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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 21

A Felina - 21.jpgV

Érica Chandler Vidal

V

Diz o povo que gata escaldada de água fria tem medo. No entanto, este sensato ditado da sabedoria popular talvez só se aplique ao nível dos gatos domésticos. No caso da Felina, que incorporava uma pantera negra, a aplicação desta sabedoria secular parecia não ter uma correlação direta com a realidade. Íris, quanto mais a adrenalina subia e o calor a cercava nestas noites quentes, mais destemida ela se sentia neste escaldante e frenético mês de agosto, em que a magia da Lua Cheia lhe apurava os sentidos e aquela misteriosa sensação de cio.

A jovem resolveu que, agora que tinha passado a pasta da ação às autoridades, era tempo de relaxar. Já tinha tomado um duche para o efeito, todavia, o que lhe apetecia mesmo era um banho de imersão bem quente.

Para um apartamento pequeno que, afinal, não passava de um T1, o facto de ter uma casa de banho grande não se devia às maravilhosas habilidades de um qualquer construtor civil ou ao génio inspirado de um famoso arquiteto. Nada disso. Fora ela quem mandara ampliar a casa de banho e, para isso, prescindira do enorme closet que originariamente o quarto possuía.

O roupeiro embutido no seu quarto de parede a parede chegava-lhe bem para as suas necessidades. Tinha dois anos que ela comprara o imóvel ainda em fase de acabamentos. Tivera sorte, pois só a fachada frontal correspondia ao projeto original daquele prédio. A construção original resumia-se a isso mesmo: à fachada. O construtor mantivera-a de acordo com o desenho original do arquiteto, sem tirar nem pôr.

O seu T1, que já fora um T2, acabara por ficar muito barato. Primeiro porque, na altura em que o comprara, o construtor estava de corda na garganta. A pandemia de Covid-19 causara uma época de constrangimento financeiro e o mercado tivera uma inesperada paragem. Fora ali perto, no Café de São Bento, numa das últimas noites antes dos espaços noturnos serem obrigados a fechar portas pelo Governo, que ela escutara, enquanto degustava deliciada um fabuloso bife do lombo, a conversa aflita de um construtor que precisava de vender um dos apartamentos em construção sob pena de falir, antes de acabar as obras. Sentia-se facilmente a tragédia.

Íris, na mesa ao lado, parecia alheia à conversa entre o homem e o seu arquiteto. Porém, aparentemente, o sujeito precisava de desabafar e não se calava com as lamúrias e os azares. A certa altura o homem disse que se alguém lhe pagasse duzentos e cinquenta mil euros, por um dos apartamentos que ele ia vender, depois de pronto, por quatrocentos e cinquenta mil, ele vendia na hora. O relambório parecia inesgotável.

Podia não ter lucro naquele, mas salvava a empresa e conseguia aguentar a construção do restante, pois estava quase na fase dos acabamentos. Já tendo terminado o seu bife e enquanto esperava pelo café que solicitara, Íris, virara-se para a mesa do desanimado construtor e afirmara que, por aquele valor, se ela gostasse do local e do prédio lhe comprava o apartamento, com a condição de ser ela, com uma equipa sua a terminar o imóvel escolhido.

Ela ainda se lembrava do ar aparvalhado do sujeito a olhá-la boquiaberto. Abriu a carteira e estendeu ao homem o seu cartão de visita. Enquanto este o recebia atordoado ela acrescentava para ele lhe ligar quando pudesse ir ver a casa. Se gostasse, podiam assinar o contrato de compra e venda no mesmo dia, se é que ele tinha um preparado para assinar. Os dados dela estavam todos no cartão que lhe entregara. Mas com a condição de ser ela a terminar os acabamentos no apartamento escolhido, à sua conta e com uma equipa selecionada por si.

Ele não teria de gastar nem mais um tostão nesse apartamento, embora a licença de construção se mantivesse no seu nome. Seria tudo, daí para a frente, responsabilidade dela. Se assim fosse, quanto mais rápido o homem conseguisse marcar a escritura, mais rapidamente veria o resto do dinheiro que ficaria a faltar pagar depois do sinal entregue no contrato de compra e venda. Tomara o café de um golo, levantara-se, desejara boa-noite aos seus vizinhos de mesa, poisara dez euros para a gorjeta e recolhera a fatura do jantar, saindo das instalações.

No dia seguinte, às dez da manhã, já o construtor estava a ligar-lhe. Tinha o contrato quase pronto, faltava indicar o andar correto e pouco mais. Ele estava no local da obra, entre o número quatrocentos e quarenta e quatro e o número quatrocentos e oitenta e quatro da Rua de São Bento. A que horas poderia ela lá estar?

A jovem garantira estar na obra dali a meia hora e cumprira. Escolhera um apartamento T2 de esquina, no primeiro andar, no número quatrocentos e quarenta e quatro. Contudo, ao saber que por baixo, no rés-do-chão iria ficar uma loja, perguntou ao arquiteto se seria possível criar uma loja tipo quiosque, com apenas vinte metros quadrados na frente e uma entrada para uma garagem, lateralmente, ocupando o resto do piso zero, com acesso ao primeiro andar por elevador.

O homem parecia intrigado com a ideia, respondendo que seria possível se não existissem mais dois pisos por cima da casa dela. O segundo andar e um terceiro recuado. Isso impedia a existência de um elevador onde ela o desejava. Não havia como o implementar.

Porém, Íris não desistia, assim facilmente, das suas ideias. Indagou se os apartamentos por cima, no segundo e no terceiro piso, podiam ser transformados em duplex. Isso ainda era possível respondera o proprietário, antes de entrarem nos acabamentos, mas teria de ser já. Desta feita Íris quis saber da parte do arquiteto se, no caso de uma amiga sua também querer o elevador e tendo em conta que ela ficaria com os pisos superiores como duplex, se o elevador já seria viável. Claramente, dissera este, e a garagem ainda ficava com lugar para quatro carros e algum espaço para uma boa dispensa e lavandaria.

Satisfeita com a resposta, Íris, virara-se para o proprietário anunciando que se ele mantivesse o preço e que se ela e a amiga pudessem ficar com os quatro andares, ela estava em condições de assinar já, todos quatro contratos de compra e venda, em seu nome e da amiga, de quem tinha ali uma procuração para fechar já o negócio. No entender de Íris o construtor, a quem entregou a procuração, podia receber, nos próximos dias um milhão de euros.

O homem nem hesitou. Saiu disparado da obra, foi ao escritório e voltou quinze minutos depois com quatro contratos de compra e venda. As alterações e os detalhes à obra estariam prontos no ato da escritura. A secretária ligara para a Câmara Municipal de Lisboa e o Departamento de Urbanismo dera rapidamente luz verde às modificações já que nada alterava a fachada principal, já aprovada, do edifício. A escritura podia ser feita na semana seguinte, porque os registos notariais estavam com muito pouco serviço devido à pandemia.

Íris, perguntara ao arquiteto se era possível anular o closet previsto alargando a casa de banho do quarto para colocar uma cabine de duche ampla e uma banheira de jacúzi e este concordara em transformar o primeiro quarto e, num novo pedido, em ligar o primeiro ao segundo através de um roupeiro de parede a parede e até ao teto.

O que lhe fazia confusão era para quê um segundo elevador se o prédio já tinha um. Íris explicara que elas eram amigas de infância e sempre tinham vivido juntas. Aquilo era um novo passo. Continuariam a viver juntas, todavia, mais independentes.

O sujeito compreendeu o conceito e até achou graça. Porém, a rapariga ainda tinha mais umas alterações a pedir. O duplex da amiga não teria cozinha. Não era necessária porque a amiga ou comia com ela ou fora de casa. Odiava cozinhar. Enfim, meia hora mais tarde todos os pequenos detalhes e alterações ficaram anotados e combinados.

Íris fora ao seu carro, arrumado no parque de estacionamento em frente do prédio, trouxera uma mala e entregara, em dinheiro, meio milhão de euros ao construtor em troca dos contratos de compra e venda com o pagamento de cinquenta por cento já averbado. Levantara a verba no banco às nove da manhã, esclarecera, depois de ter ligado ao seu gerente de conta a explicar, à hora da abertura do banco, que o construtor da sua futura nova casa estava aflito com atrasos aos fornecedores e fizera-lhe um desconto importante na venda em troca de pagamento em dinheiro vivo.

Se o negócio não corresse bem, dizia ela, voltaria a depositar o dinheiro. Para além disso ela queria que a escritura mencionasse a verba de cinquenta por cento já paga, dividida pelos quatro contratos e as condições do desconto combinado nas vendas das propriedades. Assim, um dia, as finanças não desconfiariam da transação, pois não queria problemas.

A escritura fora efetuada na semana seguinte e ela ficara proprietária do número quatrocentos e quarenta e quatro da Rua de São Bento, embora em seu nome pessoal, no registo de propriedade, apenas constasse que possuía um T1 no primeiro andar, uma garagem e uma pequena loja no piso térreo. A loja fora transformada em escritório sem montra e o vidro apenas dizia: Íris Vasconcelos – Consultoria e Serviços Empresariais. Nada mais. Todavia, aquilo não era senão o seu escritório pessoal, ligado à casa, por uma porta nas traseiras que a conduzia à garagem e ao respetivo elevador pessoal.

O seu prédio fora entregue à Mota-Engil, para quem fazia serviços de consultoria e ficara pronto a habitar três meses depois, quase nove meses antes do antigo proprietário terminar os restantes apartamentos ao lado do seu. Este ano, em abril, o construtor telefonara a marcar uma reunião. Ela recebeu-o intrigada, mas o homem apenas lhe queria agradecer, uma vez mais, o facto de ela lhe ter salvo a empresa.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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