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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 32

A Felina - 32.jpg 

A pantera negra retirou a carta da mochila e ia para a entregar, quando este avisou que não tinha forças para ler uma carta sequer. Foi ela que a leu e esta dizia que tinha vindo ajudar, como se fosse uma espécie de Santa Casa e mais blablá, blablá, blablá… enfim, uma carta igual à anterior. Quando voltou a olhar para o sujeito, a expressão apática daquele rosto tinha desaparecido como que por milagre.

Ajudar? Mas ajudar como? Como o Robim dos Bosques ou a Santa Casa esclareceu ela. Auxiliando, quem precisa e merece, a recomeçar a sua vida. O tipo pedia-lhe agora que não brincasse com os pobres, que estes não tinham vontade de rir. Ao que ela contrapôs que não tinha vindo brincar. Mais uma vez jogou a mão à mochila e tirou o pacote dos CTT.

Entregou o pacote ao homem esclarecendo que se tratavam de cem mil euros. Não se era dinheiro emprestado era dado e era dele. Justino Pereira da Silva, que já tinha perdido o rosto do desalento e da apatia, que passa para uma cara de expetativa e ansiedade, era agora, depois de abrir a caixa uma imagem da fé e do agradecimento.  Imagine-se Amazonas no meio da época das chuvas, turbulento, agitado, sem fronteiras ou margens, sobrepondo a sua água a tudo e a todos. A torrente que agora desaguava de cada um dos olhos de Justino eram como dois Amazonas que invadem frenéticos o Oceano Atlântico. Sendo que aqui, o oceano era a cara de Justino.

A pantera testemunhou ao vivo a poça de lágrimas que se formou no chão da varanda. A Dona Maria Alzira da Cruz Pereira da Silva, ouvindo a tempestade apareceu à varanda aflita, na tentativa de salvar o marido do que parecia ser um novo diluvio. Nem reparou na presença da Felina, apenas estava feliz e preocupada ao mesmo tempo. Feliz, porque pela primeira vez, em meses, o esposo mostrava uma emoção, preocupada por esta ser tão gigantescamente avassaladora.

Se a mascarada tivesse sede e se o mar de lágrimas não fosse salgado a quantidade vertida seria suficiente para a saciar. Quando por fim, quase um quarto de hora depois o bom do Justino se acalmou e quando a mulher deu pela gata, o marido agarrou-lhe a mão e disse com a maior paz do mundo a invadir-lhe a alma e o coração:

      ― Está tudo bem, Maria Alzira, está tudo bem. Não te assustes que essa senhora é nossa, aliás, querida, é mais que Nossa Senhora. É a pessoa mais nossa amiga que algum dia conheci ou conhecerei… ― os diques que continham a tormenta de lágrimas ameaçavam ruir, uma vez mais, porém, de alguma forma, Justino aguentou-se.

      ― Olhe, senhor Silva, o dinheiro é seu e você faz o que quiser com ele. Porém, recomendo-lhe novamente que não o ponha no banco. Assim, evitará ter de dar explicações difíceis. Eu, se fosse a si, alugava um primeiro andar e perto dele uma loja ou um pequeno armazém com material de canalização e eletricidade. Crie uma pequena empresa em nome pessoal daquilo que sabe fazer. O senhor conhece, certamente, gente dos dois ramos a precisarem de trabalho. Contrate dois ou três, pague a quem lhe faça uma página de serviços na internet, ensine os seus novos funcionários um ou dois truques do ofício que julgue importantes, porque assim, pode trabalhar já, mesmo estando na cadeira de rodas. A sua esposa pode ir buscá-lo e levá-lo ao trabalho e até atender o telefone ou o telemóvel da loja, nas horas de maior aperto. Espero que se um dia eu precisar também possa, como digo na carta, contar com a vossa ajuda… ― a Felina nem terminou a sua frase. Justino já respondia:

      ― Ó minha nossa senhora, isso nem é questão. Se um dia eu tiver que levar uma bala por si eu levo e ainda me fico a rir. Vi que na carta tem um número de contacto. Eu vou gravá-lo, se algum dia precisar de algo ligue, que eu estarei presente na hora. A sua ideia da pequena empresa é excelente, eu até conheço o local certo. Um sítio que sempre namorei, quando sonhava. Lá terei casa e armazém baratos, quer dizer, a bom preço. O lugar não tem boa fama, por ser zona de gente pobre, mas é tudo gente boa... ― explicava o homem.

      ― Ótimo, ótimo. Tem o meu número na carta, não hesite em ligar. Uma boa vida para si também Dona Maria Alzira, bem como para os filhotes. Quanto a si senhor Justino, essa nova cara que hoje arranjou fica-lhe muito bem… ― a pantera deu um salto para o outro lado da varanda e desapareceu rapidamente na penumbra que se instalara com o crepúsculo que se acentuava.

Ao regressar a casa, e depois de retirada a farda de trabalho, Íris, entrou no seu quarto secreto. Jantou uns petiscos de queijo, presunto, salmão fumado com alcaparras, torradas e pão. A acompanhar um tinto de 2015, um Dona Maria Grande Reserva Alentejo, com catorze graus e meio de teor alcoólico. Uma maravilha que descobrira, através do magazine Evasões. Um dos melhores vinhos lançados em 2021 e dos mais pontuados pela revista.

Tinha muita caixa de encomenda para encher, juntar a carta com a moeda e preparar todas para enviar pelo correio. Ela avisara uma das pessoas que já ajudara e que trabalhava ainda nos CTT. Tratava-se de Raimundo dos Santos Homem. Na altura, há dez anos, entregara-lhe cinquenta mil euros, para o safar de uma dívida que herdara do pai e que, sem esse valor adiantado o faria perder a casa de família. Desde aí era ele que vinha recolher as suas encomendas e trazer novas caixas para substituir as anteriores que iam desparecendo.

Também era o homem que lhe geria o apartado para onde, muitas vezes, os auxiliados comunicavam por escrito com ela. No total, em dez anos, Íris já ajudara com aqueles últimos três mil e seiscentas pessoas e mantinha ficheiros atualizados de toda a gente. O tipo de verbas que dava variavam entre os dez mil euros e, em casos mais raros os cem mil. Contudo, a grande maioria andava pelos cinquenta mil euros.

A rapariga levou quase quatro horas a despachar aquele serviço. Por fim, quando terminou já tinha os CTT pelos cabelos. Só as cartas dos cem mil euros levavam uma moeda sua. As outras tinham apenas o papel timbrado a cores com as duas faces da moeda impressa em tamanho natural. Mesmo assim com as que acabara de entregar, tinha atingido os sessenta auxílios de cem mil euros desde que começara. Uma média de seis por ano. Porém, nunca lhe faltara dinheiro e isso era muito bom.

Fora o avô que lhe passara aquele hábito. Dizia o homem que ajudar terceiros trazia sempre mais retorno do que custava. A Felina não tinha a certeza de que isso era bem assim. Todavia, reconhecia que muitos dos trabalhos que recebia e realizava vinham daquelas três mil e seiscentas e poucas pessoas. Principalmente os que vinham de fora de Lisboa.

No dia seguinte, depois de entregar a encomenda ao Raimundo, voltou a tirar a máscara. Recebera o sujeito no piso de Érica. Antigamente recebia-o numa garagem que alugara para o efeito. Na morada de Érica, caso o seu amigo fosse verificar de quem era a casa, não avançaria muito. Mas ela confiava nele. Não havia porque não confiar.

Olhou para as horas. Era tempo de ligar para a embaixada. Para sua surpresa ficou a saber que os altos funcionários, da Embaixada dos Estados Unidos, tinham todos sido mudados. A Conselheira Político-Económica era agora, uma tal de Lana Portter, e sim, estava a par do assunto de Érica. Tinham agendada uma reunião para as três da tarde, estaria bem para Érica? Eles preparavam-se para a contactar entre o meio-dia e a uma. Todavia, assim já ficava tudo devidamente agendado já que ela concordava com o horário, a reunião seria no mesmo local, na Embaixada dos Estados Unidos, na Avenida das Forças Armadas, ali, em Lisboa.

Aproveitavam para informar que a Senhora Embaixadora, Randine Levis, também estaria presente na reunião. Por esse motivo os serviços da Embaixada agradeciam que a Doutora Érica fosse o mais pontual possível. Pediam desculpa pela insistência nesse ponto, mas a agenda da Senhora Embaixadora estava um inferno naquela terça-feira. Os feriados atrapalhavam sempre o dia seguinte, ainda mais durante o verão, com algum do pessoal de férias. De qualquer modo estavam satisfeitos por a irem receber.

Mas porque raio se incomodava uma Embaixadora para entregar meia dúzia de documentos de uma herança.? A jovem não conseguia entender aquilo, nem muito menos o porquê de tanta cerimónia e diligência. Existia algo naquela marcação de reunião que não batia certo. O que já fora uma impressão, um palpite, era agora uma certeza absoluta.

O telemóvel de Érica voltou a tocar. A jovem atendeu. Era novamente da Embaixada. Do outro lado a telefonista pedia imensa desculpa por estar a ligar, assim, logo de seguida, mas esquecera-se de comunicar que o Chairman e o CEO da Vanguard, tinham aterrado no dia anterior em Lisboa e também estariam na reunião. A telefonista pedia, uma vez mais, desculpa por aquele terrível lapso de comunicação.

Ali havia gato, e, por certo, não era ela. Teria a mãe sido alguma terrorista ou espiã russa e ela ia ser deserdada? Contudo, se assim fosse já lhe podiam ter comunicado isso logo no início, não? Teria o pai roubado algum tesouro americano e isso só agora fora desvendado? Fosse lá o que fosse a situação parecia de uma gravidade extrema. Seriam aqueles salamaleques todos uma forma de a atraírem para a Embaixada para, desta vez, já não a deixarem sair? Algo se passava e ela tinha a certeza disso.

Érica entrou na Embaixada exatamente à hora marcada. Nem um minuto mais cedo sequer. A nova conselheira Político-Económica, Lana Portter já estava na receção à sua espera. Ia para fazer algum tipo de observação quando Érica, apontando para o relógio a acabar de chegar exatamente às três da tarde, disse sorrindo que não havia ninguém mais pontual que ela.

A outra que se preparava para fazer algum tipo de reparo engoliu em seco e já não referiu o que se tinha preparado para comentar. Aquilo começara bem, pensou Érica. Na pequena sala privada de reuniões, exclusiva da Embaixadora, mesmo ao lado do Gabinete da mesma, já lá estavam os homens fortes da Vanguard. Um deles soltou um pequeno ruido de admiração ao ser apresentado, dizendo que ela era a cara chapada da sua mãe. Como se isso fosse possível, a sua mãe era outra, essa agora…

Vinda da sala do lado, do seu Gabinete, entrou, muito protocolar, a Embaixadora. Terminadas as formalidades de apresentação e já com toda a gente sentada, a Senhora Embaixadora, Randine Levis, esclareceu que ia passar a palavra ao Chairman da Vanguard, o homem que se admirara com a sua parecença com uma mãe, que não era a dela. Um cínico, isso sim. Este explicou que conhecera a mãe de Érica há trinta anos atrás, muito antes de ocupar o posto que atualmente tinha na empresa. Todavia, fora ele que ficara com a gestão da fortuna da mãe e fora graças a essa fortuna que atualmente ocupava o cargo que agora detinha.

Antes de começar entregaram-lhe um livro grosso de umas seiscentas páginas em formato A4 ou parecido. Dentro vinha um cartão de memória SD. O homem explicava a Érica que aquilo era um breve sumário dos seus bens a nível do planeta. Embora o SD Card tivesse mais detalhes.

 

(continua no próximo capítulo) Gil Saraiva

 

 

 

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