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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 22

A Felina - 22.jpgAinda por cima, fizera um contrato de consultoria porque ela era excelente a resolver problemas, no entender do agradecido construtor, e era bem provável que ele pudesse voltar a precisar da sua ajuda e assistência. Íris, achara aquele desfecho maravilhoso. Afinal, oficialmente, era apenas proprietária de um T1 e um escritório, sendo a sua amiga, Érica, ou seja, ela própria, dona do restante edifício. Soltou uma gargalhada.

Sim, porque Érica Chandler Vital era a identidade de uma colega de escola. Aliás, a sua melhor amiga, na altura. O avô era amigo dos pais da rapariga e quando estes tinham falecido, vítimas de um incêndio, havia uns anos, o seu avô tinha sido nomeado seu tutor, por falta de mais família. Érica morrera de diabetes tipo a, por incapacidade total em seguir um tratamento. A Felina lembrava-se muito bem dos seus dias de choro.

O último bilhete de identidade da amiga e, recentemente, o cartão de cidadão, já tinham sido renovados por ela, como sendo a própria Érica, uma das últimas ideias brilhantes do seu adorado avô. Incrivelmente nunca ninguém fora conferir a anterior impressão digital. Quanto à troca de fotografias tinha sido fácil, pois no bilhete de identidade anterior ao cartão de cidadão, a jovem era uma criança ainda, de cabelo preto e olhos escuros e no que ela renovou já era uma mulherzinha.

A idade era a mesma e o dia de nascimento era de seis de agosto. Por isso, Íris, tinha duas identidades legais. Votava duas vezes nas eleições e era duas pessoas num só corpo. Riu-se. Só nunca soubera como é que o avô fizera desaparecer a certidão de óbito do hospital, antes de esta ser enviada para o registo civil. Quando o avô tratara do primeiro bilhete de identidade e lhe pedira que assinasse o nome da amiga, ainda ela estava combalida com a morte desta. Era apenas uma miúda e o avô falara que tinham de fazer aquilo por causa da herança, mas ela nem entendera direito. Não só confiava cegamente no avô, como nem pensara em fraude na altura.

Só quando este estava a morrer é que ele lhe entregara os documentos, cartão de contribuinte, bilhete de identidade e documentos de uns terrenos que Érica herdara dos pais. Só então explicara detalhadamente a história toda. Dissera-lhe que uma ladra tinha sempre que ter um escape na vida.

Agora, naquele momento, à espera de novidades da Polícia Judiciária e de Carlos Farelo é que lhe dera para se lembrar daquilo tudo. Mas fora por causa daquela casa que usara, pela primeira vez, a sua segunda identidade. Íris lembrou-se que a amiga tinha dupla nacionalidade. Era americana devido à mãe e portuguesa por parte do pai. Ainda no ano passado fora chamada à embaixada americana porque estava em falta com a entrega de documentos e se não os entregasse e atualizasse arriscava-se perder a nacionalidade americana. Ainda se lembrava de lá ter ido um pouco constrangida a pensar que toda a marosca ia ser descoberta.

Todavia, tudo correra maravilhosamente. Fora muito bem recebida e informada de que precisava renovar com a Vanguard, a empresa tutora e gestora dos seus bens nos Estados Unidos, o contrato de gestão, porque estava a expirar o prazo. Eles tinham tentado encontrá-la, sem sucesso, e decidido enviar o contrato para a embaixada, por saberem que ela estaria algures em Portugal. A dificuldade prendera-se com o facto da mãe de Érica já não ter qualquer família nos Estados Unidos e de eles apenas terem na sua posse os documentos comprovativos de que ela era a herdeira da família, mas não possuírem qualquer documento ou assinatura dela. Érica precisava de lhes enviar tudo, devidamente assinado e validado pela embaixada, ou os seus bens reverteriam brevemente a favor do Governo americano.

A jovem rira-se na altura e dissera, a quem lhe estava a explicar a situação, que nem fazia a menor ideia que tinha herdado os bens da família da mãe nos Estados Unidos. A senhora lá lhe explicara que aquilo eram situações normais de acontecer quando ambos os pais faleciam subitamente. Pelos registos deles, fora o tutor de Érica quem entregara as certidões de óbito na embaixada, juntamente com os documentos de Érica para a realização do passaporte e para darem seguimento à restante documentação. Porém, quando o voltaram a tentar contactar tinham ficado a saber do seu falecimento e não tinham qualquer morada de Érica., pois o tutor vendera as casas da sua família em Portugal, ficando a rapariga apenas registada na morada do tutor. Só quando ela comprara o novo apartamento é que a tinham descoberto. Pois, regularmente pediam a Portugal a atualização das informações sobre os seus cidadãos desaparecidos em território português.

Érica, lá explicou que depois da morte do tutor, a quem ela chamava avô, alugara um quarto, por não se sentir bem a viver na casa sem ele. Por isso era normal que não tivessem uma morada dela. Depois mudara de cidade porque fora estudar Antiguidade Clássica na Universidade de Letras do Porto, também fizera lá o mestrado e o doutoramento. Eles tinham todos os registos dela. Afirmara, entregando à funcionária os comprovativos das suas vastas habilitações.

A mulher ia dizendo que entendia que ela achasse que não estava desaparecida, mas que os seus registos universitários, não iriam nunca parar à embaixada americana, sem eles pedirem isso diretamente à Universidade. Acontecia, simplesmente, que eles nem imaginavam que ela lá estivesse nem a estudar, nem a doutorar-se.

Por fim, já na posse de todos os documentos e depois de tudo esclarecido, a funcionária foi tratar de toda a papelada, garantiu-lhe que também enviaria todos os comprovativos e historial para a Vanguard uma vez que ela preferia que fosse a embaixada a tratar disso. Pedira-lhe ainda os dados das suas contas bancárias para enviar para a empresa e tirara os dados dos cartões de crédito de Érica para constarem na documentação oficial quer na embaixada quer na Vanguard. Por fim, perguntara-lhe se ela poderia regressar naquela tarde, pelas quinze horas, pois nessa altura já estaria tudo pronto.

Há hora marcada, Érica, mais descontraída e já à-vontade, estava de novo na embaixada. Esperou uns cinco minutos, mais coisa menos coisa, e, por fim, a mesma funcionária da manhã reapareceu. Trazia com ela uma série de documentos incluindo um e-mail impresso, enviado pela Vanguard, onde estes diziam que iam tratar de tudo e lhe enviariam nova documentação para a morada que tinham recebido.

Qualquer dúvida que ela tivesse podia contactá-los através do username e password que tinham enviado para o e-mail dela ou para os telefones que constariam no mesmo documento digital. Também enviavam os nomes e números dos gestores diretamente responsáveis pelo seu património. Avisavam, contudo, que os tramites e burocracias necessários à legalização da situação ainda levariam alguns meses.

Assim que Érica acabara de ler o e-mail, a funcionária entregara-lhe o seu novo passaporte, já com a fotografia colorida que ela tirara de manhã, bem como outra papelada a atestar a sua naturalidade americana e coisas afins. Por fim, pediu desculpa por a ter feito lá ir de manhã e de tarde, mas explicando que, no fundo, ela tinha sorte, pois normalmente aqueles procedimentos levavam semanas.

Quando a viu franzir o sobrolho, a mulher explicou um pouco atrapalhada que o tratamento VIP que ela estava a receber, ainda para mais através de uma conselheira de embaixada, se devia ao facto de ela ser cliente da Vanguard, o que a tornava numa pessoa relevante para  os Estados Unidos. Érica agradecera imenso toda a colaboração e ajuda, estava-lhes muito grata e pedia desculpa pelo trabalho que tinha dado à embaixada.

Já de costas, em direção à saída, voltou-se para trás e perguntou, pedindo desculpa previamente, porque não tinha a embaixada recorrido às Finanças. Esse seria o próximo passo deles, explicou pacientemente a senhora conselheira. Porém, era mais complicado porque ela também tinha nacionalidade portuguesa e requeria outro tipo, mais burocrático, de diligências, mas ainda bem que não tinha sido necessário.

Íris, levantou-se do sofá onde se enroscara e foi buscar um copo de vinho tinto. Há umas semanas, finalmente, tinha recebido a confirmação da Vanguard de que tudo se encontrava devidamente legalizado e aceite. Enviariam nas próximas semanas, via embaixada a documentação final. Ora, ela tirara hoje, ao subir para casa, uma carta da embaixada dos Estados Unidos, em nome de Érica, a solicitar a sua presença urgente na embaixada na terça-feira, dia dezasseis de agosto.

Íris, pela primeira vez, dera conta, de forma absolutamente consciente, que a mãe de Érica entregara uma fortuna a uma empresa multinacional gestora de bens, para poder vir atrás do homem da sua vida. Ela conhecera a mulher nos seus tempos de criança. A senhora falava um português com um sotaque muito americano, mas entendível. Não se lembrava de nada que a levasse a desconfiar ou a achar que esta possuía uma fortuna. Seria possível que o avô soubesse de alguma coisa? E como se tornara ele tutor de Érica?

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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