor.

      ― Como o Carlos sabe eu sou especialista em Antiguidade Clássica, com uma série de valências associadas e estou habituada a ter que fazer ou mandar realizar peritagens a imensos itens. No que concerne a este caso eu acho que deviam ser feitas peritagem às medalhas da Felina que estão na Polícia de Segurança Pública e o mesmo à medalha encontrada no cadáver da Secretária de Estado. ― elucidou a rapariga, fazendo uma pausa.

      ― Peritagens? Mas que peritagens há para fazer? São ambas de cobre revestido a verniz, têm imagens nos dois lados precisamente iguais e as mesmas inscrições. Que raio de peritagens é que há mais para se fazerem? Conte-me lá… ― questionou Carlos Farelo, sem entender onde a jovem queria chegar.

      ― Com efeito, podem efetivamente ser iguais, e o assunto fica arrumado, mas eu acho que são totalmente diferentes. Estive a ver ambas ampliadas no meu computador, e a do cadáver parece-me que foi criada através de um molde das originais. Mas mesmo que a diferença seja de alguma distorção provocada pela deficiente qualidade das imagens online, há ainda a possibilidade de analisar a composição química de ambos os vernizes e a composição do cobre em cada uma delas. Embora o cobre usado em fios elétricos seja muito igual entre si, devido aos processos de purificação para o tornar mais condutor, o cobre dos artefactos não sofre o mesmo tipo de purificação. É claro que o processo de purificação do cobre é extremamente necessário na metalurgia, já que esse metal apresenta uma excelente capacidade de conduzir corrente elétrica e, por isso, é muito utilizado na produção de fios de eletricidade... ― explicava Íris, tentando ser clara.

      ― O que me está a tentar dizer, minha querida? ― Carlos, precisava saber onde ia parar aquela aula sobre o cobre.

      ― Estou a dizer que temos que analisar também o cobre. ― disse ela.

      ― Mas analisar o quê? Depois de purificado, o cobre é apenas cobre, certo? ― questionou Farelo.

      ― Não, Carlos. Infelizmente, não existe na natureza cobre puro, o que possibilitaria a sua utilização imediata. Na realidade, o cobre é encontrado em uma série de diferentes minérios, como a calcopirita (CuFeS2), calcocita (Cu2S), bornita (Cu5FeS4), enargita (Cu3AsS4), além de ouro e prata. Ora, para os artefactos, a purificação do cobre não é a mesma do que para os fios condutores. Ela é feita de forma mais barata porque a necessidade na sua utilização é diferente... ― esclarecia a jovem.

      ― Sim, e… ― quis saber Carlos.

      ― Quer isto dizer que uma moeda de cobre pode ter outros minérios associados na sua confeção. Com base na análise química de ambas as moedas até é possível saber se ambas vêm da mesma mina ou região do mundo. Dito de outro modo, uma moeda de cobre, aparentemente igual a outra, pode ter origem mineral completamente diferente. Quero eu dizer que se mandar testar a composição química de quatro ou cinco moedas que estão na polícia e elas tiverem a mesma composição química é porque o cobre vem todo do mesmo lugar e até consegue saber se veio do Brasil, do Chile, da China, da Mongólia ou de Portugal. ― Íris, explicava, argumentando com todo o cuidado para ser entendida.

      ― Ou seja, se a moeda do cadáver for igual às outras então de certeza que existe uma imensa probabilidade de a assassina ser a Felina, se for de uma composição diferente e vier por exemplo de um país distante de onde vieram as outras, então trata-se de uma falsa medalha e é possível que alguém esteja a tentar incriminar a pantera negra. É isto, minha querida amiga? ― Farelo, concluíra o raciocínio de Íris. Teria sido certeiro?

      ― Era isso mesmo que eu ia dizer. Só há mistério ou culpa da gata, se todas as moedas forem iguais e o metal vier todo do mesmo local… ― terminou satisfeita a jovem.

      ― Já estou a tratar do assunto. ― Carlos ao telemóvel mandava analisar quatro moedas salteadas das da polícia e, à parte, a do cadáver.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 54

A Felina - 54.jpgTambém descobrira que uma empresa de fachada, que funcionava como filial de uma multinacional russa controlada pelo líder do Grupo Wagner, comprara a quinta de Sintra que fora de Jô Muttley. Devido ás câmaras ocultas que instalara no local, durante parte do mês de setembro, tendo um extremo cuidado na sua colocação, para que essas não fossem detetadas caso a Kalinka se instalasse ali, como viera a acontecer, tinha, detalhadamente, em todo o lado, desde o muro e o portão da entrada até todo o complexo, o controlo do que se passava no seu interior.

A Felina, também passara algum tempo na Rua da Fábrica, no seu apartamento familiar, a preparar e a atualizar o seu equipamento de combate, até porque recebera os novos fatos de pantera, do Brasil, com as suas últimas inovações. Entre elas instaladas nas orelhas da gata, que agora rodavam trezentos e sessenta graus, um conjunto de câmaras especiais com visão térmica, visão noturna e visão natural com uma excelente capacidade de alcance instalada graças a um inovador sistema de zoom. Os equipamentos que anteriormente tinha nas orelhas tinham sido reinstalados na parte da frente dos ombros.

A visualização dos conteúdos das diferentes câmaras chegava-lhe aos olhos através de lentes de contacto conectadas às objetivas por Wi-Fi. Um maravilhoso progresso. O comando e as opções estavam localizados no interior do pulso esquerdo. Também nas orelhas havia agora quatro micro sensores de som com ampliação regulável pelo comando do pulso, abrangendo os mesmos trezentos e sessenta graus de envolvência. Para além disso adquirira e adaptara para as suas narinas dois minúsculos aparelhos, originariamente criados para cães pisteiros, que conseguiam ampliar em dez vezes o nível de captação de odores que possuía.

A Felina sentia-se pronta e mais preparada para o embate que o confronto com a Kalinda lhe poderia causar. O pai e o avô sempre lhe tinham ensinado a estar atenta e disposta para novos desafios.

Porém, nada a havia preparado para a descoberta dessa terça-feira, um de novembro. Nem ela, que tentava a todo o custo antever todos os cenários possíveis dos confrontos que lhe poderiam aparecer, esperara algo assim.

A pantera negra vira a Kalinka instalar-se e começar a operar na sua nova zona de influência. Até final de outubro nada fizera para intervir. Precisava conhecer muito bem o seu inimigo. No final do mês, ninguém diria que eles tinham chegado há tão pouco tempo. Pareciam estar por ali havia vários anos. Também já sabia quem era Alex Budvi e os seus comandantes diretos, Igor Shevchenko, Ivan Yakovlev e Dimitri Borisov. Também assistira a duas execuções, que filmara, de elementos do bando, um que tinha desobedecido a um comando direto e outro que desviara fundos da organização. O primeiro fora abatido a tiro e o segundo colocado vivo dentro de um barril de ácido, sem dó nem piedade. O evento acontecera nessa terça-feira de manhã.

Este episódio, aliás, fora excelente para a Felina. A organização convocara todos os seus elementos da Grande Lisboa, para um grande encontro global, onde todos se ficariam a conhecer, que afinal servira, isso sim, para dar o exemplo com a Kalinka, em peso, a assistir. A Felina tivera tempo suficiente, para registar em filme, um a um, todos os elementos da máfia, sem sequer ter de se apressar.

Porém, quando se dedicava a essa tarefa, ao chegar aos líderes nada a preparara para ver, junto ao grupo dos Cedros, localizados de fronte para os Zimbros, o seu conhecido Vítor Fernandes de Melo, mesmo do lado direito de Alex Budvi. Como estava a filmar remotamente pelas câmaras, que instalara previamente na quinta, e não se encontrando na propriedade, pensou ter visto mal. Só podia ter visto mal.

Assim que chegou ao fim da filmagem de todos os elementos voltou para trás e, agora com o zoom, filmou aqueles dois juntos a rir sadicamente, enquanto um desgraçado de desfazia, aos poucos, vivo, no ácido do barril Não havia dúvidas de que era mesmo o Superintendente.

Uma luz iluminou o rosto de Felina. Era isso que ela não pensara quando vira a ascensão meteórica de Vítor. As prisões no Porto tinham sido combinadas com Alex Budvi. Talvez elementos excedentários ou pouco aplicados, gente que servira para o ajudar a ganhar prestígio rapidamente. A estratégia fora um enorme sucesso. Naquele momento nem lhe servia de nada avisar a PJ, pois quando chegassem ao local a maioria já teria ido embora.

Precisava arranjar uma maneira de avisar a Polícia Judiciária, sem se deixar apanhar, e sem que estes pudessem duvidar dela, a gata ia ter que magicar um plano para o conseguir. Para a jovem, mais importante que a Kalinka toda era agora Vítor. O homem enlouquecera. Não havia outra explicação. Como era possível um ex-elemento dos topos da Judite, estar ali, a rir de um desgraçado vivo a desfazer-se em sebo? Aquilo era inconcebível.

No mesmo dia, quase ao fim da tarde, um novo episódio ensombrou o país. Raquel Coreto, a Secretária de Estado da Administração Interna, fora assassinada ao regressar a casa, à porta da sua residência. O motorista que a levara tivera a mesma sorte, ambos com tiros de um sniper, segundo comunicação da PJ. No local, em cima do corpo do membro do Governo, fora encontrada uma medalha da Felina.

A PSP, a pedido da Judiciária, revira as medalhas da larápia ao seu cargo e não faltava nenhuma. Ora, sendo esta a única entidade pública que guardava, como prova, as medalhas da Felina, não havia hipótese de se tratar de uma falsa acusação. A pantera negra, assassinara deliberadamente uma Secretária de Estado e o seu motorista e, como sempre, assinara o seu feito. O país estava chocado com esta inesperada atitude da gata.  O Governo já adiantara que o facto, a ser provado, seria severamente punido pela justiça portuguesa assim que o julgamento terminasse.

O Correio da Manhã, que conseguira chegar ao local ainda antes da polícia, traria na manchete do dia seguinte uma imagem do assassinato onde a medalha era bem visível. Segundo o diário, que tanta manchete fizera à custa da Felina, a autoria do crime não podia ser da gata, pois o ato era totalmente díspar do seu comportamento padrão.

No entanto, outra imprensa menos simpática advertia que a atual imitação barata do Robim dos Bosques, iria ter, mais cedo ou mais tarde, que descambar no crime puro e duro. Nos comentadores as opiniões também estavam divididas. Basicamente, quem defendera a existência da gata e o seu papel na sociedade portuguesa mantinha a sua opinião, mas os que nada haviam dito da primeira vez ou os que se haviam manifestado contra a ladra, eram agora unanimes a pedirem a prisão imediata da cobarde assassina.

Íris, que passara a tarde a compilar um SD Card com os ficheiros completos sobre a Kalinka e a fazer outra cópia para si esteve até quase à meia-noite sem saber de nada. Quando se sentou no sofá da sua sala, no primeiro andar, do número quatrocentos e quarenta e quatro da rua de São Bento, acompanhada por um bom copo de vinho tinto, para escutar as notícias da meia-noite, quase que deitou o vinho pelo nariz com a notícia que servia de abertura àquele bloco noticioso.

Várias imagens apresentavam o corpo inanimado da Secretária de Estado, com a moeda em cima do peito. Íris, gravou a imagem e passou-a para o seu computador. Na sua sala secreta efetuou uma ampliação e tratou a fotografia de forma a poder vê-la claramente. Rapidamente se apercebeu que se tratava de uma imitação. Podia ser da televisão, mas o brilho da imagem e a cor não lhe pareciam exatamente iguais às suas medalhas.

Na sua mente pareceu-lhe evidente que aquilo era, mais uma vez, um plano maquiavélico de Vítor. Só uma mente perversa a podia representar a tirar uma vida, ainda por cima, através de uma arma de tiro à distância. Um tiro de sniper vindo dela era tão verosímil como uma morte de alguém à bomba. O homem estava doido.

Ligou o sistema de vigilância da quinta no seu computador. Procurou por Alex Budvi. O homem estava sentado no grande cadeirão do salão principal que outrora fora de Jô Muttley.  Ele brindava com outro de costas para a objetiva. A jovem era capaz de reconhecer aquelas costas em qualquer lado. Vítor brindava com o novo associado. Subiu o som, ambos festejavam o princípio do fim da gata.

Ficou feliz por ter a gravação das imagens ativa. A data altura entrou no salão um sujeito com uma arma de precisão, própria de um sniper, ao ombro. Vítor chamou-o de leopardo, o gato que entalara de vez a farrusca. Tinham sido dois tiros certeiros, nem fora preciso ao homem disparar uma terceira vez. Um Cedro era assim, dizia o recém-chegado. Cumprira a sua missão na perfeição. Ainda conseguira deixar a medalha antes da chegada do Correio da Manhã que fora avisado por eles. Aliás, por uma das putas do bando, que por ser de Lisboa não tinha qualquer sotaque detetável.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 53

A Felina - 53.jpgXIII

Os Assassinatos da Pantera Negra

XIII

O seu novo carro estava uma delícia. Alfredo Neto, o responsável pelo tratamento das suas viaturas conseguira uma obra prima. No símbolo traseiro do Jaguar o nome da marca, por baixo do corpo da pantera cromada, recolhia e era substituída por uma chapa sem nada, totalmente preta. Porém, à frente o símbolo do Jaguar na grelha rodava e um novo, sem a palavra da marca no topo redondo, aparecia. Ficava apenas uma circunferência lisa e cromada sem qualquer palavra, somente com a cabeça da pantera no centro. Um trabalho perfeito. Outra pressão no botão e o crachá trocava para o do Jaguar.

No painel que fazia recolher o símbolo cromado da pantera, em 3D, do capô, estavam agora quatro botões, três de pressão, que trocavam ou recolhiam os símbolos e um de rodar, que mudava as matrículas da traseira e da frente em simultâneo. Estas eram compostas por um sistema triangular rotativo que, ao rodar, substituía a chapa verdadeira pela primeira falsa na posição dois ou pela segunda falsa na posição três, a posição um repunha a matrícula certa.

Os vidros do carro tinham ainda outra caraterística excelente, através de uma rodinha no volante passavam de transparentes a totalmente opacos e fumados vistos por fora, mas mantendo total visibilidade do interior para o exterior. Esta possibilidade de ocultar o ocupante da viatura tornava a máquina absolutamente furtiva. Alfredo Neto, conseguira implementar a nanotecnologia ultrassecreta que ela roubara à NASA, no início de 2022, usada para proteger os vidros das suas naves de radiações exteriores, mas que tinha o efeito colateral de ocultar o interior das cabines do exterior dos veículos espaciais, impedindo até que câmaras de satélites inimigos pudessem ver o seu interior.

Gadgets, a Felina adorava aquelas mariquices práticas. Precisara de alguma paciência para chegar ao sistema e roubá-lo, mas o prazer de o ter conseguido não tinha descrição. Era como o sistema para trocar os logos do carro, que também fora gamado, ao Pentágono. Eles usavam-no para descaraterizar veículos de guerra e para ela aquele jaguar era um verdadeiro veículo de guerra.

O carro fora ainda artilhado com variados tipos de armamento, estilo carro de 007, mas isso já tinha sido mais simples de conseguir. Alfredo Neto era um talentoso artesão e estava a perder-se ao gerir uma oficina normal. Ela achava que era mais lógico se ele trabalhasse para o SIS. Até ao final de setembro a sua viatura ficou nas mãos de Alfredo, para ele tratar de todos estes pequenos ajustes que requeriam, tempo, paciência e precisão.

O certo é que Neto adorava implementar e aplicar os gadgets com que a Felina o desafiava. Dizia sempre que fazer desenhos para a Marvel ou para filmes de super-heróis era mais fácil do que torná-los realidade, todavia, finalizava sempre os sonhos da sua amiga.

Quando terminou a transformação do Jaguar o tablier parecia o cockpit de uma nave, mas apenas depois de acionar no volante um botão que fazia recolher uma cobertura que punha à vista as engenhocas todas. Sem isso acionado parecia apenas uma frente normal de um tablier da Jaguar. Um must! Dissera-lhe a Felina quando ele lhe mostrara o sistema pela primeira vez. O homem quase que rebentara de orgulho.

Com o carro novo nas mãos de Alfredo Neto, Íris, voltou ao uso do seu Dácia. Até ao dia dezasseis de setembro, pelas oito da noite, lá tinha, sentado à porta do seu prédio o desgrenhado surfista pronto para a ramboia. Aquelas noites de Lua Cheia foram totalmente preenchidas pelo Melro. O seu artista era completamente doido. Uma noite, até num elevador do Ritz tinha feito amor. Ela desativara as câmaras do ascensor, através de um simples controlo remoto, sem dizer nada ao rapaz, que estava doido só de pensar que estavam a ser vistos pelos seguranças do hotel.

Era um aparelho portátil e simples que normalmente ela usava nas suas aventuras, quando precisava, mas que levara consigo para o hotel quando ele lhe dissera que a queria comer num elevador de hotel. Pararam o ascensor entre pisos e durante meia hora foi “um vê se te avias” indescritível. A parte mais gira foi quando, ao chegarem ao piso térreo, deram com dois polícias, cinco seguranças e o responsável do hotel de serviço naquela noite, à espera deles, com um semblante de assassinos de morrer a rir.

Íris, saíra esbaforida para os braços de um dos polícias a agradecer a salvação. Tinham ficado aquele tempo todo presos no elevador sem luz e sem saberem o que fazer. Ela até estava com medo de que se acabasse o oxigénio. Ainda bem que os tinham conseguido libertar, tinha sido um grande susto, dizia entre soluços.

Perante esta fita perfeitamente executada, o semblante dos homens mudou e já só tentavam confortá-la. Aquilo era o Ritz, dizia o gerente de serviço, enquanto ela passava do polícia para se abraçar a ele roçando o peito fortemente pela camisa dele, arfando de aflição. Às vezes acontecia um azar, mas eles sempre conseguiam resolver, prosseguia o homem a sentir um volume a aumentar ao nível da cintura com aqueles abraços íntimos de Íris. Nem se deviam ter preocupado.

O sujeito dispersou os seguranças e deixou dois técnicos, acabados de chegar, a verificar o elevador, enquanto oferecia aos hospedes uma ida ao bar. Aquilo não era nada que um bom conhaque não resolvesse. O Melro entretanto entendera que os homens não tinham visto a cena e parecia triste. Depois acabou por achar graça à situação e alinhar na história.

O polícia, a quem Íris de agarrara mal saíra do elevador, voara para a casa de banho para aliviar o stress, assim que esta o largara. Mais um pouco daquele roçar e dos beijos de agradecimento e ele teria deixado de responder pelo comportamento do cassetete.  Já o gestor de serviço tivera, à pressa, de abotoar o casaco para disfarçar o hastear da bandeira.

O surfista, assim como aparecera voltou a desaparecer e os dias de Íris tiveram de ser divididos em duas partes, uma, mais pequena, a prosseguir os seus estudos, mas a maior a investigar a Kalinka. Uma organização terrorista não se assemelhava em nada a um bando de bandidos por muito grande e armado que este fosse. O treino era outro, a disciplina então era incomparavelmente superior e a eficácia estava uns bons níveis a cima.

Enfim, era um jogo totalmente novo e diferente. Como descobrira através do Jornal de Notícias que a organização começara no Porto, procurou na base de dados da PJ na Invicta descortinar o que se passava. Havia alguma informação, mas era diminuta. A maioria dos ficheiros tinham origem em informações passadas pelo Comando Metropolitano do Porto da Polícia de Segurança Pública.

Ao contrário da base de dados da Judiciária, cujas manhas ela já conhecia bem, a da PSP do Porto parecia um cofre fechado a sete chaves. Aquilo era um trabalho bem feito. Seria de esperar que a PJ estivesse melhor protegida do que a PSP, mas a realidade era outra. Levou até ao fim de setembro para conseguir aceder à base de dados do Comando Metropolitano do Porto.

Aliás, foi apenas a três de outubro que Íris finalmente conseguiu penetrar na base de dados do Comando Metropolitano do Porto da PSP. O Comandante devia ter ido buscar jovens licenciados em informática ou em engenharia informática ou de sistemas, acabados de se especializar na universidade, possivelmente malta já com o mestrado. Foi com um profundo espanto que Íris, apanhada de surpresa, se apercebeu que Vítor, qual fénix, renascera das cinzas e depois de uma passagem de sucesso pelo Porto, estava de regresso a Lisboa ao seu anterior lugar no Comando Metropolitano de Lisboa da Polícia de Segurança Pública. Mais espantosa ainda era a quantidade de elementos da Kalinka que ele conseguira prender no Porto, ao todo perto de quarenta.

Mas havia mais, Vítor Fernandes de Melo, vinha com a função de líder de uma nova unidade de combate ao terrorismo no seio da PSP, primeiro formada por ele no Porto e agora a aplicar em Lisboa. Esta unidade era designada pelos Gamas, o Grupo Anti Máfia de Ação e Segurança. Pior, não tinham só como missão impedir a propagação da Kalinka em Lisboa como também era este o grupo responsável pela sua captura.

A Felina copiou todos os ficheiros que conseguiu encontrar sobre a Kalinka e ainda os que se referiam ao Intendente que ela bem conhecia. Foi com espanto também que descobriu que Vítor deveria passar a Superintendente até ao final de outubro, quando tivesse acabado de formar os Gamas de Lisboa. Mas que salto o homem dera de repente, quase por milagre, sem que ela tivesse dado conta.

Aquilo não lhe parecia natural. Faltava-lhe uma peça qualquer do puzzle, não sabia bem o que era, mas algo não cheirava bem. Ninguém na mó debaixo vira o jogo a seu favor, tão rapidamente, de forma limpa. Os contos fantásticos podiam existir no mundo dela, que se dedicava a tornar reais os feitos dos super-heróis da banda desenhada, mas não na vida de um polícia. Vítor Fernandes de Melo jamais poderia ter conseguido aquilo de forma cristalina e sem cambalachos. Todavia, aparentemente, ela não conseguira descobrir aquilo que ele fizera. Nos ficheiros não havia pista alguma.

Para além das suas funções normais de ajudar quem precisava, enviando as suas encomendas especiais pelo correio e de, nos Ciclos da Sombra, continuar a prender bandidos para a PSP, ela ainda limpara três casas comerciais recetoras de ouro entre setembro e o fim de outubro. Apenas as noites de Lua Cheia não tinham tido romance em outubro, e ela atribuía o facto a tratar-se da chegada do outono. Sempre tinha mais dificuldades de se envolver romanticamente naquele mês.

A terça-feira, dia um de novembro, anunciava que, acabara de entrar nos ciclos da Luz mais uma vez. A pasta da Felina sobre a Kalinka estava agora o mais completa possível. Entrar nas bases de dados do Comando Metropolitano de Lisboa fora fácil comparado com o que tivera com o Porto. Até sabia ao detalhe quem pertencia aos Gamas de Lisboa.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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