Alegadamente

Setembro 26 2010

  O barulho de fundo, na sala excessivamente povoada, como que se desvaneceu quando me apercebi da expressão:

  - Mas é que fiquei com o coração nas mãos! - a ênfase era dramática.

  Olhei-a, sub-repticiamente, pois acho que é assim que se deve dar fé de qualquer refinada situação do dia-a-dia: o rosto tinha uns olhos muito vivaços, mas arregalados; a boca abria-se e fechava-se, não só ao ritmo do discurso mas também entre as frases que ia desenrolando; o queixo diminuto estava avermelhado; o pescoço denotava a juventude da pessoa e os músculos agitavam-se sob o volume rosado da carne. Foi então que vi o coração!

  Estava literalmente nas mãos da mulher e dele pingavam gotas rubras, todas em corridinha por ali abaixo, aterrando no chão, onde se acumulavam num charco obsceno.

  Atinei, de novo, no corpo ensanguentado que as mãos excitadas envolviam: aquele coração tinha, bem espetada, uma flecha penugenta e acerada, que o trespassava numa diagonal perfeita. Reparei que o ângulo da ponta dianteira era fechadíssimo, como para garantir que a penetração fosse segura mas fácil. Do outro lado, as peninhas coloridas sugeriam uma alegria descabida, a meu ver. Além disso, a 'vítima' não parecia muito perturbada nem sofredora... Só animada. E isso fez-me considerar no real valor do órgão em causa, bem como na força da simbologia a que está adstrito: a vida e o prazer, o amor e o sofrimento, a ligação de equilíbrio entre o corpo e o espírito...

  Enfim, bizantinices! O que queria ver era quanto tempo duraria a mulher, a gesticular e a opinar, sem o dito a bater-lhe no peito.

 

  Ela seria atraente, com aquela tez dourada que reflete, generosamente, o percurso do bem-estar vivencial e que é o testamento exigente das que foram adoradas.

  Donde eu me questionar, especulativamente, quem seria a causa do desequilíbrio ali mostrado (apesar do modo criativo como a mulher anunciava o problema...).

  Homem, forçosamente, pelo olhar guloso que ela enviava aos machos que evoluíam por detrás da amiga, esta, sim, mero objecto de recepção das exclamações que a mulher continuava a lançar:

  - Feriu-me o coração, sacana!!

  E já a imaginação me empurrava para caminhos sem fim...


  Aquele coração a aspergir gotículas de sangue na interlocutora da mulher que já não o tinha dentro - aquilo já me estava a bulir com os nervos!

  Mas aquela que aguentava com os borrifos mantinha, curiosamente, uma compostura e uma serenidade extraordinárias. Olhei-a com atenção, procurando no exemplo dela a elevação espiritual que já me faltava: concluí que ela, afinal, se devia ter 'desligado', pois o olhar era vago, o lábio inferior descaído, as mãos inertes sobre as coxas, as costas curvadas.

  Se era exemplo que eu procurava, ali o tinha. Abri o meu livro e desatei a ler.

  Mas, ó desgraça! , até aí eu encontrei o objecto que agora me atenazava o espírito...

 




  

 

 

 

  
publicado por escrevinhadora às 11:30

Setembro 11 2010
(Cont.)
- Fantasma?!...

Foi o que, pouco criativamente, exclamei.

E, como vinha por aí estória, pedi mais um chá para mim, convidei o patrão a pedir uma bebida para ele e ajeitei-me na cadeira de palhinha.

- Explique-me isso - instei, com voz de conspiração premente, não fosse o Damião aparecer por ali e gorar o desfecho que eu nem me atrevia a considerar.

"É rápido de contar: ali o maganão casou há cerca de 4 anos com uma ninfa das areias da Meia Praia, mas ela morreu pouco depois, vá-se lá saber porquê...

(O que achei suspeito foi essa dúvida quanto á causa do óbito, mas deixei passar)

O Damião parece que não pôs luto por muito tempo: desatou a viajar para todos os lados onde se soubesse haver uma competição de surf e voltava com fotos ilustrativas de estadias 'douradas', não pelas areias que pisava mas pelas companhias que desfrutava. Isso, durante uns dois anos. Depois, tudo mudou.

(Respirei fundo - o clímax aproximava-se!)

Um dia, quando bati os olhos nele, nem o reconheci: magro, de cabelo enfraquecido (Ah, sim, lembrava-me bem da trunfa grisalha, ondulante e farta!), com rugas por toda a cara... Uma ruína!

O que foi, o que não foi - uma vez, confidenciou-me então que a mulher lhe aparecia, noite após noite e que já não sabia às quantas andava! Eu, na ânsia de ajudar um compincha, disse-lhe. - Pá! Vai à bruxa!

E ele nunca mais me falou...

(Francamente, eu faria o mesmo)

Mas soube depois que a coisa era grave: era um autêntico fantasma que azucrinava os sonhos e os sonos do homem. E é isto."

Primeiro, pensei se havia de exigir a devolução do pagamento das últimas bebidas, mas, razoavelmente, considerei que eu andava era a exigir que as coisas do mundo fossem à medida da imaginação. Mas aquilo ficou-me na ideia...

 

 

 

publicado por escrevinhadora às 19:22

Setembro 10 2010

Eu fitava a figura esguia, em negro-antracite , que subia pela praia até ao caminho de acesso às esplanadas. Bamboleante , sustentando a prancha de surf com alguma dificuldade, o Damião vinha de cabeça erguida e passava sedutoramente a mão livre pelas melenas molhadas.

Até que me dou conta de alguém a meu lado, de pé à beira da minha mesa: o dono do café postara-se ali, olhando também ele o maduro que, displicentemente, cruzava a duna e ajustava de vez em quando a prancha branca. O patrão limpava as mãos e lançava o pano para cima de um ombro, esfregava os cotovelos e assobiava em surdina.

Olhei para ele e cumprimentei-o, prolegómenos para um dedo de conversa.

Ele cumprimentou de volta, juntando um sorriso e um pigarreio, indiciador de vontade de falar.

- Ali o velhote está para as curvas! Quem o viu...

- Também conheço o Damião, mas já há muito tempo que não sabia dele. Teve algum problema?

- Problema é dizer pouco! O que acha de ter um fantasma na cama?...

Quase deixei cair o copo com o resto do chá frio. Aquilo estava a 'aquecer'!

 

O Damião é um soixante-huitard que deslizou para as teorias da conspiração, ligeiramente paranóicas e, por vezes, hilariantes (para quem tem a paciência de o ouvir).

Um dia, veio com a suspeição de que alguém o vigiava a partir do globo que envolvia a lâmpada no tecto da sala. Dissemos-lhe que, do mal o menos, não era no quarto, ao que replicou com «olha, não viam nada de especial!» - mas isso também já sabíamos... E voltou à carga com o queixume de não o levarem a sério, se estávamos à espera de que desaparecesse para nos preocuparmos...

Em situações constrangedoras assim, envolvendo pessoal fixe, o melhor que há a fazer é resolver o assunto. Propusemos-lhe ir ver e, lá chegados e de nariz no ar, demos com um movimento estranho dentro do globo; desatarrachado este, caiu-nos no colo uma borboleta qualquer, talvez de traça...

E não é que o Damião não aceitou a hipótese de aquilo se ter formado no tempo que ele demorou a mudar a lâmpada fundida, mantendo o globo dentro dum roupeiro?...

Passámos a perguntar-lhe se sabia da borboleta suicida... Mas este mesmo Damião era um golfinho! E foi nessa qualidade que o vi na praia.

(Cont.)

publicado por escrevinhadora às 17:11

Setembro 02 2010

   Na comédia, o certo conflitua com o errado, mas é este que protagoniza e que nós acompanhamos. O certo existe, por vezes apenas virtualmente, para servir de contraponto aos acontecimentos cómicos e representa a ordem, em que o público acredita. Mas, na comédia, o certo não é 'perfeito': ou lhe falta sensatez (tendo a verdade) ou exagera. E a comédia faz incidir sobre ele o foco do ridículo, e passa a ser o bode expiatório.

   O final das comédias é a reconciliação com o mundo, mas, em O Misantropo, de Molière, o final triste marca esta obra como 'comédia diferente'. Entretanto, o conflito torna-se mais complexo, não pela acção mas pelas conversas das personagens, que se vão referindo ao que acontece algures, fora do palco.

   Os conceitos-base que alimentam o conflito condicionam o lugar dos conflituantes - a favor/contra o amor, a honra, a sinceridade, todos falam sobre eles e sobre eles os jogos se fazem.

   As duas personagens consideradas principais, Alceste e Filinto são o eixo do conflito; aquele ataca os costumes e é sério a ponto de se tornar ridículo, este acha tudo bem para não ter de melhorar nada, é sensato, logo, não é ridicularizado.

"Alceste - Não, não posso suportar esta maneira tão falsa de que a gente que está na moda para aí faz tanto uso; (...) Estimar alguém é ter uma preferência e não há qualquer diferença entre não estimar ninguém e gostar de toda a gente. Pois já que vos entregais a estes vícios do tempo, não vos dou a liberdade de ficar junto de mim. Eu recuso a tolerância, seja de que coração, que não saiba conhecer o valor da diferença. (...)

Filinto - Mas não há ocasiões em que não seria aceite e ridícula seria a plena sinceridade? E por mais que a vós repugne e à honra da austeridade, não é às vezes melhor esconder aquelas coisas que nos diz o coração? Julgaríeis de bom tom e coisa muito acertada ir dizer a toda a gente tudo o que dela pensamos?(...)"

(1º acto, cena I - tradução de Luís Miguel Cintra)

publicado por escrevinhadora às 11:42

Agosto 25 2010

Passava o amolador pela rua cheia de lojas de equipamentos de alta definição e eu a pensar:

Que tempos! Mistura-se o tradicional com o vanguardismo e, entretanto, há 33 mineiros chilenos com a vida suspensa, à espera de alimentos da NASA que os sustentem por mais 3 ou 4 meses...

A segurança no trabalho é melhor no caso do amolador do que naqueles que 'confiam' na empresa e no país que aspira ao reconhecimento de sucasso e (quem sabe?) qualidade. O presidente do Chile encarregou-se de dar voz a um dos soterrados e de receber a gratidão emocionada da esposa da vítima, que assim viu exposta a mensagem de sobrevivência do seu homem.

Ouço a flauta com que o amolador se anuncia e sei que não há presidente que se preocupe com o destino deste homem... Se o acidente tivesse soterrado um mineiro, também não haveria este escarcéu mediático.

Não tenho conclusões a tirar: os mineiros ainda estão vivos, o amolador faz o seu caminho; só o assobio é que já se desfez, no ar quente e seco... e os equipamentos de última geração faíscam nas montras ao sol.

 

publicado por escrevinhadora às 12:03

Agosto 21 2010
   Era uma vez um tal dr. Ernesto, cientista sueco, investigador do processo genético, um homem interessante e interessado pelas 'coisas' do amor.

   A esposa, amantíssima mas algo descartável, vivia na ilusão romanesca do "felizes para sempre".

Porém, o caro doutor, instruído como ele era, acabou por achar a ligação contratual demasiado bourgeoise para a ânsia de liberdade que qualquer espírito científico considera como sendo o alfa e o ómega da existência.

   Daí que se foi descuidando com as facadinhas no matrimónio, mas também se descuidou na atenção para com a evolução psicológica da esposa, pelo que se viu na situação (bourgeoise) de ter um processo de divórcio em cima...

   O advogado, caríssimo, espertíssimo, conhecendo de trás para a frente o que implicam estes processos, preparou convenientemente o seu cliente, inteligentíssimo, preocupadíssimo com o quanto se arriscava a perder - e compareceram perante o juiz, que ouviu as partes.

   E foi assim que, respondendo às queixas da esposa quanto à infidelidade conjugal, o dr. Ernesto, muito honestamente científico, partilhou com o mundo os resultados da sua última pesquisa aos meandros do

 

 ADN.

   Para enriquecimento cultural de nós todos, ficámos a saber que a inconstância sentimental, que o vulgo chama de luxúria, se deve a uma característica qualquer de uma das moléculas desse composto orgânico e que, se nos é imposta desde a fecundação, também nos livra da culpa de perseguirmos o 'proibido'.

   É irrelevante a decisão do juiz: a ciência venceu os costumes (ora embrulha!).

publicado por escrevinhadora às 11:38

Agosto 15 2010

Aos pouquinhos, os veraneantes bronzeados iam chegando à esplanada - e eu aguardava. Os pedidos eram feitos em voz calma, quase solene e o (quase) silêncio pousava de novo - e eu olhava. O pessoal recostava-se brandamente nas cadeiras de verga, espreitava ainda o menu, mas largava-o num gesto satisfeito - e eu ansiava. Depois vinha o pequeno-almoço no tabuleiro metálico, o garçon distribuía as peças e afastava-se com uma mesura - e eu olhava o relógio.

A cena repetia-se de cada vez que uma mesa era ocupada, mas a calma caracterizava o ligeiro tilintar de porcelanas e metais, bem como os movimentos mastigatórios de ocasião. O meu olhar pairava pelas cabeças, pelos menus ainda abertos, pelos croissants frescos, até por um pardal atrevido que quase bicava um pé em chinelo - mas a minha apreensão crescia...

Rebentava, então, mais uma gerra planetária: chegava a Família Terrível que, todas as manhãs, ali pequeno-almoçava e deixava ficar mais do que as migalhas para os pássaros - as bulhas infantis e o desprezo adulto equivaliam às armas 'inteligentes', que só não destroem quem as usa.

Talvez que a mudança de quinzena leve as horríveis criaturas para o seu próprio inferno...

publicado por escrevinhadora às 11:13

(porque a vida é moeda com mais do que 2 faces e o que parece não é)
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