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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 20

 

A Felina - 20.jpgQuando um dos seguranças começou a dar sinais de vida já a jovem chegara com o carro ao portão. Tinha mudado de ideias. Não queria nem ouvir falar aquela gente. Parou junto da árvore onde tinha deixado o guincho, trepou agilmente por ela e com um leve puxão soltou-o e recolheu a corda. Depois passou tudo para a mochila. No primeiro contentor do lixo da Malveira da Serra deitou fora o comando do portão e a manta com a qual limpara as marcas do seu Dácia na propriedade.

Seguiu o mais depressa que pode em direção a casa. Parou na porta das traseiras e fez sete viagens para carregar o saque até à sua sala secreta. Guardou tudo nos devidos lugares. Fechou a casa e voltou a sair em direção ao seu pequeno apartamento na Rua de São Bento.

Uma vez aí, foi tomar um duche, pois sentia-se exausta. Finalmente, já sem o fato de Felina deixou-se cair no sofá. Olhou o relógio da mesa de cabeceira. Faltavam cinco minutos para a meia-noite. Estava excitadíssima com a aventura, ainda para mais em mais uma noite de Lua Cheia. Nem o alívio a que recorrera, de novo, com o chuveiro a aliviara suficientemente. Aquele golpe correra maravilhosamente e ganhara, em euros, mais do que ganharia com a barra de ouro que iria roubar no Museu Nacional. Assim, sem estar à espera, um bónus caído do céu. Era espetacular.

No geral o dia tinha decorrido da melhor forma. Estava muito satisfeita com todo o seu trabalho. Jamais imaginara que tudo pudesse correr tão bem como na realidade tinha acontecido. Aquilo também devia ter alguma coisa a ver com a Lua cheia. Isso sim, era bem provável. Ao soar a meia-noite pegou no telemóvel e ligou o número de Carlos Farelo. Bom, bom agora, era o Farelo fazer dela farinha ali na cama, pensou. A Lua cheia não a deixava descansar completamente. Ainda estava agitada.

Desta vez foram precisos dois toques para o Diretor Adjunto atender. Pela voz, Íris, entendeu imediatamente que o homem estava muitíssimo preocupado. O tom era entre quem tinha vontade de lhe dar um tautau ou de a abraçar aliviado. Ela não se importava nada de levar o tautau e até mesmo de o aliviar se fosse esse o caso. Uma mulher deve fazer sacrifícios nesta vida e ela estava pronta para isso.

     ­ ― Então, Íris, o que se passa? Já estava a Judiciária inteira pronta para partir à sua procura. A menina está bem? O que é que aconteceu? Ao fim da manhã não podia falar e nunca mais soube nada de si. A menina está mesmo bem? ― notava-se que o Diretor Adjunto estava genuinamente preocupado com ela. Até o tom de voz parecia diferente. Íris, achou-o um doce.

     ­ ― Bem, é que eu ontem não consegui ficar em casa. Estava demasiado agitada com isto tudo que me aconteceu. Ainda por cima uma situação à porta da antiga casa do meu pai. Vai dai, como conheço a zona, resolvi pôr-me no trajeto dos meliantes, caso esses quisessem fugir de Lisboa e conseguissem escapar à sua armadilha. O meu avô dizia sempre que o seguro tinha morrido de velho, sabe? ― informou a jovem tentando manter alguma ansiedade na voz.

     ­ ― Não devia ter feito isso. A menina nem arma tem. ­ ― Carlos Farelo estava deveras preocupado. O que fora a sua nova assessora fazer. ― Ora e depois? O que é que se passou?

     ­ ― Por sorte, acertei. Vi a carrinha Mercedes e os dois Opel passarem por mim, em direção à IC19, Mesmo no fim do bairro. Eu estava num cruzamento à espera e quase esbarrei com a carrinha que seguia à frente. Depois foi só segui-los com o GPS ligado... ― a voz de Íris parecia mesmo que tremia a contar o episódio. ― Quando passaram a Malveira da Serra percebi que estavam a chegar ao destino final. Feliz, descobri que tinha razão. Acabaram por entrar para uma quinta, que tinha um enorme portão verde à entrada. Eu parei duas curvas a seguir fora da visão deles. Voltei para trás a pé e tentei trepar o muro que cerca a quinta, mas não estava a conseguir. Por fim, por uma árvore junto ao muro consegui trepar e vi a mais de cem metros que eles estavam a chegar ao fim de um caminho iluminado a um enorme solar. Esperei uns minutos a ver se ficavam por lá e assim foi… ― narrava atrapalhadamente a jovem

     ­ ― Ó minha querida Íris. Nunca se meta em trabalhos desses e muito mais sozinha. A menina nem imagina o perigo que correu. A casa e o terreno devem ter como aqui em Lisboa câmaras de segurança, mulher de Deus. Tanta asneira junta… ― insistia o Diretor.

     ­ ― Mas o pior foi a seguir. Eu preparava-me para descer quando vi uma corda com um gancho voar por cima do muro, a uns quatro metros de mim. Apanhei cá um susto, meu Diretor, que o senhor nem imagina. Pela corda subiu uma mulher toda vestida de preto, com uma máscara de pantera negra na cara. Disparou uns dardos para as árvores em frente e desapareceu como um fantasma por entre elas... ― tentava explicar a rapariga o melhor que sabia.

     ­ ― O quê? A Felina? A menina viu a Felina? Ela tinha algo que… bem, algo que a identificasse? Diga lá… ― quis saber o Diretor Adjunto.

     ­ ― Não, nada. Apenas um macacão preto muito justo ao corpo, um cinto com coisas presas, luvas pretas, sapatilhas pretas e uma máscara de pantera negra na cara, com orelhas e tudo. Ah! Tinha um chicote preso de lado que ao chegar ao topo do muro passou para trás. Ficou mesmo a parecer uma cauda. Todavia, depois de desaparecer, não mais a vi. Ora, como não sabia onde ela estava fiquei algum tempo por ali, sem saber bem o que fazer… ― dizia a rapariga de um modo tão nervoso, que ainda parecia estar assustada.

     ­ ― Imagino o susto. Mas olhe, Íris, relaxe. O ficheiro da Felina só fala de roubos, nem sequer relata o uso de armas de fogo. Só me confunde o que estaria ela a fazer aí…? ― Carlos Farelo, no meio da surpresa, tentava descobrir uma razão para a presença da gata ali.

     ­ ― Quando vinha a descer da árvore caí mal e julgo ter desmaiado. Acordei muito assustada. Meti-me no carro e voltei para Lisboa. Já estava a chegar e ia para lhe ligar quando vi que não tinha o telemóvel. Tive de voltar para trás. Sem ele nem tinha como o contactar, Diretor. Posso confessar que fui muito amedrontada no caminho de volta à quinta. Mas era a única solução. Felizmente o aparelho estava mesmo onde eu tinha caído. Fiz meia volta e regressei a casa. Assim que me senti segura liguei para o Diretor ― disse, Íris, visivelmente nervosa.

     ­ ― A minha amiga nem imagina a sorte que teve dentro dessa aventura atribulada. Gabo-lhe a coragem e a ousadia, mas vai ter que me prometer que não volta a meter-se em trabalhos. Nem quero pensar no que lhe podia ter acontecido... ― comentou Carlos Farelo.

     ­ ― Enviei-lhe o GPS da quinta agora mesmo… ― retorquiu Íris.

     ­ ― A localização por GPS da quinta? A minha querida lembrou-se disso no meio de tanta confusão? Nem posso querer. A menina é inestimável. Vale muito mais do que aquilo que pensa. Dê-me um minuto, por favor. Vou enviar já isto para os serviços e avisar o Diretor Nacional e pô-lo a par. Temos de agir rapidamente, sabe? ― tentava explicar o homem, de forma apressada.

     ­ ― Nada disso, meu caro Diretor Adjunto. Vá diretamente ter com eles. Eu estou bem e estou em casa segura. Faça-me é um favor, quando regressar, seja a que horas for, venha falar comigo. Eu nem vou dormir descansada sem saber o que aconteceu. Foi agitação em demasia para uma estudiosa da Antiguidade Clássica. Promete? ― indagou Íris, quase exigindo uma concordância.

     ­ ― Se não conseguir dormir, faça-me um relatório com tudo o que se lembrar, mas por escrito, está bem? Caso não consiga terá de o tentar fazer amanhã de manhã. Pode ser?

     ­ ― Claro senhor Diretor. E vou fazer já. Trabalho é trabalho. Quando voltar terá o meu relatório pronto, passado a computador e assinado. Fique descansado, que eu sempre cumpro o que prometo. Ah! Já lhe enviei a minha morada. ― afirmou determinada a jovem.

     ­ ― Ótimo. Então, vou desligar. Descanse que eu prometi ir aí assim que isto acabar e vou cumprir. Tal como a menina, gosto de cumprir o que prometo. Um bom descanso, Íris.

A chamada terminou e Íris respirou fundo. Tinha conseguido justificar a ausência, durante horas, da sua pessoa, sem levantar a mínima suspeita. Foi para o computador e escreveu um relatório com os mesmos passos que tinha descrito. Aqui ou ali ajustou um ou outro detalhe, de forma a colocar uma sequência horária coerente e totalmente preenchida. Quando por fim terminou o relatório dava para entender que entre o final da manhã e a meia-noite ela não tinha conseguido nem sequer jantar.

Íris, releu o seu relatório, ainda fez mais uns ajustes finais, colocou a hora a que terminou. Eram precisamente duas e trinta da manhã. A Judite já devia ter chegado à quinta e estariam parvos com o que encontraram. O que ela dava para ser mosca.

Depois de imprimir o relatório, em folha timbrada, com o seu nome e com a designação de “Assessora Analista da Polícia Judiciária”, exatamente como tinha colocado na sua minuta de contrato, assinou a última folha e rubricou as primeiras. Eram nove páginas escritas de alto a baixo. Releu mais duas vezes e ficou com a certeza que não existiam incongruências, não queria ser apanhada que nem gata escondida com o rabo de fora. Em noites de Lua Cheia ter o rabo de fora não era uma boa ideia, pois podia fazer uso dele, ainda que indevido. Agora só lhe restava esperar pelo seu amigo da PJ, o Diretor Adjunto.

Luís Navas e Carlos Farelo tinham convocado o pessoal da Polícia Judiciária que já se encontrava ligado ao caso. O auditório estava com imensa gente. O organigrama já tivera como resultado a detenção de sessenta suspeitos. Contudo, ainda agora tinham começado. Já tinham sido apreendidas armas, imensa droga, malas de dinheiro entre outros itens relevantes.

O Diretor Nacional fez uma breve introdução e passou a palavra a Carlos Farelo. O Diretor Adjunto descreveu cuidadosamente o que lhe fora relatado pela Doutora Íris Vasconcelos.

No fim, conjuntamente com Luís Navas, foram distribuídas as ações de todos os envolvidos. Quem seguia de imediato para Sintra. Quais seriam os procedimentos a efetuar. Quem ficaria na Sede da Judiciária e quem saía para a rua para outras ações com os núcleos que ainda andavam à solta. Por fim, antes de todos abandonarem o auditório, O Diretor Nacional fez-se ouvir.

     ­ ― Boa sorte a todos nas missões atribuídas. Esperemos que pela manhã estejamos a festejar uma vitória plena contra o crime. Não façam nada que não seja dentro da estrita legalidade. Já entreguei aqui ao Diretor Adjunto, Carlos Farelo, os despachos do juiz para as buscas na quinta de Sintra e ao Diretor Adjunto, Cristianíssimo Milhares, do prédio devoluto na Rua da Fábrica, em Campo de Ourique. Os outros mandatos de busca para os núcleos ficam na posse da Diretora Adjunta, Maria Isa Benquerença. Quanto ao Diretor adjunto Leão Melro fica à frente da coordenação da ação aqui na Sede. No que a mim me diz respeito sigo para Sintra com o Diretor Adjunto, Carlos Farelo.

 

(continua no próximo capítulo) Gil Saraiva

 

 

 

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