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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 2

Desabafos - A Felina 2.jpg

Desde os doze anos, porém, que o pai e o avô a formavam, em paralelo, na nobre arte do furto, uma vocação centenária na família. O pai, um homem cheio de contactos, mandava-a sempre de férias para que junto de um dos seus “amigos”, para ela estagiar noutras áreas do gamanço, fossem gente ligada às artes e antiguidades, ao cibercrime, aos bancos e cofres-fortes, aos museus, palácios e moradias de alta segurança ou mesmo às motas e automóveis ou a malta dedicada ao furto empresarial especializado.

Durante os últimos anos de universidade a Felina ainda conseguira fazer alguns cursos e pós-graduações ligadas à mitologia egípcia e à mitologia greco-romana, pelas quais tinha uma quase obsessão. Quando numa cerimónia após o seu doutoramento, o reitor da Universidade de Lisboa a elogiara pelo feito em tão tenra idade, ela limitara-se a agradecer dizendo que tinha mais colegas, que poderiam ter feito o mesmo que ela, se se tivessem querido dedicar um igual afinco aos estudos.

Porém, o grande truque da jovem nunca fora apenas a dedicação aos estudos, ajudava, todavia, mas para si estudar era um passatempo tão bom e divertido como praticar desporto, aplicando-se nestes dois setores com igual gozo interior. Porém, a única coisa que a Felina considerava um entretenimento era o estudo das mitologias clássicas, que ela comparava muitas vezes aos seus heróis da banda desenhada, e o estudo dos aromas e odores. Não sendo genial, nem perto disso, fazer do disso e do desporto hobbies ajudara-a a evoluir.

Depois, tinha que reconhecer, realmente, que a sua maravilhosa memória tornava tudo bem mais fácil e francamente mais acessível para que o raciocínio fizesse o resto. Era o mesmo com os cheiros. Felina herdara do pai uma rara doença de família, ela sofria de hiperosmia, um mal com duas origens: ou era causada de doenças como a doença de Lyme (ou por deficiências hormonais) ou era, como no seu caso, transmitida geneticamente.

Ora, a hiperosmia manifestava-se por uma sensibilidade aos odores muito parecida à dos animais, como os felinos ou os canídeos. Tal sensibilidade podia, por um lado, ser treinada, que era exatamente o que ela fazia e, por outro, ser altamente desenvolvida se o paciente de hiperosmia possuísse uma boa memória, como era também o seu caso específico.

Aliás, a hiperosmia de pouco servira ao pai e ao avô, que lhe tinham, pelo ADN, transmitido a doença, devido a possuírem memórias vulgares, mas, para ela, aquela deficiência tornara-se uma verdadeira dádiva dos céus. A Felina soubera na última consulta com o seu otorrinolaringologista que, embora até 2014 se pensasse que o ser humano só conseguia detetar cerca de dez mil odores diferentes, na realidade a ciência descobrira, recentemente, que o valor era cem mil vezes superior, podendo uma pessoa detetar até um trilião de odores, tal como a maioria dos mamíferos.

A diferença do uso do cheiro entre o ser humano e os animais, não era, afinal, tanto devido às diferenças de tamanho encontradas nos diferentes sistemas olfativos, mas o uso, a prática e a capacidade de os registar. Enquanto os seres humanos descartavam culturalmente o treino, a memorização e a utilidade dos cheiros, que deveriam arquivar no cérebro, porque socialmente faziam mais uso da visão, da audição e até do tato, os animais normalmente considerados com melhor olfato treinam-no todos os dias, até porque dependiam dele para sobreviverem.

Esta era, na verdade, a última teoria científica sobre o olfato nos seres humanos. O que se poderá atingir com tamanha descoberta ninguém sabia ao certo, até porque esses estudos, neste setor, ainda agora tinham tido início e havia todo um caminho para se percorrer. A outra informação curiosa que o seu médico lhe dera fora que a sensibilidade para detetar odores mais leves ou diluídos era muito superior na mulher do que no homem, talvez porque, num passado remoto, a mulher tivesse menos meios de defesa do que este. Para além disso, o ser humano tinha vindo a perder a sua capacidade de assimilar, associar e memorizar odores ao longo dos milénios, especificamente por questões civilizacionais e culturais.

O homem dera-lhe um exemplo, se a Felina com a sua capacidade olfativa sempre tivesse treinado o olfato e se tivesse uma boa memória, seria uma supermulher.

A rapariga rira e dissera que não sentia que conseguisse cheirar mais que os outros. Fora pena o médico não a ter informado mais cedo, podia ter começado a treinar há uns anos.

Este respondera que há uns anos a ciência ainda não sabia a verdade. Mas garantia-lhe que mesmo assim ela tinha uma capacidade de detetar odores dez vezes superior ao comum dos humanos que não sofriam de hiperosmia.

A jovem agradecera ao médico pela consulta, pois saber que ter aquela deficiência genética não lhe traria nenhum mal de saúde já era uma coisa muito boa. Todavia, uma vez ultrapassada a porta do consultório médico, a Felina sorria: supermulher, hem!

Se existiam estas maravilhas na vida da Felina, outras não eram tão agradáveis. A sua mania de estar sempre a estudar por puro prazer, fosse a apurar o seu olfato, embrenhada em mitologias ou perdida nos seus apaixonantes estudos clássicos, por um lado, ou a praticar atividades desportivas e exercícios físicos, por outro, mas tudo com uma enorme componente individual, faziam da Felina uma pessoa quase introvertida, sozinha, investida de um intenso isolamento social, praticamente sem amigos, sem convivência e muito bicho do mato.

Para além disso, era fruto da desconfiança de quem não a conhecia e de alguma ostracização, o que a tornava, a ela, também cautelosa e desconfiada. Declinara até um convite para lecionar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Insistia que não possuía nenhumas capacidades excecionais, mas apenas que, quando se dedicava a uma coisa só descansava quando chegava ao fim. Ela defendia que bastava ter IDOTE (Interesse, Dedicação, Organização, Trabalho e Estudo) para se conseguir atingir o que ela própria atingira.

Talvez, dizia, aqueles com uma memória mais restrita precisassem de mais anos do que ela necessitara, mas formar-se-iam igualmente com brilhantismo. Aceitara, apesar de tudo, contratos de consultoria ligados à sua área, em várias universidades de Lisboa, e até noutros campos de interesse.

Contudo, sempre vínculos sem qualquer horário ou constrangimento laboral. A razão prendia-se com a sua atividade de larápia. Não podia ter nada que a impossibilitasse de levar a cabo, e a bom porto, um projeto na sua atividade primária e favorita.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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