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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 44

A Felina - 44.jpgÍris, estava pasmada. Vítor, tinha uma fixação. Mas também tinha azar, escolhera-a a ela. Não sabia há quanto tempo ele tinha o seu ficheiro na pasta de prioridades, todavia, ela levava-lhe vários anos de vantagem. Vantagem a ajudar a polícia, vantagem a conquistar o carinho da população e a vantagem, fundamental, de ser mais inteligente do que ele, embora ele se achasse o suprassumo da barbatana.

A repetição, aos fins-de-semana, da limpeza de Lisboa, por parte da Felina, durante os Ciclos da Sombra, mantinha a alta consideração por parte dos polícias das esquadras, se bem que, nos centros de comando a coisa não fosse equivalente. Durante os três dias que se seguiram os resultados das ações noturnas da gata tinham ultrapassado o fim-de-semana anterior. O único senão, era não ter conseguido caçar pedófilo algum, nem sequer qualquer rede mafiosa ligada a essa praga. Porém, os flagrantes de práticas que envolvessem pedofilia implicavam que ela tinha que estar na altura certa, no local exato.

Na segunda-feira, dia vinte e nove, bem como na terça, dia trinta, o estudo ocupara-lhe integralmente o tempo. Mais do que um passatempo, aprender novas coisas da sua área deixava-a feliz. Ela gostava daquilo como quem gosta de bife em sangue com batatas fritas. Não conseguia explicar, mas que lhe dava um prazer enorme, lá isso dava.

Se uma gata não come o bife, ou a gata não é gata, ou o bife não é bife, pensava Íris, recordando a sabedoria popular. Com ela era mesmo assim, se havia algo de que ela gostasse, como dedicar-se às suas áreas de estudo, não havia exceções e era sempre com deleite que se entregava aos seus estudos. O mesmo acontecia com o desporto e as rotinas físicas para se manter em perfeita forma.

Quando, por fim, chegou a quarta-feira, dia trinta e um, a jovem contava os minutos para a chegada das seis horas da tarde. Finalmente, depois de horas de frenesim o momento acabou por acontecer. O Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, o Diretor Adjunto da PJ, Carlos Farelo, o Intendente do Comando Metropolitano de Lisboa, um tal de Vítor, e um representante do Banco de Portugal dirigiram-se à zona da exposição do ouro colonial.

Com o encerrar das visitas públicas ao museu, naquele dia, esta terminara e era preciso recolher as peças, embalá-las e levá-las de regresso às catacumbas do Banco de Portugal. Não existia grande excitação no ar. Havia, isso sim, desalento. A armadilha para caçar a Felina, falhara em toda a linha. Os quarenta elementos extras da PSP já tinham sido dispensados, a carrinha com os dois inspetores da Polícia Judiciária também regressara à Sede, sem que nunca tivesse sido necessário alguém agir.

Primeiro tinham sido desmontadas todas as vitrines e os expositores onde se encontravam os mais diversos artefactos do ouro colonial, enquanto eram recolhidos os panfletos e a publicidade sobre a exposição, espalhada pelo museu e, finalmente, chegou o momento de abrir a vitrine e retirar a barra de ouro. O alarme foi desligado na perna da mesa e no vidro, a vitrine removida e o representante do Banco de Portugal avançou com ambas as mãos para retirar a pesada barra de ouro de cima da almofada preta e a voltar a meter na sua caixa própria.

Todos apanharam um enorme susto quando a barra voou pelos ares. A força que o homem calculara para levantar algo com um peso de dois garrafões de água, em contraste com o peso pluma da falsificação oca, fez a peça voar das mãos deste, devido ao contraste entre as forças aplicadas e o real peso da peça. Foi, a quase vinte metros de distância, Dona Hermenegilda, que fora chamada para limpar a sala, quem, à entrada da mesma, a acabou por apanhar quase no colo. A mulher, com o objeto nas mãos, surpreendida, olhou para os funcionários do museu, para os seguranças presentes e para a elite pasmada e disse simplesmente:

      ― Esta merda não pesa dez quilos! Os senhores não me levem a mal… ― continuou a senhora da limpeza. ― Mas algo me diz que aqui há gata! Isto não pesa mais que um penso higiénico por usar. Pois é, não te fies em água que não corra, nem em gata que não mia…

      ― Deixe-me cá ver isso. ― disse o Intendente, que chegava vermelho de raiva, em passo de corrida, quase arrancando a falsa barra das mãos de Hermenegilda. ― Não é possível…

A quase insustentável leveza da peça pesava toneladas ao olhar de todos.

Novamente, a simpática senhora da limpeza chamou a atenção dos presentes naquela sala. Todos seguiam, mais uma vez, o seu braço esticado, de dedo em riste, apontando para a almofada de veludo negro na mesa onde estivera a barra de ouro. Reluzindo serena, suavemente poisada, descansava brilhante, por entre a negritude envolvente, a moeda de cobre da Felina. Carlos Farelo esticou a mão e com as pontas dos dedos retirou a brilhante e novíssima moeda da pantera, atirou-a ao ar em rotação, para a voltar a apanhar no voou, fechando a mão em seu torno.

Por baixo da moeda via-se agora um pequeno papel dobrado em seis. Era uma tira fina apenas com uma frase simples que rezava assim: “Quem não tem cão, nem cadela, caça com gata, pois o gato está a gabar-se na viela”, leu o Diretor Adjunto em voz alta para todos. Depois reparou que havia uma frase mais pequena, na outra face da tira, que dizia: “Uma gata é… Felina numa casa guardada pelo rato Vítor”.

Dona Hermenegilda desatou a rir, agarrou o seu carrinho de limpeza e saiu da sala à gargalhada. Ainda a conseguiam ouvir à distância a repetir, por entre gargalhas, «“o rato Vítor” essa é boa, muito boa… “o rato Vítor”» e de seguida «a Felina papou o rato Vítor, essa é boa», seguindo-se mais gargalhadas a ecoar pelo museu a fora.

O rato Vítor espumava de raiva, aproximou-se da mesa e agarrou furibundo a almofada ali poisada, por baixo mais uma mensagem em letras gordas e grandes num papel A5 dizia: “Olá Vítor, eu sabia que tinhas que ser tu a tirar a almofada, deu-te o sono? Ficas avisado que nunca deves atiçar uma pantera com vara curta. Se faz favor pede desculpa por mim ao Museu e ao Banco de Portugal, a culpa foi tua que não te lembraste que à noite todos os gatos são pardos. Sabes… os ratos julgam-se gente, já as gatas são deusas. Adeus”.

Independentemente da fúria do Intendente que continuava em crescendo, a que se juntava o facto de ter sido roubada uma barra de ouro que valia mais de cinquenta mil euros, já sem falar do valor histórico, o melhor de tudo para os presentes na sala era o gozo da Felina ao Intendente. A maioria dos presentes já se ria, fazendo comentários jocosos e piadinhas próprias. Depois havia o olhar assassino de Vítor que ainda ajudava mais à galhofa.

O representante do Banco de Portugal dizia ao Diretor do Museu que era um roubo de cinquenta mil euros, sempre era dinheiro, mas que o valor histórico era realmente diminuto ou mesmo inexistente. A barra era apenas uma de mais de quinhentas que ainda tinham guardadas do primeiro carregamento do Brasil. Não sendo ele o dono, mas o Estado, aquele roubo bem que valia o dinheiro. Na sua vida era a primeira vez que se divertia com um assalto.

Só o representante da Fidelidade, a companhia de seguros que segurara a exposição parecia chateado. Apontava para os agrafos pregados ao redor do círculo por onde saíra a barra e dizia ao Intendente que a companhia não ia achar graça nenhuma àquela gracinha. Não se tinham apercebido que estavam a segurar uma armadilha. Ia expor o problema aos seus advogados, pois o que constava na apólice era um seguro de exposição.

Enquanto muitos riam, outros faziam o relatório da ocorrência, o clima de boa disposição só era quebrado pelo homem da Fidelidade, ainda às voltas com a defesa legal da companhia e da fúria desmedida do Intendente. Depois dos relatórios feitos, das perícias e das buscas efetuadas, bem como o levantamento dos testemunhos, a exposição foi transportada em segurança para o Banco de Portugal já devidamente acomodada e aquele episódio pareceu ficar terminado.

Como nesse dia não havia espetáculo no jardim, a polícia judiciária pediu ao Diretor do museu se podia encerrá-lo, mantendo apenas os seguranças. Eles precisavam fazer uma peritagem mais profunda e era melhor se fosse feita assim, desse modo. O homem concordou e dispensou todos os funcionários que ainda se encontravam nos seus turnos, garantindo que o dia seria pago integralmente pois tratava-se de um fator externo à casa, o que conduzia ao fecho das portas.

Dona Hermenegilda adorou a novidade, ainda há pouco tempo começara o primeiro turno e ia receber pelos dois, podendo ir de imediato para casa. Era mais uma folga paga para agradecer à Felina. Foi arrumar as suas coisas e saiu do museu muito bem-disposta. Já na saída, do outro lado do passeio, na Rua das Janelas Verdes viu a sua nova amiga, de costas para si, encostada num sinal de trânsito, a falar ao telemóvel.

A mulher atravessou a rua e aproximou-se da outra que ainda não dera pela sua presença. Esperou um instante pois ouviu a amiga a despedir-se ao telefone e, assim que esta desligou, bateu-lhe no ombro. Íris deu um saltinho, como que meio assustada e depois fez-lhe um enorme sorriso. Dona Hermenegilda perguntou-lhe se tinha um tempinho para um café, tinha novidades para lhe contar. A outra concordou.

Hermenegilda, que acabara de saber por um dos seguranças a parte da história a que não assistira, precisava mesmo de expandir a sua alegria com o acontecido. A amiga vinha mesmo a calhar. Mal podia esperar por começar o seu relato de tão excitava que estava. Nem tinha o filho para tratar, que naqueles dias de turno duplo ficava cinco portas ao lado da sua casa, no apartamento da irmã mais velha, ao cuidado desta.

Finalmente, instalada numa esplanada a tirar partido da brisa fresca do fim de tarde, a Dona Hermenegilda, a acabar de beber meia mini de Superbock, pelo gargalo, enquanto Íris se agarrara ao seu copo de imperial, começou o relato do acontecido. Porém, parou de imediato. Íris, fizera-lhe sinal para esperar, assim que ela dissera qual era o assunto. De dentro da pastelaria vinham a sair duas pessoas que ela conhecia bem dos seus encontros sociais. Um, era jornalista do Expresso e a outra, era a apresentadora, pivô e jornalista da TVI, Cassandra Banheiras.

Íris, fez-lhes sinal, eles aproximaram-se e ela perguntou-lhes se não queriam um exclusivo, em primeira mão para os seus órgãos de comunicação social. Teriam de pagar, mas a sua amiga Hermenegilda dava-lhes o exclusivo a ambos do assalto da Felina, acabado de descobrir, ao Museu Nacional de Arte Antiga. Os dois tiveram de contactar os seus superiores e finalmente por cinco mil euros cada, puderam ouvir a história da Dona Hermenegilda.

Ainda por cima a senhora era uma mulher de quarenta anos de boa aparência, cara alegre e bonita. O jornalista gravou o relato e mais umas fotos que Íris lhe enviou por e-mail. Já Cassandra Barreiras, depois de ouvir toda a história, partiu com a outra para os Estúdios da TVI para gravar a entrevista. Ficou combinado o Expresso Online e a TVI lançarem a notícia no dia seguinte à noite, à hora do noticiário da TVI e da CNN Portugal.

 

(continua no próximo capítulo) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 43

A Felina - 43.jpgNa segunda-feira de manhã, quando o Diretor do Museu chegou ao seu gabinete, Íris, bem-disposta, estava à sua espera junto à porta. Este abriu a fechadura, entrou e pediu-lhe que ela entrasse também. Foi com enorme satisfação que recebeu os dois exemplares idênticos do projeto, feito a contar com o PRR, o Programa de Recuperação e Resiliência, candidato a duzentos e cinquenta milhões de euros da Comissão Europeia, conforme prometido, perfeitamente dentro do prazo.

O nome do projeto “A Memória de um Povo pela Arte” prometia um dos maiores apoios de sempre de Bruxelas ao setor da cultura caso este passasse. Tal feito nunca fora tentado, mas quando a Doutora Íris Vasconcelos o explicara pela primeira vez, no dia em que ela pedira uma entrevista no museu, convencera-o logo de início.

Aliás, José Pereira Tucano, afirmava à rapariga que nem teria sido necessária a carta e a explicação ao vivo do Diretor Nacional da PJ sobre o incidente de sexta-feira. Ele nunca acreditaria nas barbaridades que o coordenador superior da Polícia Judiciária dissera. Ela agradeceu a confiança e devolveu a chave do seu pequeno gabinete durante aquelas semanas. Estava tudo limpo e pronto a usar por um qualquer novo colaborador.

Já de saída, tendo passado pelo bar, encontrou a Dona Hermenegilda ainda ali. A mulher tinha um ar cansado. Certamente decidira tomar o pequeno-almoço antes de rumar a casa. Íris, tirou da sacola um livrinho A4 e passou-o à amiga. Continha seiscentos nomes de pessoas ajudadas pela Felina e os respetivos contactos, para ela entregar ao seu amigo livreiro. Agradeceu ainda, novamente, toda a ajuda e confirmou-lhe que conseguira entregar o projeto a tempo, unicamente graças à preciosa ajuda de Hermenegilda, a quem estava eternamente agradecida.

Ficaram as duas a falar sobre a barracada de sexta-feira dada pelo fulano da Judite, sobre a Felina e muito sobre a vida de Hermenegilda, uma mulher batalhadora, que nunca desistia de nada, nem das pessoas em quem acreditava. Nunca tivera muitas amizades, até se formar a Irmandade. Agora, ao contrário do seu passado, tinha um vasto grupo de gente em quem confiava, gente com quem sabia poder contar.

O mês de agosto arrastou até ao dia trinta e um os Ciclos da Sombra. Só a dia um de setembro é que recomeçavam, com o início do Quarto Crescente, os Ciclos da Luz. O Quarto Crescente era o Ciclo da Ascensão de Bastete, a deusa egípcia com cabeça de leoa ou de pantera, dependendo da época, também considerada a deusa dos felinos, a protetora das mulheres nascidas sob o signo astrológico ocidental de Leão.

Bastete, era a deusa da luz por ser filha do deus Sol, Rá, mas dedicada muito afincadamente a Lua, sendo conhecida na mitologia egípcia principalmente como a deusa da Lua. Bastete, era também a protetora do lar, da casa, da fertilidade, dos segredos e mistérios femininos, sendo a única entidade no Egito capaz de gerar um eclipse solar. Ela dominava o poder da vingança e da justiça pelas próprias mãos.

Existem ainda mais segredos na mitologia desta deusa. Bastete é apontada em muitos estudos mitológicos como filha secreta de Ísis com Rá, mas é de Ísis que ela herda o título de deusa da sexualidade, da fertilidade e do lar, bem como a capacidade mágica da mãe orientada para a magia e os mistérios da noite e da Lua.

É a ela que se deve a referência ao vinho tinto, como uma bebida sagrada e com poderes ocultos. Tempos houve em que a festa do vinho tinto dedicada a Bastete, em Bubastis, cidade do delta no Nilo, no lado oriental, juntava setecentas mil pessoas em celebração. É por causa destas festas que ela é igualmente conhecida como deusa da música, da dança e do vinho tinto.

Por tudo isto, o primeiro ciclo dos Ciclos da Luz era designado pelo Ciclo da Ascensão de Bastete, sendo a entrada no Ciclo da Lua Cheia o Ciclo do Poder Supremo da deusa. A Felina, como o seu fascínio pelo fantástico e pelas mitologias clássicas, gostava de se imaginar como a encarnação viva de Bastete. Daí o Sortilégio da Lua Cheia ser para ela mais um facto real de que uma simples fantasia. Nas suas aprendizagens e estudos universitários ninguém, que na discussão académica falasse de modo menos simpático de Bastete, lhe conseguia levar a melhor na argumentação. Até porque, dizia, só uma deusa muito poderosa é que podia trazer sempre com ela, enquanto sua guardiã, a cruz egípcia da vida.

Este fetiche de Íris por Bastete era o que fazia da Felina a ladra e a poderosa durante os Ciclos da Luz, no Quarto Crescente e na Lua Cheia, e, por outro lado, a justiceira e a vingadora, nos Ciclos da Sombra, enquanto ocorriam o Quarto Minguante e a Lua Nova. Os seus gadgets e as suas armas, uma vez associadas ao fato completo da pantera negra, substituíam os adornos, as pulseiras e a cruz da vida de Bastete, no seu entender, na perfeição.

O seu fascínio pela DC Comics, pela Disney e Marvel, assim como pela BD, com todos os seus heróis e vilões, associado às maravilhas da mitologia egípcia em particular e ás mitologias clássicas no geral, tinham levado, à criação da Felina, numa altura em que ela ainda apenas tinha dezassete anos. Depois disso, não havia como fugir, apenas lhe restava aperfeiçoar e melhorar a personagem à realidade e à sua vida adulta. Fora exatamente isso o que Íris fizera.

A terça, quarta e quinta-feira foram dias de rotina, basicamente passados a estudar. Íris, sabia que no ano seguinte teria o seu novo doutoramento para fazer, porém, se o seu projeto para o Museu Nacional de Arte Antiga fosse aprovado já tinha a garantia da Universidade de que o podia apresentar como tese final do doutoramento como perita em arte clássica e arte antiga em geral e esperar pelo resultado, sem perder mais um ano. Contudo, ainda falta um importante se…

Foi no início de sexta-feira que a jovem soube que o seu antigo coordenador superior da polícia judiciária entrara para o Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, como Intendente. Não havia dúvidas que o Vítor se movia bem nos meandros da autoridade. A novidade chegara-lhe pelo Subcomissário Paulinho Fonseca, quando ligara para a esquadra do Calvário, para avisar que iria trabalhar mais três noites seguidas.

O novo Intendente começara, nessa manhã, a pedir relatórios a todas as esquadras da Área Metropolitana sobre tudo o que eles tivessem à cerca da Felina. Ora, eles sabiam que ela quase só trabalhava com as esquadras localizadas nas zonas de maior criminalidade em Lisboa e, vá, uma ou outra mais em caso de maior necessidade. Ele já conseguira falar com todas essas e nenhum deles queria perder a gata por causa de um abelhudo.

Ora a única prova que eles tinham contra a gata era a moeda que ficava nos locais onde ocorriam os crimes, mas isso não era prova concreta de que ela estivesse envolvida na captura dos sujeitos. Tanto quanto sabiam, até podia ser um imitador. Toda a gente sabia da história do museu, caramba, eles tinham lá tido quarenta homens a guardar aquilo dias a fio. A história alastrara que nem fogo.

Não fora a Felina diretamente a prejudicada, mas o tipo acusara uma doutora de ser cúmplice da gata, dias depois de se ter feito passar por um homem apaixonado por ela e a ter sodomizado. Um tipo daquele nível não merecia ajuda. Ainda por cima a coitada da mulher, uma jovem, nem tinha nada a ver com a pantera negra, até ajudara a Judiciária no caso da década. Que grande paga que a Judiciária lhe dera.

Então e agora vinha o mesmo tipo, que fizera o que todos sabiam, chatear a malta da PSP e logo com galões de Intendente? Mas nem pensar, ninguém podia jurar o envolvimento da gata e enquanto assim fosse ninguém abriria o bico. Nenhum deles queria perder o apoio da Felina. Eles esperavam que ela acreditasse neles. Ninguém ia bufar fosse o que fosse. Ter um tipo daqueles no Comando Metropolitano de Lisboa era uma vergonha para a Polícia de Segurança Pública.

A gata agradeceu o apoio e pediu-lhe para avisar as outras esquadras que ia estar de serviço na sexta, sábado e domingo. Paulino, satisfeito pela resposta, garantiu que passaria a palavra. Mostrando-se curiosa, a mulher ainda perguntou o que acontecera à sujeita a quem o Intendente acusara. Não acontecera nada, nem o Diretor Nacional da PJ acreditara nele, afirmava com uma gargalhada o Subcomissário Paulinho. O tipo seguira um palpite. Pelo que sabiam a tal doutora fora a primeira pessoa a ver a Felina, no muro da quinta de Sintra, e ele achara que a doutora a ajudava a ela.

A gata ainda comentou que era estranho, ao fim de dez anos, um tipo desses não saber que ela trabalhava sempre sozinha. Senão, disse a rir, ela não passaria de uma gata escondida com o rabo de fora. Não ia pôr a sua segurança em risco com uma parceira civil. Era isso mesmo que constava nas esquadras, dizia Paulino. Era isso mesmo.

 

(continuar) Gil Saraiva

 

 

 

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