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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 18

A Felina - 18.jpgA permitir a abertura para a entrada do solar encontrava-se uma grande argola de ferro forjado, na porta do chão, no centro, mesmo por baixo do enorme sino de bronze. Antes de verificar se este acesso estava trancado por dentro, a Felina, sempre em alerta, retirou do seu cinto de utilidades um pequeno frasco de plástico com um óleo lubrificante. Rapidamente aplicou o produto nas dobradiças e na argola e esperou que este se entranhasse.

Era o mesmo tipo de óleo que usava com fechaduras e cofres, para evitar que rangessem ou emitissem qualquer barulho que pudesse alarmar possíveis vigilantes. Com a ajuda de um pequeno pincel, retirado do mesmo local, tentou ao máximo introduzir o lubrificante entre a madeira e as zonas metálicas. O trabalho levava o seu tempo a atuar e era preciso ter paciência.

Íris não se sentia pressionada. Até ao momento as coisas, embora não tendo corrido na perfeição, não tinham apresentado riscos demasiados e tudo saíra quase conforme planeara. Só o uso excessivo do guincho é que a enervara um pouco. Tinha pouca prática com aquele seu novo gadget. Deixou passar mais um minuto. Estava na hora de tentar ver se aquela argola levantava a porta, sem ruídos.

Segurou a rodela de ferro e tentou elevar o pequeno patamar de madeira. Este cedeu à primeira, sem o mínimo barulho e, para sua alegria, sem uso excessivo de força. Seria possível que um fulano inteligente, como ela achava que o Jô era, tivesse uma entrada para um seu refúgio não vigiada, nem sequer trancada? Aquilo não lhe parecia normal. Tinha que estar atenta pois podia estar a caminhar para alguma armadilha. Existiriam câmaras ocultas que ela não vira?

Pelo que conseguiu entender o torreão dava acesso aos três pisos da mansão. Tentou a porta de acesso ao piso mais elevado. Ao procurar abri-la sentiu que esta poderia ranger. Parou de imediato e repetiu as mesmas operações que efetuara anteriormente. Quando voltou a tentar abrir a porta tudo decorreu com suavidade. Usou o aparelho térmico para ver se era seguro continuar. Não conseguia vislumbrar uma única fonte de calor naquele andar. Porém, como algumas paredes eram grossas, decidiu avançar com cautela. O seguro morrera de velho.

O piso era integralmente destinado a quartos de dormir. Uma escada de ferro, em caracol, tinha sido substituída por um elevador circular. Pelas dimensões a rapariga teve a certeza que fora mandado fazer por medida. Viu o logo e o nome da marca, Otis, uma marca americana, excelentes a fazer ascensores por encomenda. As paredes do ascensor eram de um acrílico grosso e transparente e as portas quase igualmente cristalinas, mas, contudo, pareciam feitas de um material diferente. Ou era um outro género de acrílico ou era vidro temperado. Tocou na superfície e teve a certeza que as aberturas em formado de meia-lua derivavam de um outro tipo de acrílico especial, mais leve e muito menos espesso que as paredes.

Contou doze quartos, todos com casa de banho. Pelo estilo tinha havido ali uma profunda renovação. Percebeu pelos detalhes à vista no corredor que tinham sido eliminados pelo menos seis aposentos. Possivelmente para dotar os quartos de sanitários completos. Umas escadas largas, de pedra, a meio do piso, faziam lembrar que continuava a haver acesso a pé para aquele andar e com toda a dignidade.

Pelo aspeto de todo o piso a rapariga percebeu que as quatro pessoas que detetara no pequeno edifício, ao lado da mansão, deviam ser aqueles que tratavam da casa. Toda a decoração era influenciada nos contos das mil e uma noites. A Felina descobriu facilmente qual era o quarto do big boss. A divisão tinha o dobro, talvez mais, do tamanho das outras. Uma lareira gigante sofrera algumas alterações e devia funcionar a gás. O vidro térmico na frente da mesma, mais a canalização de distribuição de calor, devidamente disfarçada com a decoração e as obras, provavam que, uma vez ligada, rapidamente aqueceria toda a divisão. Muito bem pensado aquilo.

Por cima da lareira estava uma réplica gigante de uma lâmpada de Aladim, ricamente decorada. Aquela era a peça central do quarto. Ao observá-la, a Felina, entendeu a sua atração. O objeto era de ouro maciço. A ornamentação era composta por esmeraldas, diamantes e rubis.

Linda de morrer, pensou. Não se podia esquecer de levar a peça como recordação, no final. Ia ficar ótima junto ao ouro do pai. Viu que a lamparina podia ser trocada por um jarro que se encontrava perto de uma janela.

Saiu do quarto a sonhar com a sua recompensa, contudo, rapidamente se concentrou. Para abandonar aquele andar a jovem fez uso das escadas de pedra. Estavam genialmente iluminadas por luzes indiretas e possuíam nichos nas paredes com armaduras medievais. Contudo, pelo género não se tratavam de armaduras europeias, mas árabes. Aliás, algumas eram armaduras, outras eram mais uma espécie de fatos de guerra, couraças e coisas do género. Lindas, bem conservadas e protegidas do pó por vidro, pintado nas bordas com motivos árabes ou arabescos delicados.

O primeiro piso também se encontrava vazio no que à espécie humana dizia respeito. Todas as dezasseis salas estavam fechadas à chave. Curiosa, como qualquer mulher no seu lugar, a Felina, habilmente, puxou do seu estojo e rapidamente abriu a primeira das divisões. O tesouro no interior era de fazer suster a respiração. Peças em ouro, marfim, obras de arte, ourivesaria diversa, havia de tudo. Para seu espanto aquilo quase que parecia uma sala de museu. Tudo se encontrava protegido por vitrinas, todas com alarme, e, aqui e ali, uns sofás de couro ou de veludo proporcionavam a observação das peças dos mais variados ângulos do espaço. Simplesmente espetacular.

Estava decidido, pensava a rapariga já depois de ter abandonado aquele andar e fechado a porta que abrira, teria obrigatoriamente que gamar aquele sujeito. Aquilo valia a pena. Só onde tinha estado deveriam existir uns milhões de euros em valores seguros. Uma delícia de sala e existiam mais quinze.

Curiosamente estava a chegar ao piso térreo sem ter visto uma única câmara de vigilância desde que entrara na mansão. Foi nesse momento que entendeu. Aquilo não se tratava de negligência, de falta de cuidado ou de atenção. Nada disso, aquilo era soberba, arrogância pura e destemida e um orgulho quase ofensivo. Como que desafiando qualquer incauto invasor a tentar algo. Aquilo era a imagem arrogante de Jô Muttley.

Ouviu vozes. Íris, pelo barulho originário de copos e talheres percebeu que ainda estavam a jantar. Olhou para o relógio. As nove da noite tinham já sido ultrapassadas. Sentiu o cheiro a charuto no ar. Afinal, já estavam nos digestivos. Quase a tinham equivocado. Encontrava-se perto de uma sala com umas grandes portas duplas, estilo árabe.

Achou graça à mistura entre o estilo do romantismo e a decoração e arquitetura árabe que devia ter sido implementada em meados do século passado. Como o barulho não vinha por detrás daquela porta arriscou entrar. Entrou, voltou a fechar a porta e deu conta de ter acedido ao salão principal da casa. Pela altura do teto, em que apenas agora reparava, entendeu porque tinha descido quatro lances de escadas e não apenas dois para chegar ao rés-do-chão. O pé direito era precisamente o dobro relativamente ao dos outros pisos. Realmente aquela mansão merecia um outro proprietário.

Sentou-se no grande sofá de couro, virado de costas para a entrada principal. Reparou que este rodava trezentos e sessenta graus. Giro e prático. Vinha mesmo a calhar. Voltou a ficar virada de costas para a entrada e de frente para a lareira. Na mão tinha a sua mini besta carregada com um conjunto de dardos. Era suficiente, pensara. Só lhe restava aguardar.

A porta abriu-se e as vozes dos seis elementos encheram a sala. Vinham bem jantados, bem bebidos e animados. O seu sofá rodou cento e oitenta graus. Foi a sua vez de se fazer ouvir, de mini besta armada na mão e apontada à entrada:

      ―  Sejam bem-vindos, cavalheiros. Tenho que informar que estes dardos estão mortiferamente envenenados. Qualquer movimento suspeito será o último que, aquele que o tentar, fará neste mundo. Sim, porque pelo além não assumo qualquer responsabilidade. Façam favor de se sentar. De preferência agradecia que mantivessem as mãos bem à vista e um sorriso no rosto. Afinal, a única que ainda não jantou aqui fui eu. Insisto, por favor, sentem-se.

Enquanto se sentava, dando o exemplo, Jô Muttley batia palmas, reagindo rapidamente à surpresa:

      ―  Simplesmente divinal e surpreendente. A menina é um must.

      ―  Boa-noite, senhor Muttley, não foi fácil dar contigo e com os teus fiéis amigos do peito ou devo dizer do bolso alheio? ― retorquiu Íris.

      ―  Estou a pensar como você o conseguiu… ― avançava Jô.

      ―  Hum, hum… sem ninguém me ajudar. ― respondeu Íris.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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