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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: "Os Outros - Tragédia em 4 atos" Parte I - "Ocupação"

Berta 65 - Ocupação.jpg

Olá Berta,

Pediste-me para te enviar o poema que escrevi sobre o Menino de Kobane, aquela coisa horrível que nos despertou de vez, abrindo-nos os olhos e a mente, para o problema dos migrantes em setembro de 2015, já lá vão 4 anos e 3 meses. Sei que tiveste conhecimento que fui um dos jornalistas a fazer um levantamento exaustivo de toda a história. Não te a quis contar vista por mim, na altura, mas é tempo de a poderes ler. Contudo, como tem um final pouco feliz, e estamos no último dia do ano, vou-te enviar apenas a primeira parte de uma tragédia em 4 atos. Espero que entendas, afinal não te quero ver deprimida no último dia do ano. Todavia, para mim, promessa é dívida. Aqui vai:

 

"OS OUTROS - TRAGÉDIA EM QUATRO ATOS"

      ATO I

"OCUPAÇÃO"

 

No planeta imaginado

Por trinta milhões de seres humanos,

Algures, numa estreita margem do Mediterrâneo,

Começou, há dois mil e seiscentos anos,

Um país chamado Curdistão

Ou, talvez, quem sabe, deveria ter começado.

 

Madrasta foi a História deste povo,

Ocupado por impérios e tiranos.

Avaros os vizinhos sempre o cobiçaram

E a terra que nunca foi país,

Acabou por ver-se repartida…

 

Nas margens da Europa,

Pelo raiar da Ásia,

Ele se ergueria sob a égide de Alá,

A Norte a Turquia Otomana,

Com desejos de poder,

A Oeste a Arménia e o Azerbaijão,

Famintos de território,

A Sul o Irão,

Fanático no crer e no crescer,

A Este o Iraque e a Síria,

Com sede de recursos…

 

Como pode esta gente ter direito à existência, ao território?

O que pensam os judeus deste direito?

E a América e o imperador careca, esse Putin?

A culpa nunca é de ninguém, são sempre "OS OUTROS"…

 

Depois chegou o ISIS, o DAESH, o Estado Islâmico,

Não interessa o nome,

Apenas importa que rima com terror,

Ocupando o ocupado,

Terras queimadas para um grande Califado,

Vidas ceifadas pelo fanatismo enlouquecido

E, sem qualquer pudor,

Publicitadas na imprensa,

Na net e nas televisões,

Qual algodão que não engana

Porque a saga garante o verdadeiro horror…

 

Hoje, fico-me por aqui. Despeço-me, com um enorme beijo, e com o desejo de que tenhas uma excelente entrada em 2020, espero que este ano, em que vamos entrar, te traga toda a felicidade do mundo. Este teu amigo para todo o sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: O Próximo Homem

Berta  64.jpg

Olá Berta,

Estamos quase a abandonar o presente ano. A mim não me deixa saudades pois os 9 AVC que ele me deu não foram a melhor coisa do mundo. Tu, pelo menos concretizaste o teu sonho de te instalares no Algarve. É sempre assim. Os anos bons de uns não são necessariamente igualmente bons para os outros. Contudo, esta transição fez-me voltar ao ano de 1994. Sabes que tenho um blogue onde estou a colocar a minha poesia, não sabes? Pois bem, vou reformar um velho livro de poemas meus desse ano, reformatá-lo e editá-lo nesse blogue a partir de hoje mesmo.

Trata-se de “O Próximo Homem” e faz parte de um tempo em que eu ainda me indignava com a injustiça e a desgraça. Hoje, com tantas notícias, a toda a hora, fica mais difícil de sentir os males do mundo ou de fazer a verdadeira triagem, mas pouco mudaram as coisas 25 anos depois. Mando-te parte da introdução original que usei na época, já atualizada, para que te possas enquadrar.

O PRÓXIMO HOMEM II

Introdução

Quando em novembro de 1994 decidi publicar “O Próximo Homem” em versão inédita e integral na internet, então apelidada de autoestrada da comunicação, foi com a clara intenção de ser o primeiro a fazê-lo em toda a Web.

Pouco tempo depois a página era editada em formato eletrónico antes ainda de ter passado para papel… conforme a net foi evoluindo foi mudando de site, mas manteve-se sempre online. Agora, depois de ter os poemas publicados de forma, mais ou menos avulsa no blog: https://plectro.blogs.sapo.pt, regressa novamente, mas desta vez com ordem e à razão de um poema por dia, a uma casa, onde estou a publicar online todos os meus livros de poesia. Estou a falar do blog: https://estro.blogs.sapo.pt.

A decisão de editar o primeiro livro eletrónico, inédito e integral, e de o colocar, enquanto pioneiro, à disposição de todos na rede mundial de computadores e similares, teve como objetivo colocar um marco português na internet. Não se tratou de um padrão, como os dos Descobrimentos Portugueses, nem mesmo de uma lança em África, apenas o espírito foi o mesmo. Sermos nós, os portugueses, os primeiros a fazê-lo. Só em novembro de 1998, quatro anos depois, é que o livro passou, finalmente, a papel, através da sua publicação integral na Plectro Magazine.

Não pretendi, todavia, que pensassem na proeza e na primazia de ser o primeiro a fazê-lo, de divulgar a coisa como um feito inabalável. Não seria verdade afirmá-lo, apenas se tratou de colocar um marco. Sim, porque, apesar de tudo, se tratou do primeiro livro a estar integralmente publicado na internet e isso acabou por ser um marco histórico, que foi divulgado pelas próprias revistas de informática da época.

Porém, se alguém se interrogasse porque é que ninguém o tinha feito ainda a resposta seria mais simples do que possa parecer à primeira vista. Aliás é mesmo tão evidente que salta aos olhos daqueles um pouco mais atentos.

Primeiro que tudo, convém não esquecer que a rede dava os seus primeiros passos mais definidos e, depois, quem seria tolo suficiente para colocar online, gratuitamente, um livro de forma absoluta e integral? Quem editaria um livro à disposição de milhões, em versão completa, antes sequer de o ter vendido, primeiramente, em papel?

Talvez só eu mesmo. Eu que me queria servir disso para deixar um marco, mesmo sabendo que, comercialmente, a ideia não passava de um absurdo. Eu que preferi a inovação ao dinheiro agi em conformidade: publiquei e fiquei muito feliz porque fui o primeiro a fazê-lo, anos antes de o “eBook” ter sido inventado.

Esta segunda versão apresenta algumas restruturações por força do evoluir dos tempos, das vontades, e dos gostos. Contudo, “O Próximo Homem II” continuará a ser um livro de alerta poético. Quem sabe um dia não chama a atenção que alguém com poder para fazer com que alguma coisa, efetivamente, se resolva.

Por outro lado, sem desprimor do primeiro objetivo, “O Próximo Homem II” é também um hino aos sentimentos dos homens, embora as mulheres não fiquem de todo esquecidas. Por aqui, facilmente se encontram, versos de amor, de ternura, de impulso, de carinho, de raiva, de revolta, de mágoa, de injustiça, de medo, de tristeza e de saudade. Uma mescla que nos torna únicos enquanto seres na pequena parcela do universo que conhecemos.

A vida não é uma tarefa fácil para “O Próximo Homem” como nunca o foi para os seus antecessores. É a batalha eterna entre o que se quer e o que se tem, o que se despreza e o que se ama, o que se perde e o que se ganha. Sair vencedor nos primeiros grandes confrontos e saber agir de acordo com isso, conseguindo enfrentar as derrotas e tirar delas as lições necessárias para alcançar futuras vitórias é o segredo para que alguém se possa tornar “O Próximo Homem”. É o segredo para a compreensão e, mais do que tudo, a fórmula certa para o amor.

Deixo-te com esta peque explicação das minhas razões. Vai ao blogue amanhã que começam a sair os poemas. Recebe um beijo pleno de saudades, deste amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: "A Flor Agreste"

Flor Agreste.jpg

Olá Berta,

Espero que tudo se mantenha de acordo com as tuas expetativas para estas festas. Eu ando um pouco atrapalhado com a promessa que te fiz de, entre o Natal e o Ano Novo, não te escrever a fazer críticas, ou a deitar abaixo, algumas das coisas que menos me agradam no nosso mundo.

É engraçado verificar que é mais fácil ser critico que que positivo e portador de boas novas no que à escrita diz respeito. Estava aqui a pensar sobre o que haveria de colocar nesta carta, para ti, quando o meu olhar caiu sobre um busto que tenho no cimo da estante, a cerca de um metro do monitor do computador.

É uma reprodução, em gesso, da Flor Agreste, uma obra de António Soares dos Reis, um dos mais consagrados e apreciados escultores mundiais dos finais do século XIX, um homem nascido em Vila Nova de Gaia, que estagiou e completou a sua formação em Paris e depois em Roma, onde era considerado um génio no mundo da escultura entre os críticos da especialidade e os seus pares.

As saudades do seu Portugal fizeram-no regressar a Lisboa depois de ter esculpido em mármore de carrara a magistral estátua de “O Desterrado”, como a sua obra final de primeiro pensionista (o programa Erasmus da época) da Escola de Belas Artes do Porto em Paris e Roma.

Aliás, “O Desterrado” é a primeira escultura no mundo a aludir especificamente à condição triste de um emigrante, desenraizado do seu povo e da sua terra, algures no estrangeiro, longe da sua pátria onde foi feliz. É peça representativa de um jovem nu, em tamanho natural, sentado num rochedo, olhando um mar metafórico que nos leva a entender a solidão, a melancolia e a saudade de quem se sente inadaptado no estrangeiro, embora aí tenha que viver, para se poder formar na profissão que abraçou, por força do seu talento ímpar.

O regresso a Portugal não foi, muito longe disso, minha querida amiga, o paraíso esperado. Na zona do grande Porto, onde residia, quase que apenas lhe chegavam encomendas de estatuária póstuma para cemitérios e trabalhos para ricaços empertigados, muitos dos quais se negou a efetuar, mas foi a sua recusa para mudar o rosto da Virgem, que tinha esculpido para a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, no Porto, e a derrota no concurso para o Monumento dos Restauradores, em Lisboa, que mais o marcaram.

Fez em 16 de fevereiro de 2019 precisamente 130 anos que o Mestre Escultor Soares dos Reis se suicidou. Era um homem ainda novo. Deixou, contudo, uma explicação, muito clara, embora enigmática, por escrito: “Sou cristão, porém, nestas condições, a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal.”

O maior nome da Escultura Nacional, segundo muitos dos especialistas, da fase de transição entre o Romantismo e o Realismo, ceifou a sua própria vida, com 2 tiros de pistola, na cabeça, aos 41 anos de idade. Portugal perdeu, nessa altura, um dos seus maiores génios de sempre no que às Belas Artes diz respeito. Considerado um dos grandes, melhores e mais geniais escultores do mundo no seu tempo, morreu com apenas 22 anos de carreira, a sentir-se novamente e em absoluto, “O Desterrado” na sua própria pátria.

Soares dos Reis é também o autor da estátua em bronze de Dom Afonso Henriques, o nosso fundador, entre as inúmeras obras que produziu em pouco mais de 2 décadas de carreira atribulada. Foi o primeiro escultor a esculpir a Saudade em estátua. Criou o busto feminino, que te referi no início da carta, da Flor Agreste, um rosto belo, jovem, mas vindo do povo, não composto segundo as modas da época, ou o modelo não tivesse sido uma carvoeira vizinha do escultor. Sempre irreverente, mas sempre genial.

Deixo-lhe a minha modesta homenagem:

 

“ARTE”

 

Arte...

Harmonia do Tempo,

Em cada tempo...

Reflexo cultural

Semigenérico

Que só alguns dotados

Conseguem realmente apresentar...

 

Arte...

Porque qualquer de nós tem

Por dever:

Compreender, amar, saber sentir...

 

A estética é bela,

“Fenixiana” pura

E a Arte

É o sentir representado

Da harmonia estética do mundo,

De fénixes mil por cada tema:

Reflexos de nós

E nada mais!...

 

Séculos há

Em que a Fénix se propaga...

A espécie ganha força,

Gera frutos,

Num movimento imenso:

Universal!!!

 

No vigésimo primeiro século da História

Uma outra ave nasce...

É de rapina e tem uma palavra nova

Para a explicar:

“Artítese”!

 

Um monstro deformado,

Devorador de Fénixes,

O Anticristo

Da Ordem dos Dotados Criadores!...

Rareia,

Agora, a Fénix na Terra

E todos temem,

Tremem, mas não falam!...

 

A “Artítese”

Proclama-se de Fénix

E diz renascer da anterior...

Tem falta de harmonia,

Foge à estética

E só ao medíocre dá aval!...

 

Artistas, criadores,

Deste planeta,

Património de toda a Humanidade,

Ajudem-me a matar o predador!

É necessário

Tentar salvar a Fénix!!

 

Despeço-me com este poema, recebe um beijo, deste teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Homenagem a um Cantor

Olá Berta,

Ontem já te mencionei a minha homenagem a Art Garfunkel, Este cantor (com a sua voz única), é uma das referências da minha vida.

Deixo mais um verso sentido… sem mais comentários apenas acrescentando esta frase: nos sons do silêncio como uma ponte sobre a água revolta eu vejo o condor que passa…

.

"SAUDADES"

 

Saudades

Choro de um riso antigo

Hoje recordado...

 

Saudades

Vou deixando

Aqui, além...

Recordações eu guardo dos meus passos:

Daquele alguém que um dia olhou pra mim

E me chamou de amigo...

E num olhar

Disse poder guardar de mim memória

E registar bem fundo o meu sorriso...

 

Saudades

Vou guardando, conformado,

Daqui, de além e de todo o lado

Onde há um abraço de amizade;

Onde a Humanidade for humana;

Onde a Paz existir na Natureza

E onde a Liberdade for amada...

 

Saudades,

Nostalgias, lembranças, emoções

E outros sentimentos pouco claros

Que vão ficando em nós

E que nos tornam

Produtos inventados pela mente

De quem a nosso lado já viveu

E guardou para si a nossa imagem...

 

Saudades

De outrora... de uma hora,

Daquele momento exato,

Inesquecível,

Daquele instante louco, fugidio,

Em que a flor abriu, desabrochou...

Ou de outro que não conto por pudor,

Mas que por certo falava de Amor...

 

Saudades,

Momentos presentes do Passado

Que o Futuro não pode apagar;

Vivências de uma vida,

Lágrimas de dor, felicidade,

Desejos e gritos já vividos;

Anos de sonho e de saudades

E dias que são claras ilusões...

 

Saudades

Vou guardando, vou deixando

Aqui, ali, além, por todo o lado

Onde a lágrima seja borboleta

Ou onde a eternidade iluminada

Se reduza breve, num segundo,

A gotas de orvalho e de saudade...

 

Saudades

Choro de um riso antigo

Hoje, uma vez mais,

Já recordado

Ou novamente,

Até que enfim, reencontrado!...

 

Despeço-me com a emoção da juventude, de lágrima no canto do olho, com todo o carinho do mundo, este teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Imagine-se...

https://www.youtube.com/watch?v=NAEppFUWLfc  A Art Garfunkel... a minha modesta homenagem a um homem de 78 anos...

Imagine-se.JPG

Olá Berta,

Fico feliz de saber que tens reparado no facto de as minhas crónicas, nesta época festiva não terem a minha componente satírica e crítica habitual. Com efeito tenho-me esforçado por me manter mais calmo durante as festividades. Perguntaste-me o que é que eu via na Ria Formosa de tão extraordinário para me referir à paisagem como uma das analogias que usei na minha Teoria do Amor – Parte II. Pois bem, como sabes eu vivi 18 anos no Algarve, precisamente na mesma zona onde tu te encontras e tive imenso tempo para lhe absorver a envolvência. Segue o poema que deu origem à comparação que fiz. Espero que seja do teu agrado. O poema chama-se “Imagine-se”, mas tu não precisas, basta-te olhar para entenderes, espero que consigas ver e sentir o que eu captei, não pelos meus olhos mas pelos teus:

 

"IMAGINE-SE..."

 

Imagine-se

Um mar de prata

Bordado ao ouro macio

De um pôr-do-sol.

 

Deixemos agora

A nossa mente

Colocar algumas aves nidificando

Na costa fina de arbustos salgados,

Reserva natural

De um qualquer sonhado paraíso...

 

Em silêncio,

Os bateres de asas,

Se confundem com o restolhar do vento

Que sorri prá primavera

Agora tão tangível...

 

O sentimento é por certo de harmonia!...

 

Pra quem não sente em verso

O deleite que os sentidos propiciam,

Recomendo que respirem fundo,

Deixem entrar languidamente

O cheiro a maresia...

 

Issooo...

Procurem agora sentir

A aragem vos acariciar,

De leve,

Passando-se suave

Pelo brilho dos olhos

E obrigando ao esvoaçar de alguns cabelos...

 

Com o olhar

Sigam as aves

Que gritam cânticos de amor

E de acasalamento...

 

Se entreabrirem os lábios

As papilas vão, por certo,

Detetar o gosto a mar,

O gozo das sensações plenas

E do encontro puro

E idílico com Gaia,

A deusa que voluptuosa

Representa a Terra original...

 

Sentem?

Agora pensem,

Com um sorriso,

Num amor ausente...

 

Procurem influenciar a mente,

Mas sem esforço...

 

Issoooooo...

Estão vendo a sereia…?

Nesta Ria Formosa

Onde imaginar

Se torna milagre,

Esperança, acreditar,

Apenas o belo tem lugar.

Aqui não existe crise, cortes,

Recessão, nem suicídio…

Apenas amor, emoção

E a delicada teia dos sentidos…

 

É no exato instante,

De sensual

E romântica lasciva,

Em que de joelhos

Nos dobramos

Para colher uma flor

De beira de caminho,

Que estamos integrados!

Cheios de amor,

De vida e de natura,

Enfim, de plenitude!

 

O voo simultâneo dos flamingos

Faz-nos crer que o mundo

É cor-de-rosa

E que a vida,

Afinal, tem sentido.

 

Imagine-se

Um mar de prata

Bordado

Ao ouro macio

De um pôr-do-sol

E conclua-se

Que afinal amar

É simples...

 

Senão o mar seria água

E nada mais,

As aves: pássaros

E a reserva: pântano...

 

Imagine-se...

 

Este é, Berta, um dos poemas que escrevi até hoje que mais mexe comigo, é… sei lá, a natureza em todo o seu fulgor, é vida, essência e existir. Tem em si um não sei quê a mais e comporta ainda o como da esperança, da felicidade e, irremediavelmente, do amor, do amor puro, sincero, franco, genuíno e verdadeiro.

Minha querida amiga, recebe um beijo de saudades teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

 

 

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte II - O que é o Amor? Comparo... o amor com o meu bairro. O Bairro de Campo de Ourique...

O Amor e Campo de Ourique.JPG

Olá Berta,

Como o prometido é devido e não de vidro, aqui vai a segunda parte da minha Teoria do Amor. Nada melhor do que leres, descontraidamente, a opinião de um poeta perdido entre a latitude das suas palavras e a longitude dos seus versos. Espero que estejas a passar um excelente dia após esta quadra de Natal. Por aqui as coisas continuam amenas como o tempo que, finalmente, resolveu instalar um período de bonança durante as festividades, em todo o país. Ora bem, aqui vai disto:

TEORIA DO AMOR

Parte II – O QUE É O AMOR?

Ao contrário do que dizia Camões eu não sou dos que acham que o amor é fogo que arde sem se ver. Amor que não se vê é o amor não correspondido, aquele em que apenas uma das partes é detentora do sentimento mais puro. Mas esse não é o objeto da minha teoria. A razão é simples: Quem ama e não é acompanhado, com o mesmo sentimento, pela pessoa amada, mesmo que não o mostre, sofre e sofre muito. É como ter um carro topo de gama e não o poder conduzir, bater um recorde mundial sem ter ninguém para o comprovar, ganhar o Euromilhões e perder o comprovativo, mas, tudo isso junto, elevado a uma potência que eu nem sei calcular. O amor não correspondido é mais uma forma de dor e sofrimento do que uma verdadeira forma de amor.

Infelizmente, não deixa de ser uma subespécie de amor, mas sem a maravilhosa envolvência que faz dele o mais sublime dos sentimentos. Falta o brilho no olhar, a nostalgia do crepúsculo, o encanto do pôr ou do nascer do Sol. Falta a dualidade una.

O amor superlativo, puro, verdadeiro, não se constrói apenas com um ser. Tal como no tango são precisos 2 para o objetivo se cumprir. Senão vejamos: Uma coisa é escutar um tango, mesmo que este seja tocado ao vivo, outra, completamente diferente, é vê-lo ganhar vida, fibra, raça e glória, nos passos eternos de um par que o interpreta com mestria imortal. Sentimo-nos elevados, emocionados, a transbordar sentimentos, durante aqueles poucos minutos em que a música é soberbamente interpretada pelo casal que, com a sua indescritível destreza, nos eleva o espírito e quase nos faz sentir que somos nós quem dança como se não houvesse amanhã.

Ora, muito bem… o tango pode fazer com que vibremos por minutos, contudo, o amor faz o mesmo, mas durante o resto da vida dos dois seres que, depois de se encontrarem pela primeira vez, o partilham para a eternidade. Vibram para sempre num tango sem fim, magicamente interpretado por dois corações, 2 almas gémeas, que tiveram a fortuna de se encontrarem e se desfrutarem mutuamente numa simbiose tão única que 2 parecem um. Um paradoxo brilhante e vivo em cada caso, em cada par, que o encarne com verdade.

O amor, o verdadeiro amor desafia a matemática e as leis da física. Um mais um deixam de ser 2 e passam, na mais límpida realidade, a ser, apenas e só, um. Podem até, aos olhos de terceiros, parecer 2. Mas o importante passa-se noutro nível bem superior. Um amor, uma vida, uma experiência, um sentimento, uma viagem, um ser superior. Porque o amor é o único sentimento que distingue o ser humano dos restantes animais.

Podem os apaixonados pelo mundo animal dar milhares de exemplos de como eu estou errado. Todavia, embora entenda a confusão, os animais não amam, nem conhecem o amor, dedicam-se. Seja ao seu parceiro numa monogamia livre e selvagem, que pode durar uma vida, seja, no caso de alguns animais domésticos, ao seu dono ou dona, ou, no plural, aos seus donos.

Até acho aceitável que se use, em termos ternos e comparativos, a palavra amor, mas não é verdadeiramente a mesma coisa. Existe toda uma dimensão na fusão dos pensamentos e dos egos que não se consegue encontrar no mundo animal. Aliás, não é de estranhar que muitos destes defensores desta quase forma de amor, nunca tenham, eles mesmo, encontrado a sua alma gémea no espetro da sua própria espécie. Porém, sou dos que respeita e valoriza a relação do ser humano com as outras espécies animais deste mundo. Os bichos podem não amar, mas sentem, e é muito bonito respeitar todo e qualquer ser que sinta.

Comparo muitas vezes o amor com o meu bairro. O Bairro de Campo de Ourique é uma excelente imagem para explicar o que é o amor. Mesmo antes de ser uma e uma só freguesia, o bairro era composto por 2 freguesias, lado a lado, ombro a ombro, sempre, complementando-se e dando a sua quota parte ao outro para que este se sentisse completo. Se uma tinha a Escola de Hotelaria e Turismo, o outro tinha a UAL, com os seus cursos de artes e arquitetura. Um possuía a grande diversidade de comércio e serviços e a outra tinha as ruas estreitas, o povo simples e dedicado, e a colina suave que a levava ao seu par. Um, Santo Condestável, a outra, Santa Isabel, um par perfeito feito de um amor chamado Campo de Ourique.

Santa Isabel nunca foi igual ao Santo Condestável, nada disso, são elementos complementares de um bairro único, quiçá, no mundo. Ela com a Casa Museu Amália Rodrigues, ele com a Casa Fernando Pessoa, ambos a fazerem fronteira com o romântico e delicioso Jardim da Estrela. Um local de namoro urbano onde, fossem eles pessoas, os teríamos muitas vezes visto a namorar. Ela com o Ginásio Clube Português, o Clube Atlético de Campo de Ourique e os Alunos de Apolo, ele com as Piscinas Municipais, onde o convite à natação, torna ainda mais fluída toda a relação. Diferentes, complementares, mas um só bairro, um só par, num bater de corações em uníssono, tão uníssono que parecem uma e apenas uma entidade: o Bairro de Campo de Ourique. Parecem? Eu disse parecem? Nada disso, são uma entidade!

Em resumo, o amor é o ser abstrato, que podemos visualizar numa única paisagem que, para os olhos de quem ama, traduza a unidade de uma dualidade. A paisagem pode ser diferente em cada observador, mas o seu significado será sempre o mesmo. Seja Santa Isabel e Santo Condestável formando Campo de Ourique, onde uma única flor vermelha é capaz de florir sozinha, sob a proteção firme da Maria da Fonte, seja a Bruma trazida pelo Atlântico à Serra de Sintra, que se transforma na Serra da Lua, seja a Ria Formosa, que se gera no espaço entre a costa e as ilhas que a cercam, formando uma maravilha sem igual no Sotavento Algarvio. O amor só existe a 2 e só se vive a um, uno e indivisível.

Não te zangues comigo, minha amiga Berta, se não fui romântico o suficiente ao falar de amor. Posso não ter escolhido os exemplos que tu escolherias, não ter escrito versos languidos e apaixonados, mas a intensão era apenas dizer-te o que acho que é o amor. Não com muitos floreados, de forma clara, e dentro do possível objetiva. Espero ter dito o suficiente para ter o teu entendimento.

Despeço-me com o beijo costumeiro, este teu amigo do coração,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: A Teoria do Amor - Parte I - Almas Gémeas

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Olá Berta,

Espero que o dia te esteja a correr de feição. Pelo que li nas notícias o clima tem estado favorável e ameno em quase todo o país. Até o vento virou brisa, que sopra apenas para pentear as árvores, as que mantêm a folhagem o ano inteiro, como se as quisesse compensar das maldades dos últimos 15 dias em que andou depressivo.

Pelo que me disseste, ao telefone, queres aproveitar estes meus momentos de boa disposição, de maior sensibilidade e de mais alegria, para saberes o que eu penso sobre o amor. Ora bem, minha amiga, não sou de grandes teorias nesse campo, aliás, prefiro sem qualquer dúvida dar provas dele, quando tal se mostra necessário, do que me pôr com majestosas dissertações sobre o tema. A outra alternativa que uso, na aproximação a este tópico, é a poesia.

Contudo, não sou pessoa de virar costas aos desafios, ou de mudar de assunto sem dizer o que penso e avançar com uma opinião porque, quando me pedem uma abordagem sobre algo, é por realmente haver curiosidade em saber o que eu penso sobre esta ou outra problemática, qualquer que ela possa ser. No caso concreto, eu até tenho uma teoria bem definida e sou dos que pensam que os géneros feminino e masculino têm diferentes formas de atingir esse sentimento. Porém, embora seja um processo em constante evolução, não deixa de ser a minha Teoria do Amor.

TEORIA DO AMOR

Parte I – AS ALMAS GÉMEAS

A) Noção. Objetivo. Quantidade. Busca. Caminhos. Alvos.

1) Noção: o que é uma alma gémea e quantas existem? Segundo a minha teoria, que contraria o pensamento corrente de que: para cada pessoa apenas existe uma outra que, se descoberta atempadamente, pode ser a sua alma gémea, eu penso exatamente o oposto. Vamos por partes.

2) Objetivo: uma alma gémea é aquela pessoa com a qual podemos partilhar uma existência, em total harmonia, sentindo-nos envoltos numa espécie de casulo de perfeita simbiose e entendimento.

3)Quantidade: Cada ser humano tem no mundo cerca de 155 mil e 62 almas gémeas possíveis. Mas este não é um número para se reter.

a) Busca: com efeito, há que ter em conta o universo de cada um, a área geográfica que se cobre durante a vida e os fatores externos.

b) Caminhos: dou-te uns exemplos: as diferentes histórias locais, regionais e nacionais, os fatores culturais, políticos, religiosos, sociais, sociológicos, antropológicos e mais o facto de a disparidade de idades entre 2 almas gémeas só excecionalmente ultrapassar os 20 anos de diferença entre elas, faz com que a quantidade de almas gémeas possíveis de entrar seja, de facto bastante mais reduzido.

4. Alvos: tudo contabilizado, e escuso-me de te aborrecer com os algoritmos usados, permite-me concluir que apenas temos 10 almas gémeas durante a nossa vida para descobrir.

B) Para que servem?

1) Exemplos: nada melhor do que exemplificar para se explicar esta questão: Cada parafuso tem um tipo de porca que lhe serve na perfeição. Quando me refiro a um “tipo” não estou a dizer que é apenas uma, podem ser várias. No caso das almas gémeas estas são anilhas de rosca dificílimas de encontrar.

2) Resultado: quando se encontram, rosca e parafuso, formam um par funcional perfeito, na compreensão, no carinho, no respeito mútuo, na solidariedade e mais importante que tudo, no amor que sentem de forma mútua e absoluta.

C) O que é o Amor na perspetiva das Almas Gémeas?

O Amor é o conjunto de vivências partilhadas por 2 almas gémeas, desde o momento em que se encontram pela primeira vez até que se separem. Se forem almas gémeas puras a separação apenas acontece com o falecimento de uma das 2.

D) Como se distingue uma alma gémea pura de uma impura?

1) Alma Gémea Pura: aquela que só se separa do seu par única e exclusivamente se este morrer.

2) Alma Gémea Impura: trata-se de uma falsa alma gémea. Muitas vezes o par confunde atração, arrebatamento, paixão, frenesim, entusiasmo, até sexo, com a compatibilidade absoluta entre 2 almas gémeas. Mas, ao fim e ao cabo, no final descobrem (uma delas ou ambas), que tudo não passou de um enorme erro de casting e nada mais.

Gostaste, Berta? Esta é a primeira parte da minha teoria do amor. A que explica as almas gémeas em si mesmas. Quantas há, quais as hipóteses de se encontrarem e o que é preciso para que tudo resulte. Na carta de amanhã, envio-te a segunda parte da minha teoria. Nessa vou-te responder à questão: o que é o amor? Será uma resposta num sentido bem mais lato que que aqui expliquei. Uma resposta sem pontos nem alíneas, apenas com alguns parágrafos, para que entendas o que penso sobre o tema.

Deixo-te um beijo, saudades e muito carinho, este que não te esquece,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Natal dos Hospitais

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Olá Berta,

Espero que esta véspera natalícia em que te escrevo esteja a passar, por esses lados, de acordo com os teus desejos e votos. Eu por cá mantenho a tradição. Uma ceia à maneira, muita televisão esta noite e é provável que vá à Missa do Galo.

Como sabes não sou praticante de religião alguma, mas, contudo, fui criado no seio de uma família católica bem tradicional e, este ato religioso noturno, traz-me sempre à memória a minha mãe. O fervor com que ela, nessa missa, pedia proteção para os seus durante todo o ano que se adivinhava, é algo que jamais vou esquecer. Ora, não me perguntes porquê, mas quando repito a minha presença nessa cerimónia, sinto-a perto, muito perto, com aquela convicção inabalável de que Deus velaria pelos seus, conforme pedido expresso.

Acontece-me o mesmo quando assisto, pela RTP ao Natal dos Hospitais. A primeira transmissão do programa mais antigo da RTP começou em 1958, ainda eu não era sonhado pelos meus progenitores, porém, segundo o que a minha mãe me contava uma dezena de anos mais tarde (no ano em que entrei para a escola primária 2 meses antes), desde que nasci assisti a todos os programas do Natal dos Hospitais, tivesse eu consciência disso ou não. Ou seja, já vejo esta transmissão há 58 anos. Uma barbaridade de tempo.

Nunca falhei um, embora, nos últimos anos, tenha optado por ver através das gravações automáticas da box da Meo, porque isso me permite só assistir ao que me interessa e nada mais.

Mas assisto com o mesmo sentido místico com que vou à Missa do Galo: o sentimento de proximidade que tenho com os meus pais, que já partiram faz longos anos. Durante a transmissão é como se ambos estivessem ali, o meu pai deitado no sofá maior da casa, com um cálice de vinho do Porto por perto, e a minha mãe, logo ao seu lado, sentada, de lágrima no canto do olho, sempre que alguma ternura lhe chegava do televisor.

São os meus pequenos momentos de romântico e saudosista. Eu, que nem me entendia muito bem com ambos os meus progenitores, recordo-os, nestes dias, com um carinho e um amor que não me lembro de sentir enquanto viveram. Achas isto normal? Ou será coisa de poeta de cabeça enfiada no baú dos sentimentos e das essências? Enfim, nem me importa o que seja, apenas que valorizo, com um imenso prazer, o profundo significado que estas recordações têm para mim.

Lembrei-me do Natal dos Hospitais, que foi transmitido há dias atrás, precisamente por me fazer o mesmo efeito que a Missa do Galo. São os 2 grandes acontecimentos que me trazem uma estranha nostalgia da família reunida e feliz.

Em resumo, hoje, à meia-noite, lá vou eu mais uma vez à Missa. Estou a sorrir, minha querida amiga, porque afinal vou rever mais uma vez toda a família. Não sei o que o Natal faz com as outras pessoas, mas, para mim, tem estes 2 pequenos momentos de conforto, de bem-estar e de felicidade genuína. É isso que importa. Por momentos revejo pais, irmãos, primos, tios, gente que já não está presente nas margens do meu quotidiano e, por breves instantes, convivemos todos, harmoniosamente, em família, a alegria de uns sorrisos ou de uma troca de olhares.

Viva o Natal dos Hospitais. Viva a Missa do Galo. Desta vez, tu, que só por uma vez me acompanhaste numa destas missas, também lá estarás a rir-te da minha cara embevecida com as memórias de uma coisa a que não posso chamar outro nome que não amor.

Despeço-me saudoso com um beijo, este teu amigo de sempre, com votos de festas felizes,

Gil Saraiva

Carta à Berta: É Natal

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Olá Berta,

Só tu para me convenceres, com esses pedidos simpáticos, a enviar-te o soneto que escrevi à 33 anos, um mês e 3 dias atrás. Mas é Natal e nesta época eu abro uma exceção. Mando-te este soneto de Natal dedicado a uma filha que tenho e com quem não falo. Quis o destino que ela retirasse aos seus filhos o nome do bisavô, que tanto a adorava, já nem falo do meu, mas cortar assim a linhagem Coimbrã é maléfico e não tem perdão. Aqui vai:

 

"O TEU NATAL"

 

Hoje é Natal, Natal na minha vida.

Tocam os sinos p’la minha alma fora...

E em cada canto do meu ser, agora,

Tudo vibra sem conta nem medida!...

 

É Natal! É Natal porque é nascida,

Do ventre desse Amor, a nova aurora,

Filha de nós os dois, pequena amora,

Fruto de louca noite, sem dormida...

 

Hoje é Natal! O teu Natal Diana!

E em lágrimas de riso choro amor...

Hoje é Natal, é vida feita flor...

 

Tem a minha alma nova soberana.

Temos os dois o bem mais desejado:

A Taça da Vitória, um El Dourado...

 

Espero que tenha sido do teu agrado, não é fácil ir buscar sentimentos ao baú. Desejo-te umas festas felizes e um excelente Natal, minha querida. Despeço-me com um beijo, deste teu saudoso amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: O meu canto do Paraíso - CAMPO DE OURIQUE

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Olá Berta,

Li a tua última carta e peço desculpa se nunca te trouxe a conhecer o bairro onde vivo, para além de uma ou outra refeição que nos reuniu num dos restaurantes da zona. Dizes que, apesar de um passeio ou outro comigo pelo Jardim da Parada e por outras pequenas vindas ao Bairro, sabes muito pouco sobre ele. Acho que te posso dar uma pequena ajuda quanto a este meu bairro, para mim, o melhor de Lisboa.

O Bairro de Campo de Ourique, minha amiga, coincide com uma nova freguesia portuguesa, homónima, do concelho de Lisboa, resultante de uma fusão em 2012, que junta as freguesias de Santo Condestável e Santa Isabel, que já anteriormente davam nome ao Bairro.

Campo de Ourique pertencente à Zona do Centro Histórico da capital, com 1,65 km² de área e 22 mil habitantes. Talvez seja por só ter metropolitano na sua periferia, no Largo do Rato, que o Bairro funcione como uma pequena aldeia, onde as pessoas se conhecem e convivem como tendo uma identidade própria, característica dos pequenos povoados. Pelo formato da sua área ficou com uma configuração que, no mapa, nos faz lembrar um animal. No meu entender a figura parece um javali, uma fêmea, pronta para ir às compras pelo Bairro, que, pela profusão de comércio num tão pequeno espaço, é designado como sendo o Maior Centro Comercial de Ar Livre de Portugal. São mais de 1.500 espaços comerciais e de serviços e, pelo menos, 250 estabelecimentos ligados à restauração. Por aqui, Berta, podes provar um pouco de quase tudo. Neste mundo da restauração encontras imóveis com as mais diversas variantes, sejam eles edifícios de hospedagem, restaurantes, pastelarias, tascas ou cafés. Se fossem todos implantados a nível térreo isso daria uma atividade de comércio ou serviços, com uma implantação de um estabelecimento por cada m² e um restaurante ou similar a cada 6,2 m². Um verdadeiro absurdo.

Contudo, se quiseres investigar os pontos de interesse, tudo depende da abordagem que fizeres: na área do Desporto e da Dança é aqui que encontramos a sede dos Alunos de Apolo, especialistas nacionais nas danças de salão, ou o CACO, Clube Atlético de Campo de Ourique e até o Ginásio Clube Português. Na área da governação não existe apenas a Junta de Freguesia, pois é, também aqui, que está situada a Presidência do Conselho de Ministros do país e até a Embaixada Britânica.

A nível histórico, cultural e educacional, para além de várias galerias de arte, encontramos a Estátua da Maria da Fonte, enquadrada pelo acolhedor Jardim da Parada, que na toponímia se designa por Jardim Teófilo de Braga, que já conheces; a Casa Museu Amália Rodrigues, a maior diva nacional do fado de todos os tempos; a Casa Fernando Pessoa, um dos mais prestigiados nomes da literatura nacional, um espaço de cultura ímpar, que te recomendo como visita imprescindível, e ainda, o Museu João de Deus e a Fundação Maria Ultrich.

Na área artística e cultural há a referir também o Páteo dos Artistas, na Rua Coelho da Rocha, ou o das Barracas, na Rua de Infantaria 16; a moderna Biblioteca Europa; o Grupo Dramático e Escolar Os Combatentes; as escolas Secundárias Josefa de Óbitos e a Manuel da Maia; a Redbridge School; o Colégio religioso dos Salesianos; a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa e uma Delegação da UAL, Universidade Autónoma de Lisboa, onde funciona o Instituto de Artes e Ofícios e o Curso de Arquitetura. Como podes ver, minha amiga, a cultura, a arte e a história conjugam-se harmoniosamente com o quotidiano do meu Bairro.

Ora, se fores mais terra-a-terra, podes ir ver um dos mais antigos Geomonumentos de Lisboa, com pelo menos 21 milhões de anos, na Rua Sampaio Bruno. Depois aconselho a visita às Igrejas de Santa Isabel e do Santo Condestável e ao Quartel de Campo de Ourique, de onde partiu a Revolução dos Cravos e a implantação da liberdade no país. No Bairro estão presentes, o Grupo de Teatro Inglês, The Lisbon Players; a AMA, Academia Mundo das Artes; a Companhia da Chaminé e, já na centenária Padaria do Povo, está sedeada a Associação Cultural Fermento.

A componente turística apresenta diferentes tipos de instalações hoteleiras e vários pontos de interesse, se preferires instalar-te numa delas, quando por cá passares, em vez de aceitares a minha hospitalidade, é claro. Podes pernoitar quer nos variados espaços de alojamento local do Bairro ou optar pelo Hotel da Estrela; o Lisbon Luxury Palace; o ACM Lisbon; o Hotel Sua; o Hotel Lissabon; o Starhostel, o Royalty Hostel; o Ourique Hostel; o Apartamento Lisboa; o Tilty Lisbon ou a Pensão Madeira. Como outros atrativos Berta, ainda tenho que te referir a Praça de S. João Bosco de onde partem os elétricos 25 e 28; o Amoreiras Shopping Center e o Amoreiras Plaza ou o Mercado de Campo de Ourique.

No que diz respeito à alimentação, tens, nos mais de 250 estabelecimentos de restauração, um pouco de tudo: da cozinha tradicional portuguesa à da Serra da Estrela, passando pela alentejana, minhota, madeirense, portuense e a da bairrada; há ainda os vegan e os vegetarianos e na vertente internacional pode experimentar a comida chinesa, macaense, japonesa, coreana, nepalesa, tailandesa, árabe, marroquina, do médio oriente, indiana, goesa, africana, italiana, francesa, belga, americana, israelita, alemã, grega, espanhola, mexicana, peruana e brasileira. Por fim, podes terminar a visita com as escolhas noturnas, desde os diferentes bares do bairro até a uma passagem pelas salas de cinema do Amoreiras.

Campo de Ourique é o único Bairro que conheço que tem turistas da própria cidade de Lisboa, que aqui se deslocam para fazer compras neste imenso Centro Comercial de Ar Livre ou para frequentar a sua restauração. Imperdível por quem passa por Lisboa, imperdível para ti.

Espero ter-te esclarecido um pouco mais sobre este que considero o meu cantinho do Paraíso, despeço-me com o carinho do costume, com um beijo, o mesmo de sempre,

Gil Saraiva

 

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