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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 25

A Felina - 25.jpgVI

Uma Noite na Serra da Lua

VI

      ― Mas que grande malandro! Fique descansada, minha amiga que eu já o ponho na ordem assim que chegar. Sim, porque isso não pode acontecer. Mandamos um homem de confiança para guardar uma princesa e ele faz dela refém. É inaceitável... ― brincava Carlos Farelo, visivelmente divertido.

      ― Algo me diz que o Diretor Adjunto vem demasiado satisfeito para que a sua operação na quinta tenha corrido mal. Só me falta ouvi-lo a cantar ao telemóvel. Não me diga que apanhou o bando, capturou a Felina e apreendeu uma quantidade inestimável de coisas nefastas, perigosas ou ilegais? ― Carlos Farelo, ria da pergunta de Íris. Todavia, respondeu de forma diferente àquela que a rapariga parecia querer adivinhar. Fez um silêncio teatral e proferiu em seguida.

      ― Isso sim, teria sido ouro sobre azul. Mas o filme teve menos desenvolvimentos e um pouco menos de ação. De qualquer modo acho que vai ficar surpreendida. Já lhe conto de viva voz. Estou quase a chegar. Até já… ― disse, o Diretor desligando a chamada e deixando o acontecido para ser contado com a devida circunstância.

Íris, sentiu o nervoso crescente de Vítor Fernandes de Melo, o coordenador superior da Polícia Judiciária. Quase que era capaz de apostar que o seu novo amigo íntimo temia que ela desse com a língua nos dentes e pudesse dar a entender ao seu chefe o que acontecera entre eles naquela noite.

Coitado do rapaz, ainda não a conhecia suficientemente bem para saber que podia estar absolutamente descansado, no que respeitava à sua discrição dos factos. Resolveu acalmá-lo. Não fazia sentido deixar o homem nervoso o resto do tempo em que ele e o chefe ficassem ali em casa. No entanto, tinha uma certa graça ver a atrapalhação do novo amante que, mesmo assim, parecia incapaz de lhe confessar os seus receios. Por fim, com um ar absolutamente descontraído, tomou a palavra:

      ― Quer-me parecer que o Vítor está nervoso com qualquer coisa ou estarei eu enganada? Olhe, meu amigo, se está preocupado que eu conte seja o que for ao seu chefe, nem que seja por piadas, sobre a nossa noite de intimidade, pode ficar descansado. O que tivemos faz parte da minha vida privada e eu não divulgo o que faço senão em conversas com os próprios intervenientes. Prezo muito tudo o que constitui o meu habitat pessoal.

Dava para ver o alívio do coordenador superior a instalar-se e a descontração a substituir o sentimento anterior. O esclarecimento acabou por chegar mesmo a tempo. Tinham acabado de tocar à campainha. Íris, levantou-se de um salto, foi abrir a porta, ficando na umbreira à espera do Diretor Adjunto, que acabara de anunciar pelo intercomunicador a sua presença. Ao contrário de Vítor, Carlos Farelo, apanhara o elevador. Quanto, por fim, entrou. O coordenador veio ao seu encontro de mão esticada, afirmando e confirmando, adiantadamente, que cumprira fielmente a missão para que fora competido. Depois indagara de imediato pelas incumbências do chefe.

A conversa foi seguidamente, quase que na sua totalidade, um monólogo de Carlos Farelo. O Diretor Adjunto apresentou os factos exatamente da forma como eles se tinham desenrolado desde a chegada à quinta de Sintra perto da Malveira da Serra.

Durante o caminho a Judiciária solicitara o apoio do Destacamento Territorial de Sintra da GNR. O líder do Destacamento, João Miguel Lopes dos Anjos Colmeia, um Tenente-General nascido em Luanda em 1961, enviou para a quinta em causa, a Unidade de Intervenção da GNR, a fim de auxiliar a PJ em todas as ações necessárias.

Esta unidade ficava com a responsabilidade da missão de manutenção e restabelecimento da normalidade na quinta, da resolução e gestão de quaisquer incidentes críticos, da possibilidade de intervenção tática em situações no caso do surgimento de violência concertada e de elevada perigosidade, complexidade e risco e, ainda da segurança das instalações a ocupar, bem como da possível inativação de explosivos e de toda a proteção e socorro que pudessem vir a ser necessários.

À responsabilidade da Judiciária, ficava o apoio nestas ações bem como a investigação e recolha de provas de crimes e a detenção de todos os intervenientes envolvidos nos ilícitos encontrados. Havia ainda a possibilidade de apreensões de armas, drogas e valores, fossem eles dinheiro vivo ou bens móveis de qualquer espécie, como viaturas ou qualquer tipo de objetos de valor. O primeiro ato da GNR fora a abertura do enorme portão verde da entrada. Alguns dos guardas republicanos especializados saltaram o muro. Anularam o comando do portão e instalaram um sistema próprio que lhes permitiu ficar com o seu controlo. Assim que o portão foi aberto voltou a ser encerrado, depois da entrada das forças de intervenção.

Ficaram três elementos a tomar conta da entrada e os restantes cercaram as edificações existentes na quinta. A garagem, a casa anexa e o solar. Durante o trajeto até à casa, foram sendo sinalizadas todas as câmaras de vigilância e sensores espalhados pela propriedade. Contudo, o facto de as câmaras de vigilância com mobilidade estarem fixas, dava a entender que não estavam a ser monitorizadas por qualquer vigilante.

Também não tinham sido detetadas quaisquer minas ou armadilhas em todo o perímetro dos terrenos da quinta, o que aliviou a tensão nos homens da GNR, responsáveis por essa averiguação. O primeiro edifício a ser invadido fora o solar, tendo a garagem e a casa anexa ficado sobre a vigilância de dez elementos da GNR.

Os operacionais da GNR foram os primeiros a revistar o piso zero e chegaram ao salão principal exatamente no momento em que um dos elementos se acabava de soltar, pois os outros nove suspeitos, encontrados nesse espaço, estavam amarados com abraçadeiras pretas. A abraçadeira que prendia os braços, atrás das costas de Jô Mutlley fora totalmente ruida, graças aos dentes de titânio de um dos guardas do anexo.

O homem fora preso enquanto tentava, aos saltos, chegar a uma faca de ponta e mola, poisada na mesinha de apoio junto à lareira, onde se encontrava uma moeda de cobre pertencente à Felina, conforme fora possível comprovar, por ser igual a outras, que esta deixava junto dos seus anteriores feitos. Os guardas e a PJ respiraram de alívio pelo verdadeiro sentido de timing com que tinham intervindo. Uns minutos mais tarde e o banho de sangue que seria desencadeado parecia evidente. Luís Navas chegara mesmo a dizer que a sorte estivera do lado das forças do bem.

Ficava evidente quem lhes tinha facilitado e muito a invasão e ocupação do espaço. A famosa ladra Felina, que já era um mito entre as forças da ordem, ficava agora detentora de uma divida de gratidão por parte das mesmas para com ela. Depois de verificado todo o casarão foi possível confirmar que aqueles dez indivíduos eram os únicos elementos ali presentes.

O espanto generalizado das forças de intervenção fora evidente com o que tinha sido encontrado nas salas do primeiro andar e na cave do edifício, esta repleta de armamento, incluindo um tipo de chaimites, que se identificava pelo tipo de carroçaria das viaturas, mas adaptados aos tempos modernos. Estes veículos tinham cerca de metade da dimensão das antigas chaimites e estavam abastecidas com armamento muito mais leve e preciso do que as suas ancestrais fontes de inspiração. Eram quase como uma espécie de buggies artilhados e preparados para uma invasão militar de surpresa.

Alguns dos GNR, que já tinham estado em missões da ONU, em África e em alguns países árabes, defendiam que, pela distância entre eixos, aquelas viaturas nada tinham a ver com buggies, mas sim com os aranhiços utilizados atualmente como veículos militares no deserto. Outro grupo recordava que os aranhiços já eram até utilizados em provas de desporto motorizado em terrenos áridos ou rochosos considerados duros e difíceis.

Também na cave fora surpreendente, para os especialistas em minas e armadilhas, a quantidade absurda deste género de material bélico encontrada e ordenada por categorias. Massas explosivas, como C4, entre outras, detonadores de vários tipos, telemóveis descartáveis e dispositivos de controlo remoto compunham o resto do ramalhete. O arsenal era tanto na cave que se somado ao encontrado nas várias salas do primeiro piso, dava, no entender dos peritos para começar uma revolução.

Estranhava-se ainda como é que a Felina dera com tudo aquilo e o que tinha ela ido ali fazer, uma vez que o seu perfil nada tinha a ver com aquele tipo de bandidos e, muito menos, com aquele género de material bélico. Fora ainda na cave que Luís Navas descobrira que tinha no seu telemóvel uma mensagem enviada por um número anónimo, com as coordenadas da quinta. Estava assinado pela Felina e além das coordenadas dizia “grupo de Jô Mutlley – armados e perigosos – mulheres reféns”.

Luís Navas não dera pela mensagem chegar porque esta fora enviada estavam eles reunidos no auditório e ele deixara o seu aparelho no gabinete. Depois usara-o para a coordenação das operações e não reparara naquele aviso. O alerta fora enviado pouco depois da meia-noite. A triangulação da chamada, mais tarde, esclarecera que a mesma fora transmitida da zona do Marquês de Pombal.

Aquela notícia extra de que havia reféns colocara novamente o contingente todo em polvorosa. Faltava revistar a garagem e a pequena casa anexa. Com todo o cuidado invadiram o anexo e quase que um dos elementos da GNR era apanhado de surpresa pelos cães. Ao que parecia os animais estavam treinados para não ladrar e atacar de surpresa. O militar ainda ficara sem parte do tecido da perna direita das suas calças, mas sem mais consequências.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 24

A Felina - 24.jpgÍris, do seu jeito felino, não tinha pena do coordenador superior. O homem de trinta e nove anos, não tinha ar de quem estava arrependido de ter cedido ao seu cio. Tinha um aspeto calmo, não! Sereno e consolado. Tratava-se de um homem alto, entre o metro e oitenta e três e um e oitenta e cinco. Com caixa, ombros e braços de nadador federado, moreno, de barba curta, arranjada e com uns laivos de branco a despontar já entre o bigode e o queixo, um tronco com uma pelagem castanha aloirada pelo verão, sem excessos de símio.

De músculos delineados de quem não se descuida, o desenho triangular que descia dos ombros até à cintura indicava não apenas natação como algum ginásio moderado, olhos grandes, de um castanho profundo, lábios bem desenhados e um nariz direito feito à medida. O cabelo castanho escuro, fruto do verão, parecia abrilhantado por madeixas loiras e embora não sendo comprido, também não era curto, mas sim um pouco revolto.

A pele bastante morena tisnada pela praia dava-lhe um certo ar de surfista que acabara de abandonar a atividade. Íris, tivera a certeza de que o policial se orgulhava no seu vigor um pouco a cima do normal e de uma performance de artista de circo rebelde sem um número ou atuação pré-definida. Enfim, o coordenador era um belo pedaço de homem.

Divertido, inteligente, perspicaz e de sorriso branco, fácil e cativante, apoiado num ótimo sentido de humor. Sorriu, não era normal um homem conseguir ser lindo e inteligente. Só era pena que fosse polícia. Por certo tivera más influências familiares ou algo assim. Um tipo daqueles daria um maravilhoso Robim dos Bosques ou um dos míticos vilões da Marvel, da Disney ou da DC Comics, mas nunca um servidor da lei e da ordem. Isso era um verdadeiro desperdício.

A gata deu-se conta que o seu acompanhante noturno estava com uma análise interior muito semelhante à sua, mas sobre ela. Devia estar a pensar que se tratava de uma gata cheia de bons predicados e com todos os efes-e-erres. Não é que ele não tivesse razão, aliás, ela ate podia ter o alfabeto todo, porém, apesar de tudo, tinha muito pouco a ver com o animal doméstico. Ela sentia-se inteiramente como a leoa que lhe adornava o signo do zodíaco ou como a Felina furtiva que conspirava na noite.

      ― O Vítor já me despiu esta noite, já não precisa de imaginar mais nada sobre mim. O senhor coordenador superior já se encontra na total posse dos factos. Não lhe parece? ― indagou a jovem picando o rapaz, com um sorriso cativante.

      ― Com efeito, devo reconhecer que apesar da improbabilidade dos acontecimentos, fui surpreendido muito para além da minha mais louca fantasia. Acho que é a primeira vez, pelo menos que me lembre que em vez de caçador fiz, quase na perfeição o papel, do qual não me queixo, da presa nas garras de uma insaciável leoa. Contudo, a minha análise foi uma forma de dar tempo de à Íris de poder acabar a sua detalhada observação sobre este pobre eu... ― contrapôs o homem da Judiciária com aquele sorriso que a derretia.

      ― Bem, bem, vejo que reina a perspicácia pelo reino da Lua Cheia. A noite clara e sem nuvens torna evidente o que normalmente se mantém oculto por entre as sombras. Mas diga-me o Vítor é de Lisboa, como eu, ou nasceu algures, perdido numa floresta, ladeada pela aldeia dos invencíveis gauleses? ― indagou a mulher que tentava colmatar as lacunas do seu conhecimento sobre o macho que ainda há momentos lhe saciara o apetite.

      ― Sou um rapaz nascido à beira-rio. Mais propriamente nas margens do Mondego, em Coimbra. Uma cidade antiga em tradições, história, cultura, verde, granito e chuva. Estou protegido pelo signo do touro, embora, conforme se acabou de provar, não tenha qualquer defesa possível, quando atacado por qualquer elemento da nobre raça do rei da selva ― retorquiu Vítor, divertido.

      ― Pelo que escuto, acho que posso depreender que estou a ser classificada como predadora. Porém, pese embora eu tenha uma perfeita consciência das minhas ações, no caso concreto sou levada a fazer uma interpretação algo desviante da visão mais simplista apresentada pelo meu amigo. É um facto inegável que comi e bem, confesso, avidamente, até à saciedade. Todavia, julgo não ser mentira que fui devorada, quase até ao tutano o que realmente se torna mais incompreensível. Afinal, eu, enquanto leoa, sou uma carnívora pura, mas diga-me, amigo Vítor, o touro não é um animal vegetariano?

Vítor Fernandes de Melo encheu a sala com uma gargalhada cristalina. Com efeito, ela teria absoluta razão se não fosse o facto de ele ter como signo ascendente o escorpião. Um signo atrevido, representado por um animal que embora pequeno era dotado de um enorme espigão. Aquela disputa intelectual era quase tão deliciosa como a que terminara meia hora antes e a jovem mulher estava verdadeiramente deliciada.

Decidiu dar a luta por empatada, devido aos irrefutáveis argumentos de ambas as partes. Ao fim ao cabo, afirmava, o empate era devido a estarem ambos sob o mesmo signo chinês. Os dois eram javali, se olhassem para o seu lado mais selvagem, ou porco, na perspetiva mais cor-de-rosa da vida.

Declarada a igualdade de argumentos a relação entrou numa nova fase. Foi nessa que Íris ficou a conhecer melhor o seu polícia. Ele era filho único de uma longa família de Coimbra, já perdera ambos pais por longas doenças sem solução há uns anos, não possuía tios, avós ou primos e, talvez por isso era reservado e um pouco solitário.

Assim que terminara o seu curso de direito e os restantes estudos, decidira arranjar, nem que fosse à força, uma família. Por isso depois de ter terminado o estágio, o mestrado em criminologia e apresentar a sua tese sobre criminologia forense, candidatara-se à polícia judiciária. Por questões sentimentais nunca vendera a casa de Coimbra, que continuava a ser a sua base sentimental.

Atualmente, candidatara-se a um lugar no Laboratório de Polícia Científica, por onde o Diretor Adjunto, Carlos Farelo, também já passara. Esperava, com isso, conseguir alargar mais rapidamente o seu conhecimento enquanto profissional, de forma a poder subir na carreira com mais celeridade. Vistas as coisas era, simplesmente, quase um caminho inverso ao que o seu atual chefe direto fizera. Subitamente, sem que nada avisasse a jovem para aquela questão, ele indagou curioso.

      ― Então a minha nova amiga é o primeiro ser vivo que se saiba a conhecer a Felina, não é verdade? ― Indagou Vítor, muito curioso.

      ― Hum, isso não é correto. Não fomos tomar um chá juntas. ― disse.

      ― Claro que não, mas viu-a? Preto no branco. É mesmo só uma pessoa? Não viu nenhum bando de gatas ou de bandidos a espalhar moedas de cobre por aí? Mas viu uma mulher com um traje negro, a quatro metros de si, a saltar agilmente o muro da quinta, certo? ― quis saber, de viva voz, o coordenador superior.

      ― Vi sim, a cerca de quatro metros. Inacreditavelmente, ela nem deu por mim. Não devia estar à espera de ter alguém assim tão perto e estava focada em olhar em frente. Aliás, só não me caiu no colo, porque ela subiu a mesma árvore que eu, mas aos saltos, pelo que deduzi, pois foi de um salto de um pé apoiado numa saliência do muro, junto à árvore, que ela surgiu. Exatamente como fazem os putos franceses que praticam parkour. ― Explicou Íris.

      ― E em que mais reparou? Seja o que for. Nem que seja apenas um mero palpite. ― Vítor, quase que implorava por mais alguma informação, por mínima que fosse.

      ― Ora bem, que mais posso eu dizer… olhe, acho que ela deve ter mais uns quatro ou cinco centímetros do que eu, isto a julgar pela maneira como se esticou ao saltar para a frente, do cimo do muro, antes de desaparecer. Pela máscara na cabeça, muito justa, diria que não usa cabelo comprido, pois não vi nenhum volume significativo escondido, mas pode, eventualmente, chegar-lhe aos ombros. Terá certamente, pela agilidade, menos de trinta e cinco anos. E tem olhos ou azuis muito escuros ou pretos, não consegui entender direito. Mas são grandes, pois viam-se bem de lado... ― reportou a rapariga.

      ― É tudo? Mais nenhum pequeno detalhe que ajude a conhecer a figura? ― insistiu o coordenador.

      ― Deixe-me pensar… sim, deve ter um peito trinta e seis C ou trinta e oito, talvez, não sei ao certo, pois usava um sutiã de desporto a comprimi-lo. Pareceu-me um pouco mais magra do que eu no geral, mas tem as formas todas no sítio e gosta de exibi-las ou o seu fato seria outro. Por fim, tem unhas curtas, como as minhas ou apenas um pouco maiores, pela forma como os dedos encaixavam nas luvas. Deve calçar um trinta e oito, a não ser que use uns ténis maiores para alterar o número, mas não me parece, porque não seriam estáveis… ― concluiu a jovem.

      ― Maravilhoso, Íris, nem imagina como o seu relato é maravilhoso. Devo confessar-lhe que esperava uma descrição, mas nada com todo esse detalhe. A menina é realmente brilhante. ― Vítor, estava visivelmente entusiasmado.

      ― Ah, a sua Felina é canhota, tem uma boca carnuda, bem desenhada, proporcionada e com uns dentes brancos. Também possui um faro apurado, pois quando chegou ao cimo do muro empinou o nariz pequeno como quem procura detetar um odor que não lhe parecia natural naquele sítio. Sabe, eu uso quase sempre CK One, para homem. Ponho muito pouco, mas pode ser que ela o tenha detetado no ar. Todavia, na verdade, não sei se foi mesmo assim ou se estou a imaginar coisas. Contudo, foi o que me pareceu. Também posso dizer que, de certeza, ela não fuma, pois eu não tenho um grande nariz, mas deteto tabaco a milhas. O Vítor, por exemplo, esteve com o seu chefe mesmo antes de vir para aqui. O fumo do charuto dele em si ainda era fresco, quando chegou. ― informou a rapariga.

      ― É verdade. Fui ter com ele quando soube que ele queria um voluntário para vir ver de si. Ele tinha-me informado que a Íris tinha visto a Felina e eu sou, na PJ, o responsável máximo por esse dossier. Foi por isso que me ofereci para vir cá. ― esclareceu o coordenador que não queria equívocos.

Um relógio de parede antigo bateu as cinco horas, na parede em frente à entrada e o telefone, poisado na mesa de apoio dos sofás, começou a reclamar por atenção. Íris, deixou o encosto confortável do sofá e lançou a mão esquerda para o aparelho. Passara toda a noite a usar a mão esquerda, porque já o fizera em frente ao Diretor Adjunto. Ela nem era canhota, mas ambidestra, só que aquela atitude, por vezes, ajudava a despistar suspeitas sobre si. Afinal, todas as descrições do Correio da Manhã apontavam a pantera como sendo destra.

      ― Estou, sim? Boa noite senhor Diretor Adjunto. Já vem a caminho? Muito bem. O seu coordenador tem estado aqui num inquérito cerrado. Tem a certeza que enviou alguém para saber que eu estava bem? É que eu pareço estar a ser sujeita a uma nova inquisição.

 

(continua no próximo capítulo) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 23

A Felina - 23.jpgA rapariga ainda se lembrava de receber em sua casa estratos de conta do Millennium BCP em nome de Érica. Deixara de os receber quando a gestão passara a ser feita toda online, mas só agora entendia de onde tinham vindo o milhão e meio de euros que estavam na conta pessoal de Érica., eram da venda que o avô fizera das casas dos pais da sua amiga.

Aliás, ela, Íris, só utilizava aquela conta com regularidade desde a altura em que tinha comprado os apartamentos da Rua de São Bento. Até então, por precaução, apenas fazia pequenos movimentos para manter a conta em movimento, sendo igualmente onde recebia os pagamentos das assessorias que efetuava em nome de Érica.

No entanto, desde a sua regularização na embaixada americana que usava regularmente o cartão de crédito do Mastercard passado pelo banco, bem como a conta bancária. Fora através dessa conta que adquirira o seu outro carro, um Mercedes-Benz SL 63 4MATIC+ Night II, Preto Metalizado, que foi o primeiro a chegar a Portugal e que registara no nome de Érica. Aliás, fora graças ao facto de Érica ser consultora da Mercedes-Benz na Alemanha que ela conseguira a viatura, uns meses antes da sua chegada a Portugal e a quase todos os mercados. Ela apenas tinha o carro à sua disposição há poucos dias.

Íris, voltou a pensar no avô. De alguma maneira o velhote conseguira ser nomeado tutor pelos pais de Érica. Das duas uma, ou fizera algo por eles, que já eram amigos da sua família, que os levara a confiar nele, ou fora preventivamente por iniciativa destes quando o pai de Íris morrera ficando o avô como seu tutor. Sendo a filha uma diabética tipo A poderiam ter achado mais seguro fazerem o mesmo não lhes fosse acontecer algo.

A terceira hipótese ela achava menos possível, mas, todavia, viável. O avô podia ter falsificado documentos para aparecer como tutor. O homem além de um excelente carteirista era um ótimo falsificador, contudo, faltava-lhe a paciência para fazer disso a sua atividade principal. Dizia que sempre que se dedicava à falsificação, quando acabava esse trabalho, tinha de passar três dias a tomar banho, três vezes por dia, tal era a quantidade de mofo com que ficara durante as execuções como falsificador,

A rapariga estava tão absorta nos seus pensamentos que só à terceira vez ouviu a campainha. Quem seria àquela hora da noite? Poisou o copo de vinho tinto. Enrolou-se a uma toalha de banho lilás e foi ao intercomunicador da porta perguntar quem era aquela hora. Do outro lado, podia ver pela câmara um homem, pouco à vontade, pela forma como se mexia em frente à lente.

      ― Sou o coordenador superior de investigação criminal Vítor Fernandes de Melo, da Polícia Judiciária. Foi o Diretor Adjunto, Carlos Farelo, que me enviou. ― esclareceu o homem. A voz era forte e bem colocada.

         ― Vou abrir. ― informou, Íris, clicando no botão de abertura.

Abriu a porta e esperou que o homem chegasse ao primeiro andar. Este viera pelas escadas, talvez por não ter reparado no elevador à sua esquerda. Quando ele chegou, ela deixou-o entrar e explicou, desculpando-se, que estava naqueles preparos porque se encontrava a tomar um banho de imersão. O homem estendeu a mão para a cumprimentar e ela correspondeu ao ato. Só quando viu os olhos dele a saírem das órbitas é que se apercebeu que, com o gesto, deixara cair a toalha para o chão. Riu-se, apanhou a toalha e voltou a enrolá-la, afirmando:

      ― Antigamente é que esta ação era perigosa, agora, por todo o lado se veem mulheres nuas. O interesse desapareceu. Não lhe parece Vítor?

       ― Mulheres nuas, é verdade. ­ ― afirmou o homem, ainda distraído, sem tirar os olhos das formas embrulhadas na toalha. ― Mas não com um corpo como o seu. Valha-me Deus.

De repente, Vítor, percebendo a gafe cometida, emendou o comentário:

      ― O que eu queria dizer é que a senhora Doutora é boa como o milho. Não, não. Nada disso, desculpe, tem um corpo perfeito. Isso sim, assim é que está correto. Isto não invalida a frase anterior entende, mas assim é que eu deveria ter proferido a coisa. De qualquer forma desculpe, mas uma mulher assim, Doutora, na realidade, é tão invulgar de se ver como um pinguim no Sahara. Isto sem, sem ofensa, ó valha-me Deus, desculpe. Não quero ofender. Por favor, desculpe. Quanto mais falo mais a vejo nua. Mais me quero ver na rua, queria eu dizer. Ai, ai…

Íris, não aguentara tamanha atrapalhação. Deixara-se cair no sofá grande da sala a rir embevecida com a aflição incontrolada do homem. Um erro grave para quem está quase nua, pois no meio da galhofa, ao se inclinar para trás a rir, pôs as pernas para o ar. Quando as poisou ainda a soluçar o riso e viu a cara do coordenador lívida e paralisada ainda a olhar para onde ela estivera de pernas abertas a rir, entendeu a asneira. Mas era demasiado tarde, deixou-se cair para o lado a rir ainda mais do que anteriormente.

      ― Desculpe-me caro coordenador superior, agora sou eu quem tem de pedir desculpas. ― afirmou Íris, quando conseguir ficar séria. ― Já me devia ter ido vestir, isso, sim, teria sido inteligente. Mas se visse a sua cara. Parecia que tinha visto um bicho e…

Não aguentou. A comparação da sua patareca a um bicho provocou-lhe mais um gigantesco ataque de riso. Levantou-se e dirigiu-se ao quarto ainda a rir agarrada à barriga, fazendo-lhe sinais para que se sentasse. Voltou, uns minutos depois, com uns jeans justos e uma camisa branca larga, metida nas calças, umas meias da cor dos jeans e umas sapatilhas cremes quase brancas, com uma lista azul ao longo de toda a sola. Aproximou-se de Vítor Melo e de mão esticada perguntou:

      ― Bem, meu caro Vítor, agora que já somos íntimos, diga-me lá o que posso fazer por si. Sabe que faz meses que não me ria tanto? Posso oferecer-lhe um copo de vinho tinto? Estou a beber um Barca Velha de 78, vai um pouco?

      ― Fico muito satisfeito que tenha levado a minha atrapalhação para a brincadeira. Não me lembro, em toda a minha vida, garanto-lhe, de me sentir tão atrapalhado como há pouco. Já agora, se não se importar aceito o vinho. Isso sempre ajuda um homem a regressar à normalidade. Não devia beber em serviço, mas que se dane.

Íris, levantou-se e regressou com dois copos e uma garrafa aberta de Barca Velha. Serviu o seu visitante e em seguida serviu-se a si. Depois de se sentar ao lado do coordenador indagou:

      ― Agora diga-me, meu amigo, a que devo a honra desta visita?

      ― Olhe, Doutora Íris, eu… ― o coordenador não conseguiu continuar a falar. Anfitriã interrompeu-o de imediato.

       ― Vítor, desculpe tratá-lo assim, mas caramba, pode ter sido uma situação inesperada, contudo já somos íntimos, já o disse. Eu sou a Íris e você é o Vítor, pode ser assim?

O homem ia hesitar, mas pareceu mudar de ideias. Fez um ruido de garganta, tentando aclarar a voz e concordando com a cabeça afirmou, com aquele tom confiante que inicialmente agradara a Íris:

   ― Claro, porque não. A Íris tem razão. As circunstâncias é que comandam a vida e não o inverso. Bem, eu vim saber, a mando do Diretor Adjunto, se a Íris estava mesmo bem e se precisava de alguma coisa, precisa? Pelo que constatei, quem precisou do vinho fui eu. A menina, por seu lado, parece-me muito bem.

Realmente não estava, para dizer a verdade, assim tão bem, todavia, nas reviravoltas desta noite, desde a sua chegada, acabei por ficar ótima. Já nem me doi a cabeça da queda que dei da árvore e que me fez desmaiar. ― respondeu prontamente a jovem.

A conversa continuou descontraidamente por mais de uma hora. Uma Barca Velha deu lugar a outra e depois a outra e a certa altura Íris, notou que estava no colo do coordenador superior, já sem camisa, com este perdido entre os seus seios, balbuciando palavras sem sentido. Levantou-se, puxou-o pela mão e partiu com ele até ao vale dos lençóis. Estranhamente, à luz da Lua Cheia, que lhe entrava pelo quarto, Íris ouvia, ao longe, os lobos a uivar. Era mesmo capaz de jurar que os ouvia e a Lua Cheia cumpria o seu sortilégio.

Foi apenas às quatro da manhã, depois de terem tomado um banho juntos, que a alcateia se deixou de ouvir e o som foi substituído pelo crepitar de uns ovos a estrelar numa frigideira. Incrivelmente, meia hora depois ambos tinham o cabelo seco e ninguém diria sem medo de errar que aqueles dois tinham tomado banho juntos. A ceia fez bem ás líbidos acabando de as saciar, graças ao picante de uns pregos do lombo, com queijo feito manteiga e uma lâmina de presunto guarnecida de alho picado frito. Quanto à Barca Velha, já longe ao fundo do rio, devolvia a serenidade às almas antes em chamas.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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