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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 30

A Felina - 30.jpgOs ténis da sua foragida tinham uma sola fina, menos de um centímetro. Ele ficara com a ideia de que teriam uma boa aderência ao solo ou a qualquer superfície, mas não tinha como provar essa sua sensação. Porém, o facto de terminarem como se fossem uma bota subida, bem justa, deviam obedecer bem ao comando dos pés. Achara graça como o chicote, encaixado no fundo das costas mais parecia uma cauda do que um chicote. O fato estava todo ele desenhado com muito estilo.

O coordenador superior notou que os seus agentes tinham estado todos pendurados na berma do miradouro a admirar o voo da pantera voadora. Alguns deles tinham visto o salto bem de perto. Ela rodara sobre si mesma, dera dois ou três passos em corrida e com uma mão na orelha esquerda e um salto mortal para o abismo desaparecera para lá do parapeito.

Para Vítor Fernandes de Melo, era evidente que a Felina conquistara mais doze ferranhos adeptos. Finalmente, existiam vários testemunhos no seio da Polícia Judiciária de que a pantera era uma realidade palpável ou que, pelo menos, apetecia muito apalpar. Ele nunca vira um aparelho de som e de alteração de voz tão bem montado e adaptado. Também ficou com a certeza de que Íris era uma mulher sincera e muito boa observadora. Tudo o que esta lhe dissera sobre a gata correspondia integralmente ao que ele pudera ver e observar atenta e diretamente.

O seu telemóvel tocou. Era uma vez mais o número anónimo, ou seja, ela devia querer despedir-se de si. Aceitou a chamada e levou o aparelho ao ouvido. A voz sedosa fez-se ouvir:

      ― Olá, de novo, pedaço de mau caminho. Eu não acredito que me queria aprisionar… o que poderia acontecer a uma pantera negra presa, sabe? Eu digo-lhe. Definhava e morria rapidamente. O menino foi muito feio. Perdeu a oportunidade de dar uma boa queca aí, atrás das máquinas do ar condicionado central da torre das Amoreiras. Espero que os documentos que lhe entreguei possam ser úteis, mas fica a saber que estou zangada consigo.

      ― Essa agora, como sabe que eu queria uma queca consigo? ― indagou.

      ― Os seus olhos, menino, os seus olhos. ― respondeu a Felina.

O telemóvel ficou mudo. Era tempo de regressar à Sede e relatar o acontecido, depois teria de fazer um relatório, mais um, desta vez sobre este último evento, por escrito, para juntar ao restante material. Iria tentar descrever, ao detalhe, o fato da sua adorável inimiga. Era muito versátil, mesmo muito. Aquelas asas não faziam parte do fato, mas eram acessórios muito bem montados. O mesmo podia dizer do aparelho de voz, mais um acessório que demonstrava o cuidado extremo da gata.

Enquanto pensava nisso, dispensara a força de ataque e descera até ao seu carro estacionado no parque subterrâneo das Amoreiras. Se não estivesse com pressa tinha subido até à restauração do Shopping para jantar um bom bife em sangue no Block House Amoreiras.

Mas isso teria de ficar para outro dia. Em vez disso, pouco depois estacionou a poucos metros da Sede da PJ. Entrou no seu escritório, escreveu o relatório, retirou algumas anotações do caderninho e fez uma cópia do mapa. Por fim, mandou os serviços ampliarem o mapa para A2 e o livrinho para A4. Fora preciso um bom programa de OCR e o Photoshop, para as ampliações saírem perfeitas. Já com o livrinho passado para livro encadernado dirigiu-se ao gabinete do seu chefe. Dai mudou de direção para o gabinete do Diretor Nacional porque este estava reunido com os seus cinco Adjuntos. Uma secretária fora indagar se ele podia entrar e voltara com uma resposta afirmativa. Vítor entrou na sala e a reunião parou para o escutar.

O relato da pantera voadora foi recebido com verdadeira admiração. Maria Isa Benquerença festejava o facto de, finalmente, ficar provada a existência de uma ladra, sim, um elemento feminino, inteligente e não letal no mundo do crime português. Uma verdadeira pantera cor-de-rosa vestindo de gala, de preto, para a noite do crime nacional. Todos se riram do seu comentário.

Depois de serem enviadas cópias dos documentos para o gabinete de Antonino Mosca e de aguardarem por uma chamada de retorno, a ordem era para localizarem o espaço. Ficarem na posse do mesmo, mas manterem sigilo total sobre a entidade. A operação era para ser executada de imediato e ser confirmada a existência das instalações e a sua operacionalidade o mais rapidamente possível.

A Diretoria do Norte da PJ, coordenaria as operações e atuaria no terreno o Departamento de Investigação Criminal de Vila Real e o Departamento de Investigação Criminal de Braga, com o auxílio de núcleos especiais da GNR e da PSP. O Diretor Nacional, Luís Navas, contactara a Diretoria do Norte e transmitira as ordens do Primeiro-Ministro, incluindo que o Mosca avisara que não queria fugas de informação.

Duas horas depois, Luís Navas, estava a informar o Governo de que a fábrica fora tomada. Tinham sido detidas vinte e seis pessoas e que as instalações eram gigantescas e muito recentes, sendo que grande parte delas tinham sido contruídas no subsolo. Pelos cálculos do único elemento que podia avaliar as instalações, um comandante engenheiro mecânico da PSP de Braga, que já fora engenheiro na AutoEuropa, a fábrica tinha capacidade para produzir vinte e cinco viaturas por dia. Quarenta a cinquenta se criassem dois turnos, ou seja, mil e duzentas a mil e quinhentas por mês.

Luís Navas escutara o Mosca a dar gritos de felicidade e a proferir infindáveis Yes! Yes e mais Yes! O Mosca mandara os arguidos serem presentes a tribunal logo no dia seguinte, no Porto. Entretanto falara com dois procuradores do Ministério Público do Porto para saber se aquela gente poderia ter pena suspensa no caso de trabalharem seis anos para o Estado ou para a empresa a quem o Governo entregasse a gerência da fábrica.

Os procuradores achavam a coisa viável, desde que os arguidos estivessem de acordo e o juiz que ficasse com o caso também desse o seu aval. Com jeito o julgamento poderia começar já na semana seguinte. Tudo ficara pronto a avançar. Os procuradores passariam as pretensões do Governo a quem ficasse responsável na Procuradoria e ao juiz nomeado. Contudo, no caso de haver desacordo o Governo retirava a proposta integralmente e o caso deveria seguir como um julgamento normal.

Nos dias seguintes foram sendo conhecidos pela imprensa nacional e internacional uma série de detalhes do Caso do Bando do Brasileiro Egípcio. O que mais impressionava era a quantidade de gente envolvida e a magnitude internacional da quadrilha. Para os países que queriam julgar os bandidos apanhados na teia foram sendo enviadas cópias das provas do caso.

Uma vez em casa, na Rua de São Bento, no número quatrocentos e quarenta e quatro, a Felina, guardou o equipamento feliz com a forma como a coisa correra. Mudou de indumentária. Separou as abas brancas do seu fato de pantera, retirou as baterias do SVC. Colocou tudo nos devidos lugares e regressou à sua personagem de Íris Vasconcelos.

Estava na altura de verificar o valor total do dinheiro roubado. No final ao confirmar que tinham sido dez milhões em dinheiro, separou metade, como sempre fazia quando lhe vinha parar dinheiro vivo de um trabalho às mãos e consultou a sua lista pessoal de pessoas que ela considerava precisarem de ajuda. Ela não fazia donativos a organizações ou instituições ou mesmo a associações ou a uma ou outra ONG. Nada disso. Íris gostava de ajudar diretamente pessoas com necessidades reais. Gente sobre quem ela ia sabendo de situações pontuais de carência ou de azar na vida.

Fazia chegar a todas a mesma carta, onde recomendava que usassem o dinheiro com cuidado, que se o fossem pôr no banco o colocassem mensalmente como se fosse em rendimento do seu trabalho e pouco de cada vez. No entanto, avisava que o guardassem em casa e fossem discretamente gerindo o seu uso.

O dinheiro era normalmente enviado pelo correio, mas já tivera casos em que tivera de o entregar pessoalmente, com o seu fato de pantera vestido. A lista estava ordenada por ordem de entrada no seu computador, mas tinha alguns casos assinalados a vermelho que eram as pessoas com situações graves que necessitavam de ajuda mais urgente. Nessas situações as urgências sempre tinham prioridade.

Íris, como só repartia o dinheiro roubado e nunca joias ou ouro acabava, normalmente, por arrecadar a maioria dos valores roubados. Porém, achava isso perfeitamente natural. Não fazia sentido estar a colocar no mercado bens furtados. Já o dinheiro não tinha escrito nele a quem pertencera anteriormente. Era esta a sua filosofia e sempre se dera muito bem com ela. Ao consultar a sua lista viu que tinha duas prioridades assinaladas a vermelho. Ambos os casos eram pessoas que recentemente tinham sido despejadas das suas casas. Porém, a quantidade de gente assinalada era considerável.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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