O barulho de fundo, na sala excessivamente povoada, como que se desvaneceu quando me apercebi da expressão:
- Mas é que fiquei com o coração nas mãos! - a ênfase era dramática.
Olhei-a, sub-repticiamente, pois acho que é assim que se deve dar fé de qualquer refinada situação do dia-a-dia: o rosto tinha uns olhos muito vivaços, mas arregalados; a boca abria-se e fechava-se, não só ao ritmo do discurso mas também entre as frases que ia desenrolando; o queixo diminuto estava avermelhado; o pescoço denotava a juventude da pessoa e os músculos agitavam-se sob o volume rosado da carne. Foi então que vi o coração!
Estava literalmente nas mãos da mulher e dele pingavam gotas rubras, todas em corridinha por ali abaixo, aterrando no chão, onde se acumulavam num charco obsceno.
Atinei, de novo, no corpo ensanguentado que as mãos excitadas envolviam: aquele coração tinha, bem espetada, uma flecha penugenta e acerada, que o trespassava numa diagonal perfeita. Reparei que o ângulo da ponta dianteira era fechadíssimo, como para garantir que a penetração fosse segura mas fácil. Do outro lado, as peninhas coloridas sugeriam uma alegria descabida, a meu ver. Além disso, a 'vítima' não parecia muito perturbada nem sofredora... Só animada. E isso fez-me considerar no real valor do órgão em causa, bem como na força da simbologia a que está adstrito: a vida e o prazer, o amor e o sofrimento, a ligação de equilíbrio entre o corpo e o espírito...
Enfim, bizantinices! O que queria ver era quanto tempo duraria a mulher, a gesticular e a opinar, sem o dito a bater-lhe no peito.
Ela seria atraente, com aquela tez dourada que reflete, generosamente, o percurso do bem-estar vivencial e que é o testamento exigente das que foram adoradas.
Donde eu me questionar, especulativamente, quem seria a causa do desequilíbrio ali mostrado (apesar do modo criativo como a mulher anunciava o problema...).
Homem, forçosamente, pelo olhar guloso que ela enviava aos machos que evoluíam por detrás da amiga, esta, sim, mero objecto de recepção das exclamações que a mulher continuava a lançar:
- Feriu-me o coração, sacana!!
E já a imaginação me empurrava para caminhos sem fim...
Aquele coração a aspergir gotículas de sangue na interlocutora da mulher que já não o tinha dentro - aquilo já me estava a bulir com os nervos!
Mas aquela que aguentava com os borrifos mantinha, curiosamente, uma compostura e uma serenidade extraordinárias. Olhei-a com atenção, procurando no exemplo dela a elevação espiritual que já me faltava: concluí que ela, afinal, se devia ter 'desligado', pois o olhar era vago, o lábio inferior descaído, as mãos inertes sobre as coxas, as costas curvadas.
Se era exemplo que eu procurava, ali o tinha. Abri o meu livro e desatei a ler.
Mas, ó desgraça! , até aí eu encontrei o objecto que agora me atenazava o espírito...

