Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Carta à Berta

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta é o local dos Desabafos de um Vagabundo, do Senhor da Bruma, essa bruma a que chamam de internet, de um Haragano, o Etéreo, qual cavalo selvagem que galopa entre cartas alegadamente, quiçá, sem fundamentos.

Carta à Berta: Um Contributo para a DGS...

Berta 157.jpg

Olá Berta,

A propósito de uma das últimas cartas em que te falei da discrepância entre os dados da DGS e aqueles que chegam aos hospitais, centros de saúde e ao delegado de saúde de uma dada região (no caso dei o exemplo de que em Viana do Castelo em que: dos 75 casos existentes e confirmados na altura, a DGS apenas tinha como certos 41, ou seja, 54,6% dos reais), já posso hoje afirmar, com mais segurança, que este distrito não é caso único.

A culpa, contudo, é totalmente alheia à Direção Geral de Saúde. Porquê? Porque se não lhe chegam, pelos canais devidos, os elementos necessários e todos os registos efetuados num distrito e, sem isso, a DGS não tem, efetivamente, como os validar. Fazendo uma extrapolação que não deve fugir muito à realidade, só casos verdadeiramente confirmados no país devem existir, sensivelmente, mais 2.500 casos não registados no sistema, mas que já foram devidamente confirmados local ou regionalmente.

Isto quer dizer que o total de infeções reais no país deve andar na casa dos 8.900 casos em vez dos 6.408 anunciados pela DGS. Atenção, não digo isto por alarmismo, nem mesmo por mera especulação. Apenas porque está a acontecer e devemos todos estar cientes disto. O que se passa tem a ver com velhos costumes espalhados pelo país.

Com efeito, é uma realidade que, fora das grandes cidades, o hábito de lidar com os sistemas informáticos. e de ver a sua utilização regular como uma ferramenta de saúde. está muito longe de ser uma realidade. Eu venho de uma família de pai, tios, primos, irmãos, sobrinhos e demais familiares, médicos. Enquanto que para os mais novos lidar com a informática é uma excelente ferramenta a todos os níveis, para os outros é quase como andar a brincar aos médicos, em vez de tratar, com a devida maturidade com os problemas da saúde pública.

São 2 visões diametralmente opostas, embora existam exceções de ambos os lados, mas muito vincadas no universo médico português. Um delegado de saúde regional, da velha escola, considera muito mais importante o seu papel na coordenação dos problemas, doentes e sistemas de apoio da sua região do que, por outro lado, andar a brincar aos números em frente de um computador. Alguns há que, inclusivamente, têm dificuldades reais na utilização dos sistemas de registo. Contudo, estou mesmo convencido que não efetuam, atempadamente, os registos, não por quererem deliberadamente ser negligentes, mas apenas porque, o registo em si, é a última das suas prioridades.

Esta situação é transversal a todo o sistema de saúde fora dos grandes centros. Para esta classe da velha escola a prioridade são os infetados e a população em geral, quanto aos dados, bem, esses têm tempo de serem lançados.

Em resumo, o problema dificilmente terá solução. A não ser que a própria DGS se aperceba dele e crie, por distrito, uma equipa técnica permanente responsável pela recolha da informação junto de todos aqueles que são detentores de dados para registo, tirando dos ombros destes a tarefa da sua comunicação aos serviços. Equipa que nem precisa ser de médicos, podem ser até informáticos, que agora se encontram em casa, por força da quarentena.

Desta forma era possível ter resultados fidedignos em cada dia. No caso do continente uma equipa de 90 funcionários, espalhados à razão de 5 por cada distrito, era suficiente para operacionalizar este sistema. Quanto às ilhas, bastava ter 3 elementos por cada uma ou 5 nas de maior área e população, para ter a estatística absolutamente controlada.

Querer poupar algo que seria um recurso pouco significativo, no âmbito global, parece-me um erro grave e não proporciona uma atempada atualização, devidamente, adequada à verdade dos números, dos casos e dos factos. Provavelmente nem se trata de querer sequer poupar seja o que for, pois pode ser, apenas, falta de lembrança ou de ideias sobre o assunto. Possivelmente ninguém com responsabilidade lerá esta minha carta, mas, se alguém o fizer, espero ter contribuído positivamente, para uma solução lógica e económica do problema.

Por hoje é tudo minha querida. Amanhã, cá estarei, como sempre, para continuarmos as nossas conversas, deixo um longo e virtual beijo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Uma nova função para Marta Temido

Berta 156.jpg

Olá Berta,

Não sei bem porquê, mas hoje não me apetece falar em nada. “Os Segredos de Baco”, continuam em fila de espera para regressarem a estas cartas. O Covid-19, bem… esse é tema quase diário. Se não falar noutra coisa torno-me um chato, como aqueles que, até a mim, me desagradam de forma assinalável.

Contudo, sem falar propriamente do vírus posso falar de algumas coisas que não me têm agradado, mesmo sendo eu um defensor do bom trabalho do governo português. Uma das coisas que me chateia é a maneira como a Ministra da Saúde lança os dados para cima da mesa. Neste caso não se tratam bem de dados de jogar, mas de informação variada. Para esta senhora, dizer que o pico vai ser a 14 de abril e 5 dias depois vir afirmar, com a mesma cara de pau, que afinal será no fim de maio, é igual ao litro. Ela trata os dados como eu trato o papel higiénico em minha casa.

Sou levado a concluir que, para ela, ambos servem para a mesma função algures entre pernas. Quando pomposamente anunciou o pico das infeções para 14 de abril, e depois insistiu na mesma data, como se esta não estivesse ao serviço das flutuações causadas pela propagação do vírus e das medidas de combate ao mesmo, pareceu, inclusivamente, irritada por terem existido jornalistas na sala a questionarem a data, como se estes a estivessem a desafiar. Um absurdo.

Agora, vem anunciar um planalto a que chegaremos no fim de maio. Eu, que tinha colocado, pela observação jornalística que dei a toda a informação, o pico entre fins de abril e meados do mês de maio, posição que aliás mantenho, vi-me ultrapassado pela direita por esta especialista sem freio nem tento tanto nos dentes como na língua.

A mim, que concluo algo enquanto observador, na ótica jornalística, não me fica mal se, chegada a devida altura, se provar que me enganei. Porém, à ministra fica pessimamente. Principalmente pela forma convicta como transmite estes dados. É que, numa altura destas, vir de 5 em 5 dias corrigir o que se disse, saltando neste caso 2 meses para a frente como quem salta 2 dias e achar que se está a prestar um bom serviço, é grave e até dá para envergonhar o paciente António Costa.

Porque é que a senhora ministra não segue o exemplo da Diretora Geral de Saúde, Graça Freitas, que fez o mesmo tipo de afirmações, mas com o cuidado extremo de explicar que a situação se pode alterar completamente, por se tratar de algo dinâmico e que tem de ir sendo ajustado a cada dia? Era outro descanso, outra lisura. Não consigo lidar bem com comportamentos cretinos e que transpiram por tudo quanto é poro a cabeça no ar, arrogância e ignorância.

Aliás, algo não vai bem no lado estatístico e de tratamento dos números da DGS. Dou um exemplo concreto. Tenho de fonte segura, e 2 vezes conferida, que o Distrito de Viana do Castelo, pela representação da sua ARS, estava com 75 casos confirmados à data de ontem. A mesma data em que a DGS apenas lhe atribui 41. Mais, nas investigações que diligenciei consegui ter a certeza que todos os casos foram reportados à tutela. Porque raio não estão então contabilizados? E se isto acontece num distrito pequeno… como estão a ser tratados os dados de todos os outros distritos? Existe um problema grave no reino dos números da DGS e não me parece sequer que seja a tenra idade da técnica superior responsável.

Aqui há 2 dias Graça Freitas tinha vindo explicar que as discrepâncias eram devidas ao facto de serem as ARS a reportar os números e, às vezes, os hospitais já terem mais casos e que, passariam a ser os hospitais a fazer o reporte. Porém, a coisa, ao invés de melhorar, piorou. Agora até os números das ARS são encurtados. Não faz qualquer sentido e tem de haver uma explicação, a qual não pode ser dada levianamente.

Qual é afinal o verdadeiro número de infetados neste país?

Levaram um mês para nos informarem que até ontem tinham sido realizados 40 mil testes, eu, com as minhas fontes, contabilizei 42 mil, mas é parecido. Urge agora um acerto no que à quantidade de infetados diz respeito.

Desculpa se me alonguei, minha querida amiga, mas tenho sido um fervoroso defensor da DGS e preferia que, num momento destes, as discrepâncias fossem totalmente corrigidas e, já agora, que Marta Temido passasse a falar apenas por linguagem gestual. Eram 2 favores que faziam ao país. Despeço-me com um beijo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A Minha Rua no Bairro de Campo de Ourique: Pingo Doce

Berta 155.JPG

Olá Berta,

Estou a pensar em ti, “yéh, yéh, nanana, na yéh”! Desculpa lá a brincadeira, mas a música da “olá nina” dos “Da Weasel” veio-me à cabeça. Continuando a saga de ontem, sobre a minha rua no Bairro de Campo de Ourique, chega hoje a vez de falar do Pingo Doce, pertencente ao Grupo Jerónimo Martins, depois da carta passada ter sido dedicada ao Go Natural da Sonae.

Ouvi na televisão o nosso primeiro-ministro chamar de inadmissível e repugnante a atitude dos líderes holandeses, na reunião dos dirigentes governamentais europeus, pela forma como estas cabeças que, para além de serem contra a mutualização da dívida dos países na Europa, e opondo-se à criação dos chamados “eurobonds” (uma forma de dividir igual e solidariamente por todos a despesa conjunta no confronto com o coronavírus), ainda tinham referido que o importante era inspecionar o modo como Espanha estava a gerir o dinheiro. Ouvi e gostei. A expressão repugnante de António Costa se pecou por alguma coisa foi apenas por contenção.

De realçar que se tratou de uma observação deveras grotesca perante a realidade atual. Depois disso, começo a pensar que está na altura da Galp, a Jerónimo Martins e todas as empresas do PSI-20 da Bolsa Nacional abandonarem os holandeses à sua sorte e regressarem a Portugal, mesmo que, para isso, tenham de pagar alguns impostos a mais.

Questiono-me se a honra e a decência são coisas a que se possa atribuir um preço de mercado, ou seja, estará, hoje em dia, a honra à venda? Estou a imaginar o mercado de ar livre chinês, de venda de alimentos e animais vivos e mortos, em Wuhan, onde (ao lado das bancadas de ratazanas peladas, de cobras, de cães e de gatos, cujo abate se faz ao vivo, de bidões a transbordar de morcegos mortos) poderiam existir bancas imaculadas com os representantes máximos de algumas empresas nacionais (como são os casos da Galp, da EDP, da EDP Renováveis, da REN, do Pingo Doce da Jerónimo Martins, do Grupo Sonae, dos CTT e da Navigator, entre outras mais) a vender honra, às postas, bem ao lado do pernil de cachorro ou do gatinho descabeçado pronto a ir para o forno.

É que, depois desta tomada de decisão, dos representantes holandeses e da sua total falta de respeito e solidariedade para com todos os europeus, eu não consigo entender como é que as principais empresas do nosso mercado bolsista conseguem manter a face, continuando sediados num país que mantém a descriminação dos povos do Sul da Europa. Não só demonstra falta de honra, como de total ausência de vergonha na cara. Se Costa, embora contido, esteve bem, os donos disto tudo mereciam uma lição idêntica de ética e moral por parte dos portugueses.

E se todos nós deixássemos de frequentar o Continente e o Pingo Doce e passássemos para o Minipreço ou para os pequenos mercados e simultaneamente trocássemos a Galp e a EDP pela Endesa ou a Iberdrola? Eu já o fiz, evito ao máximo que posso utilizar empresas com sede ou com os negócios a rodar pela Holanda, país que não é à toa que é chamado de Países Baixos, eles estão mesmo, abaixo de cão, e nem mesmo esta expressão é a mais feliz. Contudo, eu sou só um.

Se eu fosse político e tivesse a habilidade de Costa, a ponderação de Rui Rio, a garra de Catarina Martins, a teimosia de Jerónimo de Sousa, o impulso voluntário do Chicão e o descaramento arrogante de Ventura, talvez conseguisse criar um movimento que levasse os portugueses a agir nesse sentido, infelizmente, porém, sou apenas um jornalista e um escritor editado maioritariamente nas gavetas do meu escritório, enfim, um poeta, que, ainda por cima, está fora de moda nesta que é a era da imagem. É uma pena.

Pronto, acabo de reparar, que deixei a minha análise ao Pingo Doce para trás. Desculpa lá, Bertinha. A minha energia para refutar estas coisas absurdas fez-me desviar da finalidade desta carta. Mas regresso agora ao tema. Mais vale tarde do que nunca. A foto de hoje é uma montagem da Rua Francisco Metrass, onde podes ver bem a quantidade de gente que agora inunda a minha rua e só vês o Pingo Doce.

Mesmo fechando às 5 da tarde, este supermercado, continua a ser a principal referência de compras alimentares desta zona ou não fosse o eleito pela classe média para as aquisições gerais. Por isso mesmo é normal, agora que as pessoas não se podem acumular no interior, que a rua tenha decuplicado em indivíduos espalhados pelo passeio.

Fico até hesitante se hei de chamar filas ou bichas ao que vou vendo por aqui. Seriam filas se efetivamente todas as pessoas mantivessem os 2 metros da distância de segurança, conforme o recomendado pela DGS, contudo, partes há em que a proximidade é por demais evidente. Ora, nesse caso, talvez seja mais correto empregar o termo bichas, pois aquela gente parece realmente querer pegar de empurrão. O que te parece, minha amiga?

Sei que não é a melhor das imagens para terminar uma carta, mas fazer o quê? Aconteceu. Despeço-me carinhosamente. Se não aparecer nada mais urgente, nas próximas cartas falarei do Minipreço e da Farmácia Porfírio. Recebe um beijo sorridente do teu amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: A Minha Rua no Bairro de Campo de Ourique: Go Natural

Berta 154.JPG

 

Olá Berta,

Como vão as coisas pelo Algarve? O pessoal está sereno? Vai dando novidades. Aqui, pelo meu Bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, as reações parecem estar calmas. Como sabes, moro numa rua com 3 supermercados e uma farmácia. Precisamente na Rua Francisco Metrass, mesmo em frente a um deles, bem na zona onde tudo conflui diariamente.

Ao contrário das outras ruas do país vejo muito mais gente agora, da varanda de casa, no meu terceiro andar, do que via antigamente. Afinal, para conter a quantidade de clientes dentro dos supermercados, as filas são transpostas para a rua. É giro tentar entender comportamentos com base na minha visão privilegiada.

Vamos a alguns exemplos: O Go Natural, da rede verde da Sonae/Continente, nunca tem filas. É, de forma evidente, um supermercado mais caro do que os outros, de nariz empinado, destinado a gente que não tem de contar quanto dinheiro lhe resta a partir do dia 20 de cada mês. O seu ar vegetariano de Greta Thunberg, dá-lhe a irreverência necessária e suficiente para que dele se afaste o povo e boa parte da classe média.

Pergunto-me, muitas vezes, qual é a ecologia existente nos sacos de batatas ou na couve lombarda, vendida por este estabelecimento. Poder-me-ás dizer que são produtos que crescem em solos sem pesticidas e sem tratamentos químicos. Pode ser que sim, mas para acreditar é preciso ser imbuído por um ato de fé.

Não existe nenhum certificado verdadeiramente oficial, pois não estou a falar da mera publicidade de rótulos, na maioria dos produtos que me demonstre que esta seja realmente a regra, mais ainda, a exceção é ver produtos assinalados com esses tipos de certificados de garantia.

Outra dúvida… os ovos ali à venda serão ecológicos porque foram extraídos da galinha por cesariana? Ou o galo esteve a dar apoio e a assistir ao parto? Ou ainda… poderia o galinheiro estar a tocar Vivaldi durante a hora da postura? É que se saíram à mesma do cu da dita não me conseguem convencer com a ecologia. Eu quero lá saber se o que a galinha meteu pelo bico é ou não biológico, interessa-me mais por onde as coisas saem do que por onde entram.

Podes chamar-me atrasado, retrogrado, carnívoro e anti nutricionista, no que à alimentação importa destacar, e até podes ter razão. Porém, o ignorante aqui, continua a considerar a classe dos nutricionistas muito equivalente à dos videntes. A quantidade de vezes que eu já vi, por exemplo, a coitada da sardinha ser corrida da lista dos peixes eleitos na alimentação recomendada, para depois voltar a ser integrada como alimento importante é, por si só, bastante para que mantenha a pequenez do meu raciocínio quiçá atrofiado, nesta corrente de pensamento.

Por último, e porque não quero que a Sonae pense que fui contratado pela concorrência para fazer estas alegadas afirmações, fica aqui o registo que penso o mesmo sobre os supermercados Brio ou dos da marca Celeiro, ou outros de que me esteja agora a esquecer, mas que pratiquem o género que descrevi.

Mais que tudo, o que me irrita é o rótulo elitista que se desenvolveu, na nossa sociedade, para quem consome produtos biológicos, para quem é vegan ou vegetariano e para quem consulta um naturista, um homeopata ou nutricionista como quem consulta o oráculo. Todos temos o direito de optar por estes caminhos ou não, e, a carteira, não pode nunca ser um fator de exclusão.

Quem entenda e ache por bem aderir, está no seu direito de o fazer. Para além disso, o facto de eu não ser um dos adeptos da nova moda, pelo menos enquanto tiver caninos, não pode fazer de mim alvo do fundamentalismo quase religioso que graça neste universo puritano.

O outro dia, antes desta crise do coronavírus, numa conversa de café, uma jovem de 29 anos, levantou-se gritando impropérios, de dedo em riste, contra mim, como se eu fosse o novo Anticristo, ou algo assim, por me ter ouvido dizer, à mesa do estabelecimento, que achava que tudo não passava de uma questão de moda. A jovem não só me chamou de animal, facto que considerei um elogio, como fez considerações sobre a minha mãe que me ofenderam.

Apenas um aparte, amiga Berta, sem alarmismos idiotas, mas tentando ser realista, lembras-te da minha previsão para o fim do mês de abril, com maior probabilidade para inícios de maio no tocante ao pico da pandemia em Portugal? Pois bem, contrariamente ao que tinha sido anunciado por Marta Temido, agora é a própria DGS a falar no princípio de maio. Acontece que começaram a falar num planalto em vez de um pico, veremos, contudo, eu corrijo já hoje as minhas previsões de um pico no começo de maio para meados do mês de maio e, além disso, não vejo planalto algum, mas isto sou eu a fazer análise com os dados que tenho, afinal, sou apenas um jornalista.

Outra previsão é que, no final da próxima semana teremos cerca de 10 mil 670 infetados, no mínimo, isto já no próximo dia 4 de abril. As ARS do país não estavam a conseguir incluir todos os casos confirmados dos hospitais, isso e o acréscimo dos testes, vai levar ao aumento, em 7 dias, a mais de 150% o número de casos em Portugal. Espero mesmo estar enganado.

Amanhã continuarei a abordagem da minha rua, nesta análise aos estabelecimentos que, por estes tempos, dela fazem, a Rua Augusta do bairro. Quanto à temática de “Os Segredos de Baco”, a ela voltarei oportunamente, para não parecer que ando a fazer lobby ao setor. Recebe um beijo deste teu fiel amigo, que não se chama bacalhau, nem é ecológico,

Gil Saraiva

Carta à Berta: O Último Beijo

Gil 01 março 2020.JPG

Olá Berta,

Hoje faço mais um intervalo e não vou falar sobre “Os Segredos de Baco”. Esses são para ir descrevendo na calma dos dias, quando apetece falar de coisas que antes desta pandemia eram bem mais diversas e ricas de conteúdo, um tempo que voltará, certamente, mas cujo quando ainda desconhecemos por completo.

Não sei em que canal foi, mas acho que foi numa estação italiana, já não posso jurar, que vi uma história sobre um casal, ambos na casa dos 50 anos, encontrados mortos na cama, abraçados e de lábios unidos. Mais do que a notícia em si, da qual já nem me lembro de nada, o que se me agarrou à pele foi aquela cena que vi, por segundos apenas, filmada através de uma câmara de telemóvel.

Quando dei por mim, sem sequer pensar muito no assunto, já tinha um novo poema escrito no processador de texto. Foi um momento mágico, minha amiga, quase inconsciente, mas no qual me revi em absoluto. Olhei então para o poema, com olhos de ver. Tinha acabado de escrever um soneto clássico sem o cuidado de quem o estava a fazer. Fui, de imediato, procurar por erros, faltas de métrica, erros nas silabas tónicas e esse tipo de coisas que os clássicos exigem. Contudo, para minha admiração, não tinha sequer uma virgula para corrigir. Deixo-te daquela que foi a minha transposição para uma realidade que não era a minha:

O Último Beijo.jpg

“ÚLTIMO BEIJO”

                                  

Semanas há que guardo afoito o leito

Onde caíste assustadoramente

Enfraquecida, pálida, doente,

Quase uma réstia, assim, de um ser perfeito,

 

Com quem, há muitos anos eu me deito

Numa fusão de corpos tão ardente,

Que, meu amor, não tem equivalente…

Teu coração, p’ra lá do doce peito,

 

Envia-me sorrisos abafados…

Por entre a tosse, a febre e muita dor,

Nesses teus olhos, eu só vejo amor…

 

Quero poisar nos lábios teus, cansados,

Esses anos de amor e de desejo,

Morrer contigo, nesse último beijo!

 

Gil Saraiva

03/2020

 

Eu sei que tenho um coração pouco em linha com a atitude tradicional de macho latino, mas é assim que eu sou.

Atualmente, seria quase impossível mudar de feitio. Aliás, agrada-me muito o facto de ter o tipo de sensibilidade que tenho, bem como a facilidade como me consigo transpor, com algum realismo, para situações com que me deparo e que não são, efetivamente, as minhas. Por hoje, termino com um beijo, minha querida amiga. Este teu eterno ombro,

Gil Saraiva

 

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XVIII - Os Atributos do Vinho - A Doçura

Berta 152.jpg

Olá Berta,

Hoje é a vez de “Os Segredos de Baco” entrarem naquilo a que eu chamo de: “Os Atributos do Vinho”. São 7 as grandes categorias, a saber: a Doçura, a Acidez, o Amargor, o Álcool, o Corpo, o Tanino e a Maciez. Todas elas têm 5 graus de intensidade básica, exceção feita ao amargor que só tem 3. É interessante constatar que são eles e o modo como os sentimos em cada vinho, que nos influenciam as preferências, as predileções e as decisões na hora de optarmos por um determinado vinho para consumir, isto se, evidentemente, soubermos à partida aquilo que vamos beber ou se o rótulo trouxer indicação suficiente sobre o assunto em causa. Comecemos pelo mapa abaixo:

Os Principais Atributos do Vinho

Berta 152 B.jpgPodia perfeitamente ocupar uma carta exclusivamente para cada um destes atributos, mas, afinal, o que mais importa aqui é ficares, minha amiga, com uma ideia simples sobre cada um deles.

I) Doçura:

A) A sensação da doçura vem, basicamente, do açúcar residual do vinho, isto é, da frutose proveniente da uva, que não desapareceu durante a fermentação alcoólica, a qual transfere parte deste açúcar transformando-o em álcool.

B) O palato também pode ser manipulado pela acidez, tanino e anidrido carbônico, que amenizam a doçura e ainda pelo álcool etílico, glicerol e pectina, que acentuam a sensação táctil de maciez. Convém lembrar-te que a maciez pode ser confundida, muitas vezes, com o estímulo gustativo da doçura.

C) Por um lado, vinhos totalmente sem açúcar residual podem parecer agradáveis devido à baixa acidez e elevado nível alcoólico, por exemplo. Contudo, por outro lado, líquidos com alto teor de açúcar residual podem não chegar a ser enjoativos, caso tenham boa acidez e baixo teor de álcool, como é o caso de muitos vinhos espumantes. Em resumo, saber descobrir o nível de doçura e distinguir a quantidade de açúcar, facilmente, exige algum treino.

D) É importante deixar clara a distinção entre os secos, suaves, os adocicados, os doces, também chamados de sobremesa e os licorosos que, por si só, constituem toda uma nova categoria.

1) Os secos:

Todos nós nos apercebemos imediatamente quais são. Sentimos no vinho como que a falta de açúcar. Algumas pessoas apelidam-nos de desérticos, embora essa designação seja mais poesia do que qualquer entendimento correto do que um vinho seco traduz.

2) Os Suaves:

Também apelidados por alguns especialistas como meio-doces, usufruem de alguma doçura, proveniente de um açúcar residual entre 10 e 30 gramas por litro, aproximadamente. Neste nível são raros os exemplares de grande qualidade, além de serem pouco versáteis à mesa.

3) Os Adocicados:

Tal como os secos são de fácil deteção, suportam entre 31 a 39 gramas de açúcar residual por litro e o índice de qualidade sobe ao ponto de nos deixar uma agradável sensação no seu consumo.

4)Os Doces:

Estes vinhos ganham facilmente apelidos de néctar e são do nível de onde saem muitos dos vinhos de qualidade superior, contendo mais 40 gramas de açúcar residual por litro, aliás, eles constituem, principalmente na região francesa de Sauternes, em Bordeaux, alguns dos rótulos mais premiados do mundo.

5) Os Licorosos:

Conforme já referi, este nível sai da ordem pura dos vinhos brancos, rosés ou tintos, para entrar numa categoria completamente autónoma por si mesma. Por isso mesmo, não se enquadra naquilo que constitui a minha análise presente nestas cartas. Aliás, para falar deles terei de dedicar-lhes uma ou mais cartas.

Ficam os outros atributos para próximas cartas. Continuo à espera que me digas também algo sobre as regiões. Despeço-me, minha querida amiga, com um beijo franco e alegre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XVII - As Regiões Vitivinícolas de Portugal

Berta 151.jpg

Olá Berta,

Achei graça estares ansiosa por me ver entrar, enquanto decorrerem “Os Segredos de Baco”, rapidamente, nas regiões vitivinícolas portuguesas. Não era para ser já, contudo, já que pedes, envio-te um mapa e a divisão respetiva das regiões sem, contudo, me alargar já sobre cada uma delas. Desculpa lá, minha amiga, mas isso é algo que demora mais a explicar. Por hoje seguem apenas o mapa e a divisão por regiões que solicitaste. Repara que, depois da última carta sobre o tema, agora consegues entender melhor o que significa o DOP, o DOC e o IGP (antigo Vinho Regional). Sendo assim, aqui vai:

Regiões

Regiões Vitivinícolas Portuguesas:

 

 I) Vinho Verde

A) DOP/DOC: Vinho Verde

B) IGP: Minho

 

II) Trás-os-Montes

A) DOP/DOC: Trás-os-Montes

B) IGP: Transmontano

 

III) Douro

A) DOP/DOC: Douro

B) DOP: Porto

C) IGP: Duriense

 

 

IV) Távora-Varosa

A) DOP/DOC: Távora-Varosa

B) IGP: Terras de Cister

 

V) Dão

A) DOP/DOC: Dão

B) DOP/DOC: Lafões

C) IGP: Terras do Dão

 

VI) Bairrada

A) DOP/DOC: Bairrada

B) IGP: Beira Atlântico

 

VII) Beira Interior

A) DOP/DOC: Beira Interior

B) IGP: Terras da Beira

 

VIII) Lisboa

A) DOP/DOC: Encostas d’Aire

B) DOP/DOC: Óbidos

C) DOP/DOC: Alenquer

D) DOP/DOC: Arruda

E) DOP/DOC: Torres Vedras

F) DOP/DOC: Lourinhã

G) DOP/DOC: Bucelas

H) DOP/DOC: Carcavelos

I) DOP/DOC: Colares

J) IGP: Lisboa

 

IX) Tejo

A) DOP/DOC: Do Tejo

B) IGP: Tejo

 

X) Península de Setúbal

A) DOP/DOC: Setúbal

B) DOP/DOC: Palmela

C) IGP: Península de Setúbal

 

XI) Alentejo

A) DOP/DOC: Alentejo

B) IGP: Alentejano

 

XII) Algarve

A) DOP/DOC: Lagos

B) DOP/DOC: Portimão

C) DOP/DOC: Lagoa

D) DOP/DOC: Tavira

E) IGP: Algarve

 

XIII) Madeira

A) DOP/DOC: Madeira

B) DOP/DOC: Madeirense

C) IGP: Terras Madeirenses

 

XIV) Açores

A) DOP/DOC: Graciosa

B) DOP/DOC: Biscoitos

C) DOP/DOC: Pico

D) IGP: Açores

Não sei se também te interessa saber um pouco mais sobre cada região... se assim for avisa. Sabes que não incomodas e que terei muito gosto em te esclarecer. Deixo um beijo meiguinho de amizade, o teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Carta à Berta: COVID.19 - Testar, Testar, Testar, Transparência, Transparência, Transparência...

Berta 150.jpg

Olá Berta,

Conforme sabes sou um fervoroso apoiante de todas as medidas que o Governo de Portugal tome, no sentido de combater o Covid-19, sejam restrições, contenções, encerramentos, uso da polícia e, se preciso for, dos militares, enfim, sou a favor de tudo o que nos ajude, enquanto povo, a combatermos a pandemia. Contudo, não te esqueças de que tudo o que aqui escrevo continua a ser no domínio estrito do alegadamente.

Defendo igualmente a forma como o Ministério da Saúde, e a Direção Geral de Saúde, têm vindo a implementar medidas, tornando flexíveis  e evolutivos os protocolos definidos, seguindo uma política e estratégia balizadas numa convicção profunda de que estão a fazer o melhor, escolhendo, conjuntamente, aqueles procedimentos que consideram ser os mais ajustados, a cada momento e, por isso mesmo, os mais  eficazes e corretos.

Também apoio as medidas tomadas a favor de proteger a vertente económica do problema, e estou, inclusivamente, convencido que, muito em breve, será o próprio Estado a inventar novas formas de tornar mais simples os processos, candidaturas a fundos, créditos, apoios e toda a quantidade de medidas. Afinal, sempre com a preocupação que visa evitar que a situação económica se afunde mais do que o necessário, que o desemprego não dispare e que as empresas não encerrem para todo o sempre, levando este país a uma situação que seria totalmente desastrosa.

Estou convicto que a nossa lusa capacidade do desenrasque há de encontrar maneiras de agilizar o acesso a tudo isso, permitindo que as medidas tomadas se tornem, efetivamente, úteis e, quanto mais simplificadas, melhores.

Estava até disposto a aceitar que este Governo, e outros Órgãos de soberania, em vez da transparência e política de verdade que comunicaram, decidissem revelar apenas aquilo que entendessem ser útil de anunciar ao país e que, guardassem para si mesmos, dados e elementos que pensassem ser mais melindrosos de divulgar ou poderem ser potenciais causadores de pânicos desnecessários.

Tudo isto eu tenho estado disposto a aceitar. Aliás, eu, e pelo que me tenho apercebido, a grande maioria do povo lusitano. Ninguém tem qualquer vontade de criar entraves ou problemas à forma como o nosso Estado está a lidar com todo este enorme pandemónio.

Tanto assim é que temos assistido pessoas, e entidades, a fazer doações e a prestar colaboração, sendo esta solicitada ou não, em benefício deste enorme bem comum que somos todos nós. Sejam os donativos do Cristiano Ronaldo ou os da EDP ou, ainda, tantos outros, que nos têm chegado aos ouvidos, vindos dos mais diferentes campos da sociedade que constituímos. É realmente bonito de se ver e de se sentir a solidariedade geral e os frutos que a mesma é capaz de produzir. Pessoalmente, nem pensava que as coisas viessem a ser assim tão claras e tão solidárias.

Ao dia de hoje, do conjunto mundial de cerca de 210 territórios e países, nós vamos em décimo sexto na lista dos mais infetados. Nesta perspetiva não somos os piores embora estejamos muito longe de estar entre os melhores. Aliás, sendo nós um povo espalhado pelo mundo e aberto a toda a pluralidade de pessoas, e ao turismo, seria, realmente, difícil não sermos alvo de um contágio bastante superior a muitos e muitos países.

Porém (e busílis está sempre neste, “porém”), começo a achar que a aclamada verdade e transparência é, mais baça e opaca do que eu imaginava. As suspeitas começaram a surgir-me por volta do dia 16 e o meu radar, de jornalista com 40 anos de atividade e principalmente com 25 anos de investigação, passou a tentar abranger aspetos sobre os quais não tinha pensado até à data.

O primeiro elemento irritante, qual alergia primaveril que se instala contra a nossa vontade, começou depois do Presidente da Organização Mundial de Saúde, anunciar os seus já famosos 3 conselhos, a todos os países do mundo, pela televisão. No dia 16 de março todos nós os ouvimos e resumem-se, também eles, a outras 3 palavras “testes, testes, testes”.

Chamada que foi a minha atenção para a necessidade de se fazerem testes resolvi ir ver quantos testes o nosso Governo, pelo comando da Direção Geral de Saúde, já tinha efetuado ao Covid-19. Para meu espanto a informação era omissa.

A pulga atrás da orelha só incomoda quando existe. Se não existir, certamente, não podemos dar por ela. Depois de muita averiguação constatei que, efetivamente, todos os principais países mais afetados por esta crise, principalmente os do top 20, tinham nos seus gráficos e sites de divulgação, o total de testes realizados até à data, bem como a quantidade diária que ia sendo processada, mas Portugal não.

Passei os últimos 7 dias a incomodar todos os amigos, que tenho na comunicação social, na política e na saúde, com as minhas perguntas: Quantos testes fazemos em cada dia? Quantos testes já fizemos até à data? Finalmente, nos últimos 2 dias, a pergunta começou a surgir mais insistentemente na televisão, na imprensa e na internet.

Coincidência, provavelmente (mas também pode ter sido que algumas das minhas amizades possam ter influenciado terceiros), comecei a ouvir e a ver a pergunta feita em vários sítios: Nas 2 últimas conferências de imprensa de ontem e de hoje na DGS, na Sic, e também, através de Paulo Portas e de José Alberto Carvalho, na TVI, e hoje até no Correio da Manhã, na sua televisão, na Visão e no Expresso.

Contudo, tal com uma enguia que escapa às mãos de quem a tenta apanhar, nunca, em momento algum, a resposta foi clara. A capacidade para fazer 15 mil testes, 9 mil testes, 4 mil testes, foi sendo dada, de forma avulsa e desconsertada. Até que hoje o Secretário de Estado da Saúde afirmou que estavam a fazer cerca de 2200 testes por dia.

Porém, mais uma vez o número estava incorreto, pois dia 22 a Diretora Geral de Saúde falara, muito a despachar, em terem realizado 1850 testes no dia 21 e, hoje, momentos antes desse número, o Subdiretor Geral da Saúde afirmara que tinham sido efetuados cerca de 1900 e tal testes no dia 23. Em resumo, números atirados para o ar, sem a preocupação de haver precisão nas declarações e sempre à pressa, desviando o tema e muito difusamente de fugida.

Mais grave ainda, eu que ouvira, em direto, o Presidente da Organização Mundial de Saúde a falar e a insistir na necessidade de se realizarem muitos testes, ouvi hoje pela boca do Secretário de Estado da Saúde, coadjuvado pelo Subdiretor Geral da Saúde, dizer que fazer muitos testes era uma má política, pois podiam dar uma falsa noção de segurança, não só aos próprios profissionais de saúde que os fizessem como à população que os realizassem. Efetivamente, afirmavam, todos podiam ficar infetados 5 minutos depois de terem feito os testes.

Se este despautério fosse verdadeiro, conforme afiançavam, testes à papeira, varicela, tuberculose, raiva ou sida eram igualmente desaconselhados, pois também nestes casos os que testassem negativos poderiam ser contaminados posteriormente, coisa que sabemos ser precisamente o inverso. Para ainda me deixar mais confuso, depois de ontem o Primeiro-Ministro ter dito na TVI que tinham confirmado a compra de 280 mil testes, hoje, o Secretário de Estado da Saúde, fala de apenas 180 mil. É que 100 mil testes é muita diferença para alguém se estar a enganar. Afinal, quantos adquirimos nós?

Já agora outra questão, se o Governo acha que fazer testes em massa (e 280 ou 180 mil nunca poderá ser fazer testes em massa, no meu modesto entender, pelo menos tendo em conta uma população de 10 milhões) para que é que agora estamos a encomendar tantos testes? Ou será que andámos a tapar o Sol com a peneira porque não nos preparámos a tempo, embora tivéssemos tido 2 meses inteiros para agir, nomeadamente janeiro e fevereiro?

Finalmente, ontem e hoje, durante a tarde, começaram-me a chegar por correio eletrónico algumas respostas de todos aqueles a quem eu havia contactado. Uns davam-me conta de alturas em que, alguém do Estado, tinha avançado, relativamente a certos dias, com o número de testes feitos, outros enviavam-me entrevistas ou comunicados onde constavam outras afirmações sobre o número de testes deste ou daquele dia. Enfim, depois de tudo ordenado e somado, consegui concluir que entre 25 de fevereiro e o dia 23 de março, somando os dados, pouco seguros, do privado aos do público, se realizaram cerca de 22 mil testes em Portugal até ontem.

Foi aí que eu entendi o porquê de toda esta trapalhada: Mesmo com um número diminuto de testes feitos, cerca de 11% foram dados como confirmados. Mas a percentagem nem sequer é esta, pois todos os confirmados num primeiro teste foram repetidos para confirmação dos resultados. Ora, isso atira para cima da mesa, com quase 20% de confirmações positivas e afirmativas no universo de testes realizados.

Um susto de meter medo. O que poderíamos nós descobrir se em vez de 22 mil testes já tivéssemos efetuado os 80 mil que, para estarmos em linha proporcional com o que foi realizado pela Coreia do Sul, China, Alemanha ou Itália, já deveríamos ter realizado? A julgar pela proporção, o mais provável, seria ficarmos a saber que temos mais de 9 mil infetados em Portugal.

Em conclusão, se o Estado acha que deve manter estes números ocultos do público que afirme claramente que existem dados e perspetivas que não consideram convenientes nem próprias para divulgação. Podem até nem assumir que não estavam preparados para a quantidade de testes que deveriam ter realizado, isso é passado e não importa mais. Todavia, não venham falar em transparência e verdade para depois se meterem numa embrulhada desta dimensão. Isso mina aquilo que mais nos interessa, ou seja, acreditar que estamos a ser conduzidos por quem tenta fazer o melhor que sabe e pode. Por favor, tenham juízo.

Por hoje fico-me por aqui minha querida amiga Berta, espero amanhã regressar à minha temática de “Os Segredos de Baco”. Já desabafei que chegue por esta semana. Contudo, se eu estiver correto, o pico da pandemia em Portugal, não será no próximo dia 14 como a Ministra da Saúde afirmou, mas no final de abril ou nos primeiros dias de maio. O tempo dará razão a alguém. Beijos deste teu amigo,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XVI - Nomenclatura

Berta 149.jpg

Olá Berta,

A carta de hoje é, mais uma vez, uma missiva dedicada às abreviaturas e siglas do universo vitivinícola em que “Os Segredos de Baco” nos vão envolvendo. Com a adesão de Portugal à Comunidade Europeia alguma nomenclatura comunitária teve de ser introduzida no que à classificação dos vinhos importa referir. Foram adaptadas e alteradas as leis nacionais para se ir ao encontro das normativas gerais da nova união, assim sendo, passo a revelar-te alguns dos conceitos introduzidos ou remodelados:

I) Os Vinhos VQPRDs:

A) Designação genérica a que acresce sempre o nome da região abrangida. Podendo ser acrescentada como segunda letra, nos vinhos específicos, nomeadamente o L, o F ou o E, consoante se trate de um vinho Licoroso, Frisante ou Espumante

B) Significado de VQPRD:

1) Vinho de Qualidade Produzido em Região Determinada:

Esta designação reúne todos os vinhos classificados como DOC, Denominação de Origem Controlada e IPR, Indicação de Proveniência Regulamentada.

2) Nomenclatura dos vinhos licorosos e espumantes:

a) VLQPRD - Vinho Licoroso de Qualidade Produzido em Região Determinada;

b) VEQPRD - Vinho Espumante de Qualidade Produzido em Região Determinada;

c) VFQPRD - Vinho Frisante de Qualidade Produzido em Região Determinada.

II) IPR, Indicação de Proveniência Regulamentada:

Designa o vinho que embora gozando de características particulares, terá ainda de cumprir (num período mínimo de 5 anos) todas as regras estabelecidas para poder passar à classificação de DOC.

III) Vinho, designação que substitui o tradicional nome de Vinho de Mesa:

 Os vinhos que não se enquadram nas designações atrás referidas, seja pela combinação de castas, vinificação ou outras características, são considerados vinhos de mesa, mas passam apenas a ser designados genericamente por vinho.

IV) IG ou Indicação Geográfica:

É um selo que reconhece uma área de vinha determinada dentro de um país pela sua qualidade diferenciada. Esse selo garante que os produtos daquela região apresentam características específicas devido a sua origem. Denominação de Origem (DO) é uma subdivisão mais restritiva dentro da IG.

V) IGP ou Indicação Geográfica Protegida, que veio substituir o chamado Vinho Regional:

Classificação dada a vinhos de mesa com indicação da região de origem. São vinhos produzidos na região específica cujo nome adotam, elaborados com um mínimo de 85% de uvas provenientes da mesma região, de castas autorizadas (Decreto-Lei nº. 309/91, de 17 de agosto). Contudo, muitos produtores passaram a usar a designação Vinho Regional como uma designação comercial, que atualmente já não significa nada a nível oficial.

VI) DO ou Denominação de Origem:

A) Esta designação é aplicável a produtos cuja originalidade e individualidade estão ligados de forma indissociável a uma determinada região, local, ou denominação tradicional que serve para identificar o produto vitivinícola.

B) São consideradas a origem e produção nessa região ou local determinado e a qualidade ou características específicas, devidas ao meio geográfico, fatores naturais e humanos. Para beneficiar de uma Denominação de Origem, todo o processo de produção é sujeito a um controlo rigoroso em todas as suas fases.

C) As castas utilizadas, os métodos de vinificação, as características organoléticas são apenas alguns dos elementos verificados para a atribuição desse direito cabendo às Entidades Certificadoras efetuar o controlo, de forma a garantir a genuinidade e qualidade dos vinhos. (alínea a) do art.2º do Decreto-Lei nº.212/04, de 23 de agosto).

VII) DOC ou Denominação de Origem Controlada:

Menção tradicional especifica que pode ser utilizada em Portugal na rotulagem dos produtos com denominação de origem. Contudo, amiga Berta, já te dei uma explicação bem detalhada sobre esta que é uma das mais significativas denominações do nosso vinho. A referência a esta menção dispensa a utilização de Denominação de Origem Protegida (DOP). (Alínea a) do art.8º do Decreto-Lei nº.212/04, de 23 de agosto).

VIII) DOP ou Denominação de Origem Protegida:

Designação comunitária adotada para identificar os vinhos com Denominação de Origem, aos quais é conferida proteção nos termos estabelecidos na regulamentação e que integram um registo comunitário único. (Regulamento (CE) nº 479/2008 do Conselho, de 29 de abril).

Espero não me ter alargado, nem ter sido aborrecido com a nomenclatura que hoje te expliquei. Muita dela, para o consumidor pouco mais é que uma curiosidade interessante, porém, o saber não ocupa lugar. Recebe um beijo amigo, deste que sempre será o mesmo para ti,

Gil Saraiva

Carta à Berta: Série "Os Segredos de Baco" - XV - Um Pouco de História

Berta 148.jpg

Olá Berta,

Continuando a nossa aventura com “Os Segredos de Baco”, hoje é dia de te colocar uma questão: Qual foi a primeira Denominação de Origem do mundo? Posto de outra forma, onde surgiu a primeira designação DOC para classificar e significar um vinho de qualidade, de uma determinada região bem delimitada, produzido com castas específicas e segundo regras bem definidas? Se não sabes eu passo a explicar com a seguinte resposta:

A primeira Denominação de Origem do mundo foi a DOC Douro, em Portugal. Esta DOC foi criada em 1756 por um sujeito com uma visão muito futurista do mundo, carregado de largos horizontes no que se deveria pensar para a longo prazo. Estou a falar de Dom Sebastião José de Carvalho e Melo, conhecido nobre português, normalmente, pelo nome de Marquês de Pombal. O país estava inundado em problemas, crise financeira e sentindo ainda os efeitos do terrível terremoto que devastou Lisboa. Dessa forma, o então secretário de Estado do Reino resolveu usar o Vinho do Porto para reerguer Portugal. Tão bem o pensou que melhor o pôs em prática.

No dia 10 de setembro de 1756, o Marques de Pombal criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. A organização surgiu com a difícil tarefa de proteger o mercado do Vinho do Porto. Contudo, o que aconteceu foi um monopólio por parte da empresa. Mas em tempos de poder absoluto, não é para nos admirarmos desse pequeno desvio ao que estava inicialmente previsto.

A Companhia referida criou normas que controlavam o plantio, produção, qualidade e comercialização do seu vinho. Também estabeleceu áreas de produção dos vinhos, que dever-se-iam concentrar a 100 km da cidade do Porto, na região do rio Douro. O planeamento global de toda esta ideia é, ainda hoje, reconhecido como fruto da genialidade e visão do Marquês, que não deixou créditos por mãos alheias, levando todo o conceito à prática num tempo a que hoje chamaríamos de recorde.

A empresa dificultou a exportação de vinhos de outras regiões e ainda se tornou a única a exportar Vinho do Porto para Inglaterra, Brasil e Rússia. Por muitos anos o Vinho do Porto foi a maior fonte de rendendimento do País. No entanto, em 1777, com a morte do rei D. José, a rainha D. Maria I destituiu o Marques do cargo, e revogou suas leis, permitindo que as outras regiões voltassem a comercializar seus vinhos.

É de assinalar que após 264 anos, a organização continue, ainda hoje, em operação. Porém, no entretanto mudou de nome e passou a projetar-se como Real Companhia Velha, a qual continua a ser a mais antiga empresa de Portugal em atividade ininterrupta.

A Real Companhia Velha conta, no conjunto das suas propriedades, com cinco quintas, Carvalhas, Aciprestes, Cidrô, Casal da Granja e Síbio. As quintas produzem vinhos doces, tranquilos e também azeites. Um verdadeiro feito que conseguiu atravessar 3 séculos sem se deixar abater fosse porque fenómeno fosse.

Hoje, minha amiga, foi dia de lição de História, numa altura em que os estudantes se ficam por casa, por impossibilidade de irem à escola, devido ao famigerado coronavírus. Espero que esta pequena recordação tenha sido do teu agrado, despeço-me saudoso, com um beijo. O teu amigo de sempre,

Gil Saraiva

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo