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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 8

A Felina - 8.jpgQuase por instinto descobriu o que se passava. Alguém importante estava para chegar. Aquilo eram preparativos para receber um chefão. Hum… isso queria dizer que o Pintas se associara a uma organização superior à sua anterior pandilha. Essa era uma informação muito interessante. Pela azafama, a chegada, deveria acontecer ainda naquele dia. Iriam eles buscar o líder ou ficariam ali à sua espera? Esse também era um dado importante.

A Felina manteve-se atenta. Às sete da tarde uma carrinha Mercedes conduzida pelo Pintas saiu da garagem. Parou e ela viu os outros quatro elementos a entrarem na viatura. Esperou que eles saíssem da rua enquanto envergava o seu fato. Rapidamente colocou-se nas traseiras do prédio agora sem ninguém. Tinha que ser ligeira, embora tivesse deduzido que, para terem saído àquela hora os outros ainda iriam jantar em algum lado antes de regressarem ao covil. Se tudo fosse como pensava teria tempo para agir.

Não querendo facilitar verificou que apenas havia uma câmara nas traseiras a apontar para a porta dos fundos. Depois de uma pequena busca com o olhar localizou uma janela apenas encostada no primeiro piso. Com a besta lançou um dardo para a zona lateral da janela. Para seu alívio a parte do dardo onde estava soltada uma roldana, por onde passava uma linha de pesca ficou virada para baixo. Um carreto, previamente preso no seu braço direito, fizera desenrolar o fio de pesca na perfeição. Tinha consigo as duas pontas da linha.

A jovem cortou ambas as pontas e numa delas prendeu uma das suas cordas ultraleves. Começou a puxar pelo fio e, em breve, tinha consigo as duas pontas da corda. Desfez-se do fio de náilon e procurou um local para prender uma das pontas da corda. Sempre com o cuidado de não ser detetada pela câmara que apontava para a porta das traseiras, prendeu a corda num ramo largo de uma velha figueira a uns dois metros, ou menos, das paredes do edifício. Conferiu se o ramo estava são e com resistência.

Agora sim, podia trepar. Verificou a resistência do dardo enterrado na parede e pareceu-lhe que aguentaria. Levou menos de um minuto a entrar pela janela. Mais uns oito a dar a volta, por dentro, ao edifício. Tudo cheirava a novo. Paredes pintadas ou forradas a pladur e depois revestidas a papel, chão polido e envernizado, móveis novos. Tudo bem equipado.

Aparentemente só por fora se mantinha o aspeto de abandono e degradação. Aquilo fora feito, certamente durante a sua ausência, enquanto fora ao Brasil e voltara. Devia ter sido uma grande equipa. Com um pequeno cálculo achou que nunca menos de quinze trabalhadores teriam sido necessários para realizar tudo aquilo, talvez mais. Isto sem contar com o fator descrição, que era importante.

Facilmente descobriu a ligação da água à rede pública da EPAL antes do contador e pelo quadro elétrico que vira instalado, de novo, na parte de trás da casa, a poucos metros de um poste da REN, podia apostar que era ali que estavam a ir gamar a eletricidade à EDP. Tudo muito bem trabalhado. Aquilo denotava bastante dinheiro investido. Finalmente dirigiu-se à sala da segurança, a qual não passava de uma dispensa adaptada. Verificou que havia vinte câmaras instaladas, todas em redor da casa, uma nas traseiras, quatro em cada lateral, cinco da parte da frente e quatro direcionadas para a entrada do seu prédio. Não existia vigilância interna.

No entanto, pelos planos que vira na mesa de comando, a vigilância ainda estava apenas no princípio da instalação. Demorou pouco mais de dois minutos a conseguir entrar no disco com as gravações. Estas começavam na véspera da sua chegada do Brasil, mas depois de correr rapidamente cada dia, ainda não existiam provas de que ela morava no terceiro andar do lado.

Vinha já a sair da sala quando reparou no organograma da parede lateral, meio tapado pela porta aberta. Fechou a porta e fotografou o esquema total da organização. Aquilo era um presente extra. O grupo tinha cerca de mais vinte e quatro elementos ligados àquele comando de seis homens, contando com o chefão, e depois mais vinte brigadas de seis homens espalhados em toda a área da Grande Lisboa e Vale do Tejo. Ao todo o bando teria uns cento e cinquenta elementos. Cada um dos vinte e quatro elementos chefiava uma brigada e cada cinco brigadas formavam um núcleo com mais um elemento a chefiá-las. Uma enorme organização.

Ainda impressionada com o que vira, a Felina foi à procura do local onde estaria o armamento. Encontrou-o na garagem. Por precaução procurou câmaras, mas era evidente que essa fase ainda não chegara.

Ali, concretamente, já se viam os cabos e os apoios onde iriam ser instaladas as diversas vigilâncias. O armeiro era protegido por uma parede de rede, do chão ao teto, com uma porta do mesmo material fechada por um cadeado, bem no fundo da garagem.

Libertou a porta do cadeado em segundos, com um sorriso, verificou o armamento, que era demasiado, mesmo para um grupo tão grande e que já devia estar armado e fotografou tudo o que viu de interesse. Não haviam ainda outros carros na garagem, apenas duas motos de mil centímetros cúbicos, que ela fotografou, matrículas incluídas. Depois instalou com todo o cuidado as trinta cargas e respetivos detonadores que trouxera consigo. Todos estrategicamente colocados de maneira a poderem fazer desabar o edifício se isso viesse a ser preciso. Descobriu ainda, numa mesa de apoio, que a sede do bando era em Sintra, mas no papel faltava a morada. Na posse dessa morada seria mais fácil desmantelar o bando.

Continuando, verificou se as cargas estavam escondidas e longe do alcance de alguém que localizasse uma delas. Em seguida conferiu se tudo estava igual a quando chegara e fez o mesmo nos outros dois pisos. A existência de todos quartos com dois beliches cada, no segundo andar, fê-la ter a certeza que se destinavam a vinte e oito prostitutas distribuídas pelos sete quartos. Aliás, aquele piso não tinha salas, apenas cozinha e duas casas de banho arranjadas de raiz. Instalou ainda câmaras suas, bem escondidas, na casa.

Era evidente que iam usar o andar para colocar as prostitutas mais valiosas. O primeiro piso tinha quatro quartos, um, pelo fausto da decoração, via-se que era para o chefe do bando, um outro, pelo intenso cheiro a loção de aftershave 1 Million, era o do Pintas, e os outros dois deviam ser repartidos pelos outros restantes quatro elementos do núcleo, pois que cada um tinha duas camas de corpo e meio mais um mobiliário tipo IKEA.

Finalmente, já com tudo fotografado, regressou à janela por onde entrara na casa. Serrou o dardo rente à parede e aplicou uma massa branca a tapar a zona onde ele tinha sido cravado, era quase da cor da parede, mesmo assim, aproveitou o pó acumulado na parte de cima da janela para disfarçar a marca. Ficou um trabalho bem feito.

Atirou a corda para um local fora do ângulo de filmagem da câmara, e guardou a parte de trás do dardo com a roldana, na mochila de onde tirara os explosivos e os detonadores. Encostou a janela, tal como a encontrara e preparou-se para o salto. Não era fácil, tinha apenas uns trinta centímetros de beiral e estava a três metros e meio de altura. Saltando, com alguma sorte podia cair bem, mas o contrário, naquelas condições, também era provável. Foi então que reparou que, com algum impulso, podia fazer um mortal para cima da caixa de eletricidade recentemente instalada no chão das traseiras e depois com outro mortal aterrar no chão, longe da câmara.

O salto, assim, seria bem menor, dois metros e vinte de altura até à caixa elétrica e depois mais um salto de um metro e trinta até ao chão. O problema era o primeiro impulso, não tinha como ganhar pelo ar a distância até à caixa que ainda estava a cerca de metro e meio da parede da casa perto de uma árvore do lado esquerdo e do poste da REN do direito.

Antes de efetuar o salto atirou com a mochila para umas ervas, tentou ganhar momento com os braços e os músculos do tronco, mais a mola que estimulou nas pernas para flexão, colocando no último instante os pés na esquina do pequeno parapeito da janela, lançou o mortal e sentiu-se a voar, aterrou com as pontas das sapatilhas nas bordas laterais da caixa, a zona mais resistente e projetou o segundo salto. Finalmente, no chão, aliviada pela sorte que tivera, apanhou a corda e a mochila, apagou os seus rastos e saiu dali.

Mais do que tudo, a Felina, vinha satisfeita com o seu salto. Continuava em forma. Nunca tentara algo assim, com tão pouca margem para conseguir obter o impulso necessário para um pulo daqueles. Todavia, todos os seus músculos haviam respondido na perfeição. Ela sabia que, na teoria, a cabriola era praticável, mas nunca treinara algo parecido, nem jamais se vira naquela situação e o seu coração ainda não abrandara.

A tarefa era possível, mas até a caixa da eletricidade poderia ter cedido com o seu peso e atirá-la ao chão. Contudo, o facto de ter conseguido colocar os pés nas bordas salvara, e de que maneira, o segundo mortal. Para além dos detonadores e dos explosivos e das câmaras ela ainda instalara mais uma câmara na dispensa transformada em sala da segurança.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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