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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 4

A Felina 4.jpgQuanto ao cinto, tinha de tudo. Podia encontrar-se uma fina máscara preta de seda elástica que lhe cobria a cabeça, apenas deixando ver os olhos e a boca, que usava quando ia trabalhar, tendo o detalhe engraçado de ter duas saliências a imitar orelhas de felino, onde guardava umas ampolas de gás do sono, como lhes costumava chamar. Possuía até um estojo de gazuas ordenadas por tipos, dois conjuntos de quinze lâminas ninja e uma zarabatana articulada, acompanhada do respetivo carregador de vinte e cinco minúsculos dardos incluídos no equipamento. Ah! Não convinha esquecer a sua imagem de marca, a moeda da Felina, com o nome Felina em relevo, por baixo de cada imagem, em ambas as faces.

Para complementar a indumentária trazia, às costas, uma fina mochila negra, com cordas especiais, leves, mas muito resistentes, mais umas quantas ferramentas utilitárias. Uma mini besta de quinze centímetros, com vinte e quatro dardos, estava segura na sua coxa esquerda, porque na direita ou atrás das costas transportava um chicote feito de uma mistura de kevlar e seda natural. Usava tudo com a destreza que dois anos e meio anos de treino intensivo no Circo Vitor Hugo Cardinali lhe tinham dado e onde adorara estar, principalmente junto dos trapezistas e dos mestres da ilusão.

Cada braço e antebraço tinham uma espécie de pulseiras, presas ao fato, onde estavam encaixados uma série de dardos, com venenos do lado esquerdo, ou com ampolas de perfumes concentrados do lado direito. Toda a sua indumentária evoluíra imenso naqueles nove anos, não estivesse ela sempre a inovar e à procura dos novos e mais modernos gadgets do mercado. Atualmente, com os seus ténis especiais, todo o seu equipamento junto já não chegava aos cinco quilogramas de peso, contudo, a sua ambição era atingir os três, naquele fato térmico que se podia usar em qualquer estação do ano.

Outra descoberta boa, que fizera no primeiro ano em que encontrara aquela divisão, fora o cofre com o ouro. O seu pai não confiava em notas, tudo o que adquiria trocava pelo brilhante metal. Era grande, de parede, com a altura de uma porta, oculto por uma das estantes.

Este fora mais um acaso que acontecera por ter querido dar à divisão um estilo próprio, seu, feminino e agradável. Teria o pai contado com isso?

Nas arrumações e mudanças dera com o cofre logo ao quarto dia. Levara três dias para o conseguir abrir sem o danificar, mas valera a pena, dentro estavam duzentos e cinquenta quilogramas de ouro de vinte e quatro quilates em barrinhas de cem gramas, o que, ao preço de mercado, valia bem mais do que treze milhões e meio de euros, e uma carta do pai dirigida a si. Aquela verba, somada às suas próprias economias e restante herança do avô, chegava para não mais ter que trabalhar, mas ela adorava o seu ar de pantera negra e sentir a adrenalina invadir-lhe o corpo sempre que executava mais um golpe. Por outro lado, a carta do pai fora das coisas mais marcantes da sua vida. Rezava assim:

“Olá, minha querida filha, tenho a certeza que és tu quem está a segurar esta carta. Mais ninguém, para além de ti, descobriria esta divisão. Deves ter tido um golpe de sorte mesmo assim, mas como sempre gostaste de tudo limpinho e à tua maneira, não me admiro em demasia com a descoberta.

Quanto a mim, e sempre o achei, penso que o teu feitio e esse constante aprumo aguçam o teu instinto natural que eu nunca soube explicar, mas que é bem presente em ti. Quanto tempo levaste a descobrir o cofre? Uns meses?

Talvez menos porque deves ter querido dar ao espaço a tua personalidade, já a abrir este cofre, onde eu coloquei esta carta, eu calculei uma semana. Afinal, fui eu que criei esta fechadura, que a desenhei, para que fosse intransponível. Porém, conhecendo o teu afinco e teimosia, aposto que demoraste uma semana, não? Se foi mais estás fora de forma, o que é contra a tua natureza, se foi menos, por cada dia que conseguiste tirar à semana, o meu assombro dobra na admiração que tenho por ti.

Este cofre tem uma base falsa na prateleira mais perto do chão, descobre a forma de a abrires e lá dentro tens um caderno, feito à moda antiga, como se não houvesse computadores, com todos os meus contactos e ainda os do teu avô, do pai dele e do teu tetravô. Alguns deles podem já não estar no ativo e não ter tido descendência, admito que isso possa ter acontecido, mas quem teve descendência passou o legado e os seus contactos ao filho ou filha mais velhos, garantindo que a fiabilidade do legado é sempre transmitida ao herdeiro mais velho e que, portanto, existe um dever de confiança.

Na nossa família este legado já vem desde o final do século XXV. Os contactos anteriores ao teu tetravô estão num segundo caderno que eu passei para a linguagem atual, antes do cancro me levar, e que está debaixo do primeiro. Com esses contactos terás de ter mais cuidado, pois podem existir casos em que a família continue, mas que, ao fim de tantos anos, os rumos dos herdeiros tenham saído desta senda. Nada é cem por cento certo.

Quero que saibas que te amo (ou devo dizer amei?) como nunca amei nada nem ninguém na minha vida. Espero que depois da minha morte continues a vocação da família e não te percas nessa tua paixão pela antiguidade clássica. Mas tu é que sabes que rumo seguirás. Contudo, faço votos que seja como eu o desejo. Todos os meus contactos e os do teu avô sabem da tua existência e da possibilidade de serem contactados por ti. Podes estar à vontade com esses e basta dizeres quem és. Todos te conhecem.

Ah! Também aí estão os contactos relacionados com o ouro, se quiseres continuar a colecionar barrinhas de cem gramas. Faças o que fizeres nunca ponhas num só banco mais do que o dobro daquilo que podes provar imediatamente ser fruto do teu trabalho de fachada. Eles e o Estado são ladrões sem escrúpulos, ao contrário de nós. Piores que eles só os fanáticos extremistas da política e da religião. Tudo gente sem espinha vertical. São os piores ladrões do mundo e desonram a própria profissão.

 Não fiques demasiado preocupada de não teres amigos ou um companheiro para a vida. É um mal de família. Mas com todos nós, neste ramo, aconteceu o mesmo, porém, a coisa muda, mais ano, menos ano, entre os vinte e cinco e os trinta anos, talvez até um pouco mais tarde. Por isso relaxa e vive a vida sempre fazendo aquilo que mais gostas. Nunca permitas que mandem em ti, tu não tens feitio para isso, nem agora, nem nunca.

O teres nascido permitiu-me ter a tua adorada mãe ao meu lado durante toda a minha vida. Tirando a altura, vocês são iguais e eu amo-vos tanto, tanto que no ter de partir o que mais me doi é não vos ter a meu lado. Se Deus existir, ao contrário do que eu penso, pode ser que eu tenha uma boa surpresa reservada para mim no céu. Beijos minha querida filha, sê feliz, saudosamente, este teu pai que muito te ama.”

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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