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Alegadamente

Este blog inclui os meus 4 blogs anteriores: alegadamente - Carta à Berta / plectro - Desabafos de um Vagabundo / gilcartoon - Miga, a Formiga / estro - A Minha Poesia. Para evitar problemas o conteúdo é apenas alegadamente correto.

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Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 56

A Felina - 56.jpg       ― É isso mesmo! ― reforçou Íris.

       ― Ficaram de me dizer se conseguem fazer isso já ou só amanhã. Aparentemente precisam de um aparelho qualquer… ― adiantou, ansioso, Carlos.

      ― É verdade, precisam de um Espectrômetro de Massas, que é um equipamento capaz de detetar, identificar e quantificar moléculas de interesse, por meio da medição de sua massa e caracterização de sua estrutura química. Depois disso, consultando uma tabela, é fácil saber a origem e tudo o resto. ― Íris, estava contente. ― Eu sei que a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa tem, acho até que mais do que um.

      ― Hum… vou ver se me conseguem pôr alguém de lá a pé… vou pedir que liguem para o Governo, alguém deve conseguir colocar um especialista a fazer isso ainda hoje. ― Carlos, entusiasmado ligou para o seu Diretor Nacional, quando desligou sorria de contentamento. ― Nem é preciso o Governo, o Luís Navas, tem um amigo que trabalha lá com esses aparelhos. Se o outro o atender dentro de meia hora já la estão todos. Mas Navas ainda me deve dizer qualquer coisa.

Não tiveram de aguardar nem cinco minutos. Luís Navas, telefonou a avisar que dentro de uma hora já deviam ter os testes concluídos. Posteriormente o seu amigo, se fosse preciso, poderia fazer, pela manhã, uma investigação mais profunda, mas provavelmente, para o que ele lhe pedira nem seria preciso.

Carlos Farelo, informou ainda que Navas, satisfeitíssimo, pedira-lhe igualmente para que ele desse os parabéns a Íris. Até mandara um aviso que não a autorizava a que se despedisse novamente. Tinham passado eles o dia inteiro aos papeis, que nem baratas tontas e chegara ela e, em cinco minutos, a investigação avançava a todo o vapor.

Ele próprio dizia o homem, estava realmente contente de ela ter voltado. Só tinha pena que ela não conhecesse a Felina. Caso contrário seria ela a falar com a gata.

Íris, ria-se. Ela sabia que a tinham em boa conta, mas isso era um exagero.

Nada disso, retorquia o homem. Se houvesse uma maneira de as colocarem em contacto, dizia, ele tinha a certeza que a outra se encontraria com ela. Mas havia, respondeu-lhe Íris, era falarem com o livreiro, o líder da Irmandade da Pantera Salvadora. Como é que era o nome do sujeito? Ah, sim, O senhor Januário do Ó. Se ele avisasse a comunidade, era possível que a notícia de um pedido de encontro chegasse à Felina.

Brilhante, dizia Carlos Farelo, sempre brilhante. Mas e Íris? Ela aceitava o encontro? Claro que sim, respondera, até porque estava convencida de que a pantera negra estava inocente. Ela nem armas de fogo usava e agora era uma assassina e, ainda por cima, armada em sniper. Isso não fazia sentido. Cheirava, isso sim, a uma armadilha diabólica.

Carlos, novamente ao telemóvel, falava com agora com o seu novo assistente, um tal de Nuno Peres. Queria que ele lhe arranjasse o contacto de Januário do Ó, o tipo da Irmandade da Felina. Infelizmente dizia o sujeito não tinham o número do homem. Nunca ninguém se lembrara dele. Carlos barafustava deste lado. Não tinham? Como não tinham? Tinham que ter! Acabou por desligar a chamada a deitar fumo pelas orelhas.

Íris, agarrou o seu telemóvel e fez uma chamada. Do outro lado a Dona Hermenegilda atendeu. O Januário? Para ajudar a Felina? Ela que não se preocupasse que ele já lhe ligaria. Nem demorou dois minutos a chamada a chegar. Depois de tudo explicado e do texto ditado pela Íris ao homem, ele fez seguir a mensagem para todos os inscritos, que já passavam os três mil. O homem, enquanto a mensagem seguia, queria dizer à Doutora Íris Vasconcelos que toda a comunidade da Irmandade lhe estava eternamente agradecida, por esta também não acreditar que a pantera negra fosse uma assassina e por estar a tentar ajudar um anjo em forma de gata. Uma deusa do Egito reencarnada.

Quando a jovem desligou a mensagem já seguira para toda a gente. O seu telemóvel também acusou a receção da mesma. Íris, mostrou a confirmação a Carlos Farelo. Agora restava-lhes esperar. Pediu Licença para ir à casa de banho e saiu da sala. Quando voltou, trazia uma mensagem que ela enviara do telemóvel que usava para a Érica. Apenas dizia:

“― Encontro-me consigo amanhã. Obrigada, Felina.”

A mensagem que enviara era um resumo de situação e dizia, inclusivamente, que ela era assessora da PJ e que estava a solicitar a reunião por pedido da própria Direção da Judiciária. Carlos Farelo, pensativo, questionou se ela queria que colocassem a casa sob vigilância. Nem pensar, respondeu-lhe a rapariga, se a outra desse conta lá se perderia toda a confiança. Também não achava bem ter de estar armadilhada com dispositivos de gravação da conversa, pelo mesmo motivo. Já era muito bom ela ter aceite o encontro. Nem fazia ideia da hora, nem do local, mas isso era normal.

Ainda estavam a discutir estes detalhes quando o telefone de Carlos tocou. Do outro lado da linha, Luís Navas, com uma voz de quem acabou de festejar um aniversário, dizia que a Íris acertara no centro do alvo. Todas as moedas da Felina, que estavam guardadas na polícia, eram feitas de cobre originário do Chile, sem qualquer margem para dúvidas, já o da medalha sobre o cadáver era proveniente da Mongólia. Quanto aos vernizes também eram totalmente diferentes. As composições químicas não tinham nada umas a ver com a outra.

Luís Navas, ainda com a mesma disposição, revelava outro fator de enorme importância. Todas as medalhas da Felina tinham pelo menos uns dez anos de idade, segundo fora determinado pela patine do verniz, embora estivessem muito bem envernizadas. Já na medalha do cadáver o verniz ainda não devia ter dez dias desde que fora aplicado. O relatório da Universidade de Ciências de Lisboa, seria oficialmente entregue dia cinco, com mais uns detalhes que pareciam revelar outras coisas como, por exemplo, que a nova moeda fora moldada de uma outra qualquer com molde de gesso.

O diretor Nacional da Judiciária disse outra coisa qualquer que fez o outro rir-se. Carlos Farelo, ria em abundância. Depois ao olhar, de repente, para Íris ficou sério e muito corado. A rapariga esperou que a chamada acabasse sem dizer nada. Quando o Diretor Adjunto desligou finalmente o telemóvel, ela perguntou qual fora o motivo daquele ataque de riso. Não fora nada, apenas uma brincadeira de Navas. Nada de importante. Podia não ser importante, mas ela queria saber qual fora a brincadeirinha.

O outro não se abria. Foi preciso a jovem dizer que se estava a sentir adoentada e que talvez amanhã não se pudesse encontrar com a Felina, para este perceber que não tinha como escapar ao relato.

      ― Ele disse-me para a segurar na Polícia Judiciária fosse de que maneira fosse… e como a menina gostava de dar o traseiro, se fosse preciso eu teria de me sacrificar, se é que era um sacrifício para mim, e investir na sua retaguarda, se isso a ajudasse a manter na PJ. ― respondeu vermelho que nem tomate maduro, Carlos Farelo.

      ― Mas ó meu amigo Carlos, não faço questão de passar a vida a ter, como você disse, que levar na retaguarda, mas se isso lhe agrada tanto, podemos começar já… ― retorquiu Íris, com um ar malandro, olhando diretamente para os olhos do Diretor Adjunto.

Para que cor é que se vai quando já estamos com um tom de tomate maduro? Pensava a rapariga. Descobriu de seguida: para o roxo escuro. O homem, a quem ela acabara de oferecer um copo de água, não só chegou ao roxo como a água lhe saiu de rompante por todos os buracos possíveis.

Íris, com destreza, mudou de assunto e perguntou ao enrascado Diretor Adjunto se era a ele que deveria ligar depois de contactada pela gata. O homem pegou rapidamente na deixa e clarificou que era isso mesmo. Aliás, podia contactá-lo fosse a que horas fosse. Ele estaria sempre junto ao telemóvel. No entanto, preferia que ela aceitasse alguma vigia e segurança. Nem pensar, teimava a jovem, isso podia deitar tudo a perder. Ela sabia perfeitamente os riscos que corria, mas preferia assim.

Finalmente, o Adjunto disse que era altura de ambos irem descansar. Íris, ainda brincou e perguntou se ele queria mesmo ir embora, mas o sujeito fez-se desentendido, enquanto se dirigia para a porta. Ainda lhe agradeceu o facto de ela não se ter ofendido com a piada de Luís Navas. Esta respondeu que todos ali eram adultos. Aborrecer-se como piadas machistas nunca fora o seu feitio. Era o pão nosso de cada dia. A de Navas até tinha sido engraçada, comparada com algumas que às vezes ouvia. O mais importante era o respeito existir, para lá de uma graçola sem má intenção. Trocaram beijinhos ao pé da porta e o homem desapareceu pela porta do elevador.

No meio de toda aquela enorme armadilha do Superintendente, Íris, ainda assim, tivera sorte. A Kalinka e Vítor, tinham feito as coisas com alguma leviandade. Não era muito credível que não soubessem que cobres de regiões diferentes tivessem assinaturas químicas diferentes ou que não se lembrassem que tudo o que são vernizes têm, consoante as marcas e as origens, uma assinatura química igualmente diferente. Simplesmente acharam que ninguém se ia dar ao trabalho de usar um espectrómetro de massas ou de se lembrar de o utilizar.

Para além disso, assassinar uma Secretária de Estado que, um mês antes, dera uma conferência de imprensa a prometer um combate sem quartel a tudo o que fosse crime organizado, parecia uma decisão absurda. O SIS e as outras forças da ordem, como os próprios Ministério da Administração Interna, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, deviam saber da chegada e implantação da Kalinka ao Porto e do seu alargamento a Lisboa.

Tanto assim era que a PSP de Porto e Lisboa já tinham núcleos próprios para abordar o problema, numa primeira instância, mas, possivelmente, também o SIS e a PJ já deveriam ter equipas ao mais alto nível a preparar formas de atuação e atá talvez pudessem estar a organizar, com o Governo, uma maneira de agirem militarmente.

Pelo menos, achava Íris, que Vítor tinha obrigação de saber tudo isso. O Estado português, não era certamente dos mais rápidos a reagir, e a Kalinka ainda só tinha meses de introdução no país, mas não estava a dormir. Como os primeiros confrontos tinham sido no Porto e com a PSP, era bem possível que estivessem a estudar o impacto desses conflitos iniciais e a delinear estratégias de ação, mas era um erro ridículo pensar que estavam todos a dormir na forma, como se nada fosse.

A arrogância da Kalinka, ainda era possível de se aceitar, mas a atitude negligente de Vítor só provava que o ódio que desenvolvera pela Felina lhe tinha toldado o espírito. Desde o tempo da Guerra Colonial que Portugal lidava com táticas terroristas, com máfias estrangeiras e com guerrilhas armadas. Ora isso é uma experiência de anos que não desaparece por milagre. Negligenciar a ação e atenção destas forças era, no mínimo, idiota.

 

(continua no Capítulo XIV) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 55

A Felina - 55.jpgPara a Felina era uma situação muito complicada. Agir precipitadamente de momento poderia deitar tudo a perder.  Estava na altura de a gata tirar umas férias e deixar Íris começar a arrumar, um pouco a casa. Aquele era o momento ideal para reatar a assessoria com a Polícia Judiciária. Pegou no seu telemóvel e ligou para Carlos Farelo. O Diretor Adjunto não atendeu. Nem cinco minutos depois o telemóvel tocou, era o seu adjunto.

      ― Olá Íris, ainda é cedo para me convidar para o São Martinho. Ainda hoje é dia um, corrijo dia dois de novembro, pois já passa da meia-noite… ― proferiu o homem da PJ. ― Já podemos comer castanhas, mas para o dia ainda faltam mais nove. A que devo a honra?

      ― Gostava de saber se a Judiciária mantem o convite para a assessoria ou se este já caducou. Pode-me informar? ― questionou Íris, sem adiantar muito mais.

      ― Claro que se mantém. Tenho aqui o contrato preparado comigo. É só pôr a data do dia de hoje e dar aí um salto a sua casa para a minha querida assinar. Isto hoje está mau, ninguém dorme, aqui na PJ anda tudo à procura de pistas. ― esclareceu Farelo. ― Quer que passe aí? Ou deixamos para amanhã?

      ― Preferia vê-lo hoje. Se isso não fosse inconveniente. Acabei de ver as notícias do dia, pela primeira vez, sabe… tenho estado emersa nos meus estudos e só agora tomei conhecimento dos assassinatos. ― esclareceu a jovem. ― Preferia resolver isso já esta noite. Mas veja lá, não quero estar a empatar.

      ― Desde quando é que, a minha querida, empata? Até lhe digo mais, para me estar a ligar quer-me parecer que viu as notícias e já tem uma ideia bem fora da caixa, sobre os crimes. Enganei-me? ― quis saber Carlos Farelo.

      ― Não e sim. ― disse a rir, Íris, e continuou. ― Não se trata bem dos crimes em si. Para já é apenas um detalhe. Nem sei se ajudará, contudo, poderá trazer mais alguma luz ao problema. Depende do que o Senhor Diretor achar…

      ― Vou gostar. Vou já para aí. Está na Rua de São Bento? ― indagou.

Íris estava contente com aquele diálogo. Ainda a tinham em consideração.

      ― Estou sim. Desde Jô Muttley tenho ido muito pouco à casa de família. ― esclareceu a rapariga.

      ― Isso é compreensível. Mas tudo passa com o tempo. Para me estar a ligar hoje, é porque também já pôs para trás das costas o nosso ex-coordenador superior e atual Intendente da PSP. Às vezes há coisas que custam a digerir, mas a digestão acaba por se fazer… ― vaticinava o Diretor Adjunto.

      ― Superintendente, meu caro Diretor. O Vítor já é: um Superintendente. ― informou a jovem.

      ― Ah, sim? Não me diga. Essa eu não sabia. Aquele rapaz sempre foi estranho. Vai buscar forças às adversidades. É capaz de tudo e mais umas botas para sair por cima. Muito me conta. Olhe, vou sair, levo o contrato, que só falta pôr a data e assinar e vou já para aí. Este agora tem um aumento de vinte e cinco porcento, não quero perdê-la novamente. Até já. ― disse despedindo-se Carlos Farelo. Ele sabia que a jovem tinha alguma ideia nova.

Nem vinte minutos depois, quando Íris lhe abriu a porta, o homem sorria de orelha a orelha, abanando na mão direita o novo contrato. Parecia bastante satisfeito mesmo, por a rever. Sentaram-se, logo depois da troca de um beijinho informal, e Íris assinou o novo contrato depois de terminar a sua leitura. Até as condições tinham melhorado e não só o pagamento. O documento vinha assinado por Luís Navas e estava datado com o início a começar a um de novembro de 2022. Ficou com a sua cópia e devolveu a outra ao Diretor Adjunto.

      ― Diga-me, Senhor Diretor Adjunto, os seus… ― ela não conseguiu terminar. O homem interrompeu-a de imediato dizendo:

      ― Não, não. Deixe lá o Diretor Adjunto para situações em público, oficiais ou na presença de desconhecidos. Para si basta Carlos e espero que para mim chegue Íris. Chega?

      ― Claro que sim. Gosto disso, tenho uma grande admiração pelo Carlos. É uma honra esse novo tratamento menos formal. ― disse a rapariga contente com a novidade.

      ― Ora então, o que me ia perguntar, Íris? ― quis saber Carlos.

      ― Queria saber se os laboratórios da Polícia Judiciária ainda estão abertos, hoje, a esta hora? ― indagou a jovem.

      ― Estão sim, excecionalmente, é claro, mas é um facto, por causa das peritagens decorrentes dos assassinatos. Mas para que quer a menina saber isso? ― questionou o Diretor.

      ― Como o Carlos sabe eu sou especialista em Antiguidade Clássica, com uma série de valências associadas e estou habituada a ter que fazer ou mandar realizar peritagens a imensos itens. No que concerne a este caso eu acho que deviam ser feitas peritagem às medalhas da Felina que estão na Polícia de Segurança Pública e o mesmo à medalha encontrada no cadáver da Secretária de Estado. ― elucidou a rapariga, fazendo uma pausa.

      ― Peritagens? Mas que peritagens há para fazer? São ambas de cobre revestido a verniz, têm imagens nos dois lados precisamente iguais e as mesmas inscrições. Que raio de peritagens é que há mais para se fazerem? Conte-me lá… ― questionou Carlos Farelo, sem entender onde a jovem queria chegar.

      ― Com efeito, podem efetivamente ser iguais, e o assunto fica arrumado, mas eu acho que são totalmente diferentes. Estive a ver ambas ampliadas no meu computador, e a do cadáver parece-me que foi criada através de um molde das originais. Mas mesmo que a diferença seja de alguma distorção provocada pela deficiente qualidade das imagens online, há ainda a possibilidade de analisar a composição química de ambos os vernizes e a composição do cobre em cada uma delas. Embora o cobre usado em fios elétricos seja muito igual entre si, devido aos processos de purificação para o tornar mais condutor, o cobre dos artefactos não sofre o mesmo tipo de purificação. É claro que o processo de purificação do cobre é extremamente necessário na metalurgia, já que esse metal apresenta uma excelente capacidade de conduzir corrente elétrica e, por isso, é muito utilizado na produção de fios de eletricidade... ― explicava Íris, tentando ser clara.

      ― O que me está a tentar dizer, minha querida? ― Carlos, precisava saber onde ia parar aquela aula sobre o cobre.

      ― Estou a dizer que temos que analisar também o cobre. ― disse ela.

      ― Mas analisar o quê? Depois de purificado, o cobre é apenas cobre, certo? ― questionou Farelo.

      ― Não, Carlos. Infelizmente, não existe na natureza cobre puro, o que possibilitaria a sua utilização imediata. Na realidade, o cobre é encontrado em uma série de diferentes minérios, como a calcopirita (CuFeS2), calcocita (Cu2S), bornita (Cu5FeS4), enargita (Cu3AsS4), além de ouro e prata. Ora, para os artefactos, a purificação do cobre não é a mesma do que para os fios condutores. Ela é feita de forma mais barata porque a necessidade na sua utilização é diferente... ― esclarecia a jovem.

      ― Sim, e… ― quis saber Carlos.

      ― Quer isto dizer que uma moeda de cobre pode ter outros minérios associados na sua confeção. Com base na análise química de ambas as moedas até é possível saber se ambas vêm da mesma mina ou região do mundo. Dito de outro modo, uma moeda de cobre, aparentemente igual a outra, pode ter origem mineral completamente diferente. Quero eu dizer que se mandar testar a composição química de quatro ou cinco moedas que estão na polícia e elas tiverem a mesma composição química é porque o cobre vem todo do mesmo lugar e até consegue saber se veio do Brasil, do Chile, da China, da Mongólia ou de Portugal. ― Íris, explicava, argumentando com todo o cuidado para ser entendida.

      ― Ou seja, se a moeda do cadáver for igual às outras então de certeza que existe uma imensa probabilidade de a assassina ser a Felina, se for de uma composição diferente e vier por exemplo de um país distante de onde vieram as outras, então trata-se de uma falsa medalha e é possível que alguém esteja a tentar incriminar a pantera negra. É isto, minha querida amiga? ― Farelo, concluíra o raciocínio de Íris. Teria sido certeiro?

      ― Era isso mesmo que eu ia dizer. Só há mistério ou culpa da gata, se todas as moedas forem iguais e o metal vier todo do mesmo local… ― terminou satisfeita a jovem.

      ― Já estou a tratar do assunto. ― Carlos ao telemóvel mandava analisar quatro moedas salteadas das da polícia e, à parte, a do cadáver.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 54

A Felina - 54.jpgTambém descobrira que uma empresa de fachada, que funcionava como filial de uma multinacional russa controlada pelo líder do Grupo Wagner, comprara a quinta de Sintra que fora de Jô Muttley. Devido ás câmaras ocultas que instalara no local, durante parte do mês de setembro, tendo um extremo cuidado na sua colocação, para que essas não fossem detetadas caso a Kalinka se instalasse ali, como viera a acontecer, tinha, detalhadamente, em todo o lado, desde o muro e o portão da entrada até todo o complexo, o controlo do que se passava no seu interior.

A Felina, também passara algum tempo na Rua da Fábrica, no seu apartamento familiar, a preparar e a atualizar o seu equipamento de combate, até porque recebera os novos fatos de pantera, do Brasil, com as suas últimas inovações. Entre elas instaladas nas orelhas da gata, que agora rodavam trezentos e sessenta graus, um conjunto de câmaras especiais com visão térmica, visão noturna e visão natural com uma excelente capacidade de alcance instalada graças a um inovador sistema de zoom. Os equipamentos que anteriormente tinha nas orelhas tinham sido reinstalados na parte da frente dos ombros.

A visualização dos conteúdos das diferentes câmaras chegava-lhe aos olhos através de lentes de contacto conectadas às objetivas por Wi-Fi. Um maravilhoso progresso. O comando e as opções estavam localizados no interior do pulso esquerdo. Também nas orelhas havia agora quatro micro sensores de som com ampliação regulável pelo comando do pulso, abrangendo os mesmos trezentos e sessenta graus de envolvência. Para além disso adquirira e adaptara para as suas narinas dois minúsculos aparelhos, originariamente criados para cães pisteiros, que conseguiam ampliar em dez vezes o nível de captação de odores que possuía.

A Felina sentia-se pronta e mais preparada para o embate que o confronto com a Kalinda lhe poderia causar. O pai e o avô sempre lhe tinham ensinado a estar atenta e disposta para novos desafios.

Porém, nada a havia preparado para a descoberta dessa terça-feira, um de novembro. Nem ela, que tentava a todo o custo antever todos os cenários possíveis dos confrontos que lhe poderiam aparecer, esperara algo assim.

A pantera negra vira a Kalinka instalar-se e começar a operar na sua nova zona de influência. Até final de outubro nada fizera para intervir. Precisava conhecer muito bem o seu inimigo. No final do mês, ninguém diria que eles tinham chegado há tão pouco tempo. Pareciam estar por ali havia vários anos. Também já sabia quem era Alex Budvi e os seus comandantes diretos, Igor Shevchenko, Ivan Yakovlev e Dimitri Borisov. Também assistira a duas execuções, que filmara, de elementos do bando, um que tinha desobedecido a um comando direto e outro que desviara fundos da organização. O primeiro fora abatido a tiro e o segundo colocado vivo dentro de um barril de ácido, sem dó nem piedade. O evento acontecera nessa terça-feira de manhã.

Este episódio, aliás, fora excelente para a Felina. A organização convocara todos os seus elementos da Grande Lisboa, para um grande encontro global, onde todos se ficariam a conhecer, que afinal servira, isso sim, para dar o exemplo com a Kalinka, em peso, a assistir. A Felina tivera tempo suficiente, para registar em filme, um a um, todos os elementos da máfia, sem sequer ter de se apressar.

Porém, quando se dedicava a essa tarefa, ao chegar aos líderes nada a preparara para ver, junto ao grupo dos Cedros, localizados de fronte para os Zimbros, o seu conhecido Vítor Fernandes de Melo, mesmo do lado direito de Alex Budvi. Como estava a filmar remotamente pelas câmaras, que instalara previamente na quinta, e não se encontrando na propriedade, pensou ter visto mal. Só podia ter visto mal.

Assim que chegou ao fim da filmagem de todos os elementos voltou para trás e, agora com o zoom, filmou aqueles dois juntos a rir sadicamente, enquanto um desgraçado de desfazia, aos poucos, vivo, no ácido do barril Não havia dúvidas de que era mesmo o Superintendente.

Uma luz iluminou o rosto de Felina. Era isso que ela não pensara quando vira a ascensão meteórica de Vítor. As prisões no Porto tinham sido combinadas com Alex Budvi. Talvez elementos excedentários ou pouco aplicados, gente que servira para o ajudar a ganhar prestígio rapidamente. A estratégia fora um enorme sucesso. Naquele momento nem lhe servia de nada avisar a PJ, pois quando chegassem ao local a maioria já teria ido embora.

Precisava arranjar uma maneira de avisar a Polícia Judiciária, sem se deixar apanhar, e sem que estes pudessem duvidar dela, a gata ia ter que magicar um plano para o conseguir. Para a jovem, mais importante que a Kalinka toda era agora Vítor. O homem enlouquecera. Não havia outra explicação. Como era possível um ex-elemento dos topos da Judite, estar ali, a rir de um desgraçado vivo a desfazer-se em sebo? Aquilo era inconcebível.

No mesmo dia, quase ao fim da tarde, um novo episódio ensombrou o país. Raquel Coreto, a Secretária de Estado da Administração Interna, fora assassinada ao regressar a casa, à porta da sua residência. O motorista que a levara tivera a mesma sorte, ambos com tiros de um sniper, segundo comunicação da PJ. No local, em cima do corpo do membro do Governo, fora encontrada uma medalha da Felina.

A PSP, a pedido da Judiciária, revira as medalhas da larápia ao seu cargo e não faltava nenhuma. Ora, sendo esta a única entidade pública que guardava, como prova, as medalhas da Felina, não havia hipótese de se tratar de uma falsa acusação. A pantera negra, assassinara deliberadamente uma Secretária de Estado e o seu motorista e, como sempre, assinara o seu feito. O país estava chocado com esta inesperada atitude da gata.  O Governo já adiantara que o facto, a ser provado, seria severamente punido pela justiça portuguesa assim que o julgamento terminasse.

O Correio da Manhã, que conseguira chegar ao local ainda antes da polícia, traria na manchete do dia seguinte uma imagem do assassinato onde a medalha era bem visível. Segundo o diário, que tanta manchete fizera à custa da Felina, a autoria do crime não podia ser da gata, pois o ato era totalmente díspar do seu comportamento padrão.

No entanto, outra imprensa menos simpática advertia que a atual imitação barata do Robim dos Bosques, iria ter, mais cedo ou mais tarde, que descambar no crime puro e duro. Nos comentadores as opiniões também estavam divididas. Basicamente, quem defendera a existência da gata e o seu papel na sociedade portuguesa mantinha a sua opinião, mas os que nada haviam dito da primeira vez ou os que se haviam manifestado contra a ladra, eram agora unanimes a pedirem a prisão imediata da cobarde assassina.

Íris, que passara a tarde a compilar um SD Card com os ficheiros completos sobre a Kalinka e a fazer outra cópia para si esteve até quase à meia-noite sem saber de nada. Quando se sentou no sofá da sua sala, no primeiro andar, do número quatrocentos e quarenta e quatro da rua de São Bento, acompanhada por um bom copo de vinho tinto, para escutar as notícias da meia-noite, quase que deitou o vinho pelo nariz com a notícia que servia de abertura àquele bloco noticioso.

Várias imagens apresentavam o corpo inanimado da Secretária de Estado, com a moeda em cima do peito. Íris, gravou a imagem e passou-a para o seu computador. Na sua sala secreta efetuou uma ampliação e tratou a fotografia de forma a poder vê-la claramente. Rapidamente se apercebeu que se tratava de uma imitação. Podia ser da televisão, mas o brilho da imagem e a cor não lhe pareciam exatamente iguais às suas medalhas.

Na sua mente pareceu-lhe evidente que aquilo era, mais uma vez, um plano maquiavélico de Vítor. Só uma mente perversa a podia representar a tirar uma vida, ainda por cima, através de uma arma de tiro à distância. Um tiro de sniper vindo dela era tão verosímil como uma morte de alguém à bomba. O homem estava doido.

Ligou o sistema de vigilância da quinta no seu computador. Procurou por Alex Budvi. O homem estava sentado no grande cadeirão do salão principal que outrora fora de Jô Muttley.  Ele brindava com outro de costas para a objetiva. A jovem era capaz de reconhecer aquelas costas em qualquer lado. Vítor brindava com o novo associado. Subiu o som, ambos festejavam o princípio do fim da gata.

Ficou feliz por ter a gravação das imagens ativa. A data altura entrou no salão um sujeito com uma arma de precisão, própria de um sniper, ao ombro. Vítor chamou-o de leopardo, o gato que entalara de vez a farrusca. Tinham sido dois tiros certeiros, nem fora preciso ao homem disparar uma terceira vez. Um Cedro era assim, dizia o recém-chegado. Cumprira a sua missão na perfeição. Ainda conseguira deixar a medalha antes da chegada do Correio da Manhã que fora avisado por eles. Aliás, por uma das putas do bando, que por ser de Lisboa não tinha qualquer sotaque detetável.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 53

A Felina - 53.jpgXIII

Os Assassinatos da Pantera Negra

XIII

O seu novo carro estava uma delícia. Alfredo Neto, o responsável pelo tratamento das suas viaturas conseguira uma obra prima. No símbolo traseiro do Jaguar o nome da marca, por baixo do corpo da pantera cromada, recolhia e era substituída por uma chapa sem nada, totalmente preta. Porém, à frente o símbolo do Jaguar na grelha rodava e um novo, sem a palavra da marca no topo redondo, aparecia. Ficava apenas uma circunferência lisa e cromada sem qualquer palavra, somente com a cabeça da pantera no centro. Um trabalho perfeito. Outra pressão no botão e o crachá trocava para o do Jaguar.

No painel que fazia recolher o símbolo cromado da pantera, em 3D, do capô, estavam agora quatro botões, três de pressão, que trocavam ou recolhiam os símbolos e um de rodar, que mudava as matrículas da traseira e da frente em simultâneo. Estas eram compostas por um sistema triangular rotativo que, ao rodar, substituía a chapa verdadeira pela primeira falsa na posição dois ou pela segunda falsa na posição três, a posição um repunha a matrícula certa.

Os vidros do carro tinham ainda outra caraterística excelente, através de uma rodinha no volante passavam de transparentes a totalmente opacos e fumados vistos por fora, mas mantendo total visibilidade do interior para o exterior. Esta possibilidade de ocultar o ocupante da viatura tornava a máquina absolutamente furtiva. Alfredo Neto, conseguira implementar a nanotecnologia ultrassecreta que ela roubara à NASA, no início de 2022, usada para proteger os vidros das suas naves de radiações exteriores, mas que tinha o efeito colateral de ocultar o interior das cabines do exterior dos veículos espaciais, impedindo até que câmaras de satélites inimigos pudessem ver o seu interior.

Gadgets, a Felina adorava aquelas mariquices práticas. Precisara de alguma paciência para chegar ao sistema e roubá-lo, mas o prazer de o ter conseguido não tinha descrição. Era como o sistema para trocar os logos do carro, que também fora gamado, ao Pentágono. Eles usavam-no para descaraterizar veículos de guerra e para ela aquele jaguar era um verdadeiro veículo de guerra.

O carro fora ainda artilhado com variados tipos de armamento, estilo carro de 007, mas isso já tinha sido mais simples de conseguir. Alfredo Neto era um talentoso artesão e estava a perder-se ao gerir uma oficina normal. Ela achava que era mais lógico se ele trabalhasse para o SIS. Até ao final de setembro a sua viatura ficou nas mãos de Alfredo, para ele tratar de todos estes pequenos ajustes que requeriam, tempo, paciência e precisão.

O certo é que Neto adorava implementar e aplicar os gadgets com que a Felina o desafiava. Dizia sempre que fazer desenhos para a Marvel ou para filmes de super-heróis era mais fácil do que torná-los realidade, todavia, finalizava sempre os sonhos da sua amiga.

Quando terminou a transformação do Jaguar o tablier parecia o cockpit de uma nave, mas apenas depois de acionar no volante um botão que fazia recolher uma cobertura que punha à vista as engenhocas todas. Sem isso acionado parecia apenas uma frente normal de um tablier da Jaguar. Um must! Dissera-lhe a Felina quando ele lhe mostrara o sistema pela primeira vez. O homem quase que rebentara de orgulho.

Com o carro novo nas mãos de Alfredo Neto, Íris, voltou ao uso do seu Dácia. Até ao dia dezasseis de setembro, pelas oito da noite, lá tinha, sentado à porta do seu prédio o desgrenhado surfista pronto para a ramboia. Aquelas noites de Lua Cheia foram totalmente preenchidas pelo Melro. O seu artista era completamente doido. Uma noite, até num elevador do Ritz tinha feito amor. Ela desativara as câmaras do ascensor, através de um simples controlo remoto, sem dizer nada ao rapaz, que estava doido só de pensar que estavam a ser vistos pelos seguranças do hotel.

Era um aparelho portátil e simples que normalmente ela usava nas suas aventuras, quando precisava, mas que levara consigo para o hotel quando ele lhe dissera que a queria comer num elevador de hotel. Pararam o ascensor entre pisos e durante meia hora foi “um vê se te avias” indescritível. A parte mais gira foi quando, ao chegarem ao piso térreo, deram com dois polícias, cinco seguranças e o responsável do hotel de serviço naquela noite, à espera deles, com um semblante de assassinos de morrer a rir.

Íris, saíra esbaforida para os braços de um dos polícias a agradecer a salvação. Tinham ficado aquele tempo todo presos no elevador sem luz e sem saberem o que fazer. Ela até estava com medo de que se acabasse o oxigénio. Ainda bem que os tinham conseguido libertar, tinha sido um grande susto, dizia entre soluços.

Perante esta fita perfeitamente executada, o semblante dos homens mudou e já só tentavam confortá-la. Aquilo era o Ritz, dizia o gerente de serviço, enquanto ela passava do polícia para se abraçar a ele roçando o peito fortemente pela camisa dele, arfando de aflição. Às vezes acontecia um azar, mas eles sempre conseguiam resolver, prosseguia o homem a sentir um volume a aumentar ao nível da cintura com aqueles abraços íntimos de Íris. Nem se deviam ter preocupado.

O sujeito dispersou os seguranças e deixou dois técnicos, acabados de chegar, a verificar o elevador, enquanto oferecia aos hospedes uma ida ao bar. Aquilo não era nada que um bom conhaque não resolvesse. O Melro entretanto entendera que os homens não tinham visto a cena e parecia triste. Depois acabou por achar graça à situação e alinhar na história.

O polícia, a quem Íris de agarrara mal saíra do elevador, voara para a casa de banho para aliviar o stress, assim que esta o largara. Mais um pouco daquele roçar e dos beijos de agradecimento e ele teria deixado de responder pelo comportamento do cassetete.  Já o gestor de serviço tivera, à pressa, de abotoar o casaco para disfarçar o hastear da bandeira.

O surfista, assim como aparecera voltou a desaparecer e os dias de Íris tiveram de ser divididos em duas partes, uma, mais pequena, a prosseguir os seus estudos, mas a maior a investigar a Kalinka. Uma organização terrorista não se assemelhava em nada a um bando de bandidos por muito grande e armado que este fosse. O treino era outro, a disciplina então era incomparavelmente superior e a eficácia estava uns bons níveis a cima.

Enfim, era um jogo totalmente novo e diferente. Como descobrira através do Jornal de Notícias que a organização começara no Porto, procurou na base de dados da PJ na Invicta descortinar o que se passava. Havia alguma informação, mas era diminuta. A maioria dos ficheiros tinham origem em informações passadas pelo Comando Metropolitano do Porto da Polícia de Segurança Pública.

Ao contrário da base de dados da Judiciária, cujas manhas ela já conhecia bem, a da PSP do Porto parecia um cofre fechado a sete chaves. Aquilo era um trabalho bem feito. Seria de esperar que a PJ estivesse melhor protegida do que a PSP, mas a realidade era outra. Levou até ao fim de setembro para conseguir aceder à base de dados do Comando Metropolitano do Porto.

Aliás, foi apenas a três de outubro que Íris finalmente conseguiu penetrar na base de dados do Comando Metropolitano do Porto da PSP. O Comandante devia ter ido buscar jovens licenciados em informática ou em engenharia informática ou de sistemas, acabados de se especializar na universidade, possivelmente malta já com o mestrado. Foi com um profundo espanto que Íris, apanhada de surpresa, se apercebeu que Vítor, qual fénix, renascera das cinzas e depois de uma passagem de sucesso pelo Porto, estava de regresso a Lisboa ao seu anterior lugar no Comando Metropolitano de Lisboa da Polícia de Segurança Pública. Mais espantosa ainda era a quantidade de elementos da Kalinka que ele conseguira prender no Porto, ao todo perto de quarenta.

Mas havia mais, Vítor Fernandes de Melo, vinha com a função de líder de uma nova unidade de combate ao terrorismo no seio da PSP, primeiro formada por ele no Porto e agora a aplicar em Lisboa. Esta unidade era designada pelos Gamas, o Grupo Anti Máfia de Ação e Segurança. Pior, não tinham só como missão impedir a propagação da Kalinka em Lisboa como também era este o grupo responsável pela sua captura.

A Felina copiou todos os ficheiros que conseguiu encontrar sobre a Kalinka e ainda os que se referiam ao Intendente que ela bem conhecia. Foi com espanto também que descobriu que Vítor deveria passar a Superintendente até ao final de outubro, quando tivesse acabado de formar os Gamas de Lisboa. Mas que salto o homem dera de repente, quase por milagre, sem que ela tivesse dado conta.

Aquilo não lhe parecia natural. Faltava-lhe uma peça qualquer do puzzle, não sabia bem o que era, mas algo não cheirava bem. Ninguém na mó debaixo vira o jogo a seu favor, tão rapidamente, de forma limpa. Os contos fantásticos podiam existir no mundo dela, que se dedicava a tornar reais os feitos dos super-heróis da banda desenhada, mas não na vida de um polícia. Vítor Fernandes de Melo jamais poderia ter conseguido aquilo de forma cristalina e sem cambalachos. Todavia, aparentemente, ela não conseguira descobrir aquilo que ele fizera. Nos ficheiros não havia pista alguma.

Para além das suas funções normais de ajudar quem precisava, enviando as suas encomendas especiais pelo correio e de, nos Ciclos da Sombra, continuar a prender bandidos para a PSP, ela ainda limpara três casas comerciais recetoras de ouro entre setembro e o fim de outubro. Apenas as noites de Lua Cheia não tinham tido romance em outubro, e ela atribuía o facto a tratar-se da chegada do outono. Sempre tinha mais dificuldades de se envolver romanticamente naquele mês.

A terça-feira, dia um de novembro, anunciava que, acabara de entrar nos ciclos da Luz mais uma vez. A pasta da Felina sobre a Kalinka estava agora o mais completa possível. Entrar nas bases de dados do Comando Metropolitano de Lisboa fora fácil comparado com o que tivera com o Porto. Até sabia ao detalhe quem pertencia aos Gamas de Lisboa.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 52

A Felina - 52.jpgNo caminho, a pensar que era bom não fazer nada quando não lhe apetecia, sentiu-se uma privilegiada Em Portugal, haveria muito pouca gente a poder agir assim. Enquanto conduzia lembrou-se que não pedira os três símbolos do Jaguar no carro. A cabeça em letras pretas e cromada na grelha, o animal em relevo lateral cromado nas traseiras e o jaguar cromado em três dimensões, a saltar, no capô.

Ligou para a Carclasse e avisou o Diretor Comercial. Dois deles já vinham de origem, disso ela podia estar descansada, quanto ao do capô eles tinham em stock e iram coloca-lo com muita honra. Ela que estivesse descansada, nem teria de pagar esse acrescento. A Carclasse tinha todo o prazer em oferecê-lo. Se ela quisesse até podia instalar o dispositivo que permitia a recolha do símbolo do capô, para o seu interior, evitando roubos. Eles tinham uma grande equipa pronta para trabalhar assim que as peças chegassem, não seria esse o problema, nem o atraso. Íris, agradeceu simpaticamente e aceitou a sugestão do processo antirroubo.

Ainda no trajeto, a rapariga ligou para a sua oficina de confiança, mais um daqueles a quem ajudara no passado, e perguntou ao dono se era possível mudar os emblemas traseiro e da grelha de um jaguar através de um qualquer tipo de chapa rotativa comandada de dentro do carro, num ela queria que se lesse a palavra jaguar e ativando o botão que este fosse trocado para um logo sem letras. O homem disse-lhe que sim, levava para aí uma semana, mas ficava um trabalho perfeito. Íris agradeceu.

Finalmente, estava a chegar à quinta. Passou o portão, vestiu-se de Felina, depois de estacionar na berma, logo a seguir à primeira curva do lado esquerdo da estrada e já virada em sentido contrário. Conferiu se não via ninguém, deu uma corrida até à sua árvore de eleição e chegou ao cimo do muro do terreno do solar.

Um movimento no interior obrigou-a a esconder-se na árvore que acabara de trepar. Em cima do muro podiam vê-la. Viu dois homens em direção a uma escada que estava encostada ao muro para lá do portão. Ambos tinham rostos fechados e cabelo cortado a pente um. Pareciam ser gente de Leste. Não entendia tudo o que diziam, mas tinha a certeza que falavam russo.

A língua russa não era uma das especialidades de Íris. Entendia o suficiente para compreender o significado de uma frase, mas não tinha domínio da língua para a falar, pelo menos fluentemente. Várias vezes entendeu o nome Kalinka, mas não o contexto. Aquilo era o nome de uma famosa canção russa, mas não lhe parecia haver enquadramento no contexto das frases. Também não entendia o que fazia dois russos, de escada às costas ali dentro da quinta. Tinha que entender o que se passava.

O segundo homem a subir puxou, com a ajuda do primeiro, a escada para cima e colocou-a do lado de fora do muro. Foi aí que ela reparou no Skoda Octavia Break RS 2.0TDI, de cor branca, do outro lado da estrada. Aquilo era carro para ter custado mais de cinquenta mil euros até porque a matrícula era recente. Vestiam sem gosto, mas eram dois tipos secos e altos, de estilo militar. Toda aquela envolvência era estranha, muito estranha.

Os fulanos desmontaram a escada de harmónio e prenderam-na no tejadilho do carro. Estavam a entrar para a viatura quando uma carrinha passou por eles na subida da ladeira. Não só ambos não entraram logo, como ficaram a ver se a carrinha parava ou se fazia algo suspeito. Só quando confirmaram que não, é que entraram no Skoda e partiram em direção da Malveira da Serra. Pararam uns metros à frente para prenderem melhor a escada que tinham colocado no tejadilho, voltaram a entrar e não pararam mais.

A Felina confirmou que tinha a costa livre e desceu para a estrada. Tirou o fato no carro, guardou tudo e desceu a colina de volta a Lisboa. Uma vez na capital, decidiu ir almoçar ao restaurante “O Madeirense”, no Amoreiras Shopping. Apetecia-lhe umas lapas grelhadas com limão, um filete de peixe-espada com banana e maracujá e uma maçã assada com Vinho da Madeira, à noite ia comer carne.

Finalmente despachada rumou a casa. Estacionou o Dácia na garagem e subiu pelo elevador ao primeiro piso. Foi buscar um digestivo e sentou-se ao computador no seu quarto secreto. Ora, ela ouvira Kalinka, nas primeiras páginas do Google apenas lhe apareciam coisas sobre a música russa. Todavia, quando passou para a imprensa online deu logo com uma notícia do JN, sobre a Máfia russa do Porto, autodenominada de Kalinka. Era isso!

Para ela a Máfia russa devia estar à procura de poiso na capital. Depois de investigar mais um pouco descobriu que a quinta estaria à venda em hasta pública brevemente. Tinha de estar atenta. Aquele pessoal quereria por certo ocupar as posições de Jô Muttley, ou pelo menos parte delas. Bonito serviço. Se tudo aquilo tivesse ficado sem ser badalado na televisão provavelmente os mafiosos não saberiam tão cedo que havia um lugar a ocupar. Iam mudar as moscas, mas a merda continuaria a mesma.

Como sempre ninguém pensara que anunciar com aquele espalhafato o fim de uma enorme rede mafiosa iria atrair fregueses indesejados prontos para a substituírem. Era triste, às vezes achava que vivia num país de galarós idiotas. Os culpados da Kalinka vir para a capital eram eles.

Todavia, outra notícia tinha mais informações sobre a Kalinka, segundo outro artigo do JN a Kalinka fazia parte do Grupo Wagner, os assassinos privados ao serviço de Putin, que tinham estado na linha da frente na guerra na Síria e que lideravam as hostilidades russas na guerra na Ucrânia. A Kalinka era o braço mafioso do grupo terrorista e estava espalhado por toda a Europa. E agora, graças à PJ e ao Governo, vinham-se instalar em Lisboa. Aquilo tirava-a do sério. Cambada de gabarolas.

Ela ia ter que prestar atenção redobrada dali para a frente. Não os podia deixar levantar muito a garimpa. Aquilo era outro nível de mafiosos e com outro treino. Algo como uma divisão principal. Mais uma vez a Felina agradeceu ao seu instinto de predador, porque tinha de ser na altura exata em que decidira ir visitar a quinta que os russos haviam de lá estar? Ela não sabia explicar, mas tinha sorte, muitas vezes com aqueles seus repentes, mais, muito mais do que seria normal acontecer.

Isso ia implicar que teria de voltar a assinar a assessoria com a Polícia Judiciária, mais dia menos dia. Ela ainda nem descansara devidamente. Enfim, faria o que fosse preciso. Mas não ia poder estar parada por muito tempo. Agora, o que lhe apetecia mesmo, era um gelado da Santini de Cascais, a geladaria mais badalada da zona metropolitana de Lisboa. Novamente meteu-se no carro. Desta vez com destino para o número cem da Alameda dos Combatentes da Grande Guerra na baía de Cascais.

Íris, não dera pelo passar do tempo em Cascais. O fim de tarde estava maravilhoso e ela andara a ver montras, vira malas, jeans e sapatos, muitos sapatos. Porque gostaria ela tanto de sapatos? Não sabia bem, mas era quase uma doença. Não precisava de comprar sapatos, mas a temática não podia ser discutida sobre o precisar ou não. Era muito mais, isso sim, o ter que ter ou não aquele ou outro par de sapatos.

Regressou a casa, foi mudar de roupa para a noite e finalmente arranjou-se para sair. Ao preparar-se para entrar na Rua de São Bento, vinda da garagem e, ao olhar para a direita, viu à porta principal do seu prédio, sentado no chão, o surfista desgrenhado da noite anterior. O seu táxi devia estar a chegar. Fez-lhe sinal, o homem voou pelo passeio e veio ter com ela com um sorriso de orelha a orelha. Pelos vistos este gostara do que comera.

Com a chegada do táxi, e com o seu surfista atrás, foi um instante em que chegaram ao representante da Jaguar. Íris, olhou para as horas, nem meia hora demorara, faltavam dez minutos para o fim do prazo. O Diretor Comercial vi-os chegar e veio ao encontro da cliente. Na mão trazia o comando da viatura. Estavam a terminar apenas a limpeza final. O seu chefe de oficina estava a chegar com a viatura. Não devia demorar muito.

Realmente, uns três minutos antes do final do prazo combinado o homem entrou com a viatura. Ambos estavam à espera de uma inspeção rigorosa por parte de Íris, contudo, ela sorriu e disse que quem cumpria o que prometia, não erraria depois disso nos detalhes. Dizendo de outra maneira, insistia, tinha agora total confiança na Carclasse. Não seria necessário e muito menos preciso fazer qualquer verificação.

Só faltou meter um babete por debaixo do queixo do Doutor Henriques Figueira. O homem estava delirante com o elogio à empresa.  Até o Jaguar se fazer à estrada o homem disse e repetiu umas dez vezes que estavam ali para o que fosse preciso. Qualquer coisa que a Doutora Íris Vasconcelos precisasse bastava ligar. Se não tivesse acontecido ele próprio tinha dúvidas que o que tinham realizado seria possível. No entanto, o impossível acontecera afirmava a rapariga e ela tinha muito orgulho, afirmava sorrindo, de ser cliente de uma empresa que consegue o impossível.

Rumo à Malveira da Serra o surfista foi fazendo perguntas sobre aquela última conversa e ela lá foi descrevendo a história por entre as exclamativas admiradas do desgrenhado morenaço. Sem vir a propósito a jovem perguntou-lhe:

      ― Olha lá, e tu estás à espera do quê para me dizeres o teu nome? ― quis saber Íris.

     ― O meu nome é Ricardo Melro Miranda, tenho uma pequena empresa de distribuição. Faço serviços de distribuição de mercadorias em Portugal e no Brasil. ― respondeu o surfista e prosseguiu. ― Consigo gerir as operações todas por telemóvel. A vida é bela.

Depois prosseguiu esclarecendo que também tinha dois excelentes diretores comerciais e dois ótimos gestores de frotas. Uma dupla em Portugal e a outra dupla no Brasil. Porém, ela que não pensasse que ele era rico, pois não era. Vivia bem, esclarecia, normalmente quase que só fazia o que queria. Mas ainda estava longe de não ter que trabalhar.

Enquanto lhe era possível ia tentando aproveitar a vida. Porém, tivera sorte, herdara algum dinheiro e investira na distribuição. Começara com três camiões, hoje tinha quarenta e sete. Dezasseis em Portugal e trinta e um no Brasil. A camionagem no Brasil era mais rentável que em Portugal. No entanto, graças à pandemia, tinha conseguido crescer bastante no país, principalmente com os transportes de longo curso, em viagens à Alemanha e a Inglaterra, na maioria dos casos.

Chegados ao Restaurante Estrela da Serra, o surfista atacou uma gigante espetada de carne de vaca e camarão. Ela preferiu um tornedó fabuloso, de fazer água na boca só de olhar.

A noite acabou uma vez mais na cama, no duche, em cima da mesa da sala de jantar, na cozinha, aqui e ali, onde calhava e foi uma verdadeira loucura. Era evidente para Íris que o rapaz se entusiasmava com ela. Estava constantemente a inventar disparates eróticos para fazerem e divertidíssimo por a ver alinhar nas suas fantasias. Quando acordou, no dia seguinte, estava, como na primeira vez, a dormir sozinha.

 

(continua no Capítulo XIII) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 51

A Felina - 51.jpgEla estava romântica naquela manhã, era normal nos dias de Lua Cheia, foi ver, como habitualmente o seu correio eletrónico, depois de se arranjar, conferiu ainda a sua lista de auxílios aos necessitados, tinha sete em que já terminara a investigação prontos para enviar, esteve a fazer as encomendas e deixou tudo pronto para entregar ao seu amigo dos CTT. Levara um rombo de mais duzentos e cinquenta mil euros. Verificou online os saldos das suas contas. Estava à vontade, o ano tinha sido muito produtivo.

Depois deu uma vista de olhos pela imprensa online, anotou mais três aflitos do Correio da Manhã, para futura investigação e possível auxílio, e quase no final deu com ele: um Jaguar F-Type Convertible R 75P575 AWD Automático, entrou na publicidade da marca, com todos os acessórios o Jaguar preto custava cerca de cento e noventa e cinco mil euros. Estava apaixonada. Na garagem ainda tinha espaço para mais dois carros e três motos, pelo que havia onde o guardar.

Com o número do representante a chamar, enquanto assobiava baixinho, aguardou uns trinta segundos. Estava decidida a comprá-lo no nome de Íris, era uma excelente viatura para os seus devaneios noturnos ou quando fosse para fora da cidade ou quando quisesse dar nas vistas. Na conta do Millennium BCP havia verba que dava e ainda sobrava muito. Do outro lado, escutou o bom-dia do representante. Descreveu o carro, definiu os acessórios e perguntou a que horas podia ir buscá-lo. Pela linha, o homem confirmava que tinham um pronto e em stock, mas que alguns dos acessórios demoravam uns dias.

Nada disso avançou Íris rindo, ela queria hoje. Ele que falasse com o gerente, ela pagava mais cinco mil euros pela urgência, mas ou era hoje ou não era nunca. O homem engasgou, ia a tentar argumentar quando ela o avisou de que estava a perder tempo. O sujeito pediu um momento.

Quando regressou pediu-lhe o contacto, o gerente estava a falar para a fábrica e ele já ligava de volta dentro de meia hora. Íris disse-lhe que o contacto era pessoal e que ligaria dali a meia hora. Saiu de casa, no seu Dácia, foi à sua dependência do Millennium BCP, pediu um cheque visado de duzentos mil euros e rumou à Carclasse, o concessionário da Jaguar.

Estacionou na Avenida Marechal Gomes da Costa número trinta e três, vinte e sete minutos depois de ter desligado a chamada. Entrou nas instalações da Carclasse e pediu para falar com o gerente. Pediram-lhe que aguardasse um instante pois o Doutor Henriques Figueira, normalmente em Braga, era o Diretor Comercial que hoje ali se encontrava ao serviço, mas estava a ultimar um telefonema urgente. Íris olhou para o relógio, a meia hora acabara de passar. Sorriu mais uma vez e disse:

      ― Diga ao Senhor Doutor que a Doutora Íris Lobato de Lemos Pessanha Vasconcelos, está aqui à espera e que é por causa dela que ele está ao telefone, porém, lamento muito, mas a meia hora já passou.

O homem ia para argumentar, mas a jovem não o permitiu. Fez-lhe sinal que fosse dar o recado e ficou a marcar o tempo. Um minuto e meio depois o Diretor Comercial chegava um pouco afogueado, com o outro atrás. Pediu desculpa, pois a chamada demorara um pouco mais. Estivera a falar com a Jaguar Land Rover no Reino Unido, diretamente com a sede, efetivamente, com a proposta de extra que ela fizera era possível ter o carro já com matrícula e tudo no nome dela se ela pagasse ainda hoje e lhe entregasse cópia da sua documentação. Íris pegou na pastinha que trazia debaixo do braço e passou-a ao Doutor Henriques Figueira. Este abriu e verificou que esta tinha tudo o que ele precisava, incluindo um cheque de duzentos mil euros, visado, em nome da Carclasse. O homem quase que se engasgava ao engolir em seco. Ainda atrapalhado proferiu:

      ― Parece-me que está tudo certo Doutora Íris Lobato Vasconcelos. Se me permite vou já tratar da encomenda pois vem um avião de Inglaterra com as peças em falta. Quer o troco em cheque ou em numerário? ― questionou o Diretor.

      ― Não quero troco, quero é vir buscar o carro pronto às oito da noite em ponto, acha possível? ― indagou Íris.

      ― Se não lhe fizer muita diferença preferia à oito e quinze. Nós fecharemos um pouco mais tarde para lhe deixar tudo pronto... ― retorquiu o Diretor.

Ela concordou, estaria ali às oito e quinze em ponto. Guardou o recibo e saiu.

A rapariga vinha divertidíssima. Aquele ar de durona que ela às vezes colocava, deixava sempre os homens em sentido, principalmente quando havia dinheiro envolvido e era ela a pagar. Era bom que à hora marcada lhe passassem as chaves do carro para a mão e que este viesse atestado e com os papeis tratados como ela referia na cartinha que constava dentro da pasta que lhes entregara, senão anulava a venda, só porque sim.

Henriques Figueira sentiu o rosto voltar ao normal. Tinha que ter tudo pronto mesmo à hora certa. Pelo que constava na carta que acabara de ler, a venda ficaria sem efeito se houvesse atraso na entrega da viatura. Confirmou tudo com a Sede em Inglaterra, referiu bem os prazos que tinha e o detalhe e que a venda seria anulada pela compradora se a viatura fosse entregue fora de prazo. Do outro lado confirmavam-lhe que as peças já estavam a caminho do jato que as traria para o aeródromo de Tires.

O Diretor Comercial disse que ia enviar de imediato uma carrinha para o aeródromo e falar com a alfândega. De seguida ligou para um amigo da Alfândega do Porto e expôs o problema, este disse-lhe que podia estar calmo que já lhe ligava de volta. Quando retornou a chamada o outro garantiu-lhe que tratara do assunto e deu-lhe o nome de quem deviam contactar em Tires a quando da chegada do avião.

Estava a desligar e o seu telefone tocou novamente, era o homem que mandara tratar dos papeis do carro a dizer que estaria tudo resolvido dentro de hora e meia. Henriques Figueira estava satisfeito. Mais um telefonema para enviar a carrinha para Tires e depois cuidou de convocar a equipa da oficina para estarem todos de prontidão para tratarem da viatura a tempo de entrega e avisou ainda que a mesma tinha de ser entregue atestada.

Só depois de sentir tudo a andar é que o homem descansou um pouco mais. Estava a aproximar-se dos quarenta anos de idade, já tinha vinte anos de casa e nunca lhe tinha acontecido uma destas. Ainda não estava relaxado. Até ver o automóvel pronto a entregar, não ia ter como descontrair. Uma coisa daquelas era inédita. Ainda havia algo na sua cabeça… ele conhecia o nome e aquela cara de algum lado, mas de onde? De repente, sem saber bem como, lembrou-se, era a Assessora da PJ a que se demitira depois de os entalar.

Aquela mulher era fogo. Ela até conseguira correr com um coordenador superior da Polícia Judiciária. Pelo que ele sabia do currículo dela que vira na altura na internet, a sujeita era assessora da casa mãe da Rolex, da Louis Vuitton, da Dácia, e de mais uma boa dúzia de marcas internacionais. Também vira que ela era doutorada em Antiguidade Clássica, o que nada tinha a ver com as suas assessorias, mas o facto é que parecia que todos a queriam. Só podia ser uma pessoa muito inteligente e ainda por cima era cá um pedaço de mulher, vá lá, vai.

Íris, achou que depois de ter o seu carro novo devia ir jantar a algum sítio diferente. Teria de ser com companhia, depois veria quem convidaria, o problema estava em escolher onde ir. Lembrou-se do Restaurante Estrela da Serra, na Malveira da Serra, já fazia algum tempo que não visitava a sua amiga e sócio-gerente do local, a Tê Beleza Figueira. Ela que há pouco andara por aqueles lados na quinta do Muttley e nem se lembrara de lá ir comer. Ligou para a amiga e aguardou. Ao fim de meio minuto foi atendida.

      ― Olá Tê, daqui é a Íris. Eu sei, eu sei, agora sou estrela de televisão. Olha, tem lugar para mim na mesa da direita junto à lareira para esta noite? Somos dois para o jantar, lá para as oito e meia, um quarto para as nove... ― quis saber Íris.

      ― Para ti sempre, minha querida. Escolhes quando chegares ou tens alguma ideia prévia? ― perguntou a amiga.

      ― Escolho quando chegar, mas diz-me, quanto ao vinho tinto, ainda tens Quita do Vale Meão de 2012? Tens! Ótimo, reserva-me duas garrafas. ― respondeu a jovem.

     ― Certo, podes contar e vens em negócios ou romance? Romance, tudo bem, vou pôr as velas e acender a lareira. Ainda está calor, mas à noite é mais fresco e fica lindo… ― garantiu Tê Figueira.

A rapariga estava contente, o dia continuava maravilhoso como começara. Até ia dar um salto ao muro da quinta de Jô, só para matar saudades. Não, a ir a esse lugar ia agora, à noite podia estar demasiado arranjada para andar a trepar às árvores.

Saiu de casa novamente e tirou o carro da garagem, ia dar um olhar à quinta.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 50

A Felina - 50.jpgA Direção Nacional anunciava por último, em ofício separado, que devia ser implementado o quanto antes, pelo Comando Metropolitano de Lisboa, um comportamento de tolerância zero para com a Kalinka, caso esta se viesse mesmo a instalar no raio da área da Grande Lisboa, dependente daquele comando. O ofício vinha assinado pelo Superintendente-Chefe e Diretor Nacional, Miguel Agosto Margina da Silveira.

Seguia-se um anexo com explicações detalhadas sobre a Kalinka, de acordo com o último relatório apresentado pelo Intendente Vítor Fernandes de Melo, onde constava a negrito que esta organização mafiosa era um braço que, comprovadamente, estava integrado estruturalmente no Grupo Wagner e espalhada por roda a Europa. Ora, sendo o grupo Wagner uma organização privada militar, ao serviço da Rússia e de Putin, responsável por crimes de guerra na Ucrânia e na Síria, entre outros locais, a Kalinka em Portugal fora recentemente classificada, pelo Governo português, como uma máfia terrorista integrada no Grupo Terrorista Wagner, devendo ser perseguida e erradicada, a todo o custo, do território nacional.

Tendo em conta todas aquelas novidades e o modo como Vítor agira durante a sua passagem pela cidade Invicta, o Comandante do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP, encarregou-o de criar, organizar e escolher os elementos para os Gamas de Lisboa, que ficariam instalados no edifício anexo ao da sede daquele comando.

Assim que o grupo estivesse formado ele passaria a comandar essa unidade com o posto de Superintendente. Todos os elementos deviam fazer parte dos quadros policiais pertencentes à área geográfica do Comando Metropolitano de Lisboa da Polícia de Segurança Pública e já ter, pelo menos, na sua folha de serviço, cinco anos de experiência na polícia.

O futuro Superintendente enviou para todas as esquadras e outros serviços do comando de Lisboa, uma nota informativa sobre a abertura das vagas para os Gamas, explicando que seria um grupo que atuaria contra organizações mafiosas ou com foras-da-lei como a Felina. Ele sabia que, com este detalhe afastaria do seu núcleo todo e qualquer admirador da gata o que, só por si, era um excelente indicador de futura fidelidade a si e aos Gamas.

Tendo em conta a popularidade da gata na capital, foi deveras surpreendente até para Vítor assistir à inscrição de oitenta e sete polícias voluntários nas candidaturas aos Gamas. Porém, através da análise curricular conseguiu, com relativa facilidade, formar um grupo com sessenta indivíduos. Muitos deles já com alguma experiência no combate ao crime organizado. Para dar formação ao grupo foi buscar um grupo de oito instrutores aos diversos ramos policiais e militares do país. Do SIS, às Forças Armadas, passando pela própria polícia, SEF e GNR.

No final, tinha uma seleção de polícias devidamente treinados para os desafios que poderiam defrontar. Foram escolhidos dez elementos para o plano de apoio e coordenação na sede e, cinquenta, divididos por grupos, núcleos e brigadas, com valências específicas cada um. A formação do pessoal levou-lhe o final de setembro e todo o mês de outubro.

Entretanto, conseguira que Alex Budvi adquirisse em asta pública a quinta de Sintra que pertencera a Jô Muttley, através de uma empresa de fachada que funcionava como filial de uma multinacional russa controlada pelo líder do Grupo Wagner. Essa seria a sede da Kalinka na Grande Lisboa. Porém, em vez de adquirirem outras propriedades recorrem antes ao aluguer de meia dúzia de vivendas espalhadas pela zona metropolitana e estrategicamente colocadas pelo território.

Para os chefes da Kalinka deslocados do Porto para Lisboa foi relativamente fácil aglutinar os pequenos grupos de delinquentes russos e de países de Leste existentes na zona, através da Embaixada Russa que sabia bem caracterizar os seus cidadãos na zona em causa. Alex Budvi deixou o seu lugar de tenente, à número dois, Natacha Kutcheva, encarregue da organização no Grande Porto e veio, ele próprio, liderar a sede a Sul. Tratava-se de um passo importante para a organização e não podia entrega-la nas mãos de terceiros.

Juntamente com Budvi vieram ainda mais três dos chefes dos grupos do Norte, para que a estrutura pudesse iniciar a atividade com alguma maior experiência e devidamente fortalecida. Dois deles até já tinham vivido uns anos na zona da Grande Lisboa.

A estrutura da Kalinka na capital seguiu as diretrizes da organização no Porto e no resto da Europa. A meio de outubro já tinham recebido todo o armamento de que necessitavam, angariaram no próprio mercado local o primeiro lote de prostitutas a que juntaram mercadoria própria vinda de Leste. Os pontos de distribuição da droga foram fornecidos por Vítor, bem como de outros negócios tendo em conta a antiga rede de Muttley.

No final de outubro já estavam a laborar a todo o gás, como se estivessem há muito anos instalados na região. Para que isso fosse possível, muito contribuíra o conhecimento passado por Vítor, ao detalhe, para as mãos agradecidas de Alex Budvi. O homem estava admirado com a sede de vingança que alimentava o seu amigo da polícia. Ele achava Vítor cada vez mais disposto a fazer qualquer coisa para levar a bom porto a sua missão de destruir e por fim eliminar a Felina.

Ora, para a Kalinka em Lisboa, a gata também era um entrave ao progresso e prosperidade da organização. Por isso mesmo já fora lançado um plano especialmente desenhado para a conseguir deitar abaixo. Aliás, Budvi considerava que isso era bem mais simples do que todos lhe diziam. Ela não passava de uma mulher só, sem apoio de homens com maiúscula, a combater uma das maiores e mais bem organizadas máfias da Europa.

Com eles não haveria lugar para samba ou farró. A Kalinka podia também ser uma música, mas era a música dos bravos e resilientes duros da nova e moderna Máfia russa. Era uma organização que jamais vergaria perante um mero e pouco relevante rabo de saia. Devido aos avisos constantes de Vítor iriam ter mais cuidado do que normalmente faziam com um inimigo individual, mas no fundo, para Alex Budvi, o perigo da Felina era algo insignificante e meramente residual.

A máfia instalou-se metodicamente desde a Península de Setúbal, até aos concelhos na margem sul do Tejo e toda a zona metropolitana de Lisboa, abrangendo assim os concelhos da Amadora, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Odivelas, Oeiras, Sintra e Vila Franca de Xira. O intuito era poder atuar num vasto território de três milhões de habitantes, onde o poder de compra era bem mais enriquecido do que no resto do país.

Na noite de Lua Cheia, a dez de setembro, sábado, a Felina sabia, como que por instinto, que nem valia a pena tentar estudar. Todo o seu ser ansiava outro tipo de diversão que nada tinha a ver com o seu gosto pelo estudo. Mesmo estando muito entusiasmada com o seu mestrado essa não era uma boa noite para esse tipo de passatempo.

Ao verificar que já eram sete da tarde, Íris confirmou se tinha o seu bilhete para ir ao Coliseu de Lisboa assistir ao concerto de Xavier Rudd. Não conseguia entender como é que o concerto do músico australiano estava esgotado, contudo, era um facto, ela apenas o escolhera por ser o evento que mais lhe agradara para iniciar o segundo dos Ciclos da Luz, o da Lua Cheia, Era uma música umas vezes melódica, mas lenta ou então confusa e demasiado tribal para o seu gosto, mas o cantor sufista tinha obviamente bastantes fãs na capital portuguesa.

Ela ia ao concerto porque lhe parecera o melhor cartaz do início da Lua Cheia na capital e podia ser que o “Follow The Sun” sempre se ouvisse naquela noite. Não era o mesmo do que seguir a Lua, mas era a coisa mais aproximada. O concerto teve início à hora marcada e a sorte fez-lhe companhia. Ao seu lado estava um surfista de cabelo castanho, desgrenhado, aloirado pelo Sol de muita praia, algures na casa dos trinta e poucos anos, que já devia ter fumado uns quantos charros antes do concerto.

O sujeito acabou por passar a noite com ela a surfar pelo seu corpo como se o conhecesse melhor que a sua mais estimada prancha. Só por isso o concerto já valera a pena, porque em termos musicais, a música no palco não lhe dissera grande coisa. Já o atlético companheiro da noite valera bem pelo bilhete, tendo tido uma atuação digna de vencer as mais altas ondas da longa euforia que durara e renascera diversas pela noite fora, como se o mar a invadisse, em marés agitadas, pleno de vagas e ondas vigorosas de puro prazer.

Quando acordou já o seu noturno companheiro partira rumo ao nascer do Sol, lá para os lados da Ericeira, onde os cavalos selvagens ainda pareciam correr em liberdade, quais cavalos marinhos na crista de ondas impossíveis de transpor, que não pelos poucos sonhadores da liberdade.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 49

A Felina - 49.jpg XII

A Ameaça da Máfia Russa

XII

Vítor Fernandes de Melo não sabia muito bem o que fazer com a sua vida. Sabia que no Comando Metropolitano da PSP, embora ninguém lhe dissesse nada, também já estava queimado, mais do que o falhanço a apanhar a Felina no Museu, fora a TVI, com uma ajuda do Expresso, quem lhe tinha feito a cama. Precisava reagir e depressa para não se afundar rapidamente.

Ultimamente, o seu tempo era passado na sede do comando a atualizar sistemas, a reorganizar o modo como deveria estar a funcionar o arquivo, enfim, a modernizar e trazer para o presente século aquele órgão policial. O certo era que essa atitude, de não ter levantado muitas ondas e ter começado aquele trabalho interno, o mantivera no lugar. Começara, ainda, naquela semana, a organizar a articulação do comando com outros comandos regionais, com as esquadras e com os serviços centrais, bem como com as outras forças policiais e os seus respetivos departamentos.

De momento, embora o seu ódio pela Felina crescesse minuto a minuto, nada podia fazer para a apanhar. Tinha que manter, para já, um perfil sereno e esconder do mundo o seu absoluto desejo de vingança. Por sua vontade ou a prendia com a pena máxima ou lhe dava um tiro que acabasse com ela, se pudesse alegar legitima defesa. Das duas ele sabia que uma haveria por acabar por acontecer mais cedo ou mais tarde.

Era a missão da sua vida e nada, nem ninguém, impediria, mesmo que tentasse, que esse objetivo fosse atingido. Todavia, por agora, tinha de se manter aparentemente calmo e desinteressado desse tema, mas estava atento, muito atento.

Por volta do dia cinco de setembro, uma segunda-feira, Vítor, recebeu do Comando Metropolitano do Porto da PSP um ofício interno a comunicar que a Kalinka, uma organização mafiosa oriunda do leste europeu, principalmente composta por russos, parecia estar a querer expandir a sua área de intervenção em Portugal, do Porto, único local onde se sabia haver um elevado número de elementos, para Lisboa.

Ora na capital, como no resto do país, não era conhecida até à data qualquer ramificação da organização. A informação tinha por base três escutas particulares a elementos dessa máfia, autorizadas pelo tribunal e relacionadas com vários casos de venda de armas no submundo nortenho. Nelas tinha sido descoberto o envio de vários elementos para a zona metropolitana da capital a fim de ser estudada a melhor localização de uma nova base.

Do que as conversam tinham conseguido apurar, a organização queria aproveitar o vazio deixado pela quadrilha de Jô Muttley na área metropolitana de Lisboa. Aparentemente a pressão da procura de serviços antes prestados por Muttley estava a aumentar significativamente e a oportunidade, a haver uma, parecia ser imediata. Tudo levava a acreditar que a Kalinka pretendia aglutinar os pequenos grupos de bandidos oriundos do Leste e fundi-los em torno de si mesma, fazendo nascer a base de Lisboa, sob o comando de um dos líderes do Porto que se deslocaria para Sul. Infelizmente, nenhuma das conversas referia datas ou locais que pudessem servir de referência e de informação mais detalhada.

Depois seguia-se um relatório sobre as atividades da Kalinka no Grande Porto e a explicação de que o nome da máfia derivava do significado da palavra, que em português era o de uma árvore da família do zimbro ou do cedro, cujas principais caraterísticas eram a facilidade de implantação em novos territórios, uma excelente resiliência e longevidade e uma dureza impressionante, tudo caraterísticas desta máfia que, segundo os dados do comando do Porto, mais não era que um braço civil de bandidos do poderoso grupo de mercenários russo designado comumente por Grupo Wagner.

Este era, então, o mesmo grupo que parecia liderar o lado russo na guerra da Ucrânia. No Porto, mais uma vez, a organização tinha dois subgrupos, os bandidos, ladrões, traficantes, extortores, conhecidos pelos Zimbros e as chefias, os raptores e assassinos designados por Cedros. Este último subgrupo, muito menor que o primeiro, detinha o comando, o controlo e a liderança de toda a Kalinka.

Com este dossier na mão, Vítor, apresentou às chefias a sua ideia de ir umas semanas para o comando do Porto, aprender mais sobre esta máfia, de forma a que o comando de Lisboa se pudesse preparar atempadamente, antes da chegada da organização à capital. A ideia foi muito bem recebida, principalmente por o afastar a ele dos holofotes da comunicação social por mais algum tempo, mais do que pela importância imediata de uma situação que, até ao momento, era uma mera conjetura.

Com a guia de marcha na mão e uma vez a proposta aceite pelo comando do Porto, no dia sete de setembro, este apresentou-se na sede nortenha ao serviço. A pronta resposta de Lisboa, que não assim tão vulgar, agradara imenso às chefias na Invicta. Ainda mais ao verem o genuíno interesse do oficial enviado. Com a chegada do fim-de-semana, no domingo, a onze de setembro já Vítor tinha prontos os novos arquivos que iria levar para Lisboa, com toda a informação que o Porto tinha sobre a Kalinka.

Porém, em vez de regressar à capital e usando a desculpa de querer entender como eles funcionavam no terreno, integrou o grupo que o Comando Metropolitano da Porto da PSP tinha a trabalhar no assunto. O Intendente ia a tudo, vigilâncias, detenções, rusgas, o que quer que fosse.

Ganhou, aliás, excelentes relações com os líderes do comando do Porto e com o grupo com quem trabalhava diariamente. Vítor, ajudou a otimizar os serviços metropolitanos da PSP na Invicta enquanto, sem nunca se impor, e parecendo aceitar e fundir as ideias dos outros elementos, sem qualquer ressentimento, criava novas estratégias e planos de atuação para aquilo que designou como o Grupo Anti Máfia de Ação e Segurança, os Gamas.

Para estes criou até um emblema e um nome. Eles passaram a ser conhecidos como os Gamas da PSP. O emblema era azul escuro torneado a dourado com umas tripas cinza em cruz, no interior, e um coração vermelho no centro, com a palavra gamas a dourado no topo. Também propôs, e foi aceite, o lema: “Fazemos das Tripas, Coração!” que ladeava os dois lados do emblema. Os homens estavam felizes, motivados e mortinhos por mostrar serviço, o que agradara sobremaneira às chefias nortenhas desejosas de por fim àquela máfia na cidade, que se espalhava como um polvo.

No domingo à noite, de regresso à pensão onde se encontrava, Vítor estava delirante, pois tudo corria conforme planeara. Antes dessa noite terminar conseguira ser conduzido à presença do líder da Kalinka no Porto, um indivíduo russo de nome Alex Budvi. Fora a ele que propusera juntar-se à Kalinka e ajudá-los a expandir a máfia para Lisboa. Sem rodeios colocara as suas condições, pretendia fazer parte dos Cedros, ser pago com um valor equivalente às chefias e impunha a condição da ajuda da organização para caçar e liquidar a Felina de uma vez por todas. Em contrapartida aceitaria quaisquer circunstâncias que lhe fossem impostas pela máfia, sem a mínima oposição ou reclamação.

A Alex Budvi aquele negócio caíra do céu. Podia não saber o que contar por parte da PJ em Lisboa e Porto, mas passaria a controlar as ações da PSP que, até ao momento era quem lhe tinha trazido mais problemas. Ter um informador, ainda por cima motivado pela vingança era como ter um cão fiel ao fundo da cama. Claro que possivelmente, quando matassem a Felina, teria de o abater também a ele, mas podia até ser que não. O acordo ficou fechado.

Para Vítor, aquele domingo, onze de setembro era o primeiro dia do fim da pantera negra. Ele ia ter a sua vingança e rir por último.

Para poder fazer figura, antes de regressar a Lisboa e esperar pelo elemento dos Cedros, que veria organizar a célula da capital, Vítor, combinara com Budvi, apanhar e prender, ao serviço do Comando do Porto, as franjas do Zimbro que o russo considerasse corruptas ou a necessitar de serem substituídas por grupos mais ativos.

O homem do Leste achou uma boa maneira de limpar os indesejáveis ou os incapazes e, numa semana, o comando do Porto prendeu quase quarenta mafiosos em ações cirúrgicas planeadas pelo, cada vez mais admirado, novo elemento do Comando Metropolitano da PSP do Porto. Ao regressar a Lisboa, no início de outubro, mais propriamente no dia três, foi com mágoa que o comando do Porto, no Largo 1º de dezembro e os Gamas, também ali instalados, o viram partir.

Ficara, aliás, o convite de que se alguma vez quisesse regressar ao Porto seria recebido de braços abertos, segundo o Superintendente-chefe, que liderava o comando da Invicta, nem sequer conseguia entender porque é que um elemento com o gabarito de Vítor era mal-aceite no comando de Lisboa. Por se ter enganado uma vez? Era ridículo, afirmava.

Os elogios e o relatório de serviço do Comando nortenho, eram de tal maneira positivos e elogiosos que o Comandante do Comando Metropolitano de Lisboa considerou que talvez tivesse havido algum preconceito, em Lisboa, na avaliação que tinham feito de Vítor Fernandes de Melo, principalmente por causa de toda a confusão à volta da Felina e da assessora da Direção Nacional da PSP. O relatório do seu colega no Porto não podia ser mais positivo, nem mesmo que ele o quisesse fazer.

Aliás, a Direção Nacional da PSP, enviara-lhe uma norma de serviço, baseada no trabalho do seu Intendente, para que também em Lisboa, a nível metropolitano, fosse criada a unidade especial dos Gamas, a exemplo do que fora proposto pelo Comando do Porto e integralmente aceite pela Direção Nacional. Com esta norma chegara ainda uma recomendação, em forma de nota interna, da passagem do Intendente para Superintendente, numa data que deveria ser próxima, de forma a reparar a subavaliação que fora feita relativamente ao oficial Vítor Fernandes de Melo.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 48

A Felina - 48.jpgEsses sim, eram os verdadeiros heróis. Esses sim, podiam e deviam ser recompensados e aplaudidos pelos seus pares e por todos aqueles a quem serviam com humildade e abnegação, diariamente, num quotidiano sem fim. A eles, a todos os que serviam o bem comum é que era devido, hoje e sempre, um verdadeiro e sincero aplauso.

Para os partidos de esquerda a gata não passava um produto de uma sociedade que não cuidava dos seus. Num país realmente democrático e em que os que trabalham fossem devidamente remunerados pelo seu contributo, não poderia nem haveria lugar para este tipo de personagens. Porém, perante a miséria e a falta de condições de vida não era de admirar o aparecimento destes ditos heróis ou heroínas.

Mais do que tudo o importante era o Governo reconhecer que era precisa ser feita uma profunda reforma social. A atual heroína, que o povo tanto apreciava, deixaria de ter lugar e de fazer qualquer sentido, se essas reformas fossem implementadas. No entanto, ninguém se devia admirar que estes processos voltassem a acontecer caso tudo se mantivesse na mesma. Era este que devia ser o foco e era isso que defendiam, fosse a sua posição ou não do agrado de terceiros.

Já o líder da direita radical, um tal de Tomé Frescura, era a favor da prisão efetiva dos parasitas da sociedade, que vivem à custa do povo português, disfarçados de ovelhas, enquanto não passam de grandes cabras. Segundo ele, a Felina existia porque o Governo o permitia, ela apenas servia para afastar as atenções de que é ele quem, efetivamente, desviava todos os dias o dinheiro do povo.

Tomé Frescura, lembrava que noutros tempos, chamados de mais bárbaros, aos ladrões era cortada uma mão e depois a outra em caso de reincidência. Embora algo assim tão radical já não pudesse ser considerado algo politicamente correto, no entanto ver um ladrão a ir perdendo um ou outro dedinho como pena de um crime de roubo não era assim nada de tão radical. A sociedade poderia dessa maneira começar a assistir realmente a um testemunho visível de que os prevaricadores não ficavam impunes. Só assim se poderia eficazmente confirmar existir uma justiça eficaz.

Para os comentadores da comunicação social as posições eram das mais variadas. Para o humorista Renato Marujo Macieira o papel de uma larápia que se dá ao trabalho de gamar terceiros, tendo o cuidado de não desviar verbas de quem delas precisa, como de pão para a boca, já era um princípio que ele valorizava de sobremaneira. Mas ainda lhe parecia mais louvável que ela acudisse aqueles que não tinham a quem recorrer, sem nada lhes pedir em troca.

Com efeito, ele via com bons olhos uma jovem, com todas as curvas nos devidos lugares, a dar o corpo ao manifesto sem cobrar por isso, a ajudar aqueles a quem o Estado não prestava a devida atenção. No entender do comediante entre as alternativas de uma gaja boa a dar dinheiro a necessitados e a pôr na prisão malfeitores perigosos e dos banqueiros da nossa praça ele optaria sempre pela que oferecia mais entusiasmo.

Para além disso, Renato Marujo Macieira, achava excelente que a existência da Felina, não dependesse da aprovação do Tribunal Constitucional, como a Lei da Eutanásia dependia. Talvez isso ajudasse a explicar porque é que a esta existia e a Lei da Eutanásia não. Quanto ao facto de roubar a ladrões, o humorista lembrava o velho ditado onde se diz que: “ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão” ou lá o que é.

Ele aceitava ainda que o seu pensamento pudesse gerar polémica, por exemplo, no seio da igreja católica, mas jurava que se tivesse de ser ele a escolher preferia, fossem quais fossem as circunstâncias, ajoelhar-se perante a Felina, ou vice-versa do que ter de se ajoelhar perante um padre. Pelo menos em frente à mulher gata o falo derivaria sempre, desse por onde desse, do verbo falar.

Compreendia também a oposição dos marialvas e dos machos latinos que se recusavam a ver a Felina a ficar por cima, afinal, para estes era mais fácil agir se ela tivesse o rabo entre as pernas. No entanto, era-lhe simples aceitar alguém, que tentava repor o dinheiro de onde este nunca deveria ter desaparecido e que para isso fazia umas maldadezinhas, do que achar justa a cada vez maior diferença entre ricos e pobres sendo estes últimos, aqueles que acabam, como sempre, por ficar na mó de baixo.

 A visibilidade dada pela TVI à gata gerara, efetivamente, na sociedade e entre a comunicação social um falatório animado, ora aplaudindo ora deitando abaixo as atitudes e ações da Felina. Porém, quando a TVI apareceu com uma sondagem sobre as personalidades portuguesas que os lusitanos mais admiravam, a Felina aparecia a liderar as preferências nacionais entre os inquiridos, que responderam com oitenta e sete porcento a seu favor, seguia-se o cantor Jordi Ofício com seis porcento, o humorista Renato Marujo Macieira com cinco e o Presidente da República com três, sendo que os remanescentes três porcento estavam espalhados entre mais de vinte personalidades.

Um sociólogo, convidado pela estação de televisão, veio explicar o porquê de tão forte tendência em apoiar a gata. Para o homem era lógico que o povo se identificasse por um personagem que parecia tirado de um filme ou livro de ficção e que ajudava os mais fracos, mesmo que ficasse com alguma coisa para si próprio.

Era preciso compreender que os portugueses estavam a atravessar uma fase terrível com o peso da inflação e da subida das taxas de juro sobre as suas costas. Depois o país atravessava uma crise onde muita gente, dos reformados aos que tinham vencimentos iguais ou perto do ordenado mínimo, não conseguia fazer face a todas as despesas do mês.

Para Xana Lombas, a analista política, que era membro do PS, comentadora de televisão e ex-eurodeputada, ninguém devia perder tempo com personagens de ficção, cujo campo de intervenção é meramente residual e sem importância alguma no contexto social. Uma mascarada até poderia ter a sua graça num qualquer corso de carnaval, mas apenas isso.

Xana, que gostava de deixar as coisas claras, quando da análise da vida dos outros se tratava, tinha por hábito não ter papas na língua, desde que não lhe viessem falar de parte de uma sua propriedade construída ilegalmente em área protegida, avançava ainda que não entendera porque é que o Governo não ordenara um verdadeira caça à tal Felina, que, pelo que lhe era dado a entender, se tratava de um animal selvagem sem qualquer respeito pelas normas e pela conduta humana numa sociedade onde roubar é crime.

Opinião diferente tinha o comentador do PSD, Acres Lentes, um sujeito baixinho e muito opinativo, para quem a dita mulher-animal não passava de uma moda e de um fait-diver que, rapidamente, seria esquecido e ultrapassado pelo fenómeno mediático que se lhe seguisse. Qualquer aberração, como por exemplo, o homem mais alto do mundo ou o mais gordo, tinha o seu momento de fama, mas não passava disso mesmo, um soundbite que rapidamente seria substituído pelo próximo.

Quando interrogado sobre qual seria a melhor atitude do Governo o diminuto ser, dissera do alto do seu metro e quarenta que o Ministério da Administração Interna já deveria ter deixado claro a todas as forças de segurança que era uma prioridade absoluta pôr fim à fantochada de uma gata escondida com rabo de fora. Não devia ser um jogo do gato e do rato, proferira o pequeno hámster. O Estado tinha o poder do cão, mesmo do lobo e facilmente deveria extinguir de vez com reinado de uma Felina, em vez de a vir felicitar com agradecimentos bacocos.

Já o Presidente da República, Felisbelo Rabelo de Lousa, achava que seria interessante ter uma conversa com essa jovem, porque, bom… vistas as coisas pela positiva, ela tinha comportamentos que indicavam poder vir a seguir um novo rumo. O facto de ela fazer o papel de Madre Teresa dos Meliantes indicava poder haver um bom fundo que poderia ser aproveitado pelos Serviços de Reinserção Social para uma vida mais produtiva e sem a persistência da tendência para o crime.

Rabelo de Lousa lembrava que, como o gato, gata escaldada de água fria tem medo. Ora, segundo o mais alto magistrado na nação, era preciso aproveitar o facto de a pessoa em causa ter acabado de prestar um excelente serviço ao país, para se ser proposta alguma clemência, caso ela devolvesse o ouro roubado e decidisse, voluntariamente entregar-se às autoridades. Felisbelo estava convencido que ela estaria a ponderar isso mesmo.

Já para Josué Palheto Palmeira, o ex-dirigente e ex-deputado do PSD, comentador televisivo e Diretor da biblioteca e revista Fátua, achava que iriamos assistir nos próximos anos ao aparecimento de fenómenos semelhantes. Porque há sempre imitadores prontos para o disparate.

Segundo Palheto Palmeira, a democracia em Portugal estava com dificuldade de dar resposta aos reais problemas da população e, por isso mesmo, o aparecimento de líderes populistas, por um lado, quer à esquerda, quer à direita, e o despontar de fenómenos bizarros, por outro, como heroínas mascaradas ou heróis de cuecas, tinham um vasto campo para poderem crescer cada vez mais.

Sidónio Raposa Cister, o comentador do CDS no programa “O Começo da Hesitação” era totalmente contra a popularização de ladrões de bancos encapuçados. A vida real não era a mesma coisa que a “Alice no País das Maravilhas”, pelo que se tornava necessário pôr as coisas no seu devido lugar. O comentador afirmara: “― Ora, vamos lá ver se nos portamos como adultos e deixamos as brincadeiras para as crianças” …

 Ainda segundo Raposa Cister proferira: “― Não é possível admitir que os devaneios de uma ladra virarem, agora, porque sim ou porque não, fábulas justiceiras de trazer por casa. Eu nem me admirava nada, com tanta fantasia à mistura, que um dia destes, alguém anunciasse que essa gata é membro do PS”.

Na realidade, por toda a comunicação social, o assunto sobre a temática da Felina parecia não deixar ninguém indiferente. Só mesmo Íris se mantinha verdadeiramente satisfeita com a situação. Entrara uma vez mais nos Ciclos da Luz e os próximos sete dias seriam importantíssimos para se dedicar aos seus estudos, entregar se possível ainda em setembro a sua tese do último mestrado em que se metera e pôr na devida forma a sua destreza física, que com a caça aos bandidos ficara um pouco atrasada.

A jovem precisava desse tempo para si. Era importante viver uma boa pausa. Fazer aquelas pequenas coisas de que tanto gostava. Ela teria certamente, até ao próximo domingo, dia onze de setembro, tempo para dedicar à sua pessoa. Para além disso ainda iria de necessitar de um algum bom período para o romance, assim que chegasse a Lua Cheia. Isso parecia-lhe uma evidência, principalmente, depois de ter perdido a paciência com um palhaço, não porque o sujeito fosse um mau amante, mas naquele caso, em vez de um verdadeiro macho, como ela afirmara, afinal: “― o museu pariu um rato”.

 

(continua no capítulo XII) Gil Saraiva

 

 

 

Desabafos de um Vagabundo: Série Romance - A Felina - Noites de Lua Cheia - 47

A Felina - 47.jpgUma das outras convidadas fora a Doutora Íris Lobato de Lemos Pessanha Vasconcelos, que confirmara a Cassandra Banheiras, da TVI e CNN Portugal, ser consultora quer do Museu Nacional de Arte Antiga, quer da Polícia Judiciária, mas apenas até ao momento da acusação feita pelo coordenador superior Vítor Fernandes de Melo da PJ, altura em que cessara a assessoria com a Judiciária.

De momento, afirmara Íris, embora já tivesse terminado um projeto para o museu, a sua assessoria mantinha-se em vigor, até que uma das partes a desse como extinta. Posteriormente, relatara a sua intervenção na história do bando de Jô Muttley e como vira a Felina, pela primeira e única vez, pendurada na árvore junto ao muro da quinta de Sintra. Depois falara do desmaio ao cair da árvore e do facto de ter enviado a sua localização de GPS à PJ quando acordara. Contara também como chegara à quinta e até como e porque detetara os bandidos junto à sua casa de família.

Quando Cassandra lhe perguntou sobre o seu envolvimento com o, na altura, coordenador superior da Polícia Judiciária, não teve qualquer problema em explicar que o perigo, a excitação, a queda da árvore, o desmaio e o regresso a casa a tinham deixado muito combalida, extremamente frágil e que o Diretor Adjunto da PJ, Carlos Farelo, preocupado com a situação e não podendo ir ele velar pela sua segurança, não tivesse ela de algum modo sido detetada pelos bandidos, lhe enviara lá casa, o responsável pelo dossier da Felina.

O seu braço direito, dissera-lhe o Diretor Adjunto, far-lhe-ia companhia até ele próprio lá poder ir ter. Entretanto, o coordenador Vítor chegara e fora extremamente cativante e ela, naquelas condições, acabara por envolver-se com ele, sem ter a mínima consciência que este apenas se estava a aproveitar do seu momento de fraqueza e fragilidade, somente com o fito de a usar sexualmente, sem nutrir qualquer espécie de sentimento por ela.

Nem estranhara, em absoluto, o coordenador superior omitir ao seu chefe a situação do envolvimento. Apesar de tudo, ele envolvera-se com uma assessora da Polícia Judiciária, portanto, sua colega, num momento em que ela estava absolutamente abalada e, possivelmente, o homem teria a noção de que o sexo, mesmo que consentido, não seria bem visto pelo seu superior.

Face ao sucedido, ela sentira-se realmente usada quando ele a acusara de ser cúmplice da Felina. Porque, afinal, no momento dos factos tinha-se entregue num puro ato de amor total entre dois seres convergentes e agora apenas se sentia sodomizada, face às verdadeiras intensões do companheiro daquela noite. Por isso mesmo não tinha como perdoar a Vítor Melo. Não queria afirmar que não voltaria a trabalhar com a PJ, agora que o homem fora obrigado a mudar-se para a PSP, mas certamente que uma decisão desse calibre ainda ia levar o seu tempo.

Para a reconstituição do assalto ao museu, a TVI, tivera acesso à mesa cortada de forma perfeita para retirar a barra de ouro por baixo, porém, ao querer fazer a reconstrução deste passo, não arranjara forma de o fazer com a precisão com que o trabalho fora feito e, ainda por cima, em silêncio. Este era, aliás, um dos grandes mistérios do roubo da gata. Para simular a perfeição e o silêncio tiveram que filmar sem som e só depois o editar posteriormente por cima da gravação. Mas, na realidade, como o teria feito a pantera ninguém sabia ao certo.

Foi igualmente entregue na estação, pelo senhor Januário, uma sequência de cópias de fotos da Felina com o seu fato, mas sem quaisquer especificações técnicas, sem mais explicações que não fosse a palavra TVI. O sujeito descobriu-as na sua caixa do correio após receber uma chamada da Felina a pedir-lhe que verificasse a correspondência.

As fotografias da Felina tinham sido a base para a ideia da criação da série de nove programas e da própria novela. A primeira fotografia apenas indicava no seu verso que o fato para parecer real tinha de ser criado a partir de um tecido respirável, elástico e preto, bem junto ao corpo da modelo utilizada. Porém, nada dizia sobre a composição do verdadeiro, nem sobre os acessórios visíveis nas imagens.

Quanto à moeda utilizada pela estação de televisão fora usada a que era propriedade da Dona Hermenegilda. Aliás, a espontaneidade da senhora e o seu uso na recriação da cena do furto, fora a chave do sucesso do videoclipe sobre a descoberta do roubo. Embora o ator que fazia de coordenador da PJ também tivesse representado deliciosamente o furioso Intendente.

A propósito dos mistérios sobre o assalto ao museu, existiam muitos aspetos que pareciam não ter explicação. Segundo Cassandra Banheiras, até o aparecimento da carta da Felina na redação da TVI acontecera de modo insólito. Com efeito, ela dera pela existência da carta, dentro da sua carteira, na redação, mas que não fazia a menor ideia como é que esta fora lá colocada nem em que altura. Quanto ao museu em si, os peritos não tinham encontrado qualquer falha na segurança.

Por um lado, não existia o mínimo vestígio de arrombamento. Por outro, tinham sido vistoriadas as imagens das gravações da vigilância sem se conseguir entender como é que o assalto não aparecia nas filmagens. Não tinha sido verificado qualquer corte nas gravações originais, nem mesmo faltava um segundo que fosse nas filmagens.

O que dificultava ainda mais a investigação era o facto de não se saber sequer em que dia fora realizado o roubo. Podia ter sido num qualquer momento desde o início até ao final da exposição. A empresa responsável pela vigilância do museu ainda ia fazer uma triagem mais fina percorrendo todos os conteúdos filmados, mas sem uma pista concreta da data e sem a deteção de cortes na gravação, nem mesmo uma hora para a ocorrência, alegavam ser dificílimo deslindarem o caso.

Fontes da Polícia Judiciária apontavam os dias do Operafest Lisboa 2022 como sendo os mais prováveis para a realização do assalto, contudo, não tinham prova alguma de que assim fora. Outro mistério era o corte feito na madeira de faia com um centímetro exato de profundidade. Tudo indicava ter sido efetuado a laser, porém, não se conhecia nenhum equipamento portátil para o fazer eficazmente e, ainda por cima, tendo a madeira uma almofada forrada a veludo sobre ela, que não indicava qualquer queimadela gerada por contacto com o laser.

O trabalho indicava impossibilidades sobre impossibilidades e o mistério era muito mais complexo do que parecia. Por exemplo, como é que a fazer um corte a laser por debaixo de uma mesa com um equipamento que tinha que ser portátil, mas que não existia, a gata conseguira fazer um círculo perfeito? Só este simples círculo parecia mais um impossível.

Íris, foi ouvindo o que diziam as estações de televisão. Aquelas recriações, reportagens e episódios da TVI iam manter as atenções sobre si ligadas aos televisores e não à sua atuação na vida real e isso era excelente. O Governo já viera, entretanto, dizer que o facto de o país estar grato à Felina, como efetivamente estava, pelo seu papel no desmantelamento do bando de criminosos, esta mantinha-se uma marginal e que se fosse capturada teria de responder pelos seus crimes.

Contudo, depois de julgada e mostrando arrependimento, mas principalmente graças às muitas atenuantes que lhe eram devidas, podia ser que a pena não fosse muito pesada e que até não era impossível que se viesse a pensar em alguma espécie de indulto. Agora, que teria sempre de ir a julgamento isso era inegável porque havia que se fazer justiça.

Carmo Notas, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, também declarara publicamente, na sua conhecida voz irritante de cana rachada, que não podia haver perdão para os criminosos e que não era uma boa ação da ladra aqui e ali que a livrariam de ser remetida, no devido tempo, para trás das grades onde merecia estar.

Dizia o homem que, num país democrático como Portugal, jamais existiria lugar para uma heroína de banda desenhada absurda se vir armar em delfim do povo, enquanto enchia os bolsos à custa deste. O povo tinha a previdência, a segurança social, as IPSS, o SNS e até a Câmara Municipal de Lisboa, no que aos seus munícipes dizia respeito, para tomarem conta dele.

Nunca uma vida marginal e fora da lei seria, neste país, um paladim do que quer que fosse. A Felina não passava de um mau exemplo numa sociedade moderna. Achava até deplorável o papel de heroína que a TVI lhe estava a tentar atribuir. Uma pessoa que vive do roubo e depois distribui umas migalhas do fruto dos seus crimes, pela sociedade, não era digna de louvor, mas de condenação, de repúdio e de repulsa por parte de todos os portugueses. Os verdadeiros heróis eram os trabalhadores da saúde, das instituições de solidariedade social, os bombeiros, as forças da ordem, a proteção civil, até ele que, humildemente, servia diariamente o povo de Lisboa, com abnegação e vontade de lutar por uma vida melhor para os seus munícipes.

 

(continua) Gil Saraiva

 

 

 

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