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Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Os World Travel Awards 2019 - Vitória Nacional

World Travel Awards.jpg

Olá Berta,

Hoje, para mim, e se calhar para muitos portugueses, é dia de orgulho nacional. Não penses que te vou falar de Jorge Jesus, dele falarei depois do mundial de clubes. Hoje é dia de te relatar as decisões finais dos prémios da WTA, a World Travel Awards, por outras palavras, os Óscares do Turismo Mundial. Ao todo são entregues 262 prémios de excelência, nas mais diferentes e diversas áreas do turismo em todo o mundo.

Contudo, o prémio que todos almejam, aquele que mais cobiça desperta é, sem qualquer margem para dúvidas, o do Melhor Destino Turístico Mundial. Atribuído apenas e somente a um único país entre os mais de 200 concorrentes. E esse, minha querida, foi novamente ganho por Portugal, pela terceira vez, nos últimos 5 anos.

Ganhámos 4,6 porcento dos prémios atribuídos, se considerarmos a totalidade dos mesmos, ou 15 porcento dos galardões, se levarmos em conta apenas as áreas onde poderíamos ter concorrido, pese embora o facto de não o termos feito em todas elas, porque em muitas não temos a dimensão exigida. Só para teres uma ideia ao que não conseguimos concorrer, basta dizer-te que não temos frota nacional de “rent-a-car” própria, não temos destinos de deserto, não temos destinos de gelo e neve pois a nossa Serra da Estrela é muito pequena face aos grandes recursos que concorrem. Neste campo também não temos resorts desportivos de inverno que possam ir a concurso como não temos frotas de cruzeiros de nomeada o que nos remove logo de uma série de prémios e não possuímos reservas animais importantes e muito menos fazemos safaris e ainda há mais áreas, cuja nossa pequena dimensão, ou localização geográfica, nos obstrói a ida a concurso.

Contudo, isso não impediu Portugal de, de bicos de pés, arrecadar 3 dos cinco prémios mais cobiçados. A saber: Melhor Destino Turístico Mundial, atribuído ao país, Melhor Destino “City Break” do Mundo, ou seja, melhor cidade para férias curtas, alcançado por Lisboa, e Melhor Destino Insular do Mundo, ganho pela Madeira, mais uma vez. Quanto aos outros 2 do top 5: A melhor cidade para turismo de longa duração foi Moscovo e o Melhor Destino Cultural do Mundo, foi ganho pelo Peru.

A festa foi grande para o turismo português, pois ainda arrecadámos os prémios de: Melhor Companhia Aérea a Voar para África, Melhor Companhia Aérea a Voar para a América do Sul e Melhor Revista de Voo do Mundo, os 3 entregues à TAP. Lisboa arrecadou mais 2 prémios, quer como Melhor Porto de Cruzeiros do Mundo, quer ainda o de Melhor Hotel Clássico do Mundo, este através do Olissippo Lapa Palace Hotel, e Sintra, por intermédio da empresa municipal “Monte da Lua”, foi buscar o prémio de Melhor Empresa Líder em Conservação do Mundo.

Importa destacar ainda os galardões que foram atribuídos ao Melhor Operador de Hotel Boutique do Mundo, entregue ao Amazing Evolution Management, que gere o 1908 Lisboa Hotel e o Aldeia dos Capuchos, por exemplo. Há ainda a referir que no campo do turismo de golfe foi o Dunas Douradas Beach Club, em Almancil, quem arrecadou o prémio de Melhor Golf&Villa Resort do Mundo.

Por fim, os Passadiços do Paiva, em Arouca, Património Geológico da Humanidade segundo a UNESCO, foram eleitos a Melhor Atração Turística de Aventura do Mundo e o Turismo de Portugal recebeu, com chave de ouro, o prémio de Melhor Organismo Oficial de Turismo do Mundo. Uma catrefada de galardões, num total de 12, a prestigiar este pequeno país à beira mar plantado.

Como vês, minha querida Berta, o nosso Portugal, que tantas vezes desdenhamos, é cobiçado e premiado como um fora de série na vastidão mundial de recursos turísticos existentes. O desdém, acho que tem a ver com a nossa antiga mania de cobiçar a mulher do próximo e de nos esquecermos da nossa, mas isso passa, tem de passar, e ao poucos chegaremos a bom porto.

Despeço-me com um beijo fofo, este teu amigo que não te esquece,

Gil Saraiva

Carta à Berta: O Arrepiante Estado das Notícias Online

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Olá Berta,

Esta minha carta hoje é mais um desabafo do que qualquer outra coisa.

Ando farto da publicidade escondida em notícias, sem o aviso, de que efetivamente se trata de propaganda e não de factos, o que antigamente era obrigatório. De estudos e anúncios científicos que fazem exatamente o mesmo, e que não passam de vulgares cartazes de venda de banha da cobra, envoltos em brochuras douradas, mas também estou cansado de notícias, sem verificação de fontes ou apuramento aprofundado do que realmente se passou e, por fim, de falsas notícias, produzidas para causar alarme. Ah, já me esquecia, e de divulgações distorcidas, apenas para defender uma causa qualquer, difundidas numa espécie de populismo bacoco, como se as pessoas fossem carneiros que seguem cegamente o respetivo divulgador, sem pensar duas vezes e sem qualquer seriedade.

Hoje abri o browser da Microsoft, o Microsoft Edge, e entrei diretamente no “msn notícias”. Acabei por sair irritado de lá. A quantidade de informação, teoricamente de notícias, que devia ser excluída, por ser claramente uma outra coisa qualquer é não apenas maioritária, como avassaladora.

Sabes, minha amiga, não sei se são os meus 38 anos de jornalista, 23 dos quais com carteira profissional, ou se é apenas o meu feitio reativo, mas faz-me impressão que isto se faça desrespeitando a lei de imprensa. Não entendo porque não há uma reação séria do Governo ou, no mínimo, da Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas. Acho sinceramente que se deviam tomar medidas radicais neste sentido, sob pena, de um dia destes, já ninguém acreditar em nada do que lê na internet. Sim, porque basicamente me tenho estado a referir às notícias online.

Como não existe melhor maneira de te explicar o que quero dizer, vou usar como exemplo o “msn notícias” de hoje:

Em destaque, nos principais títulos do dia, vem no “meu feed” (a janela das relevâncias diárias), entre outras, uma notícia ligada à saúde. O título é sugestivo: “As iguarias que poderão desaparecer em breve.” O corpo da divulgação é seguido de 30 diapositos legendados que apresentam os principais produtos, entre muitos outros, que vão deixar de existir nos próximos 30 a 50 anos, por força das alterações climáticas (cujo lóbi do clima é o verdadeiro difusor deste alarme idiota, penso eu).

Vou enumerá-los, pela ordem de apresentação, para teres a real noção do ridículo. Produtos que vão desaparecer do mercado em breve: cerveja, peixe, maçãs, frango, vinho, morangos, laranjas, bananas, Tabasco, batatas, milho, cerejas, pêssegos, mel, arandos, grão-de-bico, chocolate, abóbora, feijão, soja, abacate, amendoins, arroz, peru, flocos de cereais, trigo, pão, xarope de ácer e café.

Segundo a “notícia” alguns dos itens enumerados no parágrafo anterior terão acabado algures no período que vai entre 2050 e 2080, pese embora a grande maioria deva desaparecer antes de 2050, ou seja, nos próximos 30 anos.

Esta barbaridade é colocada como resultado de estudos sérios, por um lóbi estúpido que cheira a pseudo-ambientalistas, com interesses ainda desconhecidos do público. Contudo, é difundida numa página de notícias que tinha obrigação de ser séria, uma das mais lidas no mundo por quem usa a internet, traduzida em todas as línguas, e difundida como realista.

Ora, Berta, este é só um exemplo, e embora seja ridículo, é apenas um dos 15 que encontrei, só nas notícias gerais do dia de hoje, nesta página da dita prestigiada Microsoft.

Espero que alguém com poder comece a pôr um travão na situação rapidamente, senão a palavra notícias deixará, a breve trecho, de ter qualquer significado. Despeço-me saudoso, com o beijo do costume, este teu eterno amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: "Black Friday"

Black Friday.jpg

Olá Berta,

Espero que algum mau tempo não te impeça de ir às compras na próxima sexta-feira, afinal, estamos a falar da grande “black friday” e, tão próximo do Natal, sempre deves arranjar algumas coisas aliciantes e mais baratas para presentes da época e até pode ser que descubras algo de interessante para ti. Toma atenção, é já a 29 de novembro. Porém, tem cuidado, pois ainda há gente a querer vender gato por lebre e a tentar enganar o freguês com uma ou outra falsa promoção.

A “black friday” é, aliás, o tema da minha carta de hoje. Não apenas pelo facto de a grande promoção geral, de comércios e serviços, estar para próximo, mas também porque o ministro do ambiente e da ação climática, João Pedro Matos Fernandes, resolveu opinar sobre o tema, bem lá do alto da sua douta sabedoria e inteligência.

Sem que lhe fosse pedida qualquer opinião, decidiu sua excelência, este enorme e sábio representante do meio e das suas modificações, meter foice em seara alheia. Estás a imaginar, minha querida, o que aconteceria se fosse eu o atual ministro da economia? Bem, dir-lhe-ia, preto no branco, onde é que ele devia colocar a dita cuja. Sim, sim. Estou a falar da foice.

Como seria de esperar, as organizações comerciais e de serviços vieram logo a público defender a sua dama negra, o dia em que mais se fatura durante todo o ano, aliás, vieram com dados do Instituto Nacional de Estatística, INE, refutar a regurgitação ministerial.

É que a semana em volta da “black Friday” (e já agora a quinzena) são, em conjunto com o próprio dia, responsáveis por produzir receitas superiores a todo o trimestre anterior. A data, e a sua adoção em Portugal, trouxeram para o PIB um impulso equivalente à existência, no ano, de mais um trimestre altamente rentável, no que aos serviços, compras e pequenos negócios diz respeito. Gerando um verdadeiro vulcão de compras e aquisição de serviços que, começando a tremer uma semana antes do dia propriamente dito, só volta a serenar mesmo no fim do ano civil.

Aliás, com a vantagem de praticamente não haver grande acréscimo de despesas salariais ou reforços de mão de obra, o que tem ajudado ao aumento dos índices de produtividade no país, num setor que, só por si, é responsável por bem mais de dois terços do Produto Interno Bruto português. Pena é que, uma área com um tal dinamismo apenas receba a ajuda e o apoio de 4 porcento dos fundos comunitários, para o comércio, e 11 porcento nos serviços.

Uma disparidade gigantesca, se comparada com a fatia de leão entregue a outros tubarões. De realçar que o aumento, para a casa dos 50 porcento, faria, pelo desaparecimento do fosso entre ricos e pobres, mais do que todas as medidas implantadas desde que o país entrou na democracia.

Tendo Portugal uma carga fiscal altamente alicerçada nos impostos indiretos, com especial relevância para as taxas aplicadas ao consumo, sendo o setor o maior empregador nacional e com um peso tão relevante na economia do país, não fica nada bem escutar um dirigente nacional a chamar nomes aos consumidores e a todo este setor produtivo. Ao fim ao cabo, quem julga a douta cabecinha pensadora que lhe paga o ordenado ao fim do mês?

Eu ainda não me esqueci que foi esta sumidade quem gerou a balburdia no setor automóvel por vir dizer, para a praça pública, que, quem comprasse um carro a gasóleo, estava a fazer um mau investimento, pois não o conseguiria revender ou trocar quatro anos depois. Isso foi em janeiro deste ano, daqui a 3 aninhos alguém deverá pôr o alegadamente intelectual de manjedoura a prestar contas pelas suas afirmações e danos causados.

E não falei em manjedoura por mero acaso, uma vez que foi o tendencialmente invertebrado, no que ao raciocínio diz respeito, que veio aplaudir a medida da Universidade de Coimbra, de deixar de servir nas cantinas carne de vaca. Em vez de dizer que a universidade arranjara uma artimanha manhosa, para passar a gastar menos com as cantinas, porque esta carne é a mais cara do mercado, veio apoiar a medida, como se o metano produzido, pelos animais em causa, lhe tivesse invadido o cérebro de forma permanente.

Este é o mesmo ministro que, no caso do lítio, chutou a bola para canto, ou seja, deixou o seu Secretário de Estado, João Galamba, com a batata quente na mão, em vez de intervir como era sua competência e responsabilidade.

Apesar de tudo, importa saber o que realmente disse o versátil representante da deusa Gaia no Governo de Portugal, que, segundo a notícia do JN de 25 de novembro e resumindo o essencial, foi o seguinte:

  • "Nesta evolução de consumidores para utilizadores, com todo o respeito por quem promove os 'Black Fridays' da vida, eles são, de facto, um contrassenso".
  • O ministro considerou que atualmente se verifica a passagem de uma ótica de consumo de produtos para serviços, dando como exemplo as diferenças entre "ter uma lâmpada ou ter luz", "ter uma máquina de lavar roupa ou ter ciclos de lavar roupa", ou entre "ter um berbequim ou um furo na parede".
  • "O que eu quero é mesmo um serviço e não necessariamente um bem. E por isso cada vez mais vamos ter uma sociedade orientada a serviços que têm bens lá dentro", prosseguiu.
  • Classificou ainda a 'Black Friday' como "um expoente máximo e negativo de uma sociedade capitalista", sem antes dizer que acredita "na livre escolha e na iniciativa" numa "democracia aberta".
  • "Acho que é fundamental nós mudarmos de hábitos para podermos aguentar esta mesma democracia e este regime aberto e de livre iniciativa e de livre oportunidade", continuou manifestando também receio de que "alguém o faça por nós e o faça mal".
  • o ministro lamentou ainda ver "muitas entidades financeiras a dizerem como é que vão apoiar as compras que nós vamos fazer no 'Black Friday'".

Ora muito bem, conseguiste entender o que pensa João Pedro Matos Fernandes? Não? Minha querida, não te preocupes, nem tu, nem eu, nem 99,99 porcento dos portugueses, conseguem vez alguma entender a douta cabeça que tantas vezes nos traz alegadamente à memória a imagem do alho chocho.

Este novo Merlin dos Tempos Modernos, considera que estamos a evoluir de consumidores para utilizadores e acha que os que promovem a “Black Friday” representam um contrassenso relativamente a esta evolução.

Ora, acontece que o contrassenso é, o ministro da economia, o das finanças e o primeiro-ministro, deixarem o Douto Mago abrir a boca fora da sua área de intervenção (porque nesta ele vai-se mantendo calado), sempre que a ave rara lhe apetece armar-se em papagaio. Até porque, se as promoções ligadas a este dia estivessem a rumar contra a maré, as adesões da população não cresciam ano após ano, como se tem vindo a verificar, nem o volume de negócios era, como é, cada vez mais significativo.

O intelectual que alegamos ser, por certo, de vão de escada, afirma ainda que estamos a sair do consumo de bens para a utilização de serviços no seu lugar. A frase faz sentido se acrescentarmos que vamos evoluindo no tipo de produtos que consumimos e que estes trazem agora, muitas vezes, serviços associados, senão vejamos: o ministro dá exemplos: “é diferente ter uma lâmpada ou ter luz”.

Também acho, até por a lâmpada, como algumas cabeças pensadoras, pode estar fundida, enquanto que a luz é sempre a luz e fica lá para os lados da segunda circular, em Lisboa. Gostava de saber o número de telefone do fornecedor de energia elétrica que, juntamente com o abastecimento fornece também as respetivas lâmpadas. É que já procurei e não encontro.

Outro exemplo ministerial é: "ter uma máquina de lavar roupa ou ter ciclos de lavar roupa". O ministro refere-se, certamente, às lavandarias existentes nas principais cidades, em que o utilizador põe ele próprio a roupa na máquina e depois da lavagem, a traz para casa, pronta a secar ou já seca se, pagando mais alguma coisa, a colocar noutra máquina de secagem, depois da lavagem.

Esta estratégia quase parece convencer, porém, essas lojas, apenas cobrem uma percentagem ridícula de utilizadores, que nem chega aos 5 porcento, sendo que mesmo estes estão num perfil etário mais jovem e ainda capazes de transportar as roupas de um lado para o outro. O que cada vez tem menos a ver com o país em que vivemos. Tudo o que são vilas e aldeias estão fora do conceito e a terceira idade, mesmo nas cidades, tem dificuldade de usar o serviço pelo que este exige de esforço físico a um idoso. Era provavelmente boa ideia que quem pensa de forma tão afunilada usasse uma dessas lavandarias para lavar a mioleira, quem sabe se, depois de lavada e bem seca, não deixava de produzir barbaridades imbecis.

Há ainda uma terceira afirmação que me deixa perplexo. O ministro fala que é diferente “ter um berbequim ou um furo na parede”. Aliás, o senhor Jacques de La Palice não diria melhor. Quererá a cabecinha pensadora desta alma iluminada dizer que, daqui em diante, chamamos o homem do berbequim, para nos fazer um furo em casa, quando precisamos de colocar uma bucha e um prego, para pendurar um quadro? E em seguida? Contratamos um homem de martelo, bucha e prego, para encher o buraco? E depois? Já sei contratamos um decorador de interiores ou um arquiteto paisagístico para colocar um quadro de um melão, vegetal bem mais arguto do que quem convictamente solta estas verborreias perigosas e ainda não domesticadas.

Não sei em que país vive o homem que nos cuida do ambiente, mas deve ser certamente nalgum diferente dos existentes na Terra, situado numa outra galáxia, ainda desconhecida dos humanos. Este pensamento leva-me a crer que, talvez, o ministro seja um “allien”, um extraterrestre disfarçado de “parolêz”, com a barba mal feita.

O sábio governante explica ainda que caminhamos para “uma sociedade orientada a serviços que têm bens lá dentro”. Pode ser que tenha razão e, já que não será mais cedo, que pelo menos seja mais tarde. Entretanto, dava um jeitão passarmos primeiro por uma sociedade que tivesse governantes com cabeça e que esta tivesse qualquer coisa lá dentro. Mas em que país vive o ministro? Que raio de sociedade é que o rodeia que eu desconheço e que não consigo ver? O caminho de que o ministro fala, se é que eu o entendi corretamente, está bem mais longe e será mais difícil de percorrer do que os famosos caminhos de Santiago. Prevejo que no próximo século, se consiga ter acesso ao mapa dos ditos, e que, antes do fim do seguinte, a fabulosa meta seja alcançada, para a generalidade da população e não apenas para uns idealistas do bacoco e do rococó da ficção científica de trazer por casa.

Quando olho para o que já escrevi, nos parágrafos anteriores, nem consigo acreditar que tudo isto foi enumerado, com convicção por um governante do meu país, mas foi. E disse mais, afirmou que: a 'Black Friday' é como que "um expoente máximo e negativo de uma sociedade capitalista". Por onde andas saudoso Álvaro Cunhal? Os perfumes da tua existência deixaram nalgumas cabeças mais fracas, resquícios débeis e dementes dos sonhos dourados do velho mundo comunista.

Expoente máximo e negativo de uma sociedade capitalista poderá ser a ação que os bancos portugueses tiveram, este século, expropriando o país da sua riqueza e obrigando o povo a repor-lhes os fundos, nunca, jamais, em tempo algum, os saldos, de um dia de descontos, mais avultados, podem ser chamados de expoente máximo e negativo de coisa nenhuma, quanto mais do capitalismo. Quem é capaz de uma tal afirmação deve ser o híbrido produto, alegadamente, da junção de um burro com um camelo, e, mesmo assim, corro o sério risco de ser chamado à atenção pelo PAN, por estar a diminuir os animais.

O ministro do ambiente e da ação climática, mostrou-se triste por haver entidades financeiras dispostas a ajudar os consumidores a adquirirem os bens e serviços durante a “Black Friday” e afirmou: "Acho que é fundamental nós mudarmos de hábitos para podermos aguentar esta mesma democracia e este regime aberto e de livre iniciativa e de livre oportunidade", continuou manifestando também receio de que "alguém o faça por nós e o faça mal".

Ora, finalmente eu, um cabeça de alfinete e o ministro, estamos de acordo. Todos receamos que alguém o faça por nós e mal, seja lá a que for que o ministro se refere. É que fazer e prestar pior serviço do que a sua douta e sabedora pessoa é quase uma impossibilidade.

Senhor João Pedro Matos Fernandes adorava que alguém lhe dissesse que quem tem de mudar de hábitos e de ares, talvez até sair, em pezinhos de lã, do Governo, é vossa excelência. Isso sim, seria um ótimo serviço prestado à nação e digna de condecoração por parte do Presidente da República Portuguesa, o ilustríssimo professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Despeço-me de ti, querida Berta, com um beijo de saudades, diverte-te com a “Black Friday” que se avizinha, deste teu amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: "Joacine vai-te Katar"

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Olá Berta,

Os dias por aqui continuam de chuva. Espero sinceramente que este choro do céu seja suficiente para encher as barragens portuguesas, que tão à míngua têm andado e para tirar da seca o solo, devolvendo à vida terras empedernidas que urge recuperar.

“Joacine vai-te Katar” devia, alegadamente, ter sido assim que o líder e fundador do Livre, Rui Tavares, teria de ter respondido a Joacine, depois da abstenção da deputada do seu partido, no voto de condenação das ações de Israel contra os palestinianos na faixa de Gaza.

Uma ação firme e sem medos de ser confundido com racista, preconceituoso para com os gagos ou mesmo machista. Um líder tem de ser líder e apenas isso. A democracia, mesmo no seio da estrutura de um partido, se não tiver uma hierarquia de liderança e comando rapidamente se transforma em anarquia. Aliás, deveria, por muito original que o partido pretendesse ser, ter sido o seu líder o cabeça de lista às eleições legislativas.

Numa representação partidária depois das eleições para a Assembleia da República, onde as possibilidades, as sondagens e os estudos estatísticos, apontavam para uma presença efetiva entre os zero e os 2 deputados ao Livre, em primeiro lugar, exigia-se sempre a presença do fundador e responsável do partido, depois, e só depois, é que se poderia votar internamente e de forma democrática num segundo possível representante, isto como demonstração da infantil forma de liberalizar lideranças, só imaginável num partido que, sem querer, brinca com coisas sérias, por falta de calo político e ideias de sonho, mais próprias de histórias como as da Carochinha ou as do João Ratão.

O protagonismo entregue à pessoa de Joacine Katar Moreira tem-se demonstrado uma verdadeira calamidade. Aliás, ou a deputada arrepia apressadamente caminho ou, numas eleições futuras, o Livre regressará rapidamente para a lista dos partidos que desaparecem para sempre da esfera do hemiciclo.

Saber capitalizar o descontentamento do povo e com isso alcançar a representação parlamentar e, mais importante ainda, conseguir mantê-la, não se compadece com uma representação para lamentar de uma deputada que a única coisa que até agora deixou claro, para além do facto de ter um problema de gaguez, foi a soberba absurda do seu estatuto minoritário, pondo-se em bicos de pés, mais emproada que os perus de Natal, o que por certo não levará, num futuro próximo, a bons resultados, nem é via para quem pretende singrar na política.

Os erros de Joacine têm sido por demais evidentes e ficam a nu, devido ao foco especial criado pela novidade, por parte da comunicação social, pelo facto de muita gente simpatizar com o caráter humilde e ponderado do seu líder, Rui Tavares. O que a inteligência e comportamento de Rui Tavares têm a mais tem Joacine a menos. Em vez de humildade apresenta soberba, troca o bom senso pelo choque, vejam-se os casos do segurar da bandeira da Guiné Bissau no dia da eleição e da sua entrada na casa da democracia seguida por um pajem de saias.

Apesar do que escrevi atrás já ser “naif” é inaceitável que Joacine justifique a sua abstenção, no voto em defesa dos palestinianos, com a desculpa de ter estado 3 dias sem conseguir contactar o partido. Pelo que apurei, durante esse período, o telemóvel de Rui Tavares esteve sempre ligado. Mas pior que a desculpa das dificuldades de comunicação, que com Joacine se sobrepõem às camadas, o desconhecimento das posições do partido, face a esta e outras matérias, demonstra uma total incapacidade ou, usando o termo francês mais esclarecedor nesta situação, “inaptitude” para o cargo para o qual foi eleita.

Joacine, nem para as minorias que representa, e são várias, género, raça, origem, deficiência, é um bom exemplo. Ainda não me esqueci das entrevistas, em que a deputada recém-eleita, de bicos de pés, alegava estar a ser vítima de ameaças, em conjunto com insultos graves, que lhe foram dirigidos, como jamais imaginara ser possível acontecer.

Esta vitimização, que na perspetiva da dita cuja, deveria ter consternado os portugueses, apenas os deixou mais desconfiados pelo desdém e arrogância com que a senhora os apresentou, exatamente como quando afirmou que a sua eleição só a si mesmo se devia, relegando para vigésimo plano a importância dos ideais do partido e do seu líder.

Ainda hoje a pobre vítima desprotegida, veio a público dizer que a direção do seu partido está a lançar um “autêntico golpe” contra si. Ó almas caridosas deste país solidário, juntem-se, unam-se, lutem, por favor, na defesa da arrogante, empinada e complexada vítima da opressora máquina partidária de um partido chamado Livre. Haja paciência. Não há como aturar esta personagem.

É claro que a imprensa tem adorado todas estas batalhas, problemas e confrontos. O conteúdo noticioso é ouro para as redações e direções editoriais de toda a comunicação social e a absurda Joacine tem demonstrado ser uma verdadeira mina, cujo filão parece ser inesgotável.

Agora, Joacine, tão ocupada estava a mostrar ao mundo que é a última vítima dos redutores dirigentes do seu partido, de toda a gente em geral e mais umas botas, que se esqueceu do prazo, sua competência e responsabilidade, para entregar o projeto de decreto-lei sobre a lei da nacionalidade, uma das grandes bandeiras do partido e o primeiro compromisso prometido aos eleitores, caso elegessem algum representante. Este simples facto demonstra a irresponsabilidade, o amadorismo, o protagonismo balofo e sem conteúdo da deputada e revela bem a sua inaptidão clamorosa para o cargo que desempenha.

Ainda mal passaram os primeiros 25 dias da polémica afirmação de Joacine, em que esta comparava Daniel Oliveira, o comentador de esquerda do Eixo do Mal e colaborador regular do Expresso, com figuras de extrema-direita. Foi só há cerca duas semanas que, quando indagada, em entrevista ao Expresso sobre o assunto, ameaçou o jornalista que a entrevistava, sublinhando que ou ele parava de lhe colocar aquela questão ou ela se irritava.

Consegues entender, minha querida Berta, o que teria acontecido se Joacine se tivesse irritado? Viria o deus dos fracos e oprimidos com um raio trespassar o ignóbil jornalista assertivo? Dah!

Alguém me sabe dizer quantas entrevistas Joacine Katar Moreira já deu nestes últimos 50 dias, pouco mais de um mês e 20 dias, depois de ter sido eleita? Pelo que consegui apurar a deputada já correu todos os canais televisivos sejam eles generalistas ou informativos e as principais rádios do país, deu entrevistas exclusivas ao Observador, ao Expresso, à Visão, ao Público, ao Diário de Notícias, ao jornal “i”, e a lista continua… ou seja, a senhora em causa, ou não prepara minimamente as entrevistas que dá ou se prepara não tem tempo para se concentrar no seu papel de deputada, demonstrando uma incompetência e um deslumbramento de bradar aos céus. A deputada tem sido de tal forma bandeira empinada aos ventos que nem André Ventura a consegue ultrapassar com as suas manobras oportunistas.

Joacine, veio avisar, ao jornal online Notícias ao Minuto, para quem possa ter dúvidas, que não é descartável e que exige respeito, em mais uma das suas, múltiplas e brilhantes, 100 mil entrevistas. Para nossa sorte, sabemos que, pelo menos, Joacine Katar Moreira é biodegradável, já quanto a exigir respeito é preciso que, quem tal regra impõe, se dê ao respeito também, coisa que Joacine parece desconhecer que exista.

O Podcast “Comissão Política” da secção temática do Expresso questiona-se se o trajeto de rotura entre a deputada e o seu partido poderá ser revertido, depois da deputada ter acusado a cúpula do partido de ter sido abandonada, de absoluta falta de respeito para consigo e de a direção lhe estar a fazer a cama, sendo alvo de um verdadeiro golpe. Será que Joacine queria dizer cúpula ou cópula? Não faço a menor das ideias, mas tenho uma certa mágoa que tudo isto esteja a acontecer com o Livre.

Estou certo, Berta, que voltaremos a falar desta deputada, mas para já apetecia-me fazer como recomendei a Rui Tavares e dizer “Joacine, vai-te Katar”.

Recebe um beijinho de até à próxima carta, deste teu amigo que nunca te esquece,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: O Maior Roubo do Milénio - A Noite No Museu

Museu Roubado na Alemanha.jpg

Olá Berta,

Sabes que celebramos hoje o nosso primeiro mês de troca de correspondência? Adorei saber, pela tua última resposta, que retomaste o gosto por ir abrir ver o correio. Tu, como quase toda a gente, passou a olhar para essa pequena caixa com algum amargo de boca.

É um facto que ninguém gosta de lá ir apenas para encontrar missivas de banco, penhoras das finanças, contas da luz, da água, do gás ou da televisão, internet e telemóvel. O recetáculo ganhou, nos últimos anos, uma conotação negativa, chegando ao ponto de criar fobias a muitos utilizadores, pelos receios do que, a cada abertura, pudessem vir a encontrar. É bom ver que, pelo menos no teu caso, a tendência se inverteu.

A minha carta de hoje prende-se com o regresso à cena mundial dos ladrões míticos e de bom coração. Se antes os liamos torcendo pelo seu sucesso, como se de heróis se tratassem, agora, na atualidade, eles tornam-se reais e capazes de feitos que superam os seus antecessores literários. As imagens de Robin Hood, de Arséne Lupin, ou de Simon Templar, digo, O Santo, eram, e permanecem, mais românticas do que os seus reais sucessores.

Os grandes ladrões da atualidade não se revelam à imprensa, não se identificam de forma alguma, nem sequer possuem aquele charme justiceiro ou aventureiro.

Aliás, o cinema apresentou-nos novos bons ladrões em Ocean’s 11, Ocean’s 12 e Ocean’s 13, com George Clooney e Brad Pitt nos principais papeis. Porém, este tipo de fora-da-lei nunca teve grande transição para o nosso mundo real.

Uma outra situação, bem diferente é, contudo, a transição dos roubos espetaculares da ficção para o quotidiano.

Aqui a coisa tem prosperado. Foram os roubos de joias da Coroa na Suécia em 2018, o roubo recente de uma carrinha de valores na Avenida da Liberdade, em Lisboa, já este mês, contendo peças de ourivesaria de mais de 124 mil euros e finalmente o assalto praticado ontem, por um duo, na Alemanha, cujo o saque em pedras preciosas e diamantes, incluídas em antigas peças reais, rendeu mais de mil milhões de euros de proveitos aos meliantes.

Neste último caso, e para espanto generalizado, o tesouro roubado da Abóbada Verde, no Palácio Real em Dresden, na Alemanha, não tinha qualquer seguro e, mais grave, os alarmes podiam ser desligados atacando uma caixa de eletricidade situada na via pública, junto ao monumento.

Depois de casa roubada não existem trancas que se possam pôr nas portas para evitar o ocorrido. As autoridades estão com esperança de encontrar pistas nos vídeos gravados pelas câmaras de segurança durante o assalto. Todavia, acho que de pouco valerão as imagens de 2 pessoas, vestidas de preto, da cabeça aos pés, de lanternas em punho, a limpar metodicamente algumas das vitrinas.

Foi ainda encontrado um carro, totalmente carbonizado, que pode ter servido de veículo de fuga. Esta descoberta já me parece uma pista mais sólida, principalmente porque há registos que o fogo não apaga, como os das gravações nalgumas peças dos respetivos números de série. Porém, se se tratar de um carro roubado, não sei o que as autoridades poderão fazer daí em diante. Admito que, até ao momento, esta me parece a melhor via de investigação a seguir. O resultado é que poderá muito bem vir a ser bastante abaixo das expetativas.

Uma coisa é evidente, este crime foi metodicamente pensado, devidamente planeado, e tem detalhes que evidenciam um conhecimento aprofundado do que havia a fazer para o levar a bom porto. Isso pode implicar o auxílio de gente que trabalha para o museu ou que colabora regularmente com a instituição. Contudo, isso já sou eu a supor e não se tratam de factos.

Como vês, minha querida Berta, o roubo é perfeito, o valor do mesmo é avassalador, mas duvido que os ladrões se preparem para distribuir o produto do saque com os pobres e oprimidos, na senda dos ladrões de charme do antigamente. Afinal, este assalto faz parte da vida real, e constitui, pelo menos até ao momento, o maior roubo do III Milénio, à noite no museu.

Fica com um beijo deste teu amigo, pleno de saudades,

Gil Saraiva

Carta à Berta: O Submarino da Fortuna

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Olá Berta,

Cá estou eu de novo a escrever. Acho que esta nossa correspondência se está a tornar um vício. Tenho que ter cuidado. Não gosto de estar dependente seja lá do que for. Chegam-me bem, infelizmente, os 2 comprimidos que, diariamente, tenho que ingerir. Todavia, sem eles, o risco de AVC torna-se bem mais ameaçador. Ah! Escusas de me vir falar nos cigarros, conheço perfeitamente os meus hábitos.

Contudo, a minha carta de hoje, tem a ver com isso mesmo, vícios, mais concretamente, o mercado e o vício das drogas, onde, em meu entender, a cocaína continua impávida e serena o seu reinado. Faz-me lembrar a Rainha de Inglaterra, aliás, numa análise superficial, não sei qual das 2 reina há mais tempo.

Não te vou descrever nesta carta os prós e os contras da droga, os perigos que acarreta, o problema social que dela advém e nem sequer vou falar de reabilitação ou mesmo dos toxicodependentes.

Podia abordar a temática, porém, tudo o que sei sobre o assunto é demasiado vago, muito pela rama, sem a profundidade necessária para estar para aqui a “botar postas de pescada”. Consigo fazê-lo, pelo menos numa ou outra vertente, se investigar a fundo o tema. Mas, por agora, não é uma daquelas coisas de que me agrade falar. Se um dia tiver de ser, será.

A coca, usando o nome mais habitual, para além de toda a sua parte trágica, muito bem documentada em inúmeros registos de todo o tipo, já nos deu livros intensos, filmes que se tornaram intemporais, músicas inesquecíveis e manifestações de criatividade, genialidade, representação, superação e resistência incríveis ao longo dos anos.

Eu não faço parte do grupo dos cínicos que não reconhece o papel dessa droga, entre outros, talvez, na superação alcançada por apresentadores, artistas, atores, músicos, pensadores, políticos e mesmo cientistas, sob o seu efeito. Casos há, em que, apenas através dela, o rasgo e o génio se revelam na sua plenitude.

Ora eu, não sendo propriamente um santo, até porque já fui adolescente e jovem, prefiro manter oculto, dentro de mim, um dom superlativo que hipoteticamente possua, do que ter de recorrer a esta, ou a qualquer outra droga, para o fazer emergir e se revelar ao mundo. Não há nada a fazer, são apenas opções de vida e cada um, à partida, faz as suas como bem entende. Eu fiz a minha.

Pronto, ponho-me para aqui a dar opiniões e acabo por deixar para trás o que realmente queria dizer. É sempre a mesma coisa. Desculpa lá, amiguinha, tu sabes que não o faço com maldade. Um pensamento puxa outro e, quando damos conta, o fio da meada está perdido num labirinto de frases e considerações. Vou tentar ser mais objetivo naquilo que, esta semana, me deixou perplexo.

Estava a ler as notícias do jornal Expresso online, quando me deparei com uma que, pelo insólito, me parecia tirada de um filme de James Bond. Até pensei que se aquilo fosse usado num livro de ficção, se calhar, era considerado irrealista, desproporcionado e demasiado fantasista. Contudo, ali estava, mais uma vez, a realidade a superar a ficção, de um modo absolutamente espetacular.

Espanha tinha acabado de apreender um submarino de 20 metros, um tamanho equivalente a 5 carros, tipo Seat Ibiza, alinhados uns atrás dos outros, ou 8 veículos como o Smart Fortwo, alinhados em bichinha pirilau. O submergível terá, aparentemente, ficado sem combustível, e a tripulação fê-lo encalhar e vir parcialmente à superfície, para se poder pôr em fuga. Dos 3 fugitivos apenas 2 foram apanhados e um terceiro continua a monte. A carga é, revelaria a investigação, um absurdo loteamento de 3 toneladas de cocaína de elevado grau de pureza.

A viagem parece ter começado algures na costa norte da América do Sul, ou perto, para as bandas do Golfo do México ou Caraíbas, sendo o fabrico do submarino, provavelmente, originário da Guiana Francesa.

Depois de consultar outras notícias, em diversos jornais online, confirmei que, basicamente, os relatos eram muito coincidentes, pelo que me limitei a compilar os dados apresentados para os poder descrever, o mais corretamente possível, nesta carta.

Ora, há nesta história várias coisas que me espantam e deixam perplexo. Em primeiro lugar, pelos registos descobertos, a viagem transatlântica era regular, ocorrendo de há vários anos a esta parte e estando na classificação das operações correntes e banais dos narcotraficantes.

Em segundo lugar, como é que alguém, seja quem for, que transporta 360 milhões de euros de mercadoria ilegal, clandestina, proibida e altamente penalizada pelos sistemas judiciais europeus, se esquece de abastecer? Como é possível ser-se idiota ao ponto de conduzir 6 milhões de doses de coca para o mercado europeu, a 60 euros a dose, correndo uma imensidade de riscos e não verificar o combustível? Parece impossível que, em operações desta envergadura, exista gente que, além de criminosa, é intrinsecamente estúpida. Mais uma vez a realidade ultrapassa a ficção.

Em terceiro lugar, tendo por base as fontes, podemos tentar extrapolar um cenário provável. Por exemplo, quanto representa este negócio, só por esta via, se o transporte se fizer sempre na mesma quantidade de coca, o que, a julgar pelas acomodações, parece muito plausível, e se a sua regularidade for, digamos sem exagerar, mensal e já decorrer há 7 anos, mais coisa menos coisa? Feitas as contas, neste quadro, que, quanto a mim, é bem superior aos meus cálculos, na realidade, estes meninos trouxeram para a Europa mais de 30 mil milhões de euros em droga. É de cortar a respiração.

Todavia, não me admiraria nada, se este submarino não for apenas um, mas parte de uma frota de 4 ou 5. Há droga mais do que suficiente, na origem, para que esta ideia seja real. Para além de ser menos provável que quem tem um negócio destes apenas tenha um, e só um, transporte deste tipo em funcionamento. Passando isto para dinheiro, que é o que mais campainhas faz soar, até porque a Europa consome anualmente imensamente mais coca do que isto, estamos a falar, em 7 anos, de montantes no valor de 150 mil milhões de euros, o suficiente para pagar, por 2 vezes, o dinheiro que Portugal pediu à Troika, após Sócrates.

Porra, Berta, já imaginaste bem? E andas tu a sonhar com o euromilhões, isto é que é um negócio de alto rendimento. Menos de um décimo disso teria dado para ter continuado com o Banco Espírito Santo a funcionar, sem inventar um banco mau, e sem ter de o vender ou ter lesados.

Mas se esta rede de narcotraficantes, que se sabe fazer escala em Portugal, estiver relacionada com a descoberta, 2 dias antes, pela Polícia Judiciária, nos arredores de Lisboa, num armazém de fruta, disfarçada em caixas de bananas, de mais uma tonelada e meia de coca quase pura (a qualidade parece muito semelhante à outra) que se apurou chegar por via marítima, em navios mercantes, então, não estamos a falar de um mero grande cartel, mas de um império que, num só ano, gera receitas suficientes para pagar, completamente, a dívida portuguesa.

Algo que nenhum “Robin dos Bosques” seria capaz de fazer, por mais milionários sem escrúpulos que roubasse em toda a sua vida.

Uma obra bem feita seria Portugal e Espanha, os portões europeus deste império do mal e do mel, conseguirem descobrir e confiscar o dinheiro, que estes parasitas da humanidade, têm algures depositado em aprazíveis paraísos fiscais. Isso sim, era algo que valia a pena. Infelizmente esta é a parte onde esta carta entra definitivamente no campo da ficção romântica.

Fica bem minha querida, despeço-me saudoso com um beijo. Este teu eterno amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: O Peso do Dinheiro de Sócrates

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Olá Berta,

Nem te pergunto como estás porque isso, aliás, é o tenho feito todos os dias e a coisa ainda vira exagero. Eu por aqui continuo satisfeito a gozar esta época saudável, que parece ter regressado para ficar, depois das chatices que tive até junho passado.

Não sei se tens acompanhado toda a saga do ex-primeiro-ministro José Sócrates que, desde que voltou a ser chamado a testemunhar pelo juiz Ivo Rosa, regressou às primeiras páginas dos jornais, aos noticiários das rádios e às reportagens televisivas.

Provavelmente fizeste como eu, não leste, ouviste ou viste nem um quinto do alarido à volta da Operação Marquês. Fizeste bem. Diga-se, de passagem, que a continua exposição mediática do caso começa a jogar a favor do principal arguido em vez de o prejudicar.

A malta começa a ficar farta. Ainda por cima à medida que vamos tomando conhecimento da inexistência de provas cabais e demonstrativas da acusação proferida pelo Ministério Público. Caramba! Mas não haverá um raio de um papel que prove, de uma vez por todas, que o político meteu a mão na massa e que, por isso mesmo, é culpado dos 31 crimes de que é acusado? Como é que se acusa alguém, num país onde o enriquecimento elícito não é crime, sem ter na mão os papeis, fotografias ou gravações com provas?

Não consigo entender que tudo, pelo menos até ao momento, não passem de deduções, explicações elaboradas do que possivelmente aconteceu, acusação do homem ter andado com muito dinheiro, que não poderia de forma alguma ser seu, e, por isso mesmo, só poder ser fruto de corrupção, mas, e lá vem sempre a porcaria do mas, sem o conseguirem demonstrar com provas irrefutáveis e absolutas, para que não fique nenhuma dúvida.

Tu entendes uma coisa assim? Eu não e juro-te que também, como tu, não sou parvo nenhum. É que, quando o acusado diz que tem um amigo que lhe dá milhões, por mais que isso nos custe a engolir, não há lei que o impeça de o fazer.

Talvez se enriquecer sem explicação fosse crime já o caso estivesse arrumado, porém, minha querida Berta, isso é coisa que não convém ao Estado colocar no papel, passando essa prática a ser crime perante a lei. O resultado seria trágico para muita gente, neste país, que vive milionariamente, sem razão aparente que justifique essa vida e onde, infelizmente, muitos deles circulam nos corredores do poder.

Se os investigadores da Polícia Judiciária, e o Ministério Público, tivessem e pudessem investigar todos os milionários de Portugal, quantos achas tu que conseguiriam justificar cada cêntimo que detêm? Uns 20 porcento? Talvez menos? Eu também não sei. Todavia, espero ansiosamente pelo dia em que um Governo tenha a coragem de mudar a lei.

Até lá, ou arranjam as tais provas cabais ou está tudo muito complicado, quer para os investigadores, quer para o Ministério Público.

Outra coisa que me irrita, é a forma como se criticam as declarações de José Sócrates, nos debates e nos programas de comentário político, na televisão. Vi gente, e por alguns deles eu nutro um enorme respeito (principalmente pela sensatez daquilo que dizem e pela forma clara e ponderada com que o fazem), pôr em causa os 5 milhões que Sócrates teria em casa (os tais que alega terem sido herdados pela mãe), com base no volume do dinheiro e na dimensão que um cofre caseiro teria de ter para guardar tal fortuna. Mas esta gente deu-se ao trabalho de investigar o volume e o peso de 5 milhões de euros em notas de 500 euros?

É por estas e por outras que o ex-primeiro-ministro, mesmo que seja efetivamente culpado, vai passando por entre os pingos da chuva sem se molhar.

Primeiro temos a obrigação de tentar perceber se algo é absurdo antes de fazermos a afirmação de que o é, apenas e só, porque não temos a mínima noção das proporções, medidas e pesos em causa, numa coisa que nem é difícil de investigar. Revolta-me o desleixo com que, quem tem a seu cargo o comentário político e sério, trata matérias importantes e relevantes, para consolidar as coisas que afirma. Na ignorância de algo, só existem 2 maneiras de se resolver o problema: investigar devidamente ou não falar no assunto.

Não é correto cuspir verborreia sem se ter qualquer ideia sobre o que se fala. Essa é a hipótese que nunca deveria chegar ao comentário político. Por isso mesmo, e para não passar por estúpido, como muitos outros, resolvi investigar. Garanto que fiquei admirado com o que descobri.

Afinal, 5 milhões em notas de 500 euros, cabem numa malinha que tenha 58 centímetros de comprimento, por 48 de largura e apenas 20 centímetros de altura, ou seja, qualquer cofrezinho caseiro, mediano, de gente abastada, suporta, com algum conforto, a verba em causa. Quanto ao peso, tudo se torna ainda mais ridículo, 8 quilogramas, sem tirar nem pôr. Apenas 8. O que quer dizer que 5 milhões de euros só pesam pelo trabalho e esforço que custam quando se trata de os ganhar. Nada mais.

Para poderes ter uma ideia, minha amiga, mando-te uma fotografia com esta carta, que ilustra o volume e peso de 500 mil euros. Despeço-me saudosamente com um beijo, deste teu confidente de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A Libertadores é de Jesus

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Olá Berta,

Deves estar, como eu, satisfeita com o nascimento e ascensão aos céus de mais um herói nacional, desta vez não aqui no nosso pequeno burgo, mas pelas paisagens imensas das terras de Vera Cruz.

Jesus é louvado pela imensidão de gente rubro negra que parece ter invadido o Brasil. Para onde quer que ele vá, será seguido por muitos e muitos anos por essa massa gigantesca de fãs que lhe reconhecem a audácia de um verdadeiro “Mister”, e que só não o naturalizaram já, porque a pronúncia do mesmo dificulta a confusão.

O Brasil é hoje terra de um povo libertado depois de 38 de um Flamengo sem ganhar a Taça dos Libertadores. Nem mesmo o pulmão amazónico, a definhar a olhos vistos, parece calar o pulmão recém-nascido de uma gente imensa, de milhões e mais milhões, que canta bem alto a palavra vitória, enaltecendo com rubor as faces pálidas de um homem da Amadora, que quis a sorte chamar-se Jesus.

Jorge Jesus vai voltar ao velho continente com o “Brasileirão” ganho e a Taça dos Libertadores debaixo do braço. Volta, porque para ser eternizado não pode manter-se no posto e fazer menos do que acabou de alcançar. Volta, porque a demanda disparou na Europa. Já se fala que o querem em Inglaterra e há quem diga que ele será o próximo treinador do Barcelona. Volta, porque quer ser lembrado eternamente.

Volta, para pena minha, que preferia vê-lo a representar a nossa bandeira fora do país. Eu admiro o Jesus que conseguiu vingar no Brasil, aplaudo e incentivo esse Jesus, porém, sou dos que continuam a achar que ele não devia, jamais, regressar ao Benfica. Há os que me recordam que ele ganhou 3 campeonatos pelo clube, mas eu sou dos que pensa que ele perdeu 3 campeonatos pelo Benfica e mais a final de uma Taça UEFA.

Contudo, este meu raciocínio não tira qualquer mérito ao treinador. Apenas não me agrada ver um iletrado a liderar a minha equipa, o que muito provavelmente tem a ver com o facto de eu me considerar um intelectual. Manias de um Gil, minha querida Berta, preocupado não apenas com o conteúdo, mas também com a forma, de quem lidera o seu clube de coração.

Se o homem for realmente para o Barcelona vou torcer por ele com todas as minhas forças, exatamente como o fiz no Brasil. A simplicidade do treinador faz escola, tem o seu mérito e não lhe deveria ser pedido, nem por mim, que vire Camões ou que tenha o dom da oratória e a cultura geral de um Lobo Antunes. Todavia, eu sou assim, prefiro o herói fora de portas. Talvez o defeito seja meu, não digo que não, mas o que importa é que a saga de Jorge Jesus se mantenha viva, levando consigo o nome de Portugal. Afinal, ninguém lhe pede uma pós-graduação em gramática para que seja um treinador de nível 4, cujo sucesso anda agora perto do 10.

Regressando aos feitos conseguidos pelo herói no Brasil, penso que se passarão muitos anos até que um outro português o consiga repetir naquelas paragens. E, mesmo assim, jamais será igual, porque Jesus o fez primeiro que todos com a garra de um puro Lusitano, nos últimos minutos virando uma desvantagem, na reviravolta da glória de um jogador, um tal de Gabigol. É assim que se escreve história.

Desejo que Jesus continue o seu galope, de crina prateada ao vento, em gestos gritados para dentro de um campo de flores sem tempo. Desejo-lhe felicidades e vitórias, desejo-lhe boa sorte.

Despeço-me, minha querida Berta, saudoso, este amigo que não te esquece,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A Primeira Manifestação de André Ventura

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Olá Berta,

Como diz a canção, estou a pensar em ti. Mais precisamente no facto de a nossa correspondência ter sido diária. Não te habitues mal. Haverá, certamente, dias em que nada terei para te dizer. Contudo, enquanto assim não for, continuarei esta minha missão de regular ligação postal informática. Deixa-me feliz saber que me lês e me entendes, minha amiga do coração.

Não sei se viste na televisão as imagens da manifestação das forças de segurança. Eu vi… e o que vi fez-me sentir o toque de vários e preocupantes alarmes. Estou de acordo e afirmo-o, para que não se pense o contrário, que as forças de segurança, sejam elas a PSP, a GNR ou os Guardiões dos Sanitários Públicos de Lisboa, precisam de mais atenção e que muitas das suas reivindicações são totalmente justas e urgentes.

Todavia, também são justas algumas das exigências dos professores, dos auxiliares de ação educativa, dos enfermeiros, dos médicos, do pessoal dos tribunais, dos condutores de pesados, começando pelos condutores de matérias perigosas, dos trabalhadores a recibo verde, dos pensionistas e reformados, dos lesados do BES e de todos os outros bancos, dos guardas prisionais, dos funcionários autárquicos, dos pescadores, dos mariscadores, dos jornalistas, dos vendedores de castanhas, das minorias, etc..

Ora, o problema, continua a ser o mesmo, ou seja, Portugal não tem dinheiro que chegue para tudo, nem mesmo para 10 porcento do que é justamente reclamado pelos diferentes ramos de atividades e pelas situações que constituem o país que somos e do qual, mesmo assim, nos continuamos a orgulhar muito. Eu, pelo menos, continuo.

Também sei que nós, os Lusitanos, que sempre acolhemos e nos misturamos com todos os povos que passaram pelo espaço geográfico que hoje ocupamos, somos um povo de brandos costumes e com uma enorme dificuldade de aprender com os erros da nossa história. Não penses que se trata de burrice, é mais uma questão de barriga. Sim, de barriga, algo genético que nos faz passar a vida a usá-la para empurrar para a frente todo e qualquer problema.

É por essa razão que não existe realmente um verdadeiro programa de reformas estruturais, seja qual for o governo que, num dado momento, esteja no poder. Pelo contrário, temos a mania e o vício (porque só pode ser vício) da política do desenrasca. Constituímos o povo mais desenrascado da Terra, quiçá do Universo. Porém, falta-nos visão estratégica e capacidade de perspetivar o futuro. Em termos de planearmos com a devida antecedência os próximos 10, 20 ou 50 anos, fazemo-lo na escala dos meses, mas sem atingir essa miragem absurda do número 50. Planeamos mais à dúzia, não sei se por pensarmos que é mais barato, se por não nos apetecer pensar demais.

Desculpa, minha querida, deixei-me levar pelos meus pensamentos e afinidades… já me estava a esquecer do que me levou a escrever esta carta: A manifestação frente à Assembleia da República das Forças de Segurança, com vista a alertar o Governo e toda a população para o seu justo caderno reivindicativo (quando digo justo apenas me refiro ao que se passa no umbigo das forças da ordem e no seio claro da sua perspetiva sobre o assunto).

Ora bem, quem viu as imagens televisivas (e estas são as que realmente importam, no que ao passar da mensagem diz respeito) já nem se lembra do que ali estavam a fazer as ditas forças de segurança. A ideia reivindicativa perdeu-se por completo. O que as pessoas não esqueceram foi a imagem dos manifestantes a ovacionar o deputado do Chega, André Ventura. O que todos se recordam é do discurso empolgado do mesmo, no palanque e ao microfone, levando ao êxtase apoteótico, e quase histérico, as forças de segurança. Só faltou mesmo ver os polícias (aqueles que faziam guarda às escadarias da Assembleia), a dançarem o vira ou o importado samba, ao som melodioso, carismático e oportunista da voz de André Ventura.

Claro que os organizadores da manifestação vieram logo dizer que Ventura foi o único deputado que "botou faladura", por ter sido o único que pediu para o fazer. Não explicaram foi o porquê de quase ter sido conduzido à tribuna ao colo de todos os presentes. Nem mesmo reconheceram o erro.

Quando falo de erro, sei bem ao que me refiro. A manifestação do André apagou por completo toda e qualquer reivindicação. O ajuntamento virou palanque do discurso distorcido do Chega e deu voz a um alegadamente perigoso megalómano.

Quando nessa noite fui jantar, a um restaurante do meu bairro lisboeta, logo na entrada, deparei-me com o diálogo entre 2 empregados de mesa. Eles não discutiam os problemas das forças da ordem, aquilo de que falavam era que Ventura, pode parecer radical, o que punham em dúvida, mas que até tinha muita razão em muitas das coisas que dissera. Berta, eu conheço os 2 jovens e sei que, nas últimas legislativas, ambos votaram PS. É alarmante a facilidade com que um comentador desportivo da CMTV, consegue, usando um discurso fácil e populista angariar simpatizantes em áreas que eu julgaria totalmente impensáveis.

Esta manhã, ouvi exatamente o mesmo discurso, entre dois velhotes, daqueles que dizem que isto precisava era de um novo Salazar, sem terem a noção da barbaridade que pronunciam, a louvar a manifestação de Ventura. Já nem falavam das forças de segurança.

Ora, ainda agora o homem se tornou deputado. Ou reagimos rapidamente ou as próximas eleições podem trazer graves e desagradáveis surpresas. Os alarmes já começaram a tocar. A minha dúvida é se haverá quem os escute.

Deixo-te um beijo de despedida, deste que não te esquece, saudosamente,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Leiria - O Muro da Vergonha

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Olá Berta,

Espero que tudo esteja bem contigo. Hoje tenho uma coisa insólita para te contar. Não te preocupes que não me vou alongar como da última vez. Não sei se conheces Leiria ou não. Eu, por acaso, só lá estive uma vez. Contudo, a história de hoje vem dessas bandas.

Não faço ideia quem é o presidente da autarquia, pode até ser uma pessoa muito bem-intencionada, todavia, aquilo que fez não pode acontecer numa região que, pelo que me é dado saber, pertence a Portugal.

Estou a falar das obras realizadas pela Câmara Municipal de Leiria ou por sua ordem, não imagino se direta ou indiretamente, num dos maiores bairros sociais desse burgo, pertencente à edilidade, sob sua orientação e responsabilidade. É esse facto que me faz dizer que algo vai mal no conceito que têm de país laico, solidário e em harmonia com as minorias populacionais, refiram-se elas a raça, etnia ou religião, já para não enumerar, exaustivamente, todos os outros casos de tratamentos diferenciados, onde a diferença vira ofensa e insulto grave, para dizer o mínimo.

No caso, aqui, a Câmara juntou uma boa parte da população de etnia cigana num único bairro. Poucos haverá que o não são, se é que existe algum caso. Este tipo de segregação, absurdo e abjeto, começa logo por trazer aquele fedor a Chega, e, segundo sei, esse partido não tem nenhum representante que tenha acento entre os vereadores de Leiria.

Pode até a autarquia vir a alegar que esse foi o desejo daquelas pessoas. Pretendiam ficar juntas e unidas. Contudo, não interessa o que elas poderiam ou não preferir, não se segregam ciganos, imigrantes, estrangeiros de qualquer tipo, negros, amarelos, roxos ou às bolinhas, seja essa a sua preferência ou não.

Depois, não se coloca o bairro, coincidentemente, afastado de todos os outros numa área isolada. E por fim, por mais que o edil aprecie Donald Trump, não se constrói um muro de betão armado, à volta de mais de metade do bairro, com 50 centímetros de largura, 2 metros de altura e apenas a 3 metros e pouco afastado das portas das casas. O espaço é tão apertado que, quem tente fazer a curva, na rua junto ao muro, arrisca-se a deixar por lá uma boa parte da pintura. Ainda mais se se tratar de uma carrinha, um género de um veículo bastante usado por estas populações.

Não penses que, quem sai de casa, tem qualquer tipo de paisagem que possa apreciar. Talvez os projetistas tenham elaborado o bairro durante as férias do arquiteto paisagista. A verdade é que não tem, não existe vista alguma, apenas resta aos moradores fixar os olhos no cinzento do muro. Aliás, como se trata de um bairro térreo, à janela, a imagem é a mesma, betão e só betão, tão frio, tão triste e tão amorfo como a soberba de quem o mandou erigir. Enfim, tudo cinzento, faça chuva ou faça Sol.

Na reportagem que vi da TVI, os responsáveis pela obra ainda têm, depois de tudo isto, a distinta lata de ironizar com a situação, dizendo que o muro até protege os residentes de possíveis fogos, que possam acontecer no futuro, nas matas vizinhas, como se o muro fosse um prémio extra oferecido a quem por ali reside.

Uma verdadeira vergonha, ainda por cima porque a obra usou, a acreditar no que os moradores afirmam, com indignação, fundos comunitários para os segregar e aprisionar. Parece anedota, seguida de outra que se prende com o nome dado ao bairro pelos inteligentes autarcas, a saber, Bairro da Integração.

Não sei o que fará a Comissão Europeia quando se enviarem estes dados para Bruxelas. Alguém que saiba como os fazer lá chegar, deveria remetê-los, com urgência. Não me parece bem usarmos esses Fundos para a prática da segregação de etnias. É revoltante, abjeto e mete nojo. Não haverá ninguém, Governo ou outra qualquer entidade, para obrigar esta Câmara a concertar o erro que cometeu, mas quanto antes?

Afinal, cada dia que passa nesta comunidade, nas circunstâncias referidas, não ofende os residentes apenas, ofende a mim e a muitos mais como eu, ofende Portugal.

Despeço-me saudoso com um beijo, este teu amigo,

Gil Saraiva

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