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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 3

Desabafos - A Felina 3.jpgO que ganhara com aquelas consultorias fora o facto de poder declarar um rendimento mensal estável e razoável, passível de justificar às Finanças e a toda a sociedade que era alguém que possuía e trabalhava para o seu próprio sustento, sem passar dificuldades, pagando impostos e cumprindo normalmente os seus deveres sociais.

Quando ficara sem família, ainda aos dezassete anos, tivera de andar escondida três meses e pouco da Segurança Social e dos respetivos serviços que a queriam inserida no sistema por falta de tutores, progenitores ou qualquer outro adulto com a tutela e a responsabilidade da sua educação. Devidamente alertada pelo avô, antes do seu falecimento, para esse facto, ela nunca estivera sequer contactável ou assinara qualquer correio registado que viesse da Segurança Social.

Finalmente, depois do dia onze de agosto desse ano, dia do seu aniversário, apresentara-se na Segurança Social com uma série de avisos por levantar, dizendo que estivera fora, em pesquisa para o seu doutoramento, durante uns meses e que nesse tempo nunca viera a casa, nem vira o correio, nem mesmo usara o seu correio eletrónico. Inteiraram-na de que ela estava a cargo dos serviços sociais da Segurança Social por ser menor, passando o Estado a gerir os seus bens.

Ela indagara então, com o ar mais inocente deste mundo, se aquilo era válido para quem tinha dezoito anos, como era o seu caso. A técnica superior que a estava a receber ficou subitamente atarantada e, seguidamente, foi consultar os seus papeis e o computador, antes de fazer mais qualquer comentário.

Demorou poucos segundos para pedir desculpa, com efeito ela já era maior de idade e todo processo deixava de ser válido, tendo de ser obrigatoriamente arquivado, devido à sua caducidade. Tinha pena de não a terem conseguido contactar e ajudar em tempo útil. A Felina respondeu com um enorme sorriso e que estava feliz que tal não tivesse acontecido. Para que precisava ela de uns serviços que nunca se tinham preocupado com o cancro do pai ou do avô quando eles tinham solicitado apoio para a suas doenças terminais? Não fosse o facto de terem algum dinheiro e recorrido ao sector privado, teriam morrido mais cedo e em padecimento.

Nem o Serviço Nacional de Saúde, nem sequer a Segurança Social, agilizaram prazos para auxiliarem os seus familiares. A primeira marcação de consulta do seu pai chegara dois meses depois da sua morte e a do seu avô ainda demorara mais. Quanto aos apoios da SS tinham sido indeferidos. Levantou-se e saiu sem se despedir. O Estado não era pessoa de bem.

A divisão onde agora dormia tinha um armário de parede que dava acesso a uma sala secreta. A “sala da Playboy e da mercadoria”, fruto de uma vida dedicada ao gamanço por parte do pai, era um esconderijo perfeito. Ninguém que não tivesse conhecido anterior da casa conseguiria dar com aquele espaço. Um dia, durante uma fascina de limpeza geral no quarto, ao limpar o velho roupeiro embutido na parede, ela acionara, por mero acaso, uma alavanca oculta no canto superior esquerdo da prateleira mais alta. O fundo deslizara para o lado e a Felina descobrira mais um segredo paterno. O pai adorava suspense, mistério e segredinhos especiais. Costumava dizer que estes davam tempero ao quotidiano. O quarto secreto fora uma boa descoberta. Ela parecia uma ilusionista profissional quando agia na invasão da propriedade alheia. O seu dom era inato por ser hereditário e acreditava ser por isso que tinha tanto jeito para roubar. A Felina adorava os livros sobre ladrões, mas com finais felizes para o lado dos marginais.

Achava injustos os policiais em que o bandido era sempre desmascarado antes do final. Se assim fosse, pensava ela, já não deveriam existir malfeitores no mundo. Contudo, eram cada vez mais e piores, pois a muitos deles faltava-lhes a honra, esse profundo código deontológico dos verdadeiros ladrões

Na sala, com mais de cinquenta metros quadrados havia de tudo. Desde a tal coleção da Playboy até a livros sobre a nobre arte do gamanço. Uma biblioteca sobre os truques de um carteirista, até aos livros que explicavam o uso de armas, os treinos físicos ou mesmo a camuflagem urbana. Durante nove anos ela atualizara essa secção.

Instalara também três computadores, câmaras de vigilância do apartamento, do prédio e da vizinhança. Adquirira manuais sobre cofres e fechaduras e chegara a trabalhar dois anos nas Chaves do Arieiro, onde se tornara especialista de topo. Não havia porta ou cofre que lhe resistisse.

Sempre que saía para trabalhar usava um macacão preto muito justo, de tecido elástico à base de fibra aramida de kevlar e nano fibras compostas por um polímetro elástico, tipo elastano, à prova de água, incorporado com perovskites em PVDF-HPF, um material muito recente e inovador inventado em Singapura, que permitia produzir eletricidade através do roçar do tecido podendo com isso carregar telemóveis, portáteis, tablets, tasers, lanternas, etc., pois transformava o movimento do seu utilizador em energia, através de baterias. Contudo, estas, ainda requeriam especial atenção no que respeitava ao seu desgaste e substituição.

Todo o fato era feito por medida, por um especial fornecedor seu, no Brasil, porém, como o novo polímetro ainda só se encontrava na fase de protótipo, ela estava convencida que em pouco tempo as baterias teriam uma duração equivalente ao restante tecido. Esta tecnologia constituía o seu mais recente roubo científico e industrial. A mistura desta tecnologia com o que compunha o seu antigo macacão de tecido elástico à base de fibra aramida de kevlar, por si só à prova de bala, tornava o novo tecido uma verdadeira maravilha, graças ao perovskite ser estável, extensível, respirável e igualmente à prova de água, mas, ao mesmo tempo, capaz de proporcionar um desempenho elétrico excecional.

O seu fato era inspirado na banda desenhada da Marvel, da DC Comics e da Disney, com os seus super-heróis e os seus arqui-inimigos, que adorava. Por isso mesmo uma parte da sua biblioteca era constituída por livros do género.

Ela estivera um ano em Paris onde aprendera parkour, um fabuloso método de treino que lhe permitia usar o corpo, e as suas capacidades físicas, para ultrapassar obstáculos urbanos com relativa facilidade. Chegara mesmo a vencer um concurso misto da modalidade, ainda na capital francesa. Quando sentira que não podia evoluir mais regressara a Portugal e ao seu apartamento. Experimentara a prática de parkour em Lisboa e adorara a experiência. Se praticado nas ruas mais estreitas, então, era um delírio.

O seu cinto utilitário, preso à cintura, era baseado nas histórias e nos heróis da banda desenhada. Porém, o restante fato, possuía igualmente outros adereços ligados às pernas, aos braços e às costas.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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