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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 36

A Felina - 36.jpgA sua segunda tarefa tinha várias etapas. Meteu-se no Dácia e partiu para a morada que a senhora da limpeza lhe entregara. Foi espreitar no supermercado se a outra ainda lá estava. Localizou-a junto à banca do peixe e percebeu que a mulher tentava decidir o que seria melhor e mais barato trazer para casa. Sem se deixar ver, rumou até casa da outra e na entrada do prédio foi direita à caixa do correio de Dona Hermenegilda.

Levou cinco segundos, talvez menos, a abrir a caixa, meteu lá o envelope com uma moeda de cobre em cima e um bilhete no meio. O texto do papel apenas dizia que tempos difíceis são precisos apoios reforçados. Nada mais. A coincidência daquela recompensa iria deixar a mulher ainda mais confiante de que estava a agir corretamente.

Seguidamente, voltou a meteu-se no seu carro e rumou ao Staples da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa no Campo Grande, Edifício C5, piso dois. Era ali que ela costumava ir procurar o material de papelaria sempre que precisava. Na secção das caixas de cartão escolheu uma dentro das medidas que procurava. Depois foi comprar quatro folhas A2 de cartolina preta para forrar a caixa de preto por fora. Ia para comprar uma pistola de agrafos, mas lembrou-se que tinha uma profissional em casa e desistiu da ideia. Levaria a que já tinha.

Meteu-se no carro e rumou à Rua da Fábrica da Pólvora. Uma vez em casa foi buscar a pistola de agrafos para madeira e foi à secção das ferramentas do pai à procura da pistola de laser que o pai arranjara na Alemanha, há dez anos atrás. Era uma ferramenta ilegal, feita especialmente para cortar qualquer tipo de material, como aço, ligas metálicas, ferro forjado, madeiras, rochas e o que mais houvesse. Podia ser ligada a uma bateria de três quilos, através de um cabo de dois metros ou diretamente à eletricidade.

A bateria, contudo, limitava o tipo de materiais que podiam ser cortados. A esperança da jovem é que com a bateria conseguisse cortar madeira. Verificou se a bateria estava em condições. Assim era, mas precisava de ser carregada. Meteu-a numa das suas malas de senhora. Uma daquelas sacolas de verão, bem arrumada e juntou-lhe a pistola de agrafos. Depois verificaria tudo na Rua de São Bento.

Voltou ao carro e rumou ao Centro Comercial Colombo, mais propriamente à loja do Leroy Merlin. Precisava de comprar uma placa de um metro por um metro de faia com um centímetro de espessura. Uma vez aí ficou um pouco desiludida. Apenas existiam disponíveis placas de faia de um centímetro e meio, no momento. Teria de servir. Comprou uma placa com a medida que precisava e deixou lá ficar o excedente, que o funcionário a queria fazer trazer quase à força.

Finalmente, depois de chegar a casa, rumou ao seu quarto secreto. Precisava de fazer experiências. Ligou a bateria da pistola de corte à corrente e testou se esta funcionava com a bateria ainda a carregar. Funcionava. Podia, portanto, fazer os seus testes, descansada. Selecionou na roldana da pistola o item madeira e a espessura a cortar. No caso, um centímetro e meio. Prendeu a placa de madeira num tripé metálico e colocou, sem muita pressão, um prego, tipo pionés, com uma guita presa no centro da madeira, por baixo do tampo.

Depois escolheu o raio que precisava entre o prego e a pistola e prendeu a pistola à guita com a distância escolhida. Meteu uma almofada no cimo de tampo, com dois livros pesados por cima. Estava pronta a fazer o teste. Com a pistola ligada à bateria, fez uma circunferência de corte com o laser ligado, por debaixo da placa de madeira. Levou onze segundos a dar a volta completa. Com a mão esquerda tentou segurar a zona a cortar de forma a evitar que esta caísse no chão.

Ainda não acabara o corte e já sentia um peso enorme na mão, mas conseguiu segurar a roda de madeira cortada sem a deixar cair. Segundos depois, já tinha a parte da placa que cortara nas suas mãos com a almofada e os livros por cima. Se a pistola conseguira cortar um centímetro e meio de faia na perfeição, mais facilmente cortaria um centímetro apenas.

Achou que no verdadeiro trabalho a coisa seria bem mais fácil, pois ficaria por debaixo da madeira a fazer o corte e estaria melhor colocada para segurar o círculo, depois de cortado, do que de lado, como acabara de fazer. Olhou para a almofada. A parte encostada à madeira tinha três pequeníssimas marcas de queimado fruto do uso do laser, um quase nada.

Quanto ao cheiro de madeira queimada era suave, muito mais leve do que esperava. Um pouco de spray de Pronto para madeira ocultaria rapidamente o cheiro a queimado. E o Pronto era usado em muitos dos mostruários das salas do museu. Ninguém notaria a diferença de cheiros cinco minutos de fazer o corte e de aplicar o Pronto.

Regulou a pistola de laser para um centímetro. Estava muito contente. Voltou a colocar o círculo de faia no buraco com a almofada e os calhamaços por cima. Tinham os mesmos dez quilogramas que a barra de ouro. Pegou na pistola de agrafos e fez o primeiro disparo. O barulho era demasiado alto. Voltou a testar com um pano de veludo castanho entre o agrafador e a madeira. Agora sim, o som saiu amortizado. Pregou oito agrafos entre a parte exterior do círculo e a interior. A madeira ficou presa na perfeição.

Vista de cima a almofada não permitia que se visse qualquer diferença em relação a antes de ter feito o corte. Contudo, o braço esquerdo doía-lhe que se fartava, quer devido à forma como segurara o círculo, quer ao tempo que a operação levara. Voltou a achar que deitada, debaixo da mesa, seria bem mais simples e menos doloroso.

Foi à sua secretária buscar dois dos calhamaços que estava a usar para o projeto, que existia realmente, que teria de entregar na próxima segunda-feira no museu. Testou se cabiam na caixa. Era mesmo à justa, mas cabiam. Ao pesar verificou que tinham menos um quilo e duzentos do que o peso necessário. Depois de várias experiências acabou por meter no meio dos livros uma série de marcadores feitos de chapa de aço até conseguir o peso em falta. Depois disso verificou que a tampa da caixa de cartão fechava. Era mesmo à justa, mas fechava e ainda com um pano de veludo castanho no cimo, junto à tampa. A caixa era a medida do fundo do saco das compras, com duas rodinhas, da Dona Hermenegilda.

Para lá colocar a caixa seria preciso abrir os dois fechos laterais, mas a sua colocação era simples. Seguidamente, a rapariga usou a cartolina preta para forrar toda a caixa. Por fim, satisfeita com o trabalho, foi pôr tudo numa caixa plástica de arrumos, boa para levar o material todo para o museu. Testou a arrumação e cabia lá tudo dentro.

No entanto, os livros ficavam ali, até ela os entregar em casa da sua amiga novamente dentro da caixa, prontos a regressar ao museu. Já a caixa preta vazia seguia hoje para o seu gabinete, com o cascol preto dentro, para que a barra de ouro fosse envolta nele e não fizesse barulho dentro da caixa nem ficasse demasiado à larga.

A Felina, depois de pensar bem no assunto, decidira efetuar o roubo, na quinta-feira, ao final da tarde, entre as dezoito horas e trinta minutos e as vinte horas, enquanto decorreriam os primeiros ensaios do OPERAFEST no jardim, na véspera do primeiro espetáculo. Primeiro porque as atenções estariam viradas para o jardim e depois porque podia trocar as imagens reais das câmaras pelas gravadas na quinta-feira anterior, referentes ao trajeto em que não queria ser vista. No final do dia, aquela sobreposição passava a integrar a gravação final como se fosse a real desta quinta-feira. Já tinha no gabinete esse material pronto para fazer a troca.

Na caixa plástica de arrumos levava ainda um fato da gata mas sem o armamento, pois precisava que o fato coubesse na caixa. Depois, mudou de ideias. Levaria o fato vestido, usaria roupa preta para ajudar a disfarçar o fato, deixaria apenas os ténis da sua farda em casa e levaria uns normais. As luvas e a máscara iriam na sua bolsa grande ou sacola.

Foi já com tudo organizado que desceu até ao carro. Meteu a caixa plástica no porta-bagagens e rumou ao museu. Uma vez lá chegada estacionou na Rua das Janelas Verdes e foi pedir ao segurança se a ajudava a levar a caixa plástica para dentro. Era o material que ia usar para acabar o projeto comunitário que tinha de entregar na outra segunda-feira, explicara ela, na esperança de que ele não abrisse a caixa.

O homem, não só a ajudou a levar a caixa, que não abriu, como chamou um colega para a transportar até ao gabinete da Doutora Íris. Embora o risco tivesse sido pequeno e calculado, Íris só relaxou, quando a porta do seu gabinete se fechou. Uma vez aí passou para a sacola grande a pistola de laser e a bateria, o agrafador, o cascol preto, e o veludo para o fundo. Num saquinho de pano juntara a guita e o prego, tipo pionés. Verificou que dentro da sacola ainda cabia à vontade a barra de ouro.

Porém, se fosse vista, aquela sacola levantaria imediatamente suspeitas. Tinha que ter cuidado, muito cuidado. Depois de tudo pronto, levou algum tempo a conferir se estavam as coisas todas preparadas. Concluiu que sim, só lhe faltava deixar chegar a quinta-feira.

Na manhã do dia seguinte, pelas sete horas, já Íris entrara no museu. Uma vez na sua sala organizou as coisas para o roubo. Na sua sacola apenas levaria o equipamento necessário para a operação. Tinha o fato da Felina vestido por baixo, sem qualquer armamento ou acessórios, mas com a máscara e as luvas prontas a serem usadas. Ao lado da sua secretária o carrinho de duas rodas, da senhora da limpeza, estava arrumado, à espera.

Íris, tinha vontade de ir espreitar a sala da segurança onde estavam as câmaras, mas achou melhor nem se aproximar da zona. Nunca lá estivera e podia parecer estranho, de repente, aparecer por lá. Ela sabia que todas as câmaras do seu percurso estavam cobertas pela sua gravação da quinta-feira anterior. Entre as dezoito e trinta e as dezanove e quinze as imagens reais seriam trocadas pelas outras.

Levantou-se da secretária, colocou o carrinho da sua amiga atrás da porta, enfiou com a caixa de arrumos por debaixo da secretária. Procurou os dois calhamaços para a preparação e consulta do novo projeto e depois lembrou-se que tinham ficado em casa. Espreitou na gaveta do fundo da secretária, por debaixo de uma pasta preta, e ainda lá estava a falsa barra de ouro, feita de uma chapa fininha banhada a ouro. Era igualzinha à que estava no panfleto que anunciava a exposição, dos artefactos cedidos pelo Banco de Portugal, sobre o ouro colonial.

Viera com o fato da Felina vestido, mas com uma camisa branca, comprida, a tapar-lhe quase o rabo todo, enfolada na cintura e segura por um cinto largo e preto de cabedal, tipo anos cinquenta.  Bem na frente o cinto ostentava uma grande fivela dourada. As sapatilhas eram brancas, de sola fina, com atacadores dourados. Ia para se levantar quando bateram à porta. Puxou um caderno de apontamentos para a sua frente, pegou numa esferográfica aproximou uns manuais de si, abertos e mandou entrar. Na sua frente, Vítor Fernandes de Melo estava a perguntar se ela tinha tempo para um café.

 

(continua no próximo capítulo) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 35

A Felina - 35.jpgAí estava, finalmente, a sua pontinha de sorte. Tinha que abordar a Dona Hermenegilda ainda naquele dia. Passou por ela a caminho do seu pequeno canto de trabalho no museu, perto da sala da direção e confirmou que não se enganara. A mulher era a mesma pessoa que auxiliara há oito anos atrás. Não tinha a menor dúvida.

A exposição da barra de ouro e dos artefactos preciosos das ex-colónias portuguesas, fora recentemente alterada em termos de prazos e iria terminar a vinte e três de setembro, no primeiro dia de outono, para dar lugar a novas exibições durante a temporada de outono e inverno. O prazo encurtara nalguns dias, porém, a jovem achava que ainda lhe dava tempo para agir. A Felina queria dar o golpe na véspera do início do OPERAFEST LISBOA 2022, entre dezanove de agosto e dez de setembro. O evento que nascera em 2020 com uma grande adesão do público e excelentes críticas internacionais, realizado no jardim do Museu Nacional de Arte Antiga.

Os espetáculos programados para as vinte e uma horas eram ideais para ninguém dar pelo furto. A gravação prévia de segurança que Íris possuía das quintas-feiras não abrangia as câmaras do jardim do Museu. Para além disso dia dezanove e dia vinte e seis o show deveria esgotar. A apresentação da Ópera de Giuseppe Verdi, “Um Baile de Máscaras” prometia atenção reforçada no jardim durante duas horas e vinte minutos.

Ora, a obra estava agendada para começar às vinte e uma horas e deveria terminar, contando já com a saída do público do jardim, bem perto da meia-noite, isto porque, só a peça, em si mesma, tinha uma duração prevista de duas horas e vinte. A quinta-feira, com os preparativos finais, seria um dia muito agitado no Museu, dando-lhe tempo para agir sem dar nas vistas.

Depois de poisar as suas coisas no gabinete e ao sair para ir tomar café, ali mesmo no museu, voltou a ver a Dona Hermenegilda, a puxar o seu carrinho de supermercado, de duas rodas e a parar junto ao segurança perto da saída. Ele espreitou para o interior do carrinho com uma desatenção gritante que lhe parecia resultado de uma rotina de muitos dias em que a cena se repetia. A mulher preparava-se para sair e possivelmente, depois de uma noite de limpezas, ir às compras para o dia no supermercado ao lado da sua casa.

Aquele carrinho parecia-lhe o transporte ideal para a saída da sua barra de dez quilogramas de ouro. Tinha é que fazer tudo bem feito. Obrigatoriamente, seria preciso convencer a mulher a transportar a barra, na manhã seguinte ao roubo até sua casa, local que ela usaria para a recolher. A senhora poderia inclusivamente de ir ao supermercado, nesse dia, e comprar umas verduras que não aumentassem demasiado o peso do carrinho.

Uma vez a rotina completa na perfeição, a Felina, daria um jeito de entrar em casa da mulher, sem ser vista, como fizera há oito anos atrás, recolher a barra e regressar calmamente a casa. Faltava-lhe ter a certeza se a sua velha amiga teria o nervo e a compostura suficiente para fazer a sua parte do trabalho, sem se desmascarar. Teria de arranjar uma maneira de a convencer. Para quem não é do ramo, participar num furto não é tarefa fácil.

Subitamente, notou que a mulher voltava atrás. Dirigia-se para a casa de banho. A ideia que lhe passou pela cabeça era meia tola, mas podia resultar. Seguiu a senhora e, quando esta entrou na casa de banho, esperou uns segundos antes de fazer o mesmo. Ela estava a fechar a porta de uma das cabines quando ela entrou. Sentou-se no chão, como se tivesse acontecido algo grave e fingiu que chorava. Deu-se inclusivamente ao trabalho de deitar um spray de colónia nos olhos, que a fez de imediato produzir lágrimas de aflição com o ardor provocado.

A mulher, não se demorou na cabine e, ao sair, deu com ela no chão, em pranto. Aproximou-se, para saber se ela estava bem. Íris, disse-lhe que sim. Tinha-se ido abaixo, mas aquilo já passava. Todavia, a outra queria saber o que se passava, se podia ajudar. A jovem dizia que não, mas que agradecia a boa vontade da desconhecida. Acabara de saber que se não apresentasse um relatório dentro de dois dias ia ser dispensada do museu. Tinham-lhe dito que não podiam esperar mais.

Desconhecida? Não! Dona Hermenegilda, afirmava que sabia quem era ela. A doutora não tinha o gabinete pequeno perto da direção? Ela via-a chegar muitas vezes, logo pelo início da manhã, na altura em que largava o trabalho. Não queria acreditar que o museu fosse dispensar uma pessoa tão dedicada àquela casa, quando havia gente a chegar tarde todos os dias.

Isso seria uma grande injustiça. Certamente, que a rapariga estava enganada. Entre soluços a jovem lá explicou que para terminar o trabalho que precisava fazer dentro do prazo tinha que levar para casa, por dois dias, dois livros antigos, muito pesados, para ter tempo de transcrever, durante a noite, os elementos de que necessitava. Porém, o museu não a deixava sair com os livros. Ora, sem o trabalho entregue a horas, o museu perdia uns milhares de euros de um apoio europeu, a que se candidatara, e ela deixava de ser necessária para eles. Um verdadeiro beco sem saída.

Mas que grande injustiça, dizia Hermenegilda. Se eles é que lhe estavam a dificultar a vida porque é que ainda por cima a penalizavam? Iam perder um dinheirão e uma colaboradora por causa do raio de uns livros saírem durante quarenta e oito horas do museu. Que grande estupidez! De repente uma ideia veio-lhe à cabeça. A rapariga achava que os livros caberiam no fundo do seu carrinho de duas rodas?

A jovem olhou para o carrinho e disse que sim. Mas que não estava a entender o que ia no pensamento da outra. A mulher esclareceu. Ela deixaria o seu carrinho no gabinete da outra, pois costumava lá ir recolher o lixo do cesto dos papeis diariamente e no dia seguinte iria buscá-lo. Traria os livros para sua casa  e a jovem em vez de entrar cedo esperava que ela saísse, seguia-a, apanhava os livros e no sábado ela voltava a trazê-los, depois da Íris os voltar a pôr no carrinho. Assim, ninguém dava por nada e tudo se resolvia.

Não, não. Íris, dizia que a outra se podia meter em trabalhos por causa dela que mal conhecia. Foi aí que Dona Hermenegilda lhe disse que há oito anos atrás fora ela mesma ajudada por uma desconhecida, sem a qual a sua vida teria acabado. Naquele dia já não podia voltar para trás, mas podia deixar-lhe o carrinho no gabinete de quinta para sexta-feira e devolver-lhe-ia os livros no sábado. Durante o Festival ela estava a trabalhar dois turnos. A vida não estava fácil para ninguém.

Finalmente, Íris, concordou. Se ela achava que não lhe iam revistar o carrinho… espreitou o interior do mesmo e depois disse que colocaria os livros numa caixa preta igual ao fundo. Assim seria mais difícil darem com eles. A outra mulher sorriu. Era isso mesmo, uma caixa preta era o ideal.

Íris, usou um lenço de mão para medir que tamanho deveria ter a caixa. Depois garantiu que usaria um cascol para evitar que os livros ficassem a dançar dentro da caixa ou a fazer barulho. A outra pareceu satisfeita com a ideia. Abriu a sua carteira, tirou um pequeno bloco onde costumava anotar as suas listas de compras e escreveu a sua morada. Na sexta-feira, a partir das oito da manhã a rapariga podia passar em sua casa para levantar os livros. A ópera começava precisamente na sexta.

A quinta e a sexta-feira seriam, por isso mesmo, dias muito agitados. Aliás, ela iniciava os serviços de dois turnos precisamente no dia seguinte, um dia antes do festival ter início. Só voltaria a ter um único turno dia doze de setembro. Dois dias depois do fim da programação. A doutora podia estar descansada que ninguém daria por nada. A jovem abraçou a outra, agradecida pela ajuda.

Dona Hermenegilda, alegremente, abandonou a casa de banho satisfeita com o facto de poder ajudar a doutora. Nunca o museu saberia que graças a ela poderiam ganhar o tal apoio do dinheiro europeu. Mas dava-lhe um gozo interior saber que assim seria. Voltou a passar pelo segurança que tornou a despedir-se dela e seguiu contente para casa. Ia ajudar alguém tal como ela fora ajudada no passado.

A Felina, sentia-se bem, muito bem. Aquilo correra melhor do que esperava. Mas tinha muito que fazer. Molhou a cara no lavatório da casa de banho, deu um jeito ao cabelo curto e saiu. Ao sair do museu avisou o segurança que tinha de ir a casa buscar uns livros que se esquecera. Se fosse preciso alguma coisa que lhe ligassem para o telemóvel. Poderia ele avisar a direção? O homem garantiu que sim, que a doutora não tinha que se preocupar com o assunto. Ele daria o recado.

O primeiro trajeto da rapariga foi uma viagem direta à sua casa na Rua da Fábrica da Pólvora. Uma vez aí, meteu oito mil euros num envelope. Ia deixar uma recompensa à senhora da limpeza. Ela não ia estranhar o facto de descobrir no correio uma verba extra deixada na caixa pela gata, tendo em conta a atual inflação,. Quanto muito pensaria que uma boa ação trás sempre boas coincidências. Nada mais.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 34

A Felina - 34.jpgCom estas diretrizes gerais os advogados de Érica iriam contratar os especialistas necessários para escrever os estatutos da fundação. Ela queria tudo pronto para arrancar dali a três meses quando os bens dela já estivessem na sua conta convertidos em dinheiro. Também os encarregara de descobrir os elementos que a iriam substituir na gestão da fundação. Ela queria uma seleção de dez candidatos. Eles teriam de contratar uma empresa americana para fazer essa seleção e gostava, preferencialmente, que estes já fossem emigrantes a viver nos Estados Unidos.

Dai a dois meses e vinte dias ela escolheria entre eles os dois que ficariam a representá-la na gestão da fundação. Se isso a obrigasse a fazer dez entrevistas pessoais seriam eles a vir a Lisboa à entrevista. Ela pagaria, logicamente, as viagens e o alojamento de todos. Isso evitava escolhas à sorte, obrigando a empresa de recursos humanos contratada a fazer uma boa seleção prévia.

No dia do arranque da fundação ela estaria nos Estados Unidos, em Nova Iorque, para a cerimónia inaugural, altura em que daria posse aos seus substitutos e representantes na sua ausência. Segundo os seus planos os maiores condomínios poderiam chegar perto dos cinquenta mil habitantes e os mais pequenos aos cinco mil. Sempre levando em conta a dimensão da cidade vizinha.

Íris, estava muito satisfeita de não ter que ser ela a estruturar tudo aquilo. Ela explicara detalhadamente o que queria e agora os especialistas tratariam de pôr no papel as suas ideias. Era o melhor dos dois mundos. Se a fundação funcionasse poderia ter em poucos anos um milhão de emigrantes totalmente integrados na sociedade americana e devidamente pró-ativos, sendo uma verdadeira mais valia social.

Este era o legado que ela tentaria deixar à memória da verdadeira Érica. Agora dinheiro ou mordomias ela preferia ser ela a construir as suas, ao seu jeito. Se e só se, um dia se visse aflita é que a outra opção de assumir a identidade da amiga seria considerada. Era bom ter uma alternativa, mas fazia questão de jamais tirar partido do que era de Érica que não fosse para auxiliar terceiros ou melhorar as condições de quem precisasse.

Com aquele assunto arrumado, Íris, sentia que, felizmente, podia voltar a ser ela mesma. Nas suas prioridades estava agora o roubo da barra de ouro que o Banco de Portugal, emprestara para exposição ao Museu Nacional de Arte Antiga. Tinha que descobrir o que era a armadilha preparada pela Polícia Judiciária. Agora, fazia mesmo questão de efetuar o roubo. A PJ dera-se ao luxo de criar uma ratoeira, de propósito, para a apanhar a ela. Pois iam perder o isco e ficar a chupar no dedo.

Tinha criado uma forma de entender quais eram as rotinas de vigilância do museu. Como ela se metera a fazer uma pós-graduação em Artes Clássicas. Passava muito tempo por ali, até porque havia a possibilidade de terminar um Mestrado em arte-greco-romana e egípcia. Íris, tinha um fascínio absolutamente genuíno nos temas que ultimamente estudava.

Depois de acabado o Mestrado poderia tirar um novo Doutoramento como perita em arte clássica e arte antiga em geral. Estava no último ano do Mestrado e era muitas vezes convidada pelo museu que via com bons olhos vir a ter a primeira especialista na área em Portugal. Porém, ainda estava longe do Doutoramento. Pelo menos mais um ano e meio se fosse aplicada e se dedicasse a fundo ao seu estudo, mas isso dependia sempre da sua aplicação à nobre arte do gamanço.

Todavia, voltando à barra de dez quilogramas de ouro, esta fora a primeira a ser feita com o ouro vindo do Brasil, porém, havia quem alegasse que não se podia afirmar que era a primeira, pois fazia parte de um lote de cinquenta barras criadas a partir desse primeiro ouro chegado do Brasil, todas iguais, e só fora identificada como a primeira pelo regime de Salazar, talvez para promover o ouro existente no Banco de Portugal, à época.

As barras impressionavam pela dimensão e pelo peso, tendo origem nos primeiros anos do século dezoito. A peça vinda do Banco de Portugal fora colocada na sala onde se encontrava exposta a Custódia de Belém, toda em ouro, da autoria de Gil Vicente, criada em 1506. Uma vitrine um pouco mais baixa que a da peça de Gil Vicente fora colocada perto da Custódia expondo o tijolo de ouro. A intensão de Íris era transformá-lo em barras de cem gramas, uma vez que de arte a peça nada tinha e existiam mais quarenta e nove iguais.

Aliás, ela estava certa de que, se a roubasse, o banco viria logo alegar que a peça exposta era apenas uma das reproduções da barra original, porque não fazia sentido que havendo idênticas barras fossem logo pôr em risco a original. Aquilo era, isso sim, ouro exposto, ao qual a jovem larápia queria deitar as mãos para seu belo prazer e pelo desafio.

A Felina já conseguira invadir e infiltrar-se no sistema de vigilância e segurança do museu, também tinha inclusivamente programado que o roubo se faria a uma quinta-feira à noite porque esse era o único dia em que os seguranças e os vigilantes das câmaras se repetiam todas as semanas. O que lhe permitia substituir uma gravação que já efetuara de uma quinta à noite pela da noite em que efetuaria o roubo. Contudo, e apesar da atenção que vinha dando ao assunto, ainda não conseguira descobrir qual era a armadilha montada pela PJ.

A gata descobrira sim, recentemente, porque é que o tijolo não tinha alarme de pressão. Muito bem disfarçado nas bordas das laterais da vitrine estava oculto um sistema equivalente. Tal facto significava que se levantasse a vitrine para chegar à barra o alarme ia disparar da mesma forma. Todavia, ao contrário da Custódia de Belém que estava assente numa base branca o tijolo de ouro estava exposto numa placa de madeira, que compunha o tampo da mesa, onde assentava a vitrine, tendo por cima uma almofada baixa de veludo preto. Quiçá para realçar ao máximo o esplendor do nobre metal.

O facto de o museu ter optado por uma mesinha de madeira para colocar a vitrine, em vez de um dos habituais plintos era precisamente a forma da PJ incentivar a que alguém tentasse efetuar o roubo. Um tijolo de ouro sem alarme de pressão em cima de uma mesa relativamente frágil parecia um convite evidente à tentativa de furto. Ainda por cima porque o tampo da mesa tinha apenas um centímetro exato de espessura.

Íris também detetara que um dos pés da mesa possuía igualmente um alarme, não de pressão, mas de localização, se a mesa fosse deslocada, mesmo que pouco, o sistema era acionado. Contudo, se ela estivesse no interior do museu entre a meia-noite e as sete da manhã, teria seis horas e pouco para substituir o tijolo verdadeiro pelo falso.

Outra descoberta interessante vinha de um dos ficheiros a que acedera da última vez que pirateara a base de dados da PJ. Tinham sido realizadas antes do início da exposição, oito reuniões especiais entre a Polícia Judiciária, a Direção e a Segurança do museu e os peritos de segurança acompanhados por elementos da direção do Museu do Louvre, de Paris. O que significava que a armadilha da Judite tinha colaboração especializada internacional, aumentando mais ainda o desafio.

Contudo, nos arquivos eletrónicos da Judite nada constava sobre a ratoeira em si. Era como se temessem que ela conseguisse entrar na sua base de dados. Um facto surpreendente já que ela nunca deixara quaisquer vestígios das incursões que efetuara. Esta lacuna de informação não era habitual na nossa polícia criminal o que levava a rapariga a pensar que aquele conselho viera de França.

A primeira boa novidade para Íris, acontecera hoje, quarta-feira, dia dezassete de agosto de 2022. Ao entrar no edifício do Museu Nacional de Arte Antiga, logo à abertura, ela reconhecera a Dona Hermenegilda Fonseca, uma das senhoras que tratava da limpeza das salas de exposição. Dirigia-se para a zona dos serviços internos da instituição, uma área restrita a visitantes. Ora, esta senhora era uma daquelas pessoas a quem a Felina ajudara no passado com sessenta e cinco mil euros que lhe tinham permitido salvar atempadamente o filho, graças a um transplante de medula efetuado de urgência em Inglaterra. A leucemia havia sido detetada, por mero acaso, à criança, ainda num estágio muito inicial.

O SNS não tinha como intervir em tempo útil, nem tinha encontrado sequer uma medula compatível. Todavia, ao ver as notícias da tragédia na CMTV, e tendo tido acesso ilegal ao ficheiro clínico do rapaz, a pantera descobrira uma medula compatível em Inglaterra e um hospital privado, disposto a fazer o transplante pelo custo total de cinquenta mil euros. Ela entregara há mãe sessenta e cinco mil, para que ficasse com uma folga, bem como a possibilidade de o rapaz ser internado dali a uma semana.

Tudo correra ainda melhor do que o previsto e a criança era atualmente um jovem saudável, livre de problemas de saúde e em perfeito crescimento.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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