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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 31

A Felina - 31.jpgApesar de tudo, aquela verba daria para limpar totalmente os casos listados e começar uma lista nova. Em cada caso que assinalava ela designara que montante poderia fazer a diferença e anotava o valor assim que registava a pessoa. Depois de somar o total de verbas que considerara distribuir, verificou que ainda lhe ia sobrar dinheiro, à vontade, para um fundo para começar uma nova lista. Sorriu, satisfeita.

Verificou onde estavam as suas urgências. Um encontrava-se em casa de familiares o outro numa instituição, desta vez não tinha sem-abrigos. Passou uma hora a juntar em cada envelope uma moeda de cobre das suas e a ver se todos eles tinham as cartas lá dentro. Em seguida separou as cartas dos casos assinalados a vermelho. Eram ambas de Lisboa.

Meteu cem mil euros em cada embalagem dos CTT e juntou-lhes as cartas. Voltou a envergar o fato da gata, colocou o vestido que já usara nesse dia, desceu até ao carro e partiu para a primeira morada. Estava na altura de se armar de novo em Robim dos Bosques ou, como gostava de dizer para si mesma, em Santa Casa.

Viu que a destinatária da sua primeira entrega era uma mãe de dois filhos que, meses antes perdera o marido num acidente de automóvel. Ela lembrava-se do caso. O homem tinha dívidas e as Finanças e os credores tinham-lhe limpado o que herdara do marido e acabara por perder a loja que geria há vinte anos, por ter ficado sem liquidez e, finalmente, a casa que era alugada, por atrasos no pagamento das rendas. Uma verdadeira tragédia que o Correio da Manhã descrevera ao pormenor.

Neste caso e no outro tinha os contactos de telemóvel de ambas as pessoas. Ligou para a Dona Maria da Graça das Dores Carminho. Uma mulher de trinta e nove anos, com um filho de dez anos e outro de seis. Ficou satisfeita por o telefone estar a funcionar. Quando a senhora atendeu disse estar a telefonar em nome da Santa Casa, explicou que para eles não existiam nem domingos, nem feriados, tentando saber onde a mulher se encontrava. Esta disse que estava em casa sozinha com os filhos porque o irmão, mais novo, e a cunhada tinham acabado de sair para irem jantar com uns amigos. Íris ficou satisfeita, era o momento ideal. Perguntou se a outra a podia receber e esta concordou.

Íris, disse que estava perto e que chegaria em cinco minutos. Só colocou a máscara de Felina e sacou o vestido, quase à porta do apartamento, quando se sentiu segura sem ninguém por perto. A Dona Graça, que a aguardava, abriu a porta e a gata nem lhe deu tempo de gritar. Tapou-lhe a boca e numa voz muito calma disse que vinha para a ajudar economicamente. Prometeu igualmente que se ela não gritasse a soltava e lhe tirava a mão da boca.

Dona Graça acalmou, o que dava para sentir até pela respiração. A intrusa pediu para se sentarem e tirou da embalagem do correio a carta e pediu à outra que a lesse atentamente. Quando esta terminou, ainda meia confusa, entregou-lhe a caixa dos CTT dizendo que estavam ali cem mil euros para que ela pudesse recomeçar a sua vida.

A Felina pensou que as Cataratas do Niágara não conseguiam verter em dois minutos tanta água como aquela mulher verteu. Dona Graça dizia que a gata bem se podia anunciar como sendo a Santa Casa, só que essa nunca teria um gesto daqueles. Aquilo aparecia no melhor momento possível, ela nem imaginava. A cunhada estava cada vez mais descontente com ela e os filhos ali em casa. Exceto umas roupas para ela e para os filhos e os livros escolares destes, as suas coisas estavam todas no armazém de uma amiga.

Dona Graça até tinha uma casa que poderia alugar perto de onde tinha tido a sua loja. Era de uma antiga cliente que precisava do dinheiro da renda para viver, mas que nem fiador lhe exigia. Até a loja ela poderia recuperar, pois o senhorio só a despejara em desespero de causa, pois gostava muito dela que sempre fora uma inquilina cumpridora. De repente lá recomeçavam as Cataratas do Niágara. A quantidade de vezes que aquela mulher disse obrigada, a outra não sabia, o que sabia é que se houvesse recorde do Guiness para isso ele teria sido batido por muito.

A Felina repetiu o que tinha escrito na carta. Um dia podia ser ela a precisar de ajuda. Esperava poder contar com Graça se esse dia chegasse. A outra jurava que até a roupa do corpo lhe daria, claro que a gata podia contar com ela, para tudo e para sempre. Ela era mais que uma santa, ela estava a ser um anjo. Um anjo enviado dos céus. Ela e os filhos iam já passar a noite a um hotel qualquer. Tinham poucas malas para levar. Ia avisar já o irmão.

A mascarada ria daquele entusiasmo. Avisava que fosse metendo devagar algum dinheiro no banco, muito lentamente, à medida que o negócio fosse progredindo. Dona Graça contava que a antiga loja era de roupa de criança e que ficara com imensa coisa em armazém, podia reabrir, em grande, com uma enorme promoção. Ela tinha tudo pago aos fornecedores. Só ficara a dever ao senhorio da sua casa e ao da loja. Mas agora podia pagar a ambos e recomeçar.

Se a Santa Gata alguma vez tivesse filhos teria roupa para as crianças sem pagar o resto da vida. De repente, lá vinham de novo as Cataratas do Niágara. Ainda ouviu por último a outra a ligar ao irmão, agradecer a hospedagem e a dizer que iam sair. Porquê? Porque recebera a visita de uns amigos que tinham juntado algum dinheirinho para a ajudar a recomeçar. Ela teria que lhes ir pagando, mas era sem prazo e sem pressas.

Por fim, a pantera negra saiu, nem chegara a ver os filhos da Dona Graça, mas sabia que também estes se iam sentir muito melhor. A mulher acompanhou-a até à porta. Dizia que já tinha ouvido falar nela nas notícias, mas nunca a imaginara uma pessoa assim. Não havia Santa Casa que se pudesse comparar com ela, nem mesmo a Igreja, pois nessa já não há santos, quanto mais anjos como a Felina.

O segundo caso era de um chefe de família com mulher e três filhos que perdera a sua casa de família e todo o recheio, por causa de uma fuga de gás que começara num restaurante por baixo da sua habitação. Mais uma vez tratava-se de uma casa alugada.

Não se queimara muito no incêndio, que lhe levara a habitação, mas ao salvar o último filho, depois de salvar a mulher que desmaiara e os outros dois filhos de três e cinco anos, caíra nas escadas e para não magoar a criança, ainda com meses de idade, partira gravemente ambas as pernas, várias costelas.  E também perfurara um pulmão. Saíra recentemente do hospital, mas ainda não andava. Estava de baixa, de uma empresa de canalização e serviços elétricos. A Câmara Municipal arranjara-lhe provisoriamente abrigo, mas o prazo para ficar nessa casa estava a acabar. Corria ainda o risco de perder o emprego se não ficasse bom depressa.

Com efeito, segundo a TVI, a empresa atravessava um período difícil e estava a pensar extinguir um posto de trabalho. Se o homem fosse despedido iria perder a baixa e ficar sem nada. Ele era o único sustento da família, pois a mulher estava em casa a cuidar dos filhos. Aquela era uma situação à beira da tragédia. Pelo que sabia, o sujeito ainda estava a meses de poder voltar a trabalhar. O incrível era o desespero do indivíduo de poder perder os filhos para a alçada da Segurança Social, sem nada poder fazer.

O telemóvel do sujeito estava desligado. Quando chegou à morada do indivíduo e ao olhar para o apartamento do primeiro andar a Felina deu logo com ele na varanda, sentado numa cadeira de rodas. O olhar perdido do sujeito a contemplar o infinito sem a mínima margem de futuro era absolutamente confrangedor.

Em meia dúzia de saltos, absolutamente bem colocados a Felina chegou à varanda do indivíduo. O sujeito olhou para ela, a expressão parecia desprovida de qualquer emoção. Um rádio a pilhas começara a tocar uma música. Ela ia para falar quando o rosto apático disse saber bem quem ela era. Aliás, aquela hora todo o Portugal sabia. Acabara de dar nas notícias que a Polícia Judiciária e o Governo agradeciam publicamente o extraordinário papel da famosa larápia, que se autointitulava de Felina, na captura do maior bando de sempre da história nacional, sem o qual provavelmente teria havido um banho de sangue ou nem sequer o bando sido localizado.

Ela continuaria a ser uma marginal, mas o seu papel naquela situação seria sempre relevante quando um dia fosse julgada pelos seus furtos. O homem, monocordicamente, avisava-a já, com aquele ar inexpressivo, que se ela o vinha roubar nada tinha para levar. A gata gostou de saber que o seu papel tinha sido reconhecido publicamente. Ainda não ouvira notícias, mas retorquiu ao infeliz que ele estava enganado. Ainda havia a cadeira de rodas.

Foi a primeira vez que o fulano esboçou um rascunho de sorriso. Mas esclareceu que nem isso era dele. Podia levar a cadeira, efetivamente, mas não seria a ele que ela estaria a roubar. O absurdo da situação ou talvez o facto de a sua chegada ter sido a gota de água, fizeram o homem, inesperadamente desatar à gargalhada. Nem a cadeira era dele…

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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