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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 29

A Felina - 29.jpgVII

A Santa Casa da Pantera Negra

VII

      ― Desculpe? Quem fala? ― quis saber o coordenador superior. ― Como arranjou este número?

      ― Que culpa tenho eu, Senhor Vítor Melo, que a PJ coloque imberbes no atendimento da vossa Sede no turno da noite? Liguei há duas ou três noites atrás. Pedi para falar urgentemente com o responsável máximo do dossier da Felina. Disse ao rapaz, que me atendeu, que entretanto me dizia que o coordenador superior encarregue não se encontrava, que tinha informações da mais elevada importância e que tinha de falar com essa pessoa. A conversa durou mais uns minutos. Finalmente, quando o informei que, sem a informação que eu pedia, nada mais poderia dizer e que a responsabilidade seria dele, o jovem deu-me o seu nome e um número de telemóvel. Em que mais o posso ajudar?

Era agora claro para Vítor, que um dos estagiários, que em agosto faziam o atendimento noturno, tinha sido enrolado. Teria de falar com o orientador de estágio deles para os avisar contra aquele tipo de armadilhas. Era importante que ficassem a saber que não podiam dar nomes, nem contactos diretos dos responsáveis de cada dossier. Preferia nem saber qual deles tinha feito tamanha asneira. Esta ia servir, isso sim, para corrigir situações futuras e beneficiaria todos eles.

      ― Ok, ok, já entendi que enrolou o rapaz. Isso é feio. Se eu fosse outro ele podia perder o emprego. Mas, voltando à sua informação, não entendi direito, descobriu o quê? ― voltou a questionar, intrigado, o coordenador superior.

      ― Descobri a fábrica onde Jô Muttley está a produzir os aranhiços blindados. Quanto ao jovem sinto muito, mas era urgente eu falar consigo. Nesse dia a informação até era outra, acabei por mandar uma mensagem para o Diretor Nacional da Polícia Judiciária. Eu não tinha conseguido convencer o primeiro que me atendeu a dar-me os seus dados e a mensagem era urgente. ― esclareceu a Felina divertida com o facto de lhe estar a revelar que também tinha o contacto direto de Luís Navas.

      ― Já vi que é uma pessoa cheia de recursos. Deixemos isso para trás... ― continuou, Vítor, intrigado. ― Uma fábrica de aranhiços blindados? Essa é nova. E onde é que neste país se consegue esconder uma fábrica dessas?

      ― Em Viana do Castelo, perto dos Estaleiros Navais de Viena, mas do outro lado do Rio Lima. Mas além do mapa da localização dos estaleiros dos blindados, tenho igualmente, na minha posse, um livrinho de instruções para a construção segura dos veículos, que julgo ser importante. Ambas as coisas se encontravam dentro de um item que adquiri recentemente. Só as descobri hoje. ― informou a jovem.

      ― Presumo que estou a falar com a Felina, certo? Como me quer entregar isso? Em mãos? ― questionou o coordenador superior, quase como se fosse uma coisa normal.

      ― Isso mesmo. Se o Vítor tiver um tempinho. Pode ser? ― indagou ela.

      ― E não tem medo de ser presa, Felina? Parece-me uma ideia audaciosa essa. Posso montar-lhe uma armadilha. Pretende arriscar? ― questionou Vítor Melo.

      ― Medo? Se eu tivesse medo já tinha mudado de profissão. Eu não sou rato de biblioteca para ter receios quanto mais medo. Para além disso não sou fruta madura para cair das árvores, nem nunca desmaiei na minha vida. Olhe Vítor, pode estar às cinco na entrada das traseiras do shopping das Amoreiras? ― quis saber a Felina.

      ― Hum, isso é um pouco em cima da hora. Não pode ser cinco e meia? Era mais seguro... ― proferiu o coordenador.

      ― Parece-me bem, até já e não se atrase. Um beijinho. ― disse a jovem, desligando a chamada.

Vítor Fernandes de Melo estava zangado consigo próprio. Estivera a falar com a Felina e parecera todo o tempo cínico e seco. Mas que idiota que fora. Era mesmo estúpido. Marcou o número do seu Diretor Adjunto e relatou o sucedido. Este ficou entusiasmado com as novidades. Mandaria uma equipe de imediato para o local de encontro para deitarem a mão à gata.

Para além disso o que esta dissera confirmava o que eles já suspeitavam. A Felina tinha visto a Íris no muro e até a tinha assistido quando a descobriu desmaiada no chão, ao sair da quinta de Sintra. Porém, isso indicava igualmente que ela não tinha roubado muita coisa. Uma mochila com dinheiro e uma ou outra peça de valor, talvez em ouro. Fosse como fosse ela achara que gamara o suficiente. Farelo pediu a Vítor para não se atrasar.

Vítor já a caminho do shopping, mas ainda teve tempo para falar com o responsável pelos telefonistas estagiários. Era fundamental que estes soubessem que não podiam dar contactos. Às cinco e vinte e quatro chegou à porta de entrada das traseiras do shopping. Agora restava-lhe esperar.

A Felina entrou no seu quarto secreto da Rua de São Bento, vestiu o seu fato de pantera deixando apenas a cabeça por cobrir, abriu os braços e as pernas e colocou à mostra por detrás de uma espécie de velcro a metade macho do fecho éclair de titânio e carbono. Com paciência colocou as três abas prontas para insuflarem quando fosse o caso. Uma em cada braço e outra nas pernas.

Para as três abas brancas insuflarem bastava carregar num simples comando colocado na orelha esquerda da máscara. Em seguida testou um dos seus gadgets favoritos. Os Specials Phones and Mic Youtuber with  Sound Box and Sound Speaker Recorder and Voice Changer, também conhecidos por SVC. Ao usar o aparelho a voz saia de uma caixa pequena em volta do pescoço totalmente diferente da voz normal do utilizador.

Um equalizador incorporado permitia escolher a tonalidade e timbre da voz. Com alguns testes a Felina escolheu uma voz suave e sedosa. Por fim, meteu na mochila os SVC e um vestido comprido, largo, estampado e quase até aos pés e instalou uma espécie de suspensórios bem presos ao corpo que possuíam dois pequenos jatos logo abaixo dos ombros, cada um do seu lado da mochila. Colocou no cinto a máscara para a cara, e o mapa e o caderninho. Finalmente estava pronta.

Ao olhar para as horas viu que ainda tinha tempo mais do que suficiente. Uma vez na garagem ligou a sua Yamaha preta de 250 centímetros cúbicos, depois de colocar o vestido e arrancou para o estacionamento aberto entre a Rua de Campo de Ourique e a Rua José Gomes Ferreira. Uma vez aí estacionou a moto e dirigiu-se ao Shopping a cerca de cem metros e pouco de distância. Dirigiu-se às traseiras mas subiu de elevador até ao topo, chegada ao miradouro das Amoreiras com trezentos e sessenta graus de vista, ligou para o Vítor, completamente confiante.

      ― Senhor Vítor Melo. Desculpe se estou a alterar o local de encontro, mas soube que hoje o miradouro ia estar aberto ao público. Estou cá em cima à sua espera. Obrigada. ― Íris, nem esperou pela resposta. Dirigiu-se para o lado do miradouro virado para Campo de Ourique e aproveitou uma estrutura perto do canto mais à esquerda, para tirar o vestido e guardá-lo, colocar a máscara e, por cima desta o SVC. Havia pouca gente àquela hora. Restava-lhe esperar.

O coordenador superior chegou ao miradouro e começou a dar a volta, enquanto o elevador voltava a descer, para subir em seguida com doze inspetores da Polícia Judiciária armados e prontos para deterem a Felina. Finalmente localizou-a. Estava num dos cantos, o esquerdo, virada ao Tejo.

      ― Olá, meu caro Vítor Melo… ― proferiu a Felina enquanto este se aproximava. ― Muito bem, mas que delícia de pedaço de homem que o senhor me saiu. Não faria, por certo, sacrifício se lhe metesse as garras em cima. Mas hoje não estamos aqui para isso.

Jogou a mão ao cinto e tirou o mapa e o caderninho com a letra em tamanho seis. Entregou ambas as coisas ao homem da PJ. Este tentava retirar toda a informação daquilo que via. A Íris tinha razão, a mulher era alta e bastante bem feita. Deveria ter um metro e setenta e cinto, no mínimo um e setenta e quatro. Estava muito curioso para lhe ver o rosto. Já não faltava muito, dentro em breve ficaria a saber. Guardou o mapa e o caderninho. Acabara de o fazer quando um grito de uma criança o fez olhar para trás.

      ― Ó mãe, aquele homem tem uma metralhadora nas mãos… ― clamava a criança.

Quando se voltou a virar para a Felina, já era tarde. No seu lugar, no chão, brilhava uma moeda de cobre ao Sol, ainda alto, daquele dia quinze de agosto. Aproximou-se a correr da beira da torre e, a cerca de cinquenta metros, num wingsuit adaptado ao seu fato de Felina, de asas brancas, voava, impulsionada por dois pequenos jatos a pantera voadora.

O fato com asas brancas de wingsuit, adaptado ao seu fato normal, funcionava na perfeição. Voar com um wingsuit devia ser fantástico. Enquanto se afastava a gata alada acenou-lhe duas vezes fazendo uma espécie de looping. Aos poucos via-a descer em direção a Campo de Ourique e, finalmente desaparecer. Mais uma mulher fabulosa que acabara de conhecer. Ultimamente ele andava numa verdadeira maré de sorte.

Pelo que vira, a gata teria uns sete a dez quilogramas a menos do que a sua Íris e mais uma mão travessa em altura. No entanto, os lábios e os olhos eram parecidos. Talvez a pantera tivesse os lábios, desenhados com um fino traço a negro, ligeiramente mais carnudos, mas perfeitamente desenhados. Por outro lado, nos olhos destacava-se um oceano branco a rodear a íris quase negra confundindo-se com a pupila. A sombra preta da maquilhagem, até à máscara, ainda os destacavam mais, brilhando na escuridão.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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