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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 17

A Felina - 17.jpgIV

NOITE AGITADA

IV

A Felina estava confiante. Conhecia o Concelho de Sintra razoavelmente bem, por isso viera equipada para o que seria normal encontrar na região. Todavia, nada indicava que teria uma tarefa demasiado difícil pela frente. Ela somente gostava de andar prevenida. Uma coisa era certa, desse por onde desse, já decidira continuar a trabalhar por conta própria.

Se a PJ continuasse a querer os seus serviços, enquanto consultora, podia muito bem manter o contrato. Mas mudar-se para a Judiciária, ficar sob a sua alçada e ordens estava fora de questão. Afinal, era a Felina, todos os gatos adoram a sua independência. Porque haveria ela de ser exceção?

A Lua Cheia só terminava no dia dezanove, às cinco horas e trinta e cinco minutos da manhã. Tinha que se portar bem durante os dias seguintes.

Seguir o GPS não fora tarefa complicada. O sobrolho de Íris só se arqueou quando entrou com a viatura por um dos acessos à Serra de Sintra. A Serra da Lua tinha demasiado arvoredo frondoso, majestoso, enfim, excessivamente grande. Isso podia causar-lhe problemas. A dada altura, o seu programa de GPS, deu a viagem por terminada. Do lado direito da estrada, a cerca de três metros desta, um muro de quatro ou cinco metros de altura parecia ladeá-la até ao infinito. Provavelmente acabaria uma ou duas curvas mais à frente, porém, a ideia que transmitia era de continuidade.

Durante uns minutos procurou um local para o carro. Encontrou um pequeno caminho à esquerda e, logo depois de entrar por ele, conseguiu esconder o carro entre arbustos e árvores frondosas. Arrumou e desligou a viatura. Tinha de conseguir fazer um bom reconhecimento do terreno. Do outro lado da estrada, a julgar pelo tipo de muro, situava-se uma quinta senhorial, daquelas antigas, tão comuns em toda a serra.

A localização, ainda no início de uma encosta, poderia ter sido pior. Quanto mais tivesse avançado, mais densa seria a vegetação e mais frondosa e compacta seria a floresta. Porém, o facto de ser uma propriedade antiga indicava-lhe que aquele muro ladeava toda a área abrangida pelo imóvel. Provavelmente iria precisar do seu guincho. Olhou para o relógio. Eram seis e meia da tarde e o Sol já não se via. Ainda tinha luz do dia, contudo, apenas por mais umas poucas horas. Tinha de aproveitar aquele tempo o melhor que podia. Já no lado direito da estrada acompanhou, a pé, o muro.

Uns cinquenta metros mais à frente, mais coisa menos coisa, um enorme portão de metal, completamente opaco, pintado de um verde garrafa, indicava a entrada dos domínios dos seus ex-vizinhos. A Felina regressou à viatura. Estava na hora de usar o drone. Chegada ao seu negro Dacia Duster SL Adventure, abriu o porta-bagagens e, seguidamente, ambas as malas do pequeno aparelho de voo, um DJI Inspire 2 Premium. Com o conjunto de quatro lentes DJI ZENMUSE X7 DL/DL-S, os outros assessórios e as baterias extras aquele brinquedo ficara quase em 23 mil euros.

Instalou o detetor de calor e infravermelhos, ligou o estabilizador Gimbal, a câmara Zenmuse X7 e colocou a memória SSD de 120 GB. Podia fazer um filme profissional com aquele equipamento. Aliás, este fora usado para uma grande parte das filmagens do Rali de Portugal. Era um drone de quatro hélices dos mais avançados à venda no circuito comercial. Colocou a máquina em funcionamento e fê-la ultrapassar o muro.

Os sensores de obstáculos permitiram-lhe desviar-se das árvores até chegar à casa. Agora a coisa exigia cuidado. Não queria que o aparelho fosse detetado. O detetor de movimentos estava programado para apanhar apenas movimentos do tipo mecânico, como, por exemplo, uma câmara de vigilância a varrer uma determinada área.

Os infravermelhos, a par com os detetores térmicos, permitiam-lhe descobrir onde estavam colocados sensores de calor, movimento, ruído ou sistemas de vigilância por meio de vídeo.  No caso de pessoas ou cães o ecrã do seu comando do drone apenas os detetava pelos sensores térmicos e de infravermelhos, mas não pelos de movimentos.

Pelo que conseguira ver até ao momento e para sua sorte, nenhuma das câmaras de segurança instaladas apontava para cima. Ainda não descobrira nenhuma que tivesse um ângulo de vigilância acima dos cinco ou seis metros do solo. Excelente situação. Bastava-lhe manter a máquina para lá desse patamar e operar com o zoom. Quanto a observadores humanos, guardas e afins aparentavam confiar no sistema de segurança e vigilância instalado. Não havia ninguém no exterior da mansão. Ajustou o sistema de deteção térmica e de infravermelhos.

Hum… estava mais gente na residência do que supusera. Contou um total de dez indivíduos. Bem, não era exatamente assim. Quatro estavam numa espécie de casinha ao lado da grande mansão e os outros seis dentro do edifício principal. Esse grupo encontrava-se localizado naquilo que ela deduziu ser o salão da mansão. Não existia pessoal disperso nas instalações. A jovem contou um total de quarenta e cinco câmaras e outros tantos sensores de diferentes tipos. Era uma boa altura para agir. Fez regressar o drone. Pacientemente arrumou tudo de novo nas malas e fechou a viatura.

Depois de retirar o casaco ou capa, tipo poncho, a Felina conferiu o equipamento do uniforme. Acrescentou-lhe o aparelho de deteção térmica e infravermelhos e o seu Samsung. Colocou o telemóvel no silêncio, não fosse o diabo tecer-lhe alguma partida e este, inadvertidamente, começar a tocar numa altura indevida. Acrescentou o guincho no espaço da mochila onde podia acoplar um anexo extra e sacou um conjunto de cordas de escalada. Estava em condições de tentar chegar à mansão. Satisfeita com a sua inspeção aproximou-se do muro.

Não precisou das cordas para alcançar o topo. Usara um cedro-do-buçaco como escada. A árvore utilizada passava os vinte e dois metros de altura e permitia o acesso ao muro com facilidade. Aliás, uma espécie de avenida ladeada destes cedros partia a uns quarenta metros da mansão e terminava perto do local onde se encontrava. Pelo que observara este caminho fora feito com a intenção de enfeitar o percurso até uma fonte de água que despontava de umas rochas encostadas à parte interior da pequena muralha.

Todo o trajeto estava ajardinado, bem arranjado, numa composição que intercalava uma diversidade de fetos com flores. Parecia uma passadeira de natureza criada para proporcionar o romance entre humanos. Devido a alguns bancos de granito no caminho, a Felina deduziu que a sua origem era bem remota, mas tudo indicava ter sido propositadamente mantida até à atualidade. A árvore que usara para aceder ao muro era por certo filha ilegítima desta avenida propositadamente programada, algures no passado. A gata riu interiormente dos seus pensamentos.

Para percorrer três quartos do caminho apenas necessitou da corda com o gancho, que trazia consigo. Os cedros, todos bem perto dos trinta metros de altura, estavam próximos uns dos outros. Nalguns casos, conseguiu mudar de árvore sem precisar de nenhum equipamento.

Descocava-se a uns dez metros do solo. Deste modo tinha a certeza que não seria captada na sua incursão pelas câmaras de vigilância. O último terço da viagem, contudo, já a obrigou a usar o guincho por três vezes. A última delas para aceder ao grande torreão, com campanário, situado do lado direito da mansão. Numa vasta área em frente do solar não existiam árvores altas.

O seu relógio marcava as sete da noite quando entrou no compartimento do sino. Mesmo assim, embora o trajeto não fosse demasiado difícil, devido ao abuso nas cautelas, levara bastante tempo para completar aquela mini viagem de pouco mais de cento e cinquenta metros.

O acesso às escadas que desciam do campanário era feito ultrapassando uma porta, no solo de lajes de pedra, feita de carvalho maciço. Dera-lhe imenso trabalho transpor a câmara instalada no campanário, sem ficar ao alcance da mesma. O que lhe valeu foi o facto de esta estar a apontar para baixo e não a direito. Se fosse esse o caso, não teria a mínima hipótese de entrar na casa pelo campanário ou torre sineira.

Pelo tipo de propriedade apostou que originariamente seria um campanário. Todo o cuidado na geometria dos jardins e do pequeno bosque dentro de paredes, apontavam para que o primeiro proprietário tivesse sido um abastado membro do clero. Notava-se que a construção do passeio romântico, desde o portão da entrada até ao casarão e os caminhos do pequeno bosque, com os bancos e recantos escondidos eram obras mais recentes.

Bastava olhar para a estatuária dispersa pelo terreno, e notar que a mais antiga era absolutamente de cariz religioso, anjos, cenas da bíblia e coisas assim, e a mais recente, talvez de finais do século dezoito, era toda ela brindada pelo movimento do romantismo, com algumas cenas bem capazes de fazer corar um padre. Por isso o campanário deveria ter sido adaptado a torre sineira quando a propriedade passou para a alçada da nobreza, o que justificava ver Apolo e Afrodite, em pé, envolvidos numa cena de amor por cima do pequeno telhado da torre, em vez da cruz original que o campanário devia ostentar nos primeiros tempos.

Com muito cuidado verificou se o guincho mantinha a segurança até à arvore mais próxima do casarão, por onde chegara, a uns quarenta e três metros de distância, do lado esquerdo de quem se aproximava do edifício. Estava firme e bem seguro. Porém, não lhe servia assim. Levou uns minutos a soltar o arpão do guincho e a montar uma argola armadilhada para prender o cabo. Se não saísse por ali, já seria simples recolher o cabo e o arpão.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 16

A Felina - 16.jpgNo dia seguinte, Íris, acordou tarde. No seu telemóvel tinha uma mensagem, enviada às oito da manhã do seu amigo da Judite. Caramba, o diretor adjunto dormira pouco. Era uma frase curta pedindo para ela o contactar quando lhe fosse possível.

Com efeito, Carlos Farelo, nem imaginava que ela já sabia que a tentativa de apanhar o bando correra mal. Olhou para as horas. A manhã já ia a meio, brevemente seriam onze horas. Levantou-se, foi tomar um duche e, como a sua pressa era relativa, aproveitou o chuveiro de mão para aplacar a sua libido demasiado assanhada naqueles dias de Lua Cheia. Por fim, recomposta, tomou um pequeno almoço leve e sentou-se na sua secretária. Olhou para as horas novamente. As onze e meia tinham passado havia uns segundos. Ligou para o charmoso da Judite. Um pouco velho para ela, pensou. Talvez sessenta e três ou quatro, mas sem dúvida um poço de charme.

     ― Bom-dia Íris. Estava à espera da sua chamada. Era para a informar que a armadilha de ontem falhou. Descobri, através de um cartão SD, que o bando deixou para trás, que um dos meus inspetores estagiários resolveu espreitar da esquina do prédio e foi apanhado pelas câmaras do gangue. Tanto trabalho para nada… ― explicava Farelo. ― Mas não se preocupe que havemos de apanhá-los.

     ― Meu caro Diretor, neste momento não estou em condições de poder falar. Demasiados ouvidos por perto. Mas eu sei onde estão. Depois explico melhor, assim que puder falar à vontade. Escutou o que acabei de dizer? ― replicou Íris.

     ― Agora fiquei de pulga atrás da orelha. Assim que puder volte a ligar. E Íris… obrigado por me pôr a par. ― avançou o Diretor muito intrigado.

     ― Acabei de lhe enviar um organigrama. Espero que isso lhe seja útil. Neste momento não posso falar muito mais, Não estou num sítio seguro. Entende? ― indagou Íris.

     ― Cuidado. Não corra demasiados riscos. Estamos a falar de assassinos profissionais. Por favor, não faça nada que ponha a sua vida em risco. Fico a aguardar por mais notícias, ligue-me assim que lhe for possível. Até mais… ― disse Carlos Farelo, desligando.

O Diretor Adjunto estava sem saber o que pensar. Como é que a rapariga sabia onde eles estavam? Aquela jovem estava a demonstrar-lhe que o seu instinto para descobrir talentos continuava bem vivo. Pelo pouco que esta dissera, ela encontrava-se numa situação sem muita segurança. Isso era evidente. De repente deu consigo a pensar que a sua nova colaboradora podia estar numa posição de exposição ao perigo. De súbito, lembrou-se que ela lhe enviara um organigrama. O que seria?

Carlos Farelo assobiou baixinho. A imagem explicava toda a orgânica do gangue. O número de elementos, as zonas de atuação e a alcunha do líder de cada célula. Aquilo era uma mina de ouro. Como teria ela conseguido tais dados? Tinha que falar imediatamente com o seu chefe. Havia ali matéria para que pudessem voltar a apanhar o fio à meada.

Ligou pelo telefone do serviço para o Diretor da Judiciária. Com sorte, Luís Navas, poderia estar disponível para falarem. Do outro lado da linha Navas confirmou que podia recebê-lo de imediato. Só tinha que se ausentar da parte da tarde. Pela voz entusiasmada do seu adjunto a conversa devia ser importante. Farelo, agradeceu e desligou o telefone.

Sete minutos mais tarde estava sentado em frente à secretária do líder. Na mão direita trazia uma folha de papel A2, enrolada num tubo de cartão, que mandara imprimir nos serviços próprios, a caminho dali. Estava “on fire” para ver a reação do chefe. Tinham ali algo de precioso. Entregou o rolo a Navas e manteve-se em pé à espera que o outro o abrisse e o colocasse exposto em cima da secretária. A cara de Luís Navas mudou de expressão. Onde tinha o outro conseguido aquilo? Indagava agora, espantado, o Diretor da Polícia Judiciária.

Carlos Farelo, com um ar orgulhoso, levou vinte e três minutos a resumir toda a situação. Começou a conversa com o convite feito há três anos à Doutora Íris Vasconcelos. Seguiu-se o recente contacto desta e a sua decisão de a colocar ao serviço da PJ como assessora, depois do relato que esta fizera, contando as suas descobertas. Sabia que não devia ter deixado o testemunho do estudante de fora da investigação, mas perante a relutância da jovem, preferira arriscar, a correr o risco de perder aquela fonte.

     ― Fizeste bem, Carlos. Da maneira como a conversa decorreu, caso tivesses incluído o puto era bem provável perderes a nova assessora. O que sabemos sobre ela? ― indagou Navas.

     ― Tenho aqui o ficheiro dela, Luís. Mandei atualizá-lo tem dias. Dá para ver que a rapariga é um prodígio. Ela tem assessorias com doze universidades, sete das quais são estrangeiras. Ora repara… ― explicava Farelo, apontando para as duas mais famosas universidades inglesas, seguidas das rivais americanas e continuou ― Há ainda, Sorbonne francesa, mais essa italiana, a grega e a brasileira. ― Mas não se fica por aí. Até no Parlamento Europeu ela tem uma assessoria Ao todo, contando connosco, são dezassete assessorias. O nosso contrato com ela entra em vigor a um de agosto, assim que ela assinar o contrato. A minuta é dela, nós apenas o adaptamos aos nossos termos. Olha ali… doutorada aos dezassete anos. Digo-te que esta mulher é um prodígio e um verdadeiro achado.

      ― Estou a ver, digo a ler. E o senão? Há sempre um senão nestas situações. Qual é o dela? ― queria saber Luís Navas.

     ― Bem… ela não tem nada no Registo Criminal, mas quer o pai, quer o avô constam na nossa base de dados como possíveis ladrões. Nunca foram apanhados em nada, mas estiveram como considerados suspeitos mais de uma dúzia de vezes. Porém, ambos morreram de cancro em 2012. O avô, pelo que consta nos ficheiros era um carteirista respeitado no meio e o pai foi considerado suspeito nalguns dos mais importantes casos ligados ao furto de ouro. Nem sei se a Íris Vasconcelos tem conhecimento deste seu passado familiar. Afinal, eles morreram tinha ela dezassete anos e uma vida de estudos muito, mas muito ocupada. O que te parece Luís? ― indagou, Carlos, curioso.

     ― Acho que tens razão. Ela não sabe desses detalhes do passado dos seus ascendentes. Prova disso é que aceitou ser nossa colaboradora. Fizeste bem em iniciar o contrato desde o princípio deste mês. Dada a relevância da doutora é bom que ela tenha iniciado a colaboração antes do caso presente ter sido ativado. Além de que estamos dentro da legalidade desde que ela ainda assine o contrato em agosto e apresente pelo menos um relatório até final do mês... ― expôs Navas.

     ― Foi o que eu pensei. Ainda bem que concordas. Já temos outros casos semelhantes. Por isso avancei. ― explicou Carlos.

    ― Vou desmarcar a minha agenda para esta tarde. Este organigrama vai precisar da Diretoria de Lisboa e Vale do Tejo a trabalhar em pleno e em colaboração com a Unidade de Informação Criminal e a Unidade de Prevenção e Apoio Tecnológico, bem como o Laboratório de Polícia Científica. Isto à primeira vista. Mas podemos precisar de mais recursos ainda. Pelo que acabei de contar este bando tem cento e cinquenta elementos, não contando as prostitutas e os outros contactos nacionais e internacionais. Meu caro Farinha, vou tratar de convocar toda a gente. Ah! Ainda precisamos do apoio do Instituto de Polícia Judiciária e Ciências Criminais e convém convocar os outros três diretores adjuntos. Ena, ena… vou reservar o auditório. Isto já é muita gente e ainda nem começámos.

     ― Espero que a malta esteja pronta para alguma ação a valer. Algo me diz que vamos ter que nos fartar de dar ao pedal… ― falou Carlos Farelo, quase como quem pensava para os seus próprios botões e não notara que estava a falar em voz alta.

     ― Isto é tudo malta rija. Aliás, tu sabes. Penso até que para um caso destes não vão faltar voluntários entre os inspetores. Anda todo o mundo saturado com as investigações de colarinho branco, mais as desportivas. As coisas não atam nem desatam nesses campos e nota-se o cansaço nos investigadores. É só burocracia e mais burocracia. Uma verdadeira maçada. Isso sim é que é de pôr os cabelos em pé a muita gente… ― replicou, Luís Navas, que ainda parecia mais farto, do lento andamento da justiça nas investigações económicas e desportivas que inundavam a PJ, do que os próprios inspetores.

     ― Com efeito, Luís, tens toda a razão. Deviam arranjar uma polícia especial só para isso. Assim… do mesmo modo como fizeram com a ASAE. Arranjavam umas dúzias de engravatados para lidarem com os criminosos de laço e gravata e estava tudo na paz dos anjos... ― concordou Carlos Farinha ainda a rir da ideia do chefe. Era uma luta mais justa, fraque versus smoking. ­ ― Acho que ia gostar de assistir, de fora, a uma batalha dessas.

 

(continua no próximo capítulo) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 15

A Felina - 15.jpgO que Carlos não sabia era como se iria justificar à sua nova consultora. Como explicar a fuga dos meliantes? A Doutora Íris poderia pensar que eles eram pouco mais do que uma corja de amadores. Todavia, tinha até ao dia seguinte para pensar nisso. No entretanto, iria esperar que os seus homens abandonassem a zona e posteriormente tentaria, ele sozinho, sem testemunhas, dar uma vista de olhos ao prédio ao lado. Tinha trazido um conjunto de gazuas e ia fazer uso delas.

Agora tinha que ir explicar aos inquilinos a fuga dos bandidos e combinar as mudanças do dia seguinte. As novidades foram recebidas com alívio pelos moradores. Todos preferiam que as coisas se tivessem passado daquela forma. A ideia da possibilidade de tiroteio no edifício tinha-os deixado extremamente nervosos. O fim pacífico era, de longe, a melhor de todas as soluções. Para além disso os mais velhos estavam felizes por ir inaugurar um lar e os outros alegres estavam por mudar para as novas casas sociais da Câmara Municipal de Lisboa. Para todos eles a solução encontrada significava uma melhoria na sua qualidade de vida.

Carlos Farelo esperou que todos os seus colaboradores abandonassem as instalações. Um deles trouxera o seu carro até ali e seguira com os outros. A malta da PSP, da esquadra próxima, a quem ele pedira colaboração também já tinham saído do prédio. Por fim ele saiu igualmente. Meteu-se na sua viatura e andou uns metros até ao portão do prédio vizinho. Parou e já fora do carro junto ao prédio dos bandidos, tentou abrir a fechadura do portão.

Vinte segundos depois, já dentro da garagem, fechava o portão por onde entrara. Deu duas voltas inteiras ao edifício, verificando cada divisão. Naquela vistoria rápida não encontrou nada de comprometedor. Na divisão de controle da vigilância faltavam os cabos de ligação às câmaras e o portátil com o programa de vigilância. Sem isso seria difícil saber onde estavam colocadas, a não ser com uma busca, durante o dia, àquela zona. Contudo, a busca parecia-lhe inútil.

Já vinha a sair, mesmo no final daquela segunda ronda, quando reparou que o computador de secretária, que fora formatado, tinha uma das entradas da frente ocupada por uma memória SD, toda preta.

O cartão mal se via, ali enfiado na frente negra do computador. Retirou-o e guardou-o no bolso. Por fim regressou à garagem e dali, pelo portão, retornou ao exterior. Tudo ficara exatamente como estava a quando da sua entrada. A sua única pista era aquele cartão SD que retirara, do computador formatado, mesmo antes de sair. Podia até estar vazio. Só saberia no dia seguinte. Farelo entrou no seu carro e conduziu em direção a casa. Era já muito tarde e aquela noite fora um desapontamento.

A Felina sentia-se viva nestas noites estivais de Lua Cheia. Este ano o seu aniversário calhara na última noite de Quarto Crescente, como se, ela própria, às duas e trinta e seis da madrugada, do dia doze, tivesse parido a Lua cheia. Era como se o seu espírito de gata, de pantera negra, despertasse para uma nova realidade, plena de vigor e de energia. Naquelas noites sentia-se capaz de tudo. Nada de muito complicado, aliás, ela apenas se achava capaz de conquistar o mundo. O exagero da sensação fê-la sorrir, mas aquilo era sério. Seria possível que a Lua Cheia a pudesse transformar numa gata com cio?

Na realidade, nas noites de Lua Cheia, era quando mais sentia a falta de um macho. A vontade de se enrolar numa guerra dos sentidos ganhava quase uma ansiedade absurda e despertava nela uma sexualidade animal e uma sensualidade totalmente humana. A mulher prática, independente e racional dava lugar à Felina. Um animal de sentidos despertos, disposta a submeter-se aos avanços masculinos como se não fosse possível resistir-lhes. Era uma transformação e tanto. Ela reconhecia que aquele era um ponto fraco da sua personalidade, desde que despertara para a sexualidade que as noites de Lua Cheia lhe incomodavam o espírito e o raciocínio.

Íris, no meio dos seus pensamentos, julgava mesmo que fora por essa razão que escolhera a designação de Felina para assinar os seus trabalhos. Contudo, este era um segredo só seu, algo absolutamente íntimo, que nunca transcrevera para lugar algum. Não podia, acontecesse o que acontecesse revelar os seus pontos fracos.

A jovem sorriu para si mesma. Era um pouco ridículo que a Lua, tão longe tivesse um tão forte poder sobre a sua personalidade. No entanto, era inegável que a cada Lua Cheia lhe acontecia o mesmo fenómeno.

Num abanar de cabeça, como que a sacudir aqueles pensamentos, voltou à realidade. Tinha que se recompor ou ainda acabava a noite a miar num qualquer telhado de zinco quente. Com esforço recapitulou o que estava a fazer. Não se podia distrair quando estava a tratar de um regresso à quinta de Jô. Conferiu o que fizera até ali. No final, considerou que estava com tudo organizado. Já podia seguir viagem para Sintra. Tendo guardado na sua viatura as malas, uma com o drone e outra com os acessórios, ela estava pronta para partir. Por via das dúvidas, voltou a verificar tudo mais uma vez, não queria comprometer o seu trabalho por ter estado com pensamentos tolos e devaneios.

Os equipamentos do drone estavam na bagageira. Reviu igualmente todo o equipamento pessoal ligado ao fato de trabalho e à mochila de acessórios. Conferiu o plano que tinha traçado e depois foi verificar a viatura. Ficou satisfeita por estar tudo em ordem. Por cima do seu fato de trabalho trazia um casaco comprido, de verão, que apenas servia para disfarçar o armamento. Era uma mistura entre uma túnica e um poncho mexicano, cheio de cores e largo o suficiente para o retirar com facilidade. Sorriu. Um dia bom aquele.

O armamento pesado encontrava-se numa mochila de combate no porta-bagagens. Na sua carteira, no carro, tinha a documentação correspondente à Iris. Acrescentara à cintura um maço de tabaco Marlboro adulterado com cianeto. Matava quem fumasse um daqueles cigarros em segundos, talvez minutos, porém, ainda não tinham sido postos à prova.

Os três primeiros cigarros tinham uma marca preta, pequena, feita no filtro com caneta de feltro, para identificar os cigarros sem veneno. O veneno começava apenas meio centímetro depois da ponta do cigarro. Isso dava tempo de quem os fumasse ganhar confiança.

As suas chaves pessoais, com cópia da chave do carro estavam presas ao seu fato, mas, um conjunto das chaves do pequeno apartamento de Iris, que mantinha na Rua de S. Bento, estavam na ignição, na mesma argola que a da viatura. O tablet, o Galaxy Tab S8+ Ultra e o Portátil ACER ConceptD 7 Ezel, estavam arrumados, bem como os respetivos carregadores, no apêndice que poderia ser acoplado à delgada mochila das suas costas.

Um saco de viagem, no banco traseiro trazia os seus produtos de higiene e a roupa de viagem. No espaço do airbag do passageiro encontrava-se um segundo uniforme completo, com um duplicado de tudo o que trazia no primeiro. Já o dinheiro, caso fosse preciso, encontrava-se em bolsas incorporadas nos dois fatos de trabalho.

A Felina sentia-se pronta. Tinha a sensação que lhe faltava algo, mas não. Estava tudo conferido. Ligou a ignição e apontou a viatura em direção à IC19. Eram horas de se fazer anunciar num casarão, algures em Sintra. Conectou o carregador do seu localizador de GPS à bateria do carro. Instalou o visor no espaço próprio do tablier e esperou que este lhe indicasse o caminho. Sorriu. Jô Muttley ia ter uma enorme surpresa. Ela tinha a certeza disso.

Durante a viagem a jovem foi recapitulando a sua estratégia. Tinha vindo preparada para qualquer tipo de obstáculos. Nos diferentes equipamentos que vinham na bagagem havia um pouco de tudo. Cordas especiais de escalada, arnês, arpoões de fixação que trabalhavam bem com a sua mini besta, detetor noturno de infravermelhos que podia ser conectado ao drone, dardos especiais com veneno mortal ou atordoantes, etc.

Trouxera até um guincho portátil. Não tinha grande autonomia. As baterias eram leves e o aparelho era quase todo à base de fibra de carbono e alumínio. Conseguia lançá-lo e fixá-lo por intermédio da sua besteira, porém, só era útil para pequenos trajetos, mesmo em esforço, nunca o poderia usar para mais de 50 metros. Cada bateria tinha uma autonomia de 10 minutos. De qualquer maneira trouxera 3 baterias carregadas. Para além disso, o aparelho, pelo facto de ser móvel era bastante limitado, suportava o peso dela com o fato completo e cerca de apenas mais quarenta e cinco quilogramas.

Contudo, podia nem precisar de usar um guincho. Não tinha que se preocupar com isso neste momento. Afinal, fosse como fosse, primeiro tinha de rever o local. Ora, para isso, ainda tinha que chegar lá. De repente uma luz no seu cérebro fê-la parar o carro na beira da estrada. A culpa era da Lua Cheia, só podia. Ela não podia agir naquela noite. Já tinha decidido ir fazer a inspeção durante o dia. Durante a noite não tinha como detetar o sistema de defesa e vigilância da quinta. Irritada fez meia volta e regressou a casa.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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