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Carta à Berta / Desabafos de um Vagabundo / Miga, a Formiga / Estro

A partir de Julho de 2022 os blogs do Senhor da Bruma, assinados por Gil Saraiva, são reunidos em "alegadamente". Os blogs: Estro (poesia), gilcartoon (cartoons) e Desabafos de um Vagabundo (plectro) passam a integrar este blog. Obrigado.

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O Tabaco e o Álcool

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Olá Berta,

Esta carta é mais um dos meus desabafos contigo. Estava a ler as outras que te enviei (sim, eu guardo uma cópia) e reparei em algo que escrevi, mas ao qual, nessa altura não dei relevância. Foi aproposito de o álcool matar mais gente em Portugal do que o tabaco, lembras-te?

Quando fiz a afirmação, nessa carta, foi porque me recordei de uma notícia de 2018 que tinha lido num qualquer jornal nacional. Para o caso não importa qual. O que é interessante é que depois de pensar no assunto achei que me devia ter enganado redondamente.

“Porquê?” Perguntas tu. Bem, porque se assim fosse certamente o Governo, que é tão moralista no que ao fumo diz respeito, tão preocupado com a saúde pública, tão pronto a encher de impostos, de imagens horríveis, de proibições de locais onde se pode e não pode fumar, de imposições de frases nos próprios produtos de consumo… certamente o Governo, dizia eu, já estaria a fazer o mesmo com o álcool, fosse este cerveja, vinho, bebidas espirituosas ou brancas, fosse lá o que fosse.

Ora, não é caso. Pois bem, se o Estado não ataca quem bebe da mesma maneira que o faz com quem fuma então, a notícia do jornal estava errada ou tinha uma gafe monumental e eu enganei-te sem o querer fazer. Não gosto de te dar falsas informações quando tu és a minha única confidente. Uma coisa é falar alegadamente de um certo assunto, outra é mentir mesmo com desconhecimento do ato. Devia ter ido verificar se o que estava a afirmar era confirmado por outras fontes. Mas não o fiz. Pronto a emendar o meu erro nesta carta, lá fui eu verificar o tema através da web, percorrendo todos os sites oficiais que consegui encontrar, bem como as notícias que durante os últimos 2 anos saíram sobre o assunto.

Para meu enorme espanto, não só a notícia é verdadeira como o álcool cada vez mata mais gente do que o tabaco. Pelo que averiguei foi em 2015 que o álcool apanhou o tabaco no número de vidas que ceifa alegadamente por ano. Contudo, qual campeão, cada vez se distancia mais do outro vício. No ano passado já matava mais 4 pessoas por dia do que tabaco e, este ano, parece disposto a ultrapassar as 5 pessoas. Isto quer dizer que, se o tabaco mata quase 33 pessoas por dia em Portugal (32,9 para ser exato), o álcool deverá atingir no final deste ano as 38 vítimas diárias, chegando quase aos 14.000 óbitos anuais por terras lusas.

Face a estes espantosos e chocantes números, que, se somados e extrapolados para 10 anos, nos reduzem a população do país em 2,6 por cento a cada década que passa (260.000 pessoas), que a manterem-se assim, abateram 26 porcento dos portugueses em apenas um século (2,5 milhões de indivíduos), considero imperativa a tomada de medidas por parte do Estado.

Já estou a imaginar as garrafas de Vinho do Porto cheias de rótulos a dizer “Beber Mata!”, imagens de acidentes de automóveis cheias de peças retorcidas e pedaços de corpos, misturados com estas numa só imagem, namoradas e esposas pontapeadas pelos maridos ébrios em retratos de horror, tudo, a bem da saúde pública, escarrapachados nos rótulos das bebidas com álcool. Seja uma mini da Sagres, que logicamente deixará de poder fazer publicidade e terá de retirar o patrocínio à seleção nacional de futebol, seja no vinho, tinto, branco, às bolinhas ou lá o que for.

Uma vez iniciada a campanha vou poder ver o vinho a subir 10 cêntimos a cada 3 meses, as bebidas brancas e espirituosas na ordem dos 50 cêntimos, a cerveja, quiçá, uns 2 cêntimos por trimestre. Os rótulos das garrafas, mostrarão fígados quase liquefeitos sob o efeito do álcool, corpos com mais manchas que as vacas malhadas da Suécia, bêbados a dormir à sombra dos Jerónimos ou debaixo da Ponte 25 de Abril. Ficarão famosas as frases inscritas em milhares, talvez milhões de garrafas: “O álcool causa impotência depois de lhe ter aberto o apetite”, “85% das violações ocorrem sobre o efeito do álcool”, “o álcool potencia a violência doméstica e os maus tratos incutidos aos animais”, “o álcool pode gerar violência gratuitamente de forma inesperada”, “é proibido beber em restaurantes, bares e recintos fechados”, “não é permitido o consumo de álcool em manifestações da Função Pública ou outras manifestações sindicais ou políticas, em concertos e festivais de música, parques de campismo e florestas”… enfim, as hipóteses são imensas, não será de espantar que apareça numa publicidade turística qualquer um anúncio do género: “beber causa perda de memória, cuidado, pode acabar por ser sodomizado e não saber”. Sim, porque vai certamente haver alguém, uma entidade qualquer, preocupada com o facto de podermos levar no cu e não nos lembrarmos disso, por termos bebido em excesso.

Sabes que mais minha querida Berta, acho que a hipocrisia devia ter um fim. O tabaco é taxado e perseguido apenas por ser uma boa maneira dos Estados ganharem com isso e fazer o cínico papel de estarem preocupados com o povo. No fundo, apenas os cifrões lhes interessam. Se eu fosse milionário punha o Estado em tribunal pela aplicação de medidas que não visam a saúde pública, mas que apenas fazem do tabaco um bode expiatório para que outras coisas sigam o seu caminho sem que ninguém repare.

Tem um resto de bom dia, deixo um beijo deste teu saudoso amigo,

Gil Saraiva

Uma Blasfémia Chamada SUPER BOCK

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Olá Berta,

É com alguma tristeza que me encontro a escrever hoje. Perguntar-me-ás se o meu desalento tem algo a ver com o regresso do outono e eu terei de o negar categoricamente. Desta vez, o meu estado sombrio tem a ver com a honra, a palavra e a dignidade das pessoas e dos atos.

Estou a falar da reabertura do Pavilhão Rosa Mota. Um local cuja toponímia enaltecia e dava brio, valor, destaque e grandeza ao nome de quem, por Portugal, fez subir a Bandeira Nacional e tocar-se a Portuguesa por variadíssimas vezes com as suas conquistas desportivas, no palco internacional, levando o nome deste pequeno país a todo o mundo, pelo orgulho e a raça do povo que sentia representar, de um povo que cantou em uníssono os Heróis do Mar à luz do Ouro Olímpico de Rosa Mota.

Sabes Berta, ainda me lembro de mim, em pé, em frente à televisão, mais hirto que pau de virar tripas, a vibrar interior e exteriormente e de lágrimas no olhos a ver a Rosa, que coitada até sai ao pai, a receber o Ouro em 87 em Roma nos Campeonatos do Mundo de Atletismo, pelo primeiríssimo lugar na prova da Maratona. Julgava eu então, que, pelas pernas daquela minorca portuguesa, se atingira a plena conquista, elevando o nome do Povo Luso aos píncaros do desporto mundial. Porém, vi-me no ano seguinte em Seul, ajoelhado na alcatifa, porque me faltaram forças nos joelhos e nas pernas, tal a comoção, a ver aquela pequena figura a receber o ouro pela Maratona, a prova rainha dos Jogos Olímpicos, símbolo supremo do desporto terráqueo, ao som do hino nacional, enquanto a bandeira portuguesa se ia erguendo até ao topo máximo da glória. Ah, Berta, sobram-me dedos de uma mão para contar o número de vezes em que me senti assim. Isto é algo que jamais se apaga das memórias de quem vivenciou momentos tais.

Contudo, regressemos ao meu estado sombrio, estava a falar desse pavilhão agora denominado Super Bock Arena, um espaço que vangloriza, em letras garrafais, maiores do que barris, o consumo do álcool, como se o mesmo fosse uma glória que tarda em se afirmar. Por baixo, em letras que lembram contratos de seguradora ou de banco, pode ler-se, envergonhadamente, Pavilhão Rosa Mota. Esta heresia cometida pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, seus acólitos e pelos concessionários do espaço para os próximos 20 anos não lesa apenas Rosa Mota, mas sim, fere de morte a memória coletiva de todos nós, os portugueses.

O Palácio de Cristal, uma obra de inspiração inglesa, foi demolido em 1951, no seio de um processo muito problemático, mesmo para a época em que aconteceu. No seu lugar apareceu um projeto futurista que foi denominado Pavilhão dos Desportos, isto entre 1952 e 1988, pois que, a partir daí, com o fito de eternizar o nome da campeã olímpica da maratona nos Jogos Olímpicos de Seul em 1988, mudou a sua toponímia para Pavilhão Rosa Mota, tendo sido posteriormente deixado ao abandono, por sucessivas governações da autarquia do Porto, nos últimos 20 e tal anos.

Ora o contrato de recuperação Pavilhão Rosa Mota realizado entre a Câmara e o futuro concessionário, a Super Bock, não tinha, em lugar algum, a alteração do nome do pavilhão, como uma condição determinante para que a recuperação se fizesse ou para que as obras avançassem.

Foi em 2017 que, depois de várias peripécias em reuniões entre Rosa Mota e os patrocinadores e entre estes e a autarquia e entre esta e a atleta, que o alegadamente o ignóbil edil concordou com a alteração da toponímia, quando as obras se encaminhavam para o seu desfecho. Faz lembrar um tal de Judas que traiu Cristo por 30 vinténs.

Precisando de um estratagema o autarca (por quem eu nutria alguma admiração, devo confessar), chamou à edilidade a campeã e com desculpas de extrema necessidade, lá convenceu, muito a contragosto, a atleta a aceitar que, por baixo do nome Pavilhão Rosa Mota, figurasse a inscrição Super Bock Arena. Porém, na inauguração tudo estava invertido. Coisa de somenos achou Rui Moreira, para quem nem devia haver polémica. Um insulto nacional digo eu e diriam mais de 10 milhões de portugueses se fossem chamados a opinar. (continua depois da imagem)

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Agora pergunto eu: Como é que o nome de uma bebida alcoólica, sabendo nós que o álcool mata 13.500 portugueses por ano, mais do que o tabaco que só chega aos 12.000, consegue associar a sua marca ao nome de uma notável atleta e a um pavilhão desportivo (ou multiusos como lhe chamam agora), enquanto que o tabaco é banido de todo o lado, sofre impostos absurdos e é obrigado a ostentar imagens das consequências do seu consumo? Afinal se é pelo critério da prevenção todas as garrafas de vinho, cerveja ou bebidas brancas deveriam ter o mesmo tipo de rótulo que o tabaco, o mesmo tipo de imagem e a sua propaganda proibida. Isso sim, seria coerente.

Era bom que os portugueses desta vez não fossem pacíficos e como forma de protesto ninguém voltasse a entrar nessa coisa insultuosa chamada de Super Bock Arena, até o verdadeiro nome do pavilhão ser reposto com dignidade e sem associações que deveriam ser consideradas criminosas. Quanto tempo ainda terá de passar até que este tipo de atitudes e conivências continue impune em Portugal? Poderia acrescentar mais uma série de detalhes ao que descrevo, todos, uns e outros no domínio estrito do alegadamente, mas acho que o que te conto já é suficiente para que me entendas.

Eu, pela minha parte, não só nunca mais naquele lugar meterei os pés como jamais voltarei a beber Super Bock. É pouco, mas se formos muitos pode vir a fazer a diferença. Porém, como não vivo no Porto, não poderei não votar em Rui Moreira nas próximas autárquicas, mas tenho imensa pena de ali não poder votar.

Desculpa o desabafo Berta. Despeço-me com um beijo saudoso,

 

Gil Saraiva

Os Reis da Rua

Os Reis da Rua

Rua FM.JPG

Olá Berta,

 

Cá estou eu de novo a escrever. Deves estar curiosa com o que tenho para te dizer. O título desta carta, embora sugestivo, não dá muitas pistas. Os Reis da Rua, são, neste caso específico, os 3 supermercados que tenho por vizinhos. Com o decorrer do que tenho para contar vais entender porquê.

Moro, conforme sabes, já lá vão onze anos, na Rua Francisco Metrass, em Campo de Ourique. Embora tenha instalado vidros duplos em casa, para minimizar os sons vindos do exterior e controlar melhor a temperatura ambiente, o último andar de um prédio quase a celebrar o centenário, feito em taipa e sei lá mais o quê, não abafa por completo os aviões, cuja rota de chegadas e partidas do aeroporto de Lisboa, fica mesmo por cima do edifício. Durante o dia, uma pessoa já quase não dá por eles, embora passem mais de 250 por cima da minha futura careca. O restante burburinho da cidade ajuda a dispersar a atenção.

Todavia, durante a noite, entre a meia-noite e as 6 da manhã, há sempre mais de uma dúzia que fura a hora de silêncio, e, pelo enorme tamanho dos passarocos, são todos aviões intercontinentais, a coisa faz-se ouvir e bem. Por isso, convém conhecer esses horários e tentar adormecer entre dois voos. Contudo, nunca me posso deitar entre as duas e meia e as três e meia da manhã. A essa hora passa o camião do lixo, que produz um chiqueiro tal, durante os 20 minutos em que se faz ouvir, que chega a parecer que sou eu quem está a ser despejado num dos caixotes.

Efetivamente, moro numa das ruas mais frenéticas do bairro. Se reparares nas fotografias que te envio vais, certamente, entender porquê. Não é normal num pequeno troço de 25 metros, para cada lado do prédio onde vivo, ter oito estabelecimentos de restauração, 6 esplanadas, 500 vizinhos, 400 estudantes, e mais um infinito número de viaturas a tentar estacionar num local onde só há lugar para 50 carros, que teimam em ficar mais agarrados ao lugar que político ao poleiro.

Podes imaginar facilmente pelo relato que, sempre que alguém arruma um carro em frente a uma garagem ou na zona de cargas e descargas, ou que para em segunda fila, se gera o caos em termos de ruído. São as buzinadelas nervosas dos transportadores ou dos automóveis que querem seguir o seu caminho ou entrar na sua garagem, os gritos de quem já perdeu a paciência e um vizinho ou outro que, em desespero, atira um cinzeiro de mármore da sua janela para o meio da confusão. Não te rias, é um facto, tenho testemunhas, e já aconteceu em diversas e complicadas ocasiões. Até um morador já foi preso, por chamar palhaço a um polícia fardado, por nada fazer perante um camião a descarregar parado no meio da via. Ao que parece a autoridade acha ofensiva a profissão dos que nos tentam fazer rir com o seu comportamento.

Apesar de toda esta narrativa nada se compara à atitude dos Reis da Rua. Os três supermercados, Pingo Doce, Mini Preço e Go Natural do Continente que, com o consentimento disfarçado da Câmara Municipal de Lisboa, da Junta de Freguesia, da Polícia Municipal e da PSP, cuja esquadra se situa a menos de 500 metros deste local, fazem o que querem e bem entendem, às horas que bem lhes apetece.

Não sei se sabes, mas cargas e descargas de camiões de médio e pequeno porte, na cidade, só podem começar a ser efetuadas das 8 horas da manhã em diante. As diretivas são emanadas quer da própria regulamentação camarária para esse tipo de serviços, quer ainda das leis gerais e municipais no que ao ruído diz respeito. Afinal, os moradores urbanos também têm direito ao seu período de repouso, descanso ou sono. Parece-te certamente lógico e natural que assim seja. Pois é… isso acontece em muito lugar, mas não neste troço de rua. Aqui mandam os 3 Reis.

Entre as 5 e 20 e as 5 e 40 da madrugada, mais coisa menos coisa, chega o camião do pão biológico do supermercado Go Natural do Continente. Para no meio da rua, deixa o motor a trabalhar e durante 15 a 25 minutos descarrega carradas de pão biológico para dentro do supermercado. Finalmente parte. Se por acaso alguma viatura quiser passar, o sujeito rabuja para o outro condutor que tente passar por cima. Ora uma discussão a essa hora da manhã ecoa pela rua como se de uma manifestação de zangados arautos se tratasse.

Finalmente o Rei parte, não deixou mirra, mas pão, e eu sei bem onde é que sua majestade o devia meter, mas adiante. Logo de seguida chega o camião do Mini Preço, como um relógio suíço, sempre entre as 5 e meia e um quarto para as 6. O segundo Rei traz consigo as iguarias destinadas às prateleiras do estabelecimento. A era do incenso parece ter ficado esquecida nos tempos. Durante as descargas e as cargas dos produtos para o supermercado e das embalagens vazias de regresso ao camião, fazem-se ouvir os alarmes do supermercado que disparam, não sei muito bem porquê, talvez porque quem saiu no turno que fica a fazer reposições até depois da uma da manhã, não o deixou devidamente ligado.  Adiante… durante 30 a 45 minutos a música que nos chega a casa é a produzida pelos carrinhos metálicos de dois metros a percorrer a calçada dos passeios ou o velho asfalto da rua, acompanhada no baixo pela báscula do camião e na bateria pelas chapas a bater no asfalto. Se juntares isso aos efeitos sonoros do motor do veículo a trabalhar, tens uma boa ideia do som da orquestra.

Às 6 da manhã toca o alarme do Pingo Doce por mais de 5 minutos (às vezes mais do que uma vez) porque chegam os primeiros funcionários. Podes perguntar porque raio isso acontece todos os dias. Não sei minha querida, mas acho que algum supervisor deve morar perto e quer saber se o pessoal chega a horas sem ter de sair da cama. Parte o camião do Mini Preço e chega com o terceiro Rei, o transporte, o primeiro, do Pingo Doce, não traz ouro, que o vil metal está pela hora da morte, mas os produtos frescos para o consumo do dia por parte dos clientes e toda a história se repete. A narrativa é muito semelhante até às 8 da manhã. Depois continua pelo dia fora, mas já dentro do permitido pela lei. Contudo, se ligas para a PSP ou para a Polícia Municipal, ou levas com um intelectual que te diz que as cargas e descargas podem começar às 6 da manhã (o que é verdade para as grandes superfícies fora dos centros urbanos, mas não para a cidade), ou dizem que vão mandar um carro que só chega (e acontece sempre) depois do camião acabar o serviço. O conluio é tal que a placa das cargas e descargas não diz 8 da manhã, como devia dizer, mas 7 horas.

É evidente, como sempre, que todas estas minhas confissões continuam no campo do alegadamente. Longe de mim jurar a pés juntos que a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia, a PSP e a Polícia Municipal, recebem qualquer suborno dos supermercados para se fazerem de cegos, surdos e mudos. Nada disso, são tudo meras coincidências, podes acreditar que sou eu quem o afirma. Até o facto de esta malta nunca ter sido multada e de não haver fiscalizações sabendo que isto se repete diariamente é mero produto do congestionamento de serviços destas entidades, até a ASAE tem o mesmo comportamento.

Para terminar ainda te conto que uma destas madrugadas, enchi-me de paciência e falei diretamente com a gerente do Mini Preço que estava na rua, mesmo ao lado do camião. Ela olhou para mim, depois para o condutor do transporte e fez-lhe um sinal apontando diversas vezes com o dedo para a sua cabeça, como que a dizer que eu não batia bem da bola. Não bato mesmo. Sabes Berta, um dia destes, quem ainda atira um cinzeiro sou eu, espero é estar com a pontaria afinada.

 

Beijo minha querida, este teu amigo sempre saudoso,

 

Gil Saraiva

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Berta: Envio-te a definição dos parâmetros da nossa correspondência.

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Olá minha querida Berta,

Espero que esta carta te vá encontrar bem de saúde.

Por aqui as coisas vão passando como o tempo, ou seja, um segundo, minuto, hora, dia ou mês de cada vez. No geral podia estar bem melhor, mas, é um facto, também poderia estar pior. Por isso, antes assim que de outra forma. Não me leves a mal, porém, nas próximas cartas, vou deixar de lado estes formalismos e cumprimentos da praxe. Assim, quando a minha ou a tua situação se alterar logo o referiremos.

Conforme combinámos, tudo o que eu te escrevo fica confinado ao universo do que é escrito alegadamente. Por outras palavras, isto sou eu a deambular pelos caminhos da realidade montado no alazão da minha imaginação e raciocínio. Longe de mim querer que estes desabafos contigo me pudessem levar, por falta de alegadamentes, à barra de um tribunal ou seja lá o que for que tenha um caráter menos positivo.

Estes pressupostos atrás referidos são válidos para todos os nossos posteriores contactos ou posts, como se chamam por estes lados e, como aqui ficam definitivamente firmados, escuso-me de os repetir em futuros contactos. Não faria sentido estar sempre a dizer a mesma coisa. No fundo, minha querida amiga, tu vais servir de recétaculo ao que me vai na alma, na consciência e no coração. Espero sinceramente que não te aborreças com a leitura e com as divagações que alegadamente vou tendo sobre os mais variados temas.

Um nosso amigo comum perguntava-me, quando soube que eu ia dar início a estas cartas, para que serviam elas se tudo, o que aqui escrever neste blog, fica preso no rótulo inequívoco do que se diz alegadamente. Respondi-lhe conforme sabia. As minhas cartas para ti servem para que eu limpe a minha essência, repondo a higiene na minha consciência e ego. Pode não ser muito, contudo, como qualquer pessoa as pode ler, pode ser que ajudem outros a desabafar o que lhes vai no ser, nem que seja nos comentários que à nossa correspondência forem postando.

Deixo-te ainda um alerta. Os temas que for escolhendo para estas cartas podem não ser os mais fundamentais  ou relevantes da atualidade local, regional, nacional ou internacional. Serão apenas o que me apetecer. Espero, sinceramente, que tenhas a paciência de me ler mesmo que a insignificância da abordagem se resuma a um desabafo sobre a chuva ou a respeito do chulé, vindo das sapatas do homem que, sendo empregado de uma certa pastelaria, não o consegue disfarçar, nem com o cheiro que paira no ar dos bolos acabados de fazer.

Afinal, a importância do quotidiano depende da atenção que dermos a cada detalhe do mesmo. Todavia, como já me conheces, espero que me desculpes e compreendas, principalmente nos casos em que os meus desabafos te parecerem menos interessantes. Fica descansada que as tuas respostas para mim ficaram guardadas fora da exposição mediática deste blog. Sei perfeitamente que dás grande importância à tua privacidade.

Sem outro assunto de momento, despeço-me com saudades e carinho, este teu amigo de sempre,

 

Gil Saraiva

 

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