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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 6

A Felina - 6.jpgDos outros três apenas um outro lhe parecia familiar. De repente fez-se luz, era o Skinkid, um jovem de vinte anos, que liderava um grupo de marginais associado à direita radical. Era estranho vê-lo ali, ele era conhecido por atuar na zona de Setúbal. Os três já tinham sido notícia, um deles em manchete, no Correio da Manhã. Aliás, o jornal diário era uma fonte preciosa sobre o crime, melhor do que ele apenas as bases de dados da PJ e da PSP. Talvez o SIS e a GNR também tivessem boas bases, mas isso era-lhe desconhecido, pois nunca necessitara de espreitar nenhuma das duas.

Porém, tinha que reconhecer que não havia crime que se tornasse público que não viesse descrito no matutino, muitas vezes com detalhes que pareciam vir das próprias fontes criminosas ou das da investigação. O que teria acontecido para irem para ali, a meio do Verão, os novos vizinhos? Pelo que ela sabia, pelos menos aqueles três, tinham mandados de captura emitidos, contudo, andavam à vontade, quase no centro de Lisboa, como se nada fosse. Era incrível, aquilo. Tinha que ter cuidado e agir com alguma celeridade. Era inaceitável ficar a viver ali com aquele tipo de vizinhança. A Felina estava preocupada. Não era hábito nos grandes bandidos, ainda mais sendo conhecidos, andarem assim, à luz do dia, sem tomarem as devidas precauções, pelo menos numa zona com a sua. Todos os seus instintos lhe diziam que corria perigo. Quando estivera no prédio ao lado, a instalar as suas câmaras, detetara pelo menos uma dúzia de câmaras, todas muito bem disfarçadas, que deviam fazer parte do sistema de alerta dos novos residentes. Tudo lhe parecia indicar que eles não queriam vizinhos. Se ela descobrira doze câmaras deveriam ser, pelo menos o dobro. Umas quatro estavam viradas para a entrada do seu prédio. Era provável que eles já tivessem um conhecimento total de quem ali vivia. Não descobrira câmaras noturnas do lado deles, enquanto ela, por seu turno, tinha várias. Precisava de pensar numa estratégia.

A possibilidade de eles decidirem verem-se livres dos vizinhos era elevada e ela era jovem demais para ser abatida tão cedo. Estava a dois dias de fazer vinte e sete anos. A jovem tentou pôr-se no lugar dos outros. A efetuar um ataque ao prédio a melhor altura seria no início da noite, mas possivelmente quando, em princípio, já todos dormissem.

Talvez entre a uma e as duas da manhã. Podia até acontecer um pouco mais cedo. Resolveu criar uma margem entre a meia-noite e as três da madrugada. Este horário parecia-lhe ser o mais provável, tendo em conta que não conhecia bem os hábitos deles. No entanto, eram seres noturnos, pelo que o seu cálculo não devia estar muito errado. Em termos de acesso, como não sabiam que tinham sido detetados iriam usar, por certo, a entrada principal ao seu prédio. Ela habitava o último andar, do lado direito. O esquerdo estava fechado há dois anos. Resolveu instalar mais umas câmaras e sensores térmicos e de movimento em todo o seu edifício.

Para sua sorte esse tipo de material abundava na sua oficina secreta. Não teria de ir às compras. Decidiu passar todos os seus artigos principais para o compartimento secreto. Contudo, à cautela, deixou as coisas de maneira a parecer que continuava a fazer uso regular de toda a casa. Dali para a frente passaria também a usar a casa de banho da sala secreta. Só não tinha banheira, mas o duche até era bem melhor do que o principal da casa. Deixou os produtos de higiene pessoal na casa de banho dela e levou novos para a secreta. Começou a sentir-se mais segura.

Decidiu, não fosse o diabo tecê-las, passar a usar a kitchenette do esconderijo, mas deixando a cozinha com ar de uso. Montou a cama que fora do pai na sala escondida. Passaria a dormir ali. Verificou como estava o aspeto do roupeiro que dava acesso ao seu covil e fez algumas reparações, necessárias para que não se detetasse o acesso secreto. Finalmente, sentiu-se bastante satisfeita consigo mesma.

Lembrou-se que fora verificar as câmaras de vigilância porque sentira um novo cheiro, muito ativo, na vizinhança. Tratava-se da 1 Million, a loção aftershave da marca Paco Rabanne. Fosse quem fosse que a usava exagerava naquilo. Para o seu nariz era como se a pessoa tivesse tomado um banho integral na loção. Cheirava-lhe a coisa de Pintas, mas sem certezas.

À medida que os dias fossem passando ela iria fazendo os melhoramentos necessários para dar conforto total ao seu novo habitat. Para já a situação estava muito bem assim. Por fim, mais descansada, a gata recolheu ao seu esconderijo.

Agora, teria um pouco de tempo para respirar. Ia aproveitar para tratar do seu quinto e mais recente uniforme. Acabara de chegar do seu fornecedor no Brasil, fazia pouco tempo. Desta vez mandara juntar mais umas bainhas para colocar seis facas de arremesso Kunai, três por perna, acima dos tornozelos. Manias de uma gata. O seu pensamento regressou aos novos vizinhos. Tinha de descobrir quem eram os outros dois. Ter informação sobre o inimigo era sempre muito importante e quanto mais detalhada melhor seria. Dirigiu-se ao computador e retirou das filmagens as caras dos outros dois que não conhecia. Formatou os retratos para o tipo de ficheiros que lhe interessava.

Essa parte era simples. Íris, estava habituada a captar imagens de filmagens e a formatá-las conforme o que pretendia obter delas. Ligou o seu programa de rasteio de fisionomias, e foi diretamente para a parte de identificação de rostos. Uma obra prima dos serviços secretos americanos. Um dos seus atrevidos roubos quando, no ano passado, pirateara a central informática da sede da CIA.

Entrou na base de dados da PJ. Ultimamente usava a identificação da Diretora Adjunta, Maria Isa Benquerença, para aceder aos programas e ficheiros da Judite. Ligou a base ao seu programa de identificação de rostos. Os resultados apareceram rapidamente. Os dois bandidos eram: o China e o Cabinda. Duas boas peças. Ambos tinham bastante atividade registada.

O China era um português de raça chinesa, nascido em Macau em oitenta e três. Viera para Portugal, com a família, em dezembro de 1999, logo após a República Popular da China tomar posse do território a vinte de dezembro. Nessa altura, aos dezassete anos. Havia no seu ficheiro a informação de que o seu cadastro tinha então sido limpo, mas que este estaria longe de ser um santo ou algo de semelhante.

A suspeita desta operação recaía sobre um elemento que na altura pertencia aos altos cargos portugueses em Macau. Porém, a investigação tinha parado por falta de provas concretas. Já em Portugal o historial do China era imenso. Jogo ilegal, falsificação de documentos, tráfico humano, redes de prostituição e nos últimos anos era procurado como assassino profissional, perito em artes marciais e mais uma série de fraudes fiscais.

O Cabinda, que era o último por identificar, tinha trinta e cinco anos. Nascera em Angola, filho de pai português e mãe angolana e era um mestiço claro, com dupla nacionalidade. A alcunha provinha do facto de ser um violador sem escrúpulos, com um membro descomunal, de onde lhe vinha a alcunha, como se estivesse sempre pronto para a ação graças ao pau de Cabinda.   O homem acumulava ainda crimes como traficante de droga e de armas e era procurado como suspeito de quatro assassinatos. Aos trinta e seis anos de idade já possuía um vasto currículo criminal. Íris, teve vontade de assobiar de espanto. Que lindo grupo de bandidos.

O Pintas, o Cossaco, o Skinkid, o China e o Cabinda, portanto, um chulo, um guarda-costas da máfia, um marginal radical de direita, com uma faca de ponta e mola sempre pronta a saltar, um traficante assassino e um violador que traficava de armas formavam um grupo demasiado heterogéneo para ser real. Faltava ali alguma coisa. Ela ainda não tinha a certeza o que era, mas aquilo não batia certo.

Por exemplo, como é que um puto racista e xenófobo aceitava ser parceiro de um chinês e de um mestiço? Um outro caso confuso era o que levava um chulo asqueroso a liderar assassinos e traficantes do piorio? Aquilo não lhe parecia certo. Subitamente fez-se luz no cérebro da jovem. Faltava um líder, o Pintas devia ser um número dois e o controlador das meninas, o Cossaco seria provavelmente o executor, o Skinkid, enquanto puto de rua, tinha todo o perfil para ilustrar um traficante, o China hipoteticamente estaria metido no jogo ilegal e no tráfico de pessoas, e ainda era possível que fosse o contabilista do grupo, quanto ao Cabinda, drogas e principalmente armas eram a sua praia.

Era evidente que ali só faltava o chefe da matilha. Depois, bem cada um deles devia ter a cargo uma série de elementos que coordenavam. Até podiam ter ações conjuntas planeadas pelo líder, mas o que lhe parecia era que aquele grupo representava a segunda linha de comando de um bando grande. Alguém estava a criar uma máfia.

Pelo tipo de indivíduos, todos egocêntricos, a cola que os juntava e os fazia funcionar enquanto grupo estava, por certo, na chefia.

 

(continua no Capítulo II) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 5

A Felina 5.jpgAquela carta fizera-a correr rios de lágrimas por uns dias.

O pai tinha razão, pensou mais tarde, as relações e as amizades tardavam a aparecer. A parte sentimental não corria bem. Tivera um namorado no circo, um dos trapezistas, mas fora uma coisa sem paixão, apenas sexo puro e duro. Existira ainda um outro em Paris e mais um logo aos dezoito anos, mas tudo situações sem chama, sem alma, sem amor. Irritava-lhe o facto de os homens serem burros da cabeça aos pés. Viam uma gata, sentiam-lhe o cheiro e pronto, deixavam de usar a cabeça de cima. Tinha orgulho de nunca ter sido apanhada em ação. Muitos dos seus assaltos e roubos apareciam nos jornais, mas todos apenas com uma pista sobre o culpado, uma moeda.

Porém, ela agia de noite, nas horas perfeitas em que todos os gatos são pardos. Sempre evitara testemunhas. Mas a descrição, no Correio da Manhã, de uma ladra vestida de gata parecia contrariá-la. O diário já relatara uns vinte e sete trabalhos seus. Felizmente, muito pela rama, com alguns testemunhos pouco significativos. Certos relatos diziam ter visto, nas proximidades dos locais furtados, uma mascarada disfarçada de gata.

A Felina não sabia muito bem se aquilo era o jornal a tentar adivinhar ou se estava relacionado com a moeda de cobre que ela deixava, após cada trabalho, com um baixo relevo de uma pantera de um lado e uma cabeça de felino do outro, em todos os locais de crime por onde já passara. Era uma imagem de marca que evitava, um dia, ser acusada de algo que não fizera. Aliás, pela moeda, a polícia conhecia bem os seus crimes. Esta fora criada logo no início primeiro ano em que ficara sozinha. Para não chorar a morte do avô, em demasia, viajara até ao Chile, uma viagem que estava marcada ainda antes do falecimento do velhote. Era menor de idade e este tivera que a autorizar. Quando o homem morreu pensara em cancelá-la, porém, alterara as suas ideias. Mudar de ares ia ajudá-la a esquecer a sua imensa mágoa.

Tivera como herança uma enorme maquia e partira para o Chile com quatro cartões de crédito bem carregados. No deambular que fizera pelo país descobrira, numa povoação perto de Toconao, um mito sobre um enorme gato preto que, entre várias transformações e peripécias, salvara a alma de um homem condenado.

Aquele mito, ali, perto da fronteira chilena com a Argentina e a Bolívia, no interior profundo do Chile, associado a um incontável número de mitos do país que envolviam mulheres, quase todas elas misteriosas e muitas delas bem mazinhas e vingativas, constituíra o caldo para a criação da Felina, ainda durante aqueles trinta dias de turismo e lazer.

Ao viajar novamente para o litoral, a sua passagem por Chuquicamata, a caminho de Tocopilla, junto à costa, fê-la descobrir algumas das grandes minas de cobre do país. Numa espécie de feira ou mercado de rua, quando estava a escolher uns adornos de cobre, um dos artesãos perguntou-lhe porque não fazia ela algo personalizado, só dela. Eles ali tinham grandes fundições e fábricas de moldes para o cobre. Daí a mandar fazer cinco mil moedas de cobre, do tamanho das de dois euros, fora um ápice. Escolhera o desenho das duas faces e pagara mil euros pela encomenda toda. Em ambas as faces constavam, em relevo, a palavra Felina e uma imagem de pantera. Algo bem na linha dos seus super-heróis.

Ela já tinha decidido dedicar a sua vida ao roubo daqueles que possuíam mais do que deveriam e aquela moeda seria a sua imagem de marca. Como não queria andar os restantes quinze dias da viagem com o peso das moedas atrás, tratou com os fabricantes, os exportadores e as autoridades o despacho da mercadoria para a sua morada em Portugal.

Com o pagamento dos serviços, impostos e taxas nos dois países a brincadeira acabou por lhe custar o dobro do preço inicial. Todavia, se compasse com o preço de fazer aquilo em Portugal, acabara por pagar uma verdadeira pechincha.

Recebera a encomenda com a designação de artefactos de cobre na sua morada três semanas depois do seu regresso a Lisboa. Para sua sorte, talvez devido ao pouco valor comercial da carga, a encomenda não fora aberta nem verificada na alfândega em Portugal, pelo que não havia quem tivesse ficado a conhecer o seu segredo. Fora um risco, mas o que importara mesmo é que o conteúdo chegara anónimo a sua casa, não havendo ninguém com conhecimento do recheio daquela caixa de madeira. Fora um amigo da Alfândega quem lhe dera o conselho. O risco valera a pena.

Desde a sua infância a Felina tinha hábitos que evitava quebrar. O principal era dormir entre oito a dez horas. Atualmente o horário variava entre as quatro e as seis da manhã e as duas ou quatro da tarde. O sono, garantia-lhe, no seu entender, o ar jovem, que muito lhe agradava.

Descobrira há pouco tempo que a sala secreta da sua casa correspondia a um apartamento de uma só assoalhada nos outros pisos do prédio. Por isso o seu andar só tinha dois apartamentos e não três. Grande jogada a do seu pai, só mesmo um ladrão profissional para se lembrar de fazer num andar, numa zona desfavorecida de Lisboa, uma divisão secreta.

Passara os últimos tempos, desde que regressara do Brasil, a preparar um golpe no Museu Nacional de Arte Antiga. Ela queria a barra de ouro de dez quilos da exposição dos tesouros de Lisboa, cedida propositadamente para a mostra pelo Banco de Portugal. Sabia, por exemplo, que a peça não tinha alarme de pressão, ou seja, podia ser trocada por uma peça oca e com o mesmo formato sem que isso fizesse disparar qualquer alarme. Ora, a reprodução oca e dourada da barra já ela possuía.

Estava a demorar um pouco mais de tempo com o planeamento, porque, ultimamente, várias coisas se tinham metido de permeio, atrasando o seu trabalho principal. Contudo, a exposição ia demorar mais dois meses, pelo que ela ainda não estava preocupada com esse assunto.

A Felina saiu da casa de banho e olhou para as horas. Eram cinco e pouco da tarde. Voltou a recordar a sua atual preocupação. Recentemente, as suas câmaras de vigilância tinham detetado uma atividade invulgar na vizinhança. Não dera por ela antes por ter estado um tempo ausente no Brasil a tratar do seu último fato de trabalho furtivo. Porém, era evidente que alguém se encontrava a viver no prédio devoluto ao lado do seu. Há umas três noites atrás instalara cinco novas câmaras a cobrir as entradas mais óbvias do prédio vizinho e a coisa compensara. Eram, pelo menos, cinco os homens que ocupavam o prédio. Ela identificara imediatamente dois. O Pintas, um chulo sem princípios, que geria uma rede de prostituição na baixa de Lisboa, e o Cossaco, um russo enorme conhecido por fazer de guarda-costas de figuras mafiosas, que parecia agir como braço direito do primeiro.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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