Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 1

Desabafos  A Felina - 1.jpg A FELINA

NOITES DE LUA CHEIA

Gil Saraiva

2023

 

INTRODUÇÃO

Sempre existiu, existe e existirá gente que vive do lado errado da vida. Porém, mesmo esses diferem entre si. Quem hoje nasce, por exemplo, na Coreia do Norte, pode não saber que nasceu num país que não respeita nem a liberdade, nem os direitos humanos, nem sequer a dignidade humana. Esse povo, sem qualquer opção própria, apenas nasceu do lado errado da vida.

Todavia, este não é o único país onde se pode nascer, sem ter como escolher, desse lado feio e negro do existir. Basta pensar na Ucrânia, no Afeganistão, na Síria, nos países suportados por ditaduras e ditadores que obrigam milhões, sem que estes possam optar, a viver do lado errado da vida.

Mesmo no conhecido universo dos países democráticos, sejam estes de esquerda ou de direita, os pobres, os doentes, os iletrados e todos aqueles que são explorados ou de alguma forma maltratados acabam, mais cedo ou mais tarde, por concluir que nasceram do lado errado da vida.

Existe ainda um tipo de ser diferente, que prefere viver à margem da lei. Aqui encontramos fanáticos religiosos, terroristas, bombistas, gente de mente doente, os sádicos, bem como os masoquistas, os bandidos, os assassinos e quase todos os criminosos em geral. Na sua grande maioria são pessoas com uma moral desviante que ou já nasceram ou optaram por viver do lado errado da vida.

Contudo, à parte dos desgraçados, dos marginais, dos doentes, e dos maus da fita, também se encontra o ser comum que constitui a maioria dos mortais que habitam este mundo. Aqueles que nos ajudam a entender que há esperança no mundo que pode, se se quiser, ser maravilhoso. Uns vivem melhor, outros principescamente e a maioria pertence àquela gigantesca franja dos que vivem remediadamente, mas, apesar de tudo, fora do contexto do lado errado da vida. Todos estes seres humanos juntos constituem a humanidade que habita o planeta em que vivemos.

Porém, de vez em quando, numa linha raríssima de seres humanos, aparecem, aqui e ali, aqueles que vivem intercalando o lado errado da vida com o lado bom. Estes são elementos escassos, têm uma conduta moral muito sua, não conseguem fugir ao facto de serem marginais, contudo, são marginais com coração, com alma, com uma conduta provida de uma consciência muito própria e que os faz pensar que, na essência, vivem do lado certo da vida. O presente livro é sobre uma dessas pessoas. Ela escolheu o pseudónimo de Felina e o que a torna especial é, não apenas uma memória e inteligência invulgares, mas a sua beleza rara associada a uma inacreditável forma física e uma sagacidade implacável.

                                                                                                   O Autor          

                                                                                                Gil Saraiva

DEDICATÓRIA

Este livro é dedicado à Mulher. Afinal, ao fim de quase cinquenta anos de democracia, continuamos a viver num país sem paridade, onde o género ainda define o salário e onde continuam a existir juízes que pensam que pôr a mulher no seu devido lugar não é violência doméstica.

                                                                                        Gil Saraiva

 

Agradecimento

O meu obrigado a Verónica Mesquita por ter fornecido o rosto da Felina.

A Felina Gil.jpg

I

A FELINA

I

A Felina voltou a ver-se ao espelho. Não havia dúvidas. Ela era uma miúda bem gira. Ninguém lhe dava os vinte e sete anos que constavam no seu Cartão de Cidadão. Os homens, então, raramente atiravam acima dos vinte e dois, vinte e três anos de idade. Sempre fora assim, embora alta e elegante o seu rosto era o de uma rapariguinha. Cabelos muito pretos, com um corte agora curto, a combinar com uns olhos negros, rasgados, a fugir para o formato da amêndoa algarvia, mas enormes e muito pestanudos, cuja iris, por vezes, aparentava refletir um tom verde de fundo garrafa, algures entre as tonalidades da esmeralda e da oliva, sendo que este último era o tom lhe permitia parecer ter, dependendo da luz ambiente, uns olhos negros.

Eram o nariz pequeno e arrebitado e a boca de boneca, cheia, carnuda e sensual, que refletiam aqueles ares de ingenuidade própria do final da adolescência. Ela adorava o seu ar de santinha e tirava bom partido disso.

No espelho admirou a sua silhueta. Continuava como sempre fora, as suas medidas corporais lembravam uma daquelas americanas saídas das revistas da Playboy dos anos setenta, que o seu pai colecionara até falecer de cancro de pulmão, já lá iam uns bons e saudosos dez anos. Descobrira-as, por acaso, quando mudara o seu quarto para o antigo dormitório do pai.

Ela nunca conhecera a sua mãe, vira fotografias apenas, guardadas pelo progenitor com um imenso carinho. Entre ela e a ascendente as aparências eram inacreditáveis. Apenas na altura é que a Felina levava a melhor, com quase mais dez centímetros, a sair ao pai. Na realidade, ela perdera a mãe à nascença, vítima de um parto muito complicado. Pelos seus doze anos de idade o pai comprara aquele apartamento e ela continuara a viver ali, na Rua da Fábrica da Pólvora, com o avô, depois do seu falecimento.

Porém, antes de completar os dezoito anos também essa figura referencial desaparecera, tal como o pai, com o mesmo tipo cancro de plumão que, segundo os médicos, faziam dele mais uma das vítimas do cigarro daquele ano. Fora assim que, em menos de um ano, ficara sozinha, sem a família que lhe restava. Ela sabia bem que, quer o avô, o mais velho carteirista de Lisboa, quer o pai, eram ambos larápios. Porém, o pai, por seu lado, era especializado em ourivesarias, nunca roubava nada que não fosse ouro, pois considerava-se o Servidor de Midas.

A jusante tinha criado uma lista de contactos de confiança que, entre outras informações, lhe permitiam roubar apenas lojas com seguro contra roubo ou recetoras de ouro roubado. A montante mantinha um grupo de confiança para poder derreter a mercadoria depois de tratada, transformá-la em barras de cem gramas ou mesmo revender o ouro, principalmente se este não fosse de vinte e quatro quilates.

A Felina, entrara para uma escola primária particular ainda com cinco anos de idade e terminara o quarto ano com sete anos, graças à sua memória excecional. Fizera os exames do nono ano aos dez anos e o décimo segundo acabara com distinção com a tenra idade de doze anos. Contudo, não era nenhum génio, embora fosse mais inteligente do que a média das pessoas que conhecia. O seu trunfo sempre fora a sua prodigiosa memória.

Aos treze anos entrara para a Universidade de Lisboa, na Faculdade de Letras e aos catorze licenciara-se em Estudos Clássicos e, no ano seguinte, completara o seu mestrado, também em Estudos Clássicos, tendo terminado o doutoramento aos dezassete anos, igualmente na mesma área. Contudo, e mesmo doutorada tão cedo, a jovem só se achava uma estudante aplicada.

 

(continua) Gil Saraiva

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub