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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 11

A Felina - 11.jpg

     ― Hum… depende, se a Íris me permitir incluir no relatório que as fotos e toda a informação é sua, como fonte original da investigação, eu nem preciso de saber quem é o rapaz. Agora, o busílis é que teria de ter um androide destes da Samsung… ― refletiu, em alta voz, o Diretor Adjunto.

     ― E tenho, comprei mal saíram. Só que ainda o tenho na caixa. Todavia, posso configurá-lo e meter lá o cartão de memória com as fotos. O modelo do cartão é o mesmo. Basta-me criar uma pasta própria com as imagens, retirá-las da pasta das recebidas e renomeá-las para foto um, dois e três, etc.. Até tenho uma boa desculpa para lá ter estado à noite. Posso dizer que fui guardar umas bugigangas fora de uso no apartamento do meu pai. ― Felina fez uma pausa, como que a deixar o Diretor Adjunto a pensar, e concluiu: ― O que lhe parece, senhor Diretor, a proposta tem o seu aval?

A resposta demorou alguns segundos. A Felina aguardou paciente pela mesma. Era normal que, por um lado, para o sujeito, omitir uma testemunha podia ser complicado.

Embora no caso não parecesse existir qualquer problema, até porque ela é que inventara o estudante de arqueologia, no entanto, para o homem da Judite era, sem dúvida, no mínimo, uma alteração dos acontecimentos.

Ele teria de confiar que ela nunca mudaria aquela versão dos factos para não o deixar a ele em muitos maus lençóis. Por outro lado, a situação era ótima para Íris. Das duas, uma: ou o Diretor Adjunto tinha confiança absoluta na sua nova colaboradora que, como testemunha para o processo, seria muito mais credível nos autos do que as declarações de um estudante, ou ainda tinha dúvidas, e isso indicava-lhe que era melhor voltar atrás naquele acordo de consultoria com a Polícia Judiciária. Os dados estavam lançados.

Do outro lado da chamada, Carlos Farelo, estava a meditar no mesmo dilema. Aceitar a proposta de Íris até lhe convinha mais do que enfiar com um estudante como fonte de informação, porém, era evidente que usando essa versão ficava dependente da sua nova consultora.

O mais grave é que fora ele que se colocara naquela situação sem dar bem conta disso. A proposta partira de si, quase como desculpa para dizer que tinha de seguir os regulamentos e, portanto, envolver o rapaz. Não podia adivinhar que ela já possuísse o androide necessário para tirar fotos com pouca luz. Aquilo fora um erro seu. Um enorme erro.

Para piorar as circunstâncias, confessar à sua nova consultora que não confiava inteiramente nela, tendo sido ele próprio a propor a marosca, para avançar com a nova versão dos acontecimentos, iria, certamente, minar a confiança que esta parecia depositar em si. Mas que grande merda que ele criara e sem necessidade alguma, afinal, Íris, até lhe dissera a verdade dos factos. Podia muito bem ter dito que o miúdo teria obrigatoriamente de prestar um testemunho, por muito curto ou rápido que fosse, para não o hostilizar. Mas não. Armara-se em Dom Quixote, disposto a ajudar a atraente jovem a não meter a testemunha em trabalhos. Pensara com a cabeça de baixo, isso sim, mas que grande chatice. Bem, tinha que dizer alguma coisa à rapariga, aquele silêncio estava a ser confrangedor.

     ― Desculpe a espera, Íris. Tive um imprevisto de serviço imperativo a que tive de responder. Ainda aí está? ― indagou o Diretor Adjunto.

     ― Claro, meu caro Diretor. Eu entendi que alguma coisa devia ter acontecido e não estou com pressa. Não tive qualquer problema em ter de aguardar um bocadinho. Quanto à sua ideia e à minha proposta, em que ficamos afinal? ― questionou, Íris.

     ― Ficamos bem. Facilita o trabalho e salva o seu aluno de ter de prestar declarações. Porém, fica-me a dever esse favor. Na devida altura, se a ocasião se proporcionar, eu cobro-lhe o jeito que lhe dei. Estas coisas têm de acontecer de forma equilibrada, não lhe parece? ― indagou, fazendo-se divertido, o Diretor Adjunto.

     ― Absolutamente, meu caro Diretor. Aliás, eu nunca deixo um favor por pagar. Pode cobrar quando lhe parecer mais conveniente. ― disse Íris e continuou: ― Porém, veja lá o que cobra…

Carlos Farelo riu-se. Interrompeu a sua nova consultora com uma gargalhada e prometeu que a cobrança estaria sempre incluída no campo do razoável e dentro daquilo que fosse possível realizar por parte de Íris.

     ― Contudo, se eu não gostar da cobrança, posso sempre argumentar que foi o senhor Diretor quem me meteu nesta alhada. Em última análise a proposta não foi minha. ― Felina soltou um risinho malandro. Era a sua vez de dar a entender ao homem que sabia bem em que trapalhada ele se tinha enfiado. ― Não lhe parece, meu caro?

     ― Com efeito. Realmente a proposta foi minha. Fui enfeitiçado por uma voz encantadora e despertei tarde demais. ― confirmou o diretor, acusando o toque subtil vindo do outro lado da linha. ― Estou a brincar. No caso presente temos os elementos todos de que necessitamos e a presença do jovem para depor não é realmente indispensável. O procedimento não é muito católico, todavia, a Polícia Judiciária também não é nenhuma igreja.

     ― Ainda bem, senhor Diretor. Até porque, embora eu nada tenha contra as diferentes fés dos povos, já sobre as instituições que as orientam a minha confiança não é das melhores. É algo que já vem da Antiguidade Clássica. Algo que a minha visão científica dessas instituições sempre me ensinou a desconfiar. Ora, eu não ponho em causa a Judiciária, nem aceitaria uma consultoria se pusesse. Podem até existir umas maçãs não muito saudáveis dentro da Judite, mas essas exceções não são, nem fazem, a regra.

     ― Sendo assim estamos combinados. Íris, vou pôr as coisas a andar. Com os vizinhos do seu falecido pai em perigo de vida, não temos muito tempo. Por favor, não se esqueça de me enviar o seu currículo e as cópias dos documentos para fazermos o seu contrato… ― solicitou o Diretor Adjunto.

     ― Já mandei. Tenho sempre essas coisas em ficheiro, prontas a serem enviadas. Até enviei uma minuta do meu tipo de contrato habitual e as verbas que pretendo auferir, não quero receber à peça, mas uma avença mensal. Os serviços administrativos da Judiciária que depois adaptem a minha minuta aos seus termos concretos. ― informou a Felina, concluindo: ― Aproveitei a pausa que teve de fazer na nossa conversa para tratar logo disso.

     ― Ora, muito bem, isso é que eu chamo de eficácia. Fique descansada, farei chegar tudo aos recursos humanos. ― confirmou o diretor.

 

(continua no Capítulo III) Gil Saraiva

 

 

 

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